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Media & Jornalismo

versão impressa ISSN 1645-5681versão On-line ISSN 2183-5462

Media & Jornalismo vol.19 no.34 Lisboa jun. 2019

http://dx.doi.org/10.14195/2183-5462_34_23 

RECENSÃO

Snyder, T. (2017). Sobre a Tirania. Vinte Lições do Século XX. Lisboa: Relógio de Água.

Francisco Rui Cádima


 

Pós-verdade significa pré-fascismo Timothy Snyder

Editado nos EUA após a vitória de Trump, este livro de Timothy Snyder procura vir ao encontro da urgência do presente, indo diretamente ao assunto. Não haverá desculpa para o evitar, até porque as suas cerca de cem páginas se podem ler num par de horas e sem perder fôlego.

Snyder é historiador e professor da Universidade de Yale, e um dos seus últimos livros - Bloodlands: Europe between Hitler and Stalin (Basic Books, 2010) obteve em 2013 o Hannah Arendt Prize for Political Thought.

Nesta sua reflexão no contexto do imediato pós-Trump, Snyder aborda a certa altura um conjunto de referências que vão desde a ficção à história, querendo dizer-nos basicamente que nos andamos a perder na Internet e que do que necessitamos é de nos reencontrarmos com determinantes da nossa memória, de Ray Bradbury a Orwell, de Victor Klemperer a Arendt, ou de Václav Havel a Tony Judt, com quem aliás Snyder assinou Thinking the Twentieth Century (Penguin Books, 2012).

Mas também com Harry Potter e os Talismãs da Morte, que segundo Snyder aborda justamente o tema da tirania e da resistência - “se tu, os teus filhos ou os teus amigos não o leram assim da primeira vez, então o livro pede uma nova leitura” (p. 51). Sobre a Tirania procura ser assim um alerta para a reemergência da besta na barriga do monstro. Ele, em todo o caso, tem alguma relutância em dizer que ventre é esse, quem gera efetivamente o monstro, e ao evitar esta questão de modo frontal tergiversa também relativamente ao fundamental nesta discussão sobre o presente.

O livro está dividido em vinte pequenos capítulos, todos eles muito assertivos, compondo, no conjunto, uma espécie de arqueologia sintética dos fascismos e dos totalitarismos no século XX, confrontando-a com os embriões surgidos nos novos contextos da pós-verdade da era Trump. Neste contexto, a obra de Snyder assenta também sobre um conjunto de alertas e recomendações procurando fazer alguma pedagogia para que, por assim dizer, os holocaustos do século XX não se venham agora a repetir.

Uma das teses centrais desta obra Sobre a Tirania aborda as políticas e os mitos da inevitabilidade ou os “fins da história” que facilmente conduzem à solução limite e à exceção, aos sinais de ódio, ao “transe” das políticas da eternidade e aos mitos cíclicos de que se servem populistas, nacionalistas e oligarquias fascistas para imporem a sua narrativa, ou a sua gestão do terror, a sua leitura anti-histórica do tempo, seja ele qual for.

Uma outra análise muito interessante de Timothy Snyder prende-se com a relação que estabelece entre o totalitarismo e a perda ou a violação da privacidade eletrónica dos cidadãos. Considera que “o roubo, a discussão ou a publicação de comunicações pessoais destrói um fundamento essencial dos nossos direitos” (p. 72). Os media e os jornalistas, aliás, não ficam nada bem nesta análise de Snyder: “os meios de comunicação social acabaram por passar ao lado dos verdadeiros acontecimentos da atualidade. Ao invés de darem conhecimento da violação dos direitos básicos (…) optaram na generalidade dos casos por ceder ao interesse inerentemente impudico que temos nos assuntos das outras pessoas” (p.73).

Daí Timothy Snyder ser muito crítico da Internet em geral (chega mesmo a propor-nos que nos distanciemos da Internet, em favor do livro) e defender a necessidade de apoiar o jornalismo de investigação, na sua forma impressa, como refere. O ódio ao jornalismo, por parte de Trump, leva Snyder a teorizar sobre os próprios media e a declinação da pós-verdade nos múltiplos écrans, o que revela, na sua perspetiva, “uma tendência para que nos achemos logo enredados na lógica do espetáculo” (p. 61). Porém, concede que “o trabalho daqueles que se mantêm fiéis a uma ética do jornalismo é de uma espécie diferente do trabalho do que não partilham dessa ética” (p. 62).

E assume que a luta pela verdade na era da Internet está no centro da política e do processo de decisão contemporâneo - um pouco como em Michel Puech quando o filósofo francês se refere às micro-ações dos indivíduos como algo decisivo nesta chamada “mediarquia” - defendendo que “cada um de nós tem a possibilidade de provocar uma pequena revolução no modo como a Internet funciona” (p. 64), havendo efetivamente uma responsabilidade individual para com o problema que envolve a informação e a verdade.

Isto porque, para Snyder, “repelir os factos é repelir a liberdade” (p. 53). E, justamente, em torno do problema contemporâneo da verdade e dos media, o autor incide sobre outro dos temas centrais desta sua obra, onde os factos alternativos e a perseguição pelos populistas quer da transparência da informação quer da ética do jornalismo, e a pós-verdade “restabelece(m) precisamente a atitude fascista perante a verdade” (p. 57). Algo que não deixa de estar influenciado pelo cada vez maior reforço das oligarquias e dos autoritarismos que, segundo Snyder, potenciam claramente a sua ameaça suportada numa globalização que tem vindo a acelerar as desigualdades e a distribuição de riqueza (p. 25).

 

Recebido | Received | Recebido: 2018.07.16
Aceite | Accepted | Aceptación: 2018.09.13

 

Nota biográfica

Francisco Rui Cádima é Professor Catedrático do Departamento de Ciências da Comunicação (DCC) da NOVA FCSH; - Investigador Responsável do ICNOVA - Instituto de Comunicação da NOVA / CIC.Digital; - Coordenador do curso de Doutoramento do DCC da NOVA FCSH; - Membro da Direção da revista Media & Jornalismo (SCOPUS). É autor de uma vasta obra académica no campo das ciências da comunicação.

Ciência ID: 231F-D7BA-F635

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