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Revista Crítica de Ciências Sociais

versão On-line ISSN 2182-7435

Revista Crítica de Ciências Sociais  no.121 Coimbra maio 2020

 

RECENSÃO

Traverso, Enzo (2018), Melancolia de esquerda: marxismo, história e memória

 

Eduardo Rebuá

https://orcid.org/0000-0001-7954-3937

Departamento de Habilitações Pedagógicas, Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba | Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense Campus I – Cidade Universitária – João Pessoa-PB, CEP 58051-900, Brasil rebua7@gmail.com

 

Enzo Traverso

Traverso, Enzo (2018), Melancolia de esquerda: marxismo, história e memória. Belo Horizonte: Editora Âyiné, 487 pp. Tradução de André Bezamat

 

Este ensaio de matiz benjaminiano prospecta modos de sentir da esquerda. Não se trata de um rótulo da obra do historiador italiano Enzo Traverso mas, em poucas palavras, talvez de um horizonte do que o livro – dividido em sete capítulos mais uma introdução – apresenta. Publicado em 2018, não faz um diagnóstico das derrotas da esquerda, sendo antes um esboço de elaboração de uma história intelectual – segundo explicação do próprio autor em entrevista recente.1

Traverso, reunindo diversos artigos seus, demarca desde o prefácio que a mira do trabalho se posiciona para a dimensão melancólica da cultura de esquerda no século xx, entendendo-as (a cultura e a esquerda) como articulações complexas de experiências, utopias, paixões e ideologias, sendo o marxismo o melhor exemplo do que se construiu como uma hegemonia das lutas pelas transformações do mundo nos últimos dois séculos.

É da memória que a obra fala, aquele tecido – ora farrapo, ora nobre linha – que reveste o tempo e por ele é colocado em camadas, de onde as disputas por sentidos e interpretações são lugar-chave. Bordada pela temporalidade e pela insubmissão, a memória das lutas revolucionárias – ainda inseridas de modo controverso em muitos livros de história – aparece no livro prenhe de sentimento melancólico, não enquanto lamento, mas enquanto percepção dos derrotados no processo de rememoração (Eingedenken). A melancolia, resgatando a perspectiva de Benjamin, encarna assim o movimento de releitura da história, catástrofe em deslocamento que não é linearidade e progresso, mas embate constante entre subjugados e dominantes.

Mapear a cultura de esquerda significa a forja de uma crítica melancólica, sobretudo após 1989 e com suas derrotas em efeito dominó, num equilíbrio precário entre memória e história (p. 49). Nos últimos 30 anos tem havido mais possibilidades de identificação da melancolia como elaboração política fecunda, por dois motivos retroalimentados: o capitalismo encontrou trilhas na cultura, no Estado, no trabalho, que reafirmam sua capacidade de vencer quase sem cessar; a esquerda socialista assumiu cada vez mais a imagem de um animal taxidermizado, vivo por fora e morto internamente.

As operações narrativas realizadas ao longo da obra, ainda que em materiais produzidos separadamente, estabelecem conexões coerentes entre seus compartimentos, principalmente pela perspectiva da dialética benjaminiana que reivindica o ensaio enquanto síntese, exatamente por sua condição de crítica livre. Obviamente, não se trata de uma construção não acadêmica, mas sim de uma zona de fronteira fina entre pesquisa e cotidiano, escrita literária e análise científica, que encontra no filósofo alemão um suporte que é filosófico e também estético.

Traverso depura a melancolia de qualquer caráter de apatia e imobilidade, entendendo-a tanto como uma recusa do compromisso com a hegemonia (pp. 117-118) quanto um prisma de apreensão do desenvolvimento histórico. Com este filtro adaptado à esquerda e seus dramas, retira da condição de totem tanto Marx quanto a Escola de Frankfurt; coloca no divã os lutos vividos marginalmente e a boemia em suas metamorfoses e intérpretes (Trótski, Benjamin, os surrealistas, Marx, etc.); enfatiza o vigor do movimento anarquista, sujeito revolucionário formador do século xx e ainda ausente de muitas prateleiras históricas da esquerda; revisita o cinema para auscultar a arte e chegar à tensão entre comunismo, utopias derrotadas, lugares de memória e representação, através da decupagem de obras de Moretti, Pontecorvo, Eisenstein, Loach, Angelopoulos e Guzmán.

Num contexto global de incremento do fascismo, como são exemplos trágicos a Itália, Polônia, Brasil, Hungria e Chile, com diversos reveses da esquerda – sendo o Brexit um exemplo pedagógico –, Melancolia de esquerda demarca, como Benjamin o fez, uma modalidade de “freio de emergência”. Este deveria ser a antessala de qualquer reorganização das forças anticapitalistas de hoje, qualquer que seja a assunção crítica dos erros,2 através de um processo melancólico que redime exatamente porque politiza espaços de experiência coletivos e horizontes de mudança.

A obra de Traverso dialoga com a de Michael Löwy e Robert Sayre, publicada três anos antes3 – inclusive a dedicatória do intelectual italiano é precisamente para Löwy. Estes sociólogos recuperam a crítica do romantismo e reivindicam-na para a atualidade, debatendo grandes nomes do pensamento social ocidental. Enquanto expressão da revolução e também da melancolia, o romantismo permanece no tempo como espírito, por sua crítica da modernidade capitalista e da destruição das subjetividades e liberdades. A melancolia, a revolução e a memória constituem, sob a perspectiva da comparação, uma trinca que dialoga os dois livros, ambos preocupados sobremaneira com as lutas históricas perdidas, aquelas em disputa e as vindouras, numa temporalização-estratégia, logo, negando o continuum.

Professor da Universidade Cornell, em Nova York, e arguto analista de fenômenos europeus, notadamente do fascismo/nazismo e do Holocausto, Traverso triangula a análise benjaminiana com o – ainda assim denominado – Terceiro Mundo, sobretudo a América e a Ásia pós-coloniais. Da conversa original que projetou entre Theodor W. Adorno e C. L. R. James, o autor concorda com o segundo em relação ao diagnóstico da modernidade mais funcional às lutas subalternas, dos vencidos da periferia do mundo moderno-colonial-capitalista. Sua recuperação da abordagem de James acerca dos vínculos orgânicos entre colonialismo e fascismo, tendo a violência como diapasão, indica claramente como Traverso percebe os desafios da história a contrapelo na hora mais drástica de nossa sociabilidade destrutiva, quando neofascismo e ultraliberalismo amalgamam oprimidos e opressores de uma forma que daria inveja aos totalitarismos da primeira metade do século xx.

Outros encontros nascem da narrativa traversiana, como o já consagrado nexo político-filosófico Adorno-Benjamin e o menos conhecido Bensaïd-Benjamin. Em suas letras, o marxismo clássico de Lênin, Rosa e Trótski coincide com o marxismo negro de Du Bois, Césaire, James e Williams, que por sua vez coexiste no “laboratório” de Traverso com o marxismo ocidental de Gramsci, Adorno, Marcuse e Benjamin. Derrotadas em inúmeros processos, estas matrizes nascidas das cinzas da década de 1930 ou das lutas coloniais, dos campos de concentração nazistas ou dos gulags, têm se encontrado na Universidade, terreno onde o pensamento crítico se ancorou e construiu novas possibilidades epistemológicas e políticas (p. 370). A melancolia – obviamente também presente no mundo acadêmico – é uma das “ligas” inadiáveis que as instituições universitárias, os movimentos sociais, as insubordinações subalternas e as derrotas políticas podem gerir e gerar, sob expectativa de todos os mortos que marcam presença na memória e nos planos dos vivos.

 

NOTAS

1 Disponível em https://epoca.globo.com/enzo-traverso-quando-esquerda-falha-os-lideres-demagogos-aparecem-procura-de-um-bode-expiatorio-23288470 (consultado a 24.12.2019).

2 No Brasil o termo autocrítica (no caso, da esquerda) tem gerado inúmeros debates, a maioria despolitizados sob a defesa de que é uma ação que não cabe na conjuntura atual.

3 Löwy, Michael; Sayre, Robert (2015), Revolta e melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade. São Paulo: Boitempo, 288 pp.

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