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Media & Jornalismo

versão impressa ISSN 1645-5681versão On-line ISSN 2183-5462

Media & Jornalismo vol.19 no.35 Lisboa dez. 2019

http://dx.doi.org/10.14195/2183-5462_35_7 

ARTIGO

A cobertura jornalística do 25 de abril de 1974 no Corriere della Sera, La Stampa e Il Messaggero: um estudo de caso

The 25 April 1974 news coverage at Corriere della Sera, La Stampa and Il Messaggero: a case study

La cobertura periodística del 25 de Abril de 1974 en el Corriere della Sera, La Stampa y il Messaggero: un estudio de caso

Marco Gomes*
https://orcid.org/0000-0002-2362-3054

* Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Educação e Ciências Sociais (ESECS-IPLeiria). Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, Universidade de Coimbra (CEIS20)


 

RESUMO

A queda do Estado Novo e o período de transição para a democracia subsequente transformaram Portugal numa espécie de laboratório político para os círculos dirigentes, jornalísticos e intelectuais europeus. Na imprensa internacional, o país alcançou uma exposição mediática sem precedentes. Este artigo analisa a cobertura jornalística do 25 de Abril de 1974 pelos jornais Corriere della Sera, La Stampa e Il Messaggero. O âmbito cronológico da dimensão quantitativa abarca as dez edições dos órgãos em apreço no imediato pós-25 de Abril, entre 26 de abril e 6 de maio de 1974, enquanto a atuação qualitativa alarga o âmbito temporal até 9 de junho de 1974. Privilegia-se uma abordagem de integração metodológica centrada na expressão numérica do tratamento jornalístico e, sobretudo, na sua dimensão qualitativa com o objetivo de compreender os cenários políticos desenhados pela imprensa italiana, o grau de envolvimento dos jornalistas e o destaque conferido ao acontecimento. Conclui-se que os jornais analisados reportaram a queda do Estado Novo e os desenvolvimentos políticos subsequentes como um acontecimento excecional.

Palavras chave: Portugal; 25 de abril; cobertura jornalística; imprensa italiana; cenários políticos; exposição mediática


 

ABSTRACT

The fall of the New State and the subsequent period of transition to democracy made Portugal into somewhat of a political laboratory for European leaders, journalistic and intellectual circles. In the international press, the country reached unprecedented media exposure. This article analyses the journalistic coverage of the 25 April 1974 by Corriere della Sera, La Stampa and Il Messaggero. The chronological scope of the quantitative dimension includes the ten editions of the newspapers under consideration in the immediate post-25 April period, between 26 April and 6 May1974, whilst the qualitative action extends the temporal scope until 9 June 1974. The priority is given to a methodological integration approach focused on the numerical expression of journalistic treatment and, above all, on its qualitative dimension. This allows us to understand the political scenarios designed by the Italian press, the degree of involvement of journalists and the emphasis given to the event. Evidence shows that the analysed newspapers reported the fall of the New State and subsequent political developments as an exceptional event.

Keywords: Portugal; april 25; news coverage; italian press; political scenarios; media exposure


 

RESUMEN

La caída del Estado Novo y el período de transición para la democracia subsecuente transformaron Portugal en una especie de laboratorio político para los círculos dirigentes, periodísticos e intelectuales europeos. En la prensa internacional, el país alcanzó una exposición mediática sin precedentes. Este artículo analiza la cobertura periodística del 25 de Abril de 1974 llevada a cabo por los periódicos Corriere della Sera, La Stampa y Il Messaggero. El ámbito cronológico de la dimensión cuantitativa abarca las diez ediciones de los órganos en cuestión en el inmediato post-25 de Abril, entre los días 26 de abril y 6 de mayo de 1974, mientras que la actuación cualitativa se alarga el ámbito temporal hasta el 9 de junio de 1974. La atención se centra en un enfoque de integración metodológico centrado en la expresión numérica del tratamiento periodístico y, sobretodo, en su dimensión cualitativa con el objetivo de comprender os escenarios políticos diseñados por la prensa italiana, el grado de implicación de los periodistas y el énfasis dado al acontecimiento. Se concluye que los periódicos analizados reportaron la caída del Estado Novo y los desarrollos políticos subsecuentes como un acontecimiento excepcional.

Palabras clave: Portugal, 25 de abril; cobertura de noticias; prensa italiana; escenarios políticos; exposición mediática


 

Introdução

Poucas vezes os acontecimentos políticos portugueses assumiram tão vasta repercussão internacional como nos 19 meses que se seguiram à intentona de 25 de Abril de 1974. O relevante impacto que a implantação da I República de 1910 alcançou nos jornais além-fronteiras (cfr. Gomes, 2013) não é comparável, em termos de duração e intensidade, à expressão mediática internacional que caracteriza o biénio revolucionário de 1974-1975. Quando o editorialista do Corriere della Sera, Michele Tito (1974, abril 26, p.1), escreveu que a mais velha ditadura do Ocidente caía como os imperadores da Roma decadente, não estava, por certo, persuadido a imaginar que Portugal ir-se-ia deslocar da periferia para o centro do mundo.

Esta reflexão não ambiciona abordar os motivos que transformaram Portugal numa espécie de workshop político para os círculos dirigentes, jornalísticos e intelectuais europeus, local de romagem para extrema-esquerda e ponto de fricção da ordem bipolar internacional da Guerra Fria. Os objetivos são mais modestos e centram-se na análise da cobertura da imprensa italiana sobre o golpe militar de 25 de Abril de 1974. Pretende-se testar a hipótese de que a ação militar do dia 25 foi acolhida como um grande acontecimento, mensurável através da dimensão quantitativa do tratamento jornalístico e do envolvimento dos jornalistas no acontecimento.

O estudo privilegia uma abordagem de integração metodológica (Cunha, 2012) centrada nos mais importantes jornais de referência italianos em meados da década de 70, quer em termos de estatuto como de tiragem, nomeadamente o Corriere della Sera (Milão), La Stampa (Tuim) e Il Messaggero (Roma). A análise quantitativa é consubstanciada através de variáveis como o volume das peças jornalísticas, a sua localização no jornal e na página, a tipologia da assinatura e a dominância dos géneros jornalísticos. Essa dimensão objetivável dos números procura secundar o maior investimento que esta pesquisa faz no estudo qualitativo direcionado para os cenários políticos desenhados, no sentido de se coligir as imagens dominantes dimanadas dos vários artigos jornalísticos provenientes de diferentes autores.

O âmbito cronológico da dimensão quantitativa abarca as dez edições dos órgãos em apreço no imediato pós-25 de Abril, designadamente entre 26 de abril e 6 de maio de 1974. Considera-se que este período temporal é suficiente para percorrer a fórmula triangular subjacente aos valores-notícia que ditam o interesse no acontecimento: situação de partida, auge e queda. A atuação qualitativa alarga um pouco mais o âmbito temporal até 9 de junho de 1974, momento em que se consegue identificar, a partir dos textos jornalísticos, uma primeira previsão quanto ao destino das colónias, além de permitir aferir mais elementos explicativos quanto aos cenários políticos desenhados.

Recorre-se ao conceito de representação social aprofundado por Serge Moscovici (2009) para explicar o enquadramento dos jornais estudados a respeito dos acontecimentos portugueses. A teoria das representações sociais remete para os esquemas narrativos resultantes tanto da interpretação individual dos sujeitos como de um processo de construção social assente em elementos partilhados pela comunidade ou ambiente onde os indivíduos estão inseridos.

1. Os Estudos de Imprensa e as repercussões internacionais da Revolução de Abril

As pesquisas centradas na cobertura jornalística internacional do golpe de 25 de Abril e nas repercussões que o período revolucionário posterior alcançou na opinião pública de outros países têm suscitado, nos últimos anos, o interesse de vários autores. Neste domínio importa destacar cinco projetos. O primeiro, coordenado por Kenneth Maxwell, de 1983, oferece um vasto conjunto de reflexões sobre a imagem desse período de mudança do sistema político na imprensa ocidental. Em The Press and the Rebirth of Iberian Democracy, um denominador comum parece transversal aos estudos que conferem substância à obra: as transições para a democracia em Portugal e Espanha alcançaram ampla relevância na imprensa internacional. Maxwell (1983, p. 161) destaca o caso português como um clássico exemplo onde a cobertura jornalística internacional se revelou, em muitos casos, inadequada, superficial e refém de esquemas pretéritos.

O segundo projeto insere-se na produção bibliográfica portuguesa e respeita à obra de Mário Mesquita e José Rebelo (1994), intitulada O 25 de Abril nos media internacionais. Mário Mesquita analisa a forma como a imprensa francófona (França, Bélgica e Suíça) reportou o golpe militar de 25 de Abril, com particular atenção para a explicação do acontecimento, as previsões e o campo das personagens. Já José Rebelo faz uma incursão pelo “caso República” e o seu impacto no espaço público francês. A obra constitui uma referência também pela diversidade de perspetivas que apresenta, uma vez que colige as atas do colóquio O 25 de Abril revisitado pelos Media Internacionais, realizado em Lisboa, em 1990, com a participação de vários enviados especiais estrangeiros deslocados para Portugal no biénio 1974-1975. Mesquita e Rebelo chegam à mesma conclusão dos autores do livro The Press and the Rebirth of Iberian Democracy: a Revolução de Abril foi acolhida como um grande acontecimento. Tal como a pesquisa que a seguir se apresenta, Rita Luís (2015) procura aprofundar este campo dos Estudos de Imprensa com uma tese de doutoramento que abarca a intentona de 25 de Abril e o período revolucionário subsequente. O projeto Spain and the portuguese revolution of 1974-1975: the limits of a surveilled press elege a imprensa espanhola como objeto de estudo e procede um conjunto de investigações da autora (cfr. Luís et al., 2014/a; Luís, 2014/b) que atestam a excecionalidade associada aos acontecimentos portugueses do outro lado da fronteira.

Também no domínio da cobertura jornalística espanhola, Inmaculada Cordero Olivero (2010) escreve “Lo que no debe ser”. La revolución portuguesa en la prensa española, uma reflexão que alinha pela tese de que Portugal constituiu uma lição para a Espanha no sentido daquilo que não devia fazer, numa clara alusão ao inflamado clima de agitação política, económica e social que governou o país mais a Oeste entre 1974 e 1975. O artigo é resultado do projeto La transición Ibérica: Portugal y España. El interés internacional por la liberalización española (1974-1977) desde el impacto del 25 de Abril en Portugal.

Cumpre, por último, destacar o livro Nas bocas do mundo. O 25 de Abril e o PREC na imprensa internacional, de Joaquim Vieira e Reto Mónico (2014). O trabalho destaca-se pela profusão de representações iconográficas (caricaturas, cartoons) coligidas e a pluralidade de vozes que os autores colocam a falar, num universo que ultrapassa a centena de publicações consultadas. Ainda que a obra não apresente uma problematização do objeto de estudo à luz dos trabalhos anteriormente referidos, Vieira e Mónico (2014) oferecem uma ampla visão do impacto da Revolução de Abril na imprensa internacional e concluem que o acontecimento constituiu um case study mediático. Outros artigos se têm debruçado sobre a ressonância internacional deste período de transição para a democracia. No âmbito da imprensa de grande informação, de salientar as reflexões de Gilles Rodrigues (2007) sobre o caso francês, de Carla Luciana Silva (2012) focando a cobertura da revista Veja e do diário Folha de São Paulo, no Brasil, de Thomas Weißmann (2014) sobre a imprensa alemã e Sánchez Collantes (2014) abordando o tratamento jornalístico do espanhol ABC.

A imprensa partidária internacional tem, por sua vez, suscitado alguns trabalhos quando interessa perceber o impacto dos acontecimentos portugueses em partidos políticos de outros países, como se verifica nos artigos de Raquel Varela (2009) sobre o Partido Socialista Operário Espanhol e o seu porta-voz El Socialista, bem como de Igor Chabrowsk (2016) a respeito do Partido Operário Unificado Polaco e do órgão de informação Trybuna Ludu. Em Lotta Continua e il processo rivoluzionario portoghese, Giulia Strippoli (2014) estuda o impacto da Revolução de Abril no grupo político de extrema esquerda mais ressonante em Itália, no início da década de 70, enquanto Francesco Catastini (2016) faz semelhante análise a respeito do Partido Comunista Italiano e de L’Unità, o mítico jornal fundado por Antonio Gramsci.

2. O setor de informação e a imprensa de referência em Itália

Os jornais em apreço inserem-se no âmbito da imprensa de referência e refletem, em Itália, em meados da década de 70, uma atmosfera social instável pautada por ímpetos revolucionários, violência política, afirmações da sociedade civil (referendo do divórcio) e sinais de crise económica. O setor de informação é marcado, neste período, por tendências de concentração das empresas jornalísticas e reivindicações por maior independência profissional e honestidade da informação (Murialdi & Tranfaglia, 2008) Tendo como pano de fundo a proposta comunista do compromisso histórico, a conflitualidade sociocultural e o confronto político-ideológico constituem elementos que norteiam as práticas jornalísticas italianas. O processo de produção noticiosa é caracterizado, neste sentido, por métodos mais ou menos sofisticados de manipulação da informação e pela prevalência da opinião em detrimento da explicação dos factos.

O Corriere della Sera (1876) corresponde ao tradicional órgão da burguesia lombarda, moderado, elitista nos domínios político e cultural, sinónimo de jornalismo de qualidade, respeito e costumes. Considerado por muito tempo o sustentáculo da Democracia Cristã, o diário da Via Solferino é, em 1974, o maior e mais difuso jornal italiano, com cerca de 500 mil exemplares vendidos.

No segundo lugar da hierarquia dos jornais diários mais relevantes encontra-se La Stampa (1867), com cerca de 360 mil exemplares vendidos. Tal como o rival milanês, o jornal da família Agnelli e da empresa FIAT ostenta a bandeira do prestígio internacional e cultiva uma herança muito marcada pela vocação regional, por um lado, e pela disposição nacional e internacional, por outro (Grandinetti, 1992). É uma publicação liberal precursora do projeto europeu e dos valores laicos, democráticos e reformistas. De tendência conformista, tradicionalmente sensível ao posicionamento dos burocratas da capital, democrático e anticomunista, Il Messaggero (1878) é um diário de primeira linha e o mais importante e difuso em Roma - ocupa o quarto lugar na hierarquia dos mais vendidos, com 227 000 mil exemplares. Caracteriza-se pela oficialidade, vocação política e equilíbrio entre as linhas clerical e laica. A inflamada disputa pelo controlo do jornal, entre 1973-1975, resulta em greves, litígios legais e mudanças editoriais. Alessandro Perrone, Italo Pietra e Luigi Fossati imprimem, nesse período, uma orientação favorável ao Partido Socialista, assumindo o Messaggero “tons extremistas”, quase de barricada, e um modelo de assembleia como prática de gestão (Murialdi, 2006, p. 245). Subitamente, alinha-se com o radicalismo laico, libertário e antidemocrata-cristão.

3. A nova ordem democrática entre dúvidas e esperanças

O golpe militar responsável pela queda do Estado Novo modifica a fisionomia das primeiras páginas da imprensa italiana e subalterniza os assuntos de política interna. A informação internacional, raramente situada antes da quinta página, salta para os espaços nobres dos jornais. Os acontecimentos de Lisboa sobrepõem-se, neste sentido, ao sequestro do juiz Mario Sossi pelas Brigadas Vermelhas, evento que, desde 18 de abril, vem monopolizando a agenda mediática. A profusão de peças focadas na insurreição de 25 de Abril percorre, nos primeiros dias, um amplo conjunto de géneros jornalísticos, nomeadamente notícias, reportagens, editoriais, artigos de opinião e perfis/retratos. A cobertura jornalística ora se produz nas redações italianas através da informação das agências noticiosas, de testemunhos e da interpretação das ocorrências (análises), ora evolui a partir do trabalho dos enviados especiais e correspondentes. Os editoriais do Corriere della Sera e de La Stampa titulam: “A tirania mais longa” (Tito, 1974, abril 26, p.1) e “Fim de um fascismo” (Rizzo, 1974, abril 26, p. 1)[1]. Em Il Messaggero, o enunciado que secunda a manchete não tranquiliza quem deseja tratar-se do início da transição para a democracia: “Não é uma revolta democrática, mas um ‘pronunciamento’ de jovens oficiais” (1974, abril 26, p.1). Até às edições de 29 de abril, momento em que os enviados especiais italianos fazem chegar os relatos já a partir de Lisboa[2], as narrativas jornalísticas revelam-se em sintonia quando consideram que, por um lado, Portugal havia cancelado o seu passado fascista e que, por outro, permanecia um misto de dúvidas e esperanças em relação às garantias democráticas. Se as referências à desagregação do sistema estadonovista avaliam o acontecimento como um facto histórico e consumado, o mesmo não se pode dizer a respeito da credibilidade democrática que os fautores da revolta inspiram.

“Os militares contentar-se-ão em liquidar a trágica herança do salazarismo ou irão deixar-se vencer pela tentação, inevitável nestes casos, de gerirem eles próprios o futuro do país?” (Rizzo, 1974, abril 26, p. 1). A pergunta de La Stampa é partilhada pelos três jornais analisados e o limite temporal da sua formulação ultrapassa o mês de abril. Fala-se em meia primavera de Lisboa, em objetivos cuja natureza permanece obscura. As proclamações e promessas sobre o reencontro com os valores democráticos não encontram logo um ambiente de adesão incondicional nos órgãos de informação italianos.

A linha que norteia o enquadramento jornalístico é determinada por um sentimento de difidência a respeito das ações dos militares, visivelmente ancorado na história dos golpes castrenses na Europa e no seu difícil conúbio com as liberdades civis. Por isso, o Corriere della Sera afirma que em Portugal talvez não tenha terminado o período dos “governos autoritários, mesmo se menos brutais e provavelmente mais abertos às exigências do tempo” (Tito, 1974, abril 26, p.1). No mesmo sentido, o editorial de Il Messaggero faz a analogia entre a situação de Lisboa e as reiteradas e não mantidas promessas de liberdade na Grécia dos coronéis, sublinhando que “o exemplo não é encorajante” (1974, abril 26, p.1).

Aspetos como o reconhecimento dos sindicatos e dos partidos em vez de correntes de opinião, a realização de eleições, a aceitação do programa das Forças Armadas e o inevitável destino dos territórios ultramarinos conferem centralidade ao substantivo prudência: “É necessário esperar que se trate verdadeiramente de uma fase de transição e que comece a partir de Portugal uma gradual passagem das sociedades ibéricas para a história comum dos europeus” (Rizzo, 1974, abril 26, p. 1).

3.1. O futuro das colónias, o golpe incruento e o general Spínola

A definição de uma política em relação às colónias surge, claramente, como a questão nuclear nas semanas que se seguem ao golpe militar, sendo que o cenário, primeiramente, avançado por Spínola - autodeterminação e independência progressiva - contribui para avolumar a atmosfera de ambiguidades. A imprensa italiana nunca dissocia a evolução política na metrópole da conjuntura nas províncias ultramarinas. Qualquer conquista rumo à independência em África comporta novas liberdades em Lisboa.

A explicação para a intentona de 25 de Abril introduz elementos aos quais o leitor italiano já havia sido familiarizado aquando das interpretações avançadas no contexto do levantamento de 16 de março. Trata-se de uma iniciativa - escreve-se - dos graus intermédios, capitães e majores, relacionada com a última batalha do colonialismo português em África. A maturação de um sentimento de culpa derivado das experiências da guerra, associado às difíceis condições de vida em terras longínquas, emergem como o principal mecanismo que determinara a fratura no seio das Forças Armadas.

António de Spínola surge, pela voz italiana, como o grande inspirador e referência dos revoltosos. As peças jornalísticas recuperam elementos deslindados aquando da crise política de março, assumindo a configuração do tal epílogo que não havia sido possível revelar. Quando elabora o exaustivo retrato de Spínola, o Corriere della Sera lembra que as declarações dos oficias subalternos - “A consciência dos militares não está à venda” - e o livro do general haviam abalado profundamente o regime e não deixado indiferente uma sociedade mal informada e ávida de debates políticos (Scabello, 1974, abril 26, p.19).

Outro fator unânime e recorrentemente salientado reside na forma como os militares haviam derrubado o regime. Refere o editorial de Il Messaggero: “É surpreendente que uma carga por tanto tempo comprimida não tenha tido explosões devastadoras e consequências trágicas para um povo que sofreu (...) a cruel usurpação do seu direito fundamental à liberdade” (1974, abril 26, p. 1). O tão propalado golpe incruento haveria de ser, depois, associado ao brando temperamento dos militares e da população portuguesa em determinados episódios críticos da Revolução de Abril, cuja tensão, já em 1975, previa o pior dos cenários (Gomes, 2015).

Contentamento e prudência são os vocábulos que podem resumir o sentido dos textos até ao rescaldo da Festa do 1º de Maio. Os articulistas celebram a queda do Estado Novo como um evento excecional, denotam satisfação e aproveitam a ocasião para enveredar por uma espécie de ritual fúnebre - discursar, despedir, sepultar. Exploram-se, neste sentido, os aspetos mais sombrios e maléficos do regime:

repressão em Portugal, massacres nas províncias ultramarinas, decapitação das forças mais válidas e enérgicas do país (jovens ao serviço da guerra colonial), controlo económico na posse de poucas famílias, pobreza, analfabetismo, mortalidade infantil, sociedade estática do ponto de vista económico e social, saudosismo colonialista e episódios-símbolo de intolerância e espírito retrógrada (caso “Três Marias”). O caso português remete para o carácter singular e anómalo de um fascismo difícil de classificar, aspeto que logo suscita o interesse da imprensa. Para além das explicações em jeito de autópsia que identificam continuidades entre os modelos políticos alemão, italiano e português, bem como especificidades associadas ao sistema erigido por Oliveira Salazar, avolumam-se as certezas de que o regime de Lisboa, como refere o Corriere, “nunca foi menos perigoso, menos liberticida, menos incivil” (Colombo, 1974, abril 26, p.19).

3.2. O investimento dos jornais e o envolvimento no acontecimento

Distinguir os textos dos enviados especiais e dos correspondentes, avaliar a visibilidade do acontecimento através da localização no jornal e na página e aferir qual a prevalência de géneros jornalísticos como a reportagem ou os géneros de opinião permite testar a hipótese da Revolução de Abril como grande acontecimento. A definição das categorias de análise incide num corpus constituído por 87 peças, respeitante a 10 edições (26 de abril a 6 de maio de 1974), sendo o objetivo perceber qual o grau de envolvimento dos jornalistas, o destaque e a relevância conferidos ao acontecimento. A cobertura jornalística denota um relevante caudal de peças até às edições de 6 de maio, momento em que os artigos sobre aos acontecimentos portugueses deixam de vaguear pelas diferentes secções temáticas e estabilizam nas páginas do noticiário internacional. Num total de 10 edições, conforme a tabela 1, os jornais em análise publicam 87 peças; 24% surge como tema de primeira página e 26%, deste conjunto de 21 unidades de redação, como manchete. A recorrência a enviados especiais (25%) e correspondentes (6%) constitui um indicador quanto ao significativo investimento dos jornais no acontecimento.

 

 

O pico informativo situa-se entre 26 e 29 de abril e o tema revolução portuguesa surge na primeira página das cinco edições pós-golpe, no âmbito dos três meios estudados. Quando os artigos dos enviados em Lisboa não merecem honras de primeira página, são sinalizados com chamadas ou sumários nesse espaço nobre. Outro indicador revelador da visibilidade concedida ao acontecimento pode ser aferido através da dominância dos géneros jornalísticos.

De acordo com a tabela 2, 37% das peças jornalísticas inserem-se no género reportagem, 4,5% correspondem a editoriais, 11,5% a artigos de opinião e 4,5% a perfis/ retratos. Isto é, mais de metade dos textos publicados (57,5%) denotam um relevante envolvimento da imprensa italiana no tema revolução portuguesa. O Corriere della Sera, por outro lado, evidencia o estatuto de maior jornal italiano, com mais recursos, e destaca-se na maioria dos parâmetros elegidos: superioridade em todos os indicadores da variável género jornalístico (tabela 2), maior volume de peças publicadas (40), ao que corresponde mais peças em primeira página (9) e investimento na rede de captura (13) - soma dos textos de enviados especiais e correspondentes (tabela 1). Do ponto de vista temático, as narrativas focalizam-se, sobretudo, nos assuntos afetos à conjuntura político-social em Portugal, à situação nas colónias e às reações internacionais, com particular destaque para Espanha, Itália, Estados Unidos e Inglaterra.

 

 

4. Objetivar o golpe militar e ancorar a nova ordem política

Uma parte significativa das crónicas e dos artigos de opinião das edições de 26 e 27 de abril transmitem a ideia de se estar a versar sobre um corpo político-social (Estado Novo) em estado de morte cerebral e cujo auxílio das máquinas havia terminado. Com o título “Um homem em Lisboa”, Paolo Bugialli dedica uma crónica a um colono português em Angola, com quem havia conversado no bar do hotel Tivoli por altura do golpe das Caldas, de 16 de março. Bugialli recorda as palavras do português, naquela noite em Lisboa, que apelam à guerra e retratam um Portugal putrefacto sem dignidade, aburguesado, esquecido da grandeza pretérita e das missões civilizadoras de Vasco da Gama. O enviado especial coloca-o, primeiro, a falar, para depois se insurgir contra a sua mentalidade colonial: “Um bêbado num bar de hotel [em Portugal] não é um acontecimento excecional. Mas aquele tipo não era bêbado.

Era racista, fascista, fanático, era sanguinário, a garrafa apenas o ajudava a mostrarse como era (...)” (Bugialli, 1974, abril 26, p.3).

A Festa do 1º de Maio representa um ponto de viragem quanto à evolução do clima de regozijo e, simultaneamente, incerteza que domina a voz italiana. O dia em que Portugal mergulha na “fábula do delírio público”, com “500 mil bêbados de liberdade”, para utilizar a expressão de Paolo Bugialli (1974, maio 3, p. 22), determina o fim das celebrações jornalísticas e a continuidade de um discurso suspicaz em relação às intenções dos novos representantes políticos. É interessante, porém, verificar que a permanência deste sentido de prudência é acompanho, nas primeiras semanas pós-levantamento, por reflexões mais otimistas sempre que algum evento sugere a desejada inflexão rumo à liberalização e aos valores democráticos (libertação dos presos políticos, regresso dos exilados, inclusão de partidos na composição do governo, anúncio de eleições em Portugal e conversações com os movimentos de libertação africanos).

Entendendo-se por objetivação o mecanismo que transforma conceitos abstratos em realidades concretas, elementos do pensamento em matéria da realidade (Moscovici, 2009), a imprensa italiana procura, em primeiro lugar, objetivar o golpe desferido ao regime liderado por Marcelo Caetano. Ou seja, preocupa-se, neste sentido, em materializar uma realidade farta em significados - O levantamento está concluído? Como se processou? Qual o destino dos representantes do antigo regime? Quem são os novos líderes? - numa ideia icónica concreta, a nova ordem política. A voz italiana procura reproduzir um conceito (movimentações militares) através de uma imagem: a queda definitiva do Estado Novo. Esse período de objetivação processa-se, grosso modo, nos dias 26 e 27 de abril. São aquelas 48 horas em que os jornalistas obtêm as respostas às perguntas: Como aconteceu? De que modo? E com que protagonistas? Num segundo momento, depois de assimilado o fim do Estado Novo, os jornalistas tentam perceber que tipo de ordem política eclodiu para fazê-la corresponder às categorias previamente conhecidas. Passa-se, em suma, ao processo de ancoragem, que adapta o elemento representado ao meio social do qual é extraído (Moscovici, 2009), classificando, nomeando, categorizando-o em conformidade com a matriz político-cultural das instâncias de enunciação - jornalistas italianos, europeus e ocidentais.

Para Moscovici, a ancoragem social pressupõe “escolher um dos paradigmas estocados em nossa memória e estabelecer uma relação positiva ou negativa com ele” (pp. 61-63). Tudo o que não é classificado aparenta ser estranho e ameaçador. No caso dos jornais analisados, essa relação entre os articulistas e a nova ordem política oscila, pelo menos até ao início de 1975, entre a esperança e a difidência: de algum otimismo derivado das garantias democráticas que a sociedade militar vai avançando (governo com a participação de civis, marcação de eleições, eliminação das estruturas fascistas, descolonização); de alguma prudência em perceber se realmente os militares, depois da fase de transição, iriam cumprir com a promessa de regressar aos quartéis e entregar a condução do país à sociedade civil (Gomes, 2015). O que está em causa é perceber, afinal, se os militares portugueses se perpetuariam no poder em consonância com outras experiências castrenses impulsionadoras de regimes autoritários. Os enviados italianos denotam alguma dificuldade em ancorar os militares portugueses à categoria pré-estabelecida que fazia corresponder os militares no poder a um sistema autoritário, de direita ou de esquerda, independentemente das latitudes geográficas. A situação política e os militares em Portugal são sempre avaliados em função desta grelha de leitura.

No momento de rutura com o antigo regime ou nas fases de crise política acentuada e de graves convulsões sociais, cuja opinião exterior considera o país muito próximo da ditadura militar (a partir de meados de 1975), os oficiais de Lisboa e os soldados que vigiam as multidões são descritos como diferentes, mais sensíveis ao pulsar social e relutantes em usar a força. Veja-se a eloquente descrição de Aldo Rizzo três semanas após a intentona:

Chegando a Lisboa, via-se que este era verdadeiramente um golpe insólito. Era um golpe gentil. Os militares tinham modos corteses (…), eram alegres, não de uma alegria arrogante, de vencedores, mas de uma alegria sincera e contagiante, que se transmitia aos civis e os serenava (Rizzo, 1974, maio 10, p.3).

Menciona-se somente os enviados especiais porque é, exclusivamente, a partir dos seus textos que emerge uma moldura interpretativa não totalmente condizente com o perfil clássico (categoria) do poder autoritário em uniforme. A razão para o desfasamento percetivo entre os enviados especiais e, por exemplo, os editorialistas italianos (convictos de que os militares são iguais em todos os continentes), a respeito dos militares portugueses, pode derivar do facto de que são os primeiros que privam com as personagens e os cenários das suas próprias narrativas. Talvez por isso estão mais habilitados a expor os seus temperamentos e sensibilidades.

5. O que será, agora, Portugal depois de o futuro ter começado?

A pergunta formulada por La Stampa subentende uma mescla de expectativas e previsões comuns aos jornais estudados (Rizzo, 1974, maio 16, p.3). As expectativas evidenciam a tal particular proximidade existente entre as instâncias de enunciação e a realidade sociocultural portuguesa, de europeus (italianos) para europeus (portugueses), de ocidentais para ocidentais, que mais não corresponde do que a uma identificação cultural e, deseja-se, política. Esse exercício de recognição processa-se no plano de uma idiossincrasia partilhada, transformando em desejos os motivos e interesses circulantes nos textos. Os jornalistas percecionam Portugal enquanto elemento pertencente ao seu edifício cultural (europeu) e até político em termos de segurança (NATO). Desejam que o país integre os sistemas democráticos pluralistas que caracterizavam o mapa europeu ocidental.

Passando do domínio das expectativas para o das previsões, quais são, então, os cenários anunciados para Portugal depois de o futuro ter começado? Os prognósticos desenvolvem-se, grosso modo, no âmbito de sete temáticas: consequências internacionais da mudança de regime; transformação das estruturas sociais e políticas; análise dos partidos políticos; personagens em evidência; ameaças à estabilidade política e social; considerações sobre o futuro das colónias; a ação do general Spínola e as suas relações com a estrutura militar.

Sobre a primeira questão, o Corriere della Sera afirma que a Península Ibérica se encontra, depois de abril, dividida em duas ilhas, sendo a mais incómoda aquela que tinha como capital Madrid (Bugialli, 1974, abril 28, p.1). La Stampa e Il Messaggero alinham, também, pelo discurso de que o velho autoritarismo franquista se podia revelar, aos olhos dos espanhóis, depois dos acontecimentos de Lisboa, um arcaísmo intolerável.

Em relação à segunda temática, o clima de agitação social motivado pela passagem do silêncio às improvisadas reivindicações em voz alta é avaliado como legítimo, pese embora seja unânime a opinião de que a restruturação do Estado, da economia e da vida pública se iria processar, inevitavelmente, de forma gradual (Josca, 1974, maio 1, p.19; Sommaruga, 1974, maio 5, p.24; Rizzo, 1974, maio 1, p.21).

Numa primeira análise sobre o tecido partidário, o Partido Socialista (PS) e o Partido Comunista (PCP) são apresentados como forças políticas que iriam alcançar um poder real do ponto de vista da representatividade social e política. Os comunistas, mais aguerridos, com boa penetração na sociedade e longa experiência na clandestinidade, inspiram, segundo a imprensa italiana, alguma apreensão em virtude do seu eventual potencial hegemónico e da tenaz vontade em não serem marginalizados (Josca, 1974, maio 1, p.19; Rizzo, 1974, maio 17, p.20). O Partido Popular Democrático é encarado como um instrumento político tendente a prosseguir uma linha económica de reformismo moderado, equidistante, portanto, da estagnação estadonovista e do socialismo impulsivo.

Os textos jornalísticos elegem o general Spínola como a personagem mais proeminente, prevendo que Mário Soares desempenhe um papel importante - se não central - nos primeiros passos do Portugal democrático. Refere La Stampa no rescaldo dos discursos da Festa do 1º de Maio: “Parecia que Soares (...) se candidatava à liderança do governo, fazendo-se garante dos comunistas, diante de um Presidente da República que, quase certamente, será o general Spínola” (Rizzo, 1974, maio 3, p.22). Quanto aos perigos que poderiam debilitar uma ordem pública já de si precária, os jornais não têm dúvidas em eleger como ameaça os intentos reacionários da direita nostálgica. Luigi Sommaruga, enviado de Il Messaggero, escreve que a reação se movimenta na sombra e os homens da polícia secreta, armados e escondidos em lugares desconhecidos, gozando de proteção nos ambientes da alta finança e da indústria, podem enveredar por uma série de provocações destinadas a mergulhar o país num estado de caos dificilmente controlável (Sommaruga, 1974, maio 1, p.20). A questão das províncias ultramarinas merece olhares que oscilam entre a independência, desagregação e o prosseguimento do conflito armado. O Corriere della Sera revela-se o mais decidido em pressagiar a independência das colónias (Villani, 1974, junho 9, p.3). A discussão em redor do destino das colónias é, aliás, analisada como um motivo de divergência entre, por um lado, a linha de António de Spínola e, por outro, os núcleos de poder no interior das Forças Armadas (os capitães) e a maioria das forças políticas; o primeiro favorável a um projeto federativo, os segundos alinhados com a solução da independência imediata.

A possível não concordância de objetivos entre Spínola e os oficiais do Movimento das Forças Armadas (MFA) surge no quadro mais vasto do debate sobre a paternidade da revolta militar. Escreve-se que Spínola e os jovens oficiais haviam tido necessidade de se encontrar, o general porque precisava de uma base para os seus projetos, os capitães de um chefe e de um símbolo (Bugialli, 1974, maio 14, p.3; Rizzo, 1974, maio 10, p.3; Sommaruga, 1974, maio 3, p.24). A ideologia, porém, chegara através de um MFA apostado numa reconversão democrática que, não limitada aos governantes, se estendesse às bases sociopolíticas.

Considerações finais

A análise da cobertura jornalística da imprensa italiana sobre a queda do Estado Novo permite atestar a hipótese da Revolução de Abril como grande acontecimento. Essa conclusão é mensurável através da dimensão quantitativa do tratamento jornalístico e da análise textual direcionada para coligir imagens dominantes provenientes das narrativas de diferentes articulistas.

A ação militar de 25 de Abril e os acontecimentos subsequentes foram seguidos por jornalistas a partir das redações italianas, correspondentes distribuídos por vários países e enviados especiais deslocados para Portugal. Num universo de 10 edições estudadas, a relevância e o destaque conferidos ao tema revolta militar em Portugal adquirem significado quando se analisa variáveis como o volume de peças publicadas (87), a sua localização no jornal (24% em primeira página) e a caracterização de quem as assina (31% de correspondentes e enviados especiais).

O envolvimento dos jornalistas no acontecimento pode ser aferido através da dominância de géneros jornalísticos como a reportagem (37%), o perfil (4,5%) e os géneros de opinião (16% editorial e artigo). O vocabulário utilizado, os cenários recriados e as personagens invocadas revelam que os enviados especiais não ficaram indiferentes à constituinte popular em marcha que se foi enformando a partir de 26 de abril de 1974. Os motivos que sustentam a perspetiva do acontecimento excecional residem no facto de que o fim do sistema estadonovista teria repercussões nas colónias africanas e no equilíbrio político da África Austral, além de simbolicamente representar o fim da mais velha ditadura da Europa e de um fascismo difícil de classificar. As singularidades atribuídas aos militares portugueses e a festa popular que se prolongou para além do 1º de Maio de 1974 transparecem para os textos jornalísticos como uma celebração à qual os jornalistas italianos também aderiram, no contexto de um sentimento de adesão aos valores democráticos.

 

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Financiamento

Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto PTDC/COM-JOR/28144/2017 - Para uma história do jornalismo em Portugal.

 

Submetido/ Received: 2018.12.26

Aceite/ Accepted: 2019.08.07

 

Notas

[1] As traduções de italiano para português são da nossa responsabilidade.

[2] Apenas a 28 de abril os militares permitem a entrada em Portugal dos cerca de 200 jornalistas estrangeiros que esperam relatar as ocorrências a partir de Lisboa.

 

Nota biográfica

Marco Gomes é doutorado em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade Coimbra, investigador integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra e Professor do Instituto Politécnico de Leiria.

Email: gomes_marco78@hotmail.com

Morada: Universidade de Coimbra. Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20), 3000-186, Coimbra, Portugal.

Instituto Politécnico de Leiria, Escola Superior de Educação e Ciências Sociais (ESECS-IPLeiria), Campus 1, 2411-901 Leiria, Portugal

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