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Media & Jornalismo

versão impressa ISSN 1645-5681versão On-line ISSN 2183-5462

Media & Jornalismo vol.17 no.31 Lisboa dez. 2017

 

APRESENTAÇÃO

 

Media e Diversidade

 

Media and Diversity

 

 

Francisco Rui CádimaI; Marisa Torres da Silva II

I Universidade Nova de Lisboa. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Centro de Investigação em Comunicação, Informação e Cultura Digital (CIC. Digital FCSH/NOVA), 1069-061 Lisboa, Portugal. E-mail: frcadima@fcsh.unl.pt
II Universidade Nova de Lisboa. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Centro de Investigação em Comunicação, Informação e Cultura Digital (CIC. Digital FCSH/NOVA), 1069-061 Lisboa, Portugal. E-mail: marisatorresilva@gmail.com

 

 

Vivemos uma era estranha em que, paradoxalmente, o crescimento exponencial de meios de comunicação – sobretudo digital – e de outras fontes de informação, tem, no reverso da medalha, problemas novos de grande complexidade e com impactos societais significativos, nomeadamente em matéria de desinformação, “factos alternativos” e notícias falsas, agravando as questões estruturantes relativas ao campo dos media e dos novos media – a “velha” diversidade, o pluralismo e a liberdade de expressão, que agora reaparecem reciclados ou enviesados através de novos formatos.

Com este número da revista Media & Jornalismo, enquadrado num projeto de investigação em curso, e financiado por Fundos Nacionais através da FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia no âmbito do projeto Refª: PTDC/IVC-COM/4968/2014 - DIVinTV – “Televisão pública e diversidade cultural em Portugal: um estudo sobre a programação dos canais públicos generalistas, em matéria de pluralidade de expressão cultural, diversidade e inclusão”, procurámos enquadrar alguns dos principais temas em presença, desde logo através de diversos textos sobre o estado da arte da questão e, depois, com análises específicas e aplicadas a conteúdos diversos.

Assim, Carla Baptista e Marisa Torres da Silva abrem este dossier com um texto que trabalha diferentes temáticas fundamentais das políticas públicas no âmbito específico da diversidade nos media em Portugal, com um foco particular no domínio da inclusão social no âmbito do serviço público de media, bem como aos contextos de literacia mediática. Este trabalho resulta de uma investigação em curso que complementa dados e revisão de literatura no âmbito do projeto Media Pluralism Monitor (MPM), coordenado a nível europeu pelo Centre for Media Pluralism and Media Freedom (CMPF) do European University Institute e financiado pela Comissão Europeia, e também do já referido projeto DIVinTV – “Televisão pública e diversidade cultural em Portugal”, financiado pela FCT.

Francisco Rui Cádima, no seu texto “Diversidade e Serviço Público de Televisão no contexto regulatório português”, vem abordar a diversidade no contexto do serviço público de televisão, a partir da análise que tem vindo a ser feita pela entidade reguladora em diversos dos seus documentos, estudos e relatórios. Verifica-se que tem havido uma certa monitorização regular do problema, verifica-se também que ele é relevante nesta área da regulação, mas a assertividade da análise e o foco das metodologias nem sempre serão os mais corretos e aprofundados de forma a termos a melhor perceção do que se passa efetivamente.

Patrícia Ascensão, no seu texto sobre o serviço público e a informação nas regiões, considera que um dos grandes desafios que hoje o serviço público enfrenta é conseguir conciliar as pressões do mercado com uma programação diversificada e de qualidade, próxima dos cidadãos, capaz de manter o seu carácter diferenciador e a sua legitimidade. Assim, na sua perspetiva, a valorização da diversidade e da proximidade são eixos fundamentais na medida em que todas as vozes e expressões culturais integram o nosso património e fazem parte da nossa identidade e refletem o mundo plural em que vivemos. O serviço público deve ser assim capaz de promover a cidadania, favorecer a coesão social, valorizar a identidade coletiva, acolher as diferentes realidades, contextos e expressões, garantir a qualidade e rigor informativo, estimular a criatividade e contribuir para o desenvolvimento.

As questões mais específicas da inclusão são abordadas por Luís Bonixe numa análise sobre a rádio. Bonixe refere que a comunidade surda integrava um público incapacitado de escutar mensagens exclusivamente sonoras e analisa experiências desenvolvidas pela TSF e Antena 1 de forma a lançar uma reflexão sobre o papel da rádio enquanto meio de inclusão da pessoa com deficiência, em particular dos surdos.

Raquel Lourenço e Joana Fernandes, em dois artigos, sistematizam diferentes abordagens sobre media e diversidade cultural, designadamente no contexto europeu, procurando configurar um primeiro estado da arte neste domínio, e indo inclusive um pouco mais longe, no caso da primeira autora, analisando-se estratégias atuais para a diversidade em televisão, através dos casos dos EUA e do Reino Unido.

Outras análises neste dossier contemplam temáticas como a questão da discriminação no discurso, através de uma análise da representação de refugiados no Público, uma proposta de Marina Lisboa Empinotti, que procura justificar o facto de haver, na sua pesquisa, uma recorrente representação dos refugiados como grupos, e não indivíduos, nómadas, em situação de risco e subordinação. Ou a pesquisa de Sónia Marques sobre as representações mediáticas da ‘raça’, que conclui que apesar da multiculturalidade e diversidade fazer cada vez mais parte das agendas políticas, a questão da ‘raça’ continua a levantar contendas e a encerrar em si muitos silêncios, ambiguidades e jogos de poder, sendo que um dos campos de análise mais profuso para a constatação dessas dinâmicas é efetivamente o das representações mediáticas.

No caso da abordagem de Myrian Del Vecchio-Lima e de Humberto Alves de Souza, sobre a (in)visibilidade das mulheres no jornalismo brasileiro e a busca de espaços “de mulheres para mulheres” nos media não hegemónicos, os autores procuram investigar justamente as razões da não presença das mulheres nos media mainstream, referindo essa menor probabilidade das mulheres “cobrirem histórias ou serem personagens de reportagens”, mas refletindo também sobre um “novo jornalismo” que supere estereótipos e invisibilidades.

Em análises mais focadas sobre questões específicas, veja-se o caso de Alexandra Pinto, que faz uma interessante reflexão sobre a obra do documentarista Godffrey Reggio e as ligações deste aos conceitos, justamente, de diversidade e media. Outro é o tema de F. Rui Cádima, et altri, sendo aqui abordado o tema do género em ambiente web, a questão do ódio e também do assédio, sobretudo às mulheres, designadamente no contexto dos videojogos online.

No conjunto, trata-se assim de um número da Media & Jornalismo também ele muito diversificado, procurando não somente trabalhar a questão do estado da arte da diversidade nos media nas suas múltiplas dimensões, mas também cobrir várias temáticas, questões de género e, por assim dizer, estudos de caso, o que, finalmente, acaba por constituir, na nossa perspetiva, uma significativa proposta de leitura no âmbito do tema aqui proposto.

 

 

Francisco Rui Cádima – Professor Catedrático do Departamento de Ciências da Comunicação (FCSH/NOVA). Investigador Responsável do CIC.Digital
Marisa Torres da Silva – Professora Auxiliar do Departamento de Ciências da Comunicação (FCSH/NOVA). Investigadora do CIC.Digital (Pólo FCSH/NOVA)

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