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Revista Crítica de Ciências Sociais

versão On-line ISSN 2182-7435

Revista Crítica de Ciências Sociais  no.116 Coimbra set. 2018

 

REVISÕES CRÍTICAS

Em defesa da pesquisa lenta numa época de ciência acelerada

 

Maria do Mar Pereira

Department of Sociology, University of Warwick Social Sciences Building, Coventry, CV4 7AL, United Kingdom m.d.m.pereira@warwick.ac.uk

 

Enredos sexuais, tradição e mudança: as mães, os zecas e as sedutoras de além-mar

Reflexões a partir de Pais, José Machado (2016), Enredos sexuais, tradição e mudança: as mães, os zecas e as sedutoras de além-mar. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 325 pp.

 

Vivemos na era da academia rápida, eficiente, dinâmica, produtiva. Em Portugal, como em tantos outros países, institucionalizou­-se nos últimos anos uma cultura académica que eu e outras/os autoras/es temos apelidado de performativa (Ball, 2000; Blackmore e Sachs, 2003; M. M. Pereira, 2017). Esta transformação não só alterou as nossas práticas diárias de produção de conhecimento científico, como teve também um outro efeito muito significativo: reconfigurou profundamente as definições dominantes daquilo que conta como conhecimento científico de qualidade e valor. A atividade académica passou a ser, em muitos contextos, (re)tratada como trabalho que deve ter como objetivo atingir graus de produtividade o mais elevados possível, e cuja qualidade pode e deve ser avaliada em função do número de produtos produzidos (sejam eles artigos, projetos financiados, comunicações, patentes, ou alunas/os satisfeitas/os) (Ampudia de Haro, 2017; M. M. Pereira, 2017; T. S. Pereira, 2004). De forma a poder monitorizar a produtividade de indivíduos e organizações (e assim proceder à sua recompensa ou sanção), torna­-se necessário montar e manter estruturas complexas de auditoria – veja­-se, por exemplo, os relatórios e planos de atividade que somos regularmente chamadas/os a produzir. Estas estruturas exigem e produzem a medição, comparação, ranking e monetarização contínua da produção individual e coletiva (Ampudia de Haro, 2017; Knowles e Burrows, 2014), sempre por referência a um lema fundamental: quanto mais e quanto mais depressa produzirmos, melhor.

Dizer, neste contexto académico acelerado, que alguém produziu um estudo lento pode parecer ofensa ou injúria. Mas José Machado Pais assume essa caracterização explícita e orgulhosamente no seu novo livro Enredos sexuais, tradição e mudança: as mães, os zecas e as sedutoras de além­-mar (2016). Num vídeo de apresentação da obra, descreve­-a como “uma peça de artesanato, na medida em que foi elaborado com um tempo lento” (Pais, 2017). Para o autor, “a lentidão do tempo que caracteriza as pesquisas de pendor artesanal” era algo que podia jogar “a (s)eu favor” (Pais, 2016: 11). De facto, essa lentidão é a grande força e o principal contributo do livro, não só pelo conhecimento riquíssimo que gera, mas também pela postura científica que promove – porque, como nos diz o autor, “aquele tempo (lento) (…) propicia (…) descobertas etnográficas (…), ao contrário daquelas pesquisas de terreno feitas a contrarrelógio que apenas questionam aquilo que pressupõe” (Pais, 2017).

O livro é lento de muitas formas diferentes. É lento porque resulta de um longo e demorado trabalho de campo etnográfico sobre o movimento das “Mães de Bragança”. Desde a sua primeira incursão no terreno em Bragança em 2003, até à última visita em 2015, passaram mais de dez anos de trabalho de campo intermitente mas intenso em Trás­-os­-Montes e Espanha. Durante esse período, Machado Pais acumulou muita experiência de observação em casas de alterne e “cafés de subir”, muitas conversas com “mães”, clientes, prostitutas, autoridades locais, feiticeiras, proxenetas, jornalistas ou jovens, e muitas aventuras em lojas, feiras e festas… Tudo para nos ajudar a compreender este movimento altamente mediatizado, fundado em 2003 por um grupo de mulheres que, revoltadas com a infidelidade dos maridos, tentaram expulsar da região as trabalhadoras sexuais (maioritariamente) brasileiras que, na sua opinião, eram responsáveis por “desviar” estes homens.

O livro é lento também porque não se precipita a formular uma análise sobre o seu objeto no calor do momento, mas toma o seu tempo. Ele chega­-nos às mãos quase 15 anos depois da eclosão da polémica que estuda, “o tempo necessário para ganharmos uma boa distância em relação à realidade que se pretende” pesquisar (Pais, 2016: 12). Isto permite a Machado Pais analisar o movimento das “Mães de Bragança” não como um objeto concreto e claramente demarcado, mas sim como ponto de partida para uma análise mais vasta do modo como as pessoas negoceiam género, sexualidade e identidade nacional quando “as forças da tradição se enfrentam com as da mudança” (ibidem: 9) e quando “os costumes” locais se enfrentam com “o que vem de fora”, num mundo globalizado (ibidem: 286).

O livro é lento porque se detém nos pormenores e saboreia os detalhes, deixando­-os guiar a descoberta e discussão, resistindo à pressão para analisar apenas o que é útil e à tentação de chegar rapidamente a uma conclusão. Isto é possível porque o deambular de Machado Pais pelas ruas de Bragança e a região vizinha é, também ele, lento. É em passo vagaroso que ele passa à frente de uma certa casa de alterne, olhando­-a de soslaio como quem estava ali por acaso à procura de outra coisa, talvez como muitos dos homens que visitam aquela casa, e outras parecidas, pela primeira vez. É de forma lenta, mas animada e atribulada, quase cinematográfica, que Machado Pais, “assumindo o papel de detetive” (2016: 58), percorre a lista telefónica e as ruas de Bragança à procura de um potencial entrevistado, dantes proprietário de uma das mais conhecidas casas de alterne da cidade, mas agora um recluso em prisão domiciliária. Este passo lento, a demorar­-se nos pormenores, permite­-lhe reparar em pequenas coisas que servem como mote para grandes análises. Um exemplo disso é a música pimba “Ó Maria dá­-me o bife”, que Machado Pais ouve um dia, por acaso, tocar numa feira, e que acaba por inspirar um capítulo inteiro (o quarto dos oito capítulos que compõem o livro), no qual analisa normas de género e sexualidade através das letras de várias músicas e poemas populares.

Esta lentidão do livro tem vários efeitos. Ela prende e enreda­-nos na análise, e tornamo­-nos parte dos “enredos sexuais” que dão título ao livro. Nós próprias/os sentimos o desejo e a desilusão porque, com a sua análise lenta, Machado Pais consegue dar vida às situações e sensações que descreve. Isso aconteceu comigo de forma particularmente memorável no capítulo seis, intitulado “O chá de amarração” e dedicado à discussão de um segredo. Machado Pais levanta um pouco o véu sobre esse segredo… mas logo a seguir baixa­-o, nega­-se a satisfazer­-nos, deixando­-nos suspensas/os, tensos/as, inquietas/os. De repente, parece que vai revelar algo mais e nós começamos, sedentos/as e curiosas/os, a ler as frases mais depressa, sustendo a respiração à espera da revelação que vai atenuar a tensão… Para logo a seguir nos ser negada essa revelação, deixando o nosso desejo, de novo frustrado, ainda mais intenso e incontrolável. A lenta descrição etnográfica desse sedutor segredo consegue, assim, reproduzir a dinâmica de sedução que está no centro desse segredo, e que anima as relações sociais e sexuais que o livro analisa.

A lentidão da análise permite também outra coisa importante – relacionar fenómenos e níveis de análise que são habitualmente estudados separadamente: chá e música pimba, anedotas e tragédia, violência e saudade, telenovelas e literatura, sexualidade e história, colonialismo e intrigas locais, tradição e novas tecnologias. Estes e outros temas aparecem no livro enredados e interligados, tal como existem na vida quotidiana. Eles são um novelo emaranhado que, fio a fio, Machado Pais vai desembaraçando, às vezes com a ajuda de pertinentes teorias e conceitos das mais diversas ciências sociais, mas muitas vezes com a ajuda do acaso, do fortuito, da coincidência – a conversa que desperta uma nova pergunta, a música que despoleta uma associação diferente, o objeto na loja que gera uma ideia e soluciona um enigma.

A lentidão do livro permite, além disso, evitar interpretações fáceis e explorar paradoxos: o homem viril que, chegado à casa de alterne, só deseja conversar e receber mimos; mães sacrificadas e esposas oprimidas que são, ao mesmo tempo, detentoras de uma imensa influência; sedutoras (supostamente) todas­-poderosas que nem sempre têm o poder de controlar as suas próprias vidas, condições de trabalho ou passaportes. A exploração que Machado Pais faz destes paradoxos ilustra bem aquela que é, a meu ver, uma das características analiticamente mais significativas, e socialmente mais trágicas, dos regimes de género em sociedades sexistas. Embora haja assimetrias de poder inegáveis nesses regimes, muitas vezes não é possível identificar de forma clara e inequívoca os/as vencedores/as e os/as vencidos/as, porque as normas de género e sexualidade dominantes são tóxicas para toda a gente (M. M. Pereira, 2012). No caso da comunidade aqui analisada, estas normas produzem desigualdades, desencontros e desgostos, alguns profundamente trágicos, que ninguém deseja inteiramente mas que todas/os alimentam de forma mais ou menos consciente. A exploração destes paradoxos cruciais torna o livro, ele próprio, num paradoxo – é ao mesmo tempo triste e divertido, sério e frívolo, científico e cinematográfico. É, em parte, por isso mesmo que o livro consegue suscitar em cada leitor/a reflexões tão diversas, ricas e fecundas.

A mim, o livro levou­-me a pensar sobre temas que nós, cientistas sociais a trabalhar na universidade performativa, não podemos deixar de debater. Na minha própria etnografia da academia portuguesa, ouvi muitas/os entrevistadas/os – desde pessoas estabelecidas a colegas em início de carreira – explicar que estão sob tamanha pressão para produzir tanto, que não têm tempo para pensar a fundo sobre aquilo que produzem, fazer a investigação que realmente desejam ou ler o trabalho produzido por outros/as colegas (M. M. Pereira, 2017). Tenho argumentado em diferentes publicações (M. M. Pereira, 2016, 2017) que este regime de aceleração e intensificação do trabalho, e o clima generalizado de cansaço e alienação que ele gera, estão a ter consequências extremamente nocivas a muitos níveis. Por um lado, têm impactos epistémicos, afetando a qualidade do conhecimento que produzimos: que conhecimento é possível criar quando não se tem tempo suficiente para pensar, ler, debater e fazer peer review? Por outro, têm efeitos sobre as pessoas que produzem esse conhecimento, afetando a nossa saúde física, mental e emocional, a nossa vitalidade intelectual, a nossa vida pessoal, e as relações de troca e cooperação entre colegas. A situação é, em alguns contextos (e eu incluo nesta categoria o contexto português), tão severa, que há autoras/es a falar da existência de “uma catástrofe psicossocial e somática” (Gill e Donaghue, 2016: 91) entre académicos/as, uma “profunda crise somática e afetiva que ameaça destruir­-nos” (Burrows, 2012: 355; ver também Mountz et al., 2015).

Sei que José Machado Pais, como qualquer outro/a colega, também se sente profundamente pressionado pela “lufa­-lufa” (Pais, 2010) académica. No entanto, ele parece neste livro tentar resistir à pressa que essa lufa­-lufa induz. Sente­-se que este era o livro que ele queria escrever, ao ritmo que lhe fazia sentido – um ritmo que exige tempo para deambular, parar e pensar, e que nos encoraja também a nós, leitoras/es, a parar um pouco para pensar e deambular com ele. É, em parte por isso, que este livro é tão importante, refrescante e urgente. Infelizmente, muitos/as colegas em Portugal e no estrangeiro – especialmente aqueles/as com contratos temporários e precários – não têm condições de trabalho que lhes permitam fazer pesquisa lenta e demorada.

Isto coloca desafios especialmente difíceis para as ciências sociais, e em particular para a etnografia (Briggs, 2018). Será que este método, tantas vezes lento e demorado, é compatível com a universidade performativa? Até que ponto, e com que sacrifícios, é possível fazer etnografia ao ritmo da ciência acelerada: uma etnografia em modo multi­-tasking (que temos de conciliar com uma carga intensa de aulas e burocracia académica), com resultados numerosos e rápidos, que possam ser convertidos em artigos para revistas internacionais de renome, e que venham depois a ter impactos sociais claros e mensuráveis (Ampudia de Haro, 2017; Knowles e Burrows, 2014)? O que acontece à etnografia quando a fazemos com pressa? Essas são interrogações que temos de debater em conjunto urgentemente. Este livro de José Machado Pais é uma importante inspiração para este debate, porque nos lembra as coisas extraordinárias que é possível fazer quando há tempo para parar, pensar e deambular. Em tempos de aceleração, essa lentidão pode ser a maior das descobertas.

 

NOTAS

Ampudia de Haro, Fernando (2017), “O impacto de (não) ter impacto: para uma sociologia crítica das publicações científicas”, Revista Crítica de Ciências Sociais, 113, 83­-106.

Ball, Stephen J. (2000), “Performativities and Fabrications in the Education Economy: Towards the Performative Society?”, The Australian Educational Researcher, 27(2), 1­-23.

Blackmore, Jill; Sachs, Judyth (2003), “Managing Equity Work in the Performative University”, Australian Feminist Studies, 18(41), 141­-162.

Briggs, Daniel (2018), “On the Frontline: Ethnography in a Time of Neoliberalised Learning and Teaching”, Discover Society, 6 de março. Consultado a 02.04.2018, em https://discoversociety.org/2018/2003/2006/on-the-frontline-ethnography-in-a-time-of-neoliberalised-learning-and-teaching/.

Burrows, Roger (2012), “Living with the H­-Index? Metric Assemblages in the Contemporary Academy”, The Sociological Review, 60(2), 355­-372.

Gill, Rosalind; Donaghue, Ngaire (2016), “Resilience, Apps and Reluctant Individualism: Technologies of Self in the Neoliberal Academy”, Women’s Studies International Forum, 54, 91­-99.

Knowles, Caroline; Burrows, Roger (2014), “The Impact of Impact”, Etnográfica, 18(2), 237­-254.

Mountz, Alison; Bonds, Anne; Mansfield, Becky; Loyd, Jenna; Hyndman, Jennifer; Walton­-Roberts, Margaret; Basu, Ranu; Whitson, Risa; Hawkins, Roberta; Hamilton, Trina; Curran, Winifred (2015), “For Slow Scholarship: A Feminist Politics of Resistance through Collective Action in the Neoliberal University”, ACME, 14(4), 1235­-1259.

Pais, José Machado (2010), Lufa­-lufa quotidiana: ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.         [ Links ]

Pais, José Machado (2016), Enredos sexuais, tradição e mudança: as mães, os zecas e as sedutoras de além­-mar. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.         [ Links ]

Pais, José Machado (2017), “Livro do mês – Maio 2017”, Biblioteca do ISCTE­-IUL. Consultado a 02.04.2018, em https://www.iscte-iul.pt/calendars/item/273/enredos-sexuais-tradicao-mudanca-maes-zecas-sedutoras-de-alemmar.

Pereira, Maria do Mar (2012), Fazendo género no recreio: a negociação do género em espaço escolar. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.         [ Links ]

Pereira, Maria do Mar (2016), “Struggling within and beyond the Performative University: Articulating Activism and Work in an ‘Academia without Walls’”, Women’s Studies International Forum, 54, 100­-110.

Pereira, Maria do Mar (2017), Power, Knowledge and Feminist Scholarship: An Ethnography of Academia. London: Routledge.         [ Links ]

Pereira, Tiago Santos (2004), “Processos de governação da ciência: o debate em torno do modelo de financiamento das unidades de investigação em Portugal”, Revista Crítica de Ciências Sociais, 70, 5­-32.

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