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Revista Crítica de Ciências Sociais

versão On-line ISSN 2182-7435

Revista Crítica de Ciências Sociais  no.123 Coimbra dez. 2020

 

RECENSÃO

Celikates, Robin (2018), Critique as Social Practice: Critical Theory and Social Self-Understanding

 

Pedro Grunewald Louro

https://orcid.org/0000-0001-7227-7349

Doutorando em Sociologia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo Rua do Lago, 717, Diretoria e Administração, Cidade Universitária, São Paulo-SP, CEP 05508-080, Brasil pedro.louro@usp.br

 

Critique as Social Practice: Critical Theory and Social Self-Understanding

Robin Celikates

Celikates, Robin (2018), Critique as Social Practice: Critical Theory and Social Self-Understanding. London: Rowman & Littlefield International, 238 pp. Tradução de Naomi Van Steenbergen

 

Robin Celikates, professor de Filosofia Social na Universidade Livre de Berlim e membro associado do Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt, faz parte da novíssima geração de adeptos da Teoria Crítica (ou da chamada Escola de Frankfurt), interessados em atualizá-la como um projeto que busca os potenciais de superação das relações de dominação. Diferentemente de outros adeptos – a exemplo de Rahel Jaeggi, Hartmut Rosa e Rainer Forst –, as tentativas de Celikates em recobrar a fecundidade de antigos conceitos passam mais por pesquisas empíricas, sendo um dos responsáveis por atualizar a noção de desobediência civil. Em relação ao seu próprio percurso intelectual, a obra recentemente traduzida para o inglês, Critique as Social Practice, situa-se num momento de elevada abstração teórica, mas cujos pressupostos sustentam amplamente o projeto “Transformações da desobediência civil”, no qual ele coordena atualmente um leque de pesquisas empíricas com enfoque transnacional e que compartilham o objetivo de interrogar as formas de contestação das instituições políticas à luz dos processos de globalização, democratização e digitalização. Em relação à trajetória da Teoria Crítica, ao passo que a obra a um só tempo contesta e reforça a “virada reconstrutiva” – desde a proposição de Jürgen Habermas acerca da insuficiência do quadro conceitual delineado por Karl Marx enquanto horizonte emancipatório – ela tem ainda a pretensão de englobar as variadas tendências mais ou menos vinculadas a esta tradição intelectual.

A par da abordagem reconstrutiva, Celikates, no curso dos seus trabalhos, considera que as condições de possibilidade da crítica são imanentes às práticas concretas de uma sociedade, embora a estrutura normativa sob a qual reside a crítica não seja explicitamente reconhecida pela autocompreensão ordinária (Selbstverständnis). Deste modo, cabe à teoria clarificar uma racionalidade já existente, mas dotada da capacidade de pôr em questão a realidade dada e de impulsionar movimentos reais de transformação. Por outro lado, as tentativas para despontar tal abordagem mais precisamente os modelos da “ação comunicativa” forjado por Habermas em 19811 e da “luta por reconhecimento” posteriormente elaborado por Axel Honneth em 19922 – foram insuficientes na perspectiva de Celikates, algo que ele então se propôs a superar em termos teóricos, nesta obra, ao articular dois programas de pesquisa opostos.

Na primeira parte, Celikates se dedica a Pierre Bourdieu, examinando como este manifesta a vertente da crítica externa. Grosso modo, tal vertente parte de um fosso epistemológico entre as perspectivas da teoria e dos participantes, de modo que os atores aparecem, nos trabalhos de Bourdieu, subordinados à reprodução das formas de dominação, enquanto que apenas um observador alheio às práticas seria apto a refletir sobre a realidade social. No caso deste modelo, ao acoplar a questão da ideologia com o senso comum, a opacidade se torna constitutiva de toda a prática social, ao mesmo tempo em que a validação da objetividade científica exige a ruptura com a perspectiva ordinária. Assim, se há um desconhecimento sistemático das condições sociais por parte da perspectiva participante, avança Celikates, o maior limite dessa vertente não é só o papel desmistificante que a ciência monopoliza, mas também o modo como esse papel encobre os potenciais transformativos que uma Teoria Crítica se põe a desvelar.

Na segunda parte, o autor retoma a “virada pragmática ou interpretativa”, examinando como Luc Boltanski buscava suprir déficits legados pela Sociologia Crítica. Trata-se da vertente da crítica interna, caracterizada pela orientação em explicitar as capacidades críticas que os atores concernidos ativam nas mais variadas situações. Partindo de uma simetria entre ciência e saberes leigos, o modelo de Boltanski restitui a reflexividade que os atores ordinários põem em prática na experiência vivida, fazendo da teoria uma construção de segunda ordem sobre as interpretações práticas. Porém, para Celikates, tal modelo também tem os seus limites, uma vez que não examina as condições sociais capazes de obstruir o pleno desempenho das capacidades críticas, além de delegar, por vezes, uma autoridade epistêmica à perspectiva participante – como se os conhecimentos nativos fossem indubitáveis.

A terceira parte consiste num intenso esforço conceitual para articular essas duas vertentes como momentos distintos de um mesmo modelo mais amplo. Para que o reconhecimento das capacidades críticas ordinárias não ofusque as condições históricas que bloqueiam o seu desenvolvimento, o autor elenca um leque de casos empíricos relativos a déficits reflexivos, revelando neles as armadilhas das abordagens unilaterais. É o caso, por exemplo, da análise de W. E. B. Du Bois sobre os efeitos da segregação racial no sul estadunidense pós-Guerra Civil, pois, segundo Celikates, embora identifique que os grupos negros perdem ali a capacidade de refletir sobre a sua condição – ao incorporar a visão branca dominante –, a aposta de Du Bois em elites esclarecidas e aptas a representar os “verdadeiros interesses” dos oprimidos acaba anulando a possibilidade da crítica a partir da experiência vivida. Trata-se de um dos elementos relativos à questão da monologia, no sentido de uma teoria que se imuniza da validação por parte dos seus destinatários – isto é, da perspectiva participante –, ao passo que almeja transformações reais. Algo que os modelos do segundo Habermas e de Honneth acabam implicando ao recorrerem a proposições transcendentais e que, portanto, ultrapassam a historicidade das práticas. Ora, é na obra Conhecimento e interesse do primeiro Habermas em 1968,3 notadamente na sua discussão sobre a psicanálise, que o autor encontra um método adequado para atualizar a Teoria Crítica e é, então, capaz de fundamentar o modelo reconstrutivo a partir de critérios históricos e dialógicos. Com isto, não se trata de transferir hipóteses e conceitos substanciais psicanalíticos, mas do seu modelo paradoxal, isto é, a interpenetração entre crítica externa e crítica interna.

Retomando a exegese de Habermas sobre Freud, Celikates propõe que durante a situação analítica ocorre um processo reconstrutivo, pois a compreensão efetiva da gênese das patologias que acometem o paciente requer não só que o analisado simbolize sua história de vida ao trazer sonhos e relatos fragmentados mais espontâneos, mas também que o analista perscrute os significados inacessíveis de antemão – porque foram esquecidos e/ou reprimidos – de modo a estabelecer nexos causais entre si, visando explicar os mecanismos que distorcem o ato de rememoração (à maneira da crítica externa) e tecer uma narrativa mais coerente capaz de dar sentido à experiência vivida (à maneira da crítica interna). A Teoria Crítica se torna não mais que um momento do movimento de autorreflexão dos próprios atores e de transformação de práticas embrutecidas por condições coercitivas, pois não cabe mais a atitude afirmativa em torno das condições ideais da vida social (a história como estágios da presentificação da razão), mas sim identificar dialogicamente as condições inaceitáveis a partir da perspectiva participante, atualizando a autocompreensão ordinária sob formas deliberadas (a história como processo contingente e agonístico).

Podemos considerar que a obra analisada é exitosa em explicitar o que chamaríamos de “déficits de negatividade”, isto é, a ênfase sobre as formas de autodeterminação que podem acabar ofuscando os vínculos sociais regressivos e precários que solicitam da teoria uma interpretação mais forte, e por vezes antagônica, daquela construída pelos atores implicados. O livro consegue, no entanto, evitar que esta ênfase incorra numa visão mais fatalista do que crítica, na qual os atores se reduzem a determinações de forças anônimas e inexoráveis. Por outro lado, podemos notar que a obra revela um “déficit diagnóstico” que perpassa, largamente, a Teoria Crítica contemporânea, tendo em vista que essa busca por fundamentá-la fez com que tivesse ainda pouco a dizer sobre a anatomia dos conflitos emergentes, os quais, se equacionados, poderiam chegar a um novo diagnóstico do tempo presente – tal como no passado os fundadores dessa teoria propiciaram quando investigaram a ascensão do fascismo e as revoltas amalgamadas no ano de 1968.

 

NOTAS

1 Ver Habermas, Jürgen (2012), Teoria do agir comunicativo: sobre a crítica da razão funcionalista, volume II. São Paulo: WMF Martins Fontes. Tradução de Flávio Beno Siebeneichler (orig. 1981).

2 Ver Honnet, Axel (2009), Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Editora 34. Tradução de Luiz Repa (orig. 1992).

3 Ver Habermas, Jürgen (2014), Conhecimento e interesse. São Paulo: Editora Unesp. Tradução de Luiz Repa (orig. 1968).

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