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Revista Crítica de Ciências Sociais

versão On-line ISSN 2182-7435

Revista Crítica de Ciências Sociais  no.113 Coimbra set. 2017

 

RECENSÃO

Klein, Naomi (2016), Tudo pode mudar. Capitalismo vs. clima. Tradução de Ana Cristina Pais

 

Pedro Miguel Cardoso

Doutorando na Universidade de Lisboa. Alameda da Universidade, 1649-004, Lisboa, Portugal cardoso.c.m.p@gmail.com

 

Klein, Naomi (2016), Tudo pode mudar. Capitalismo vs. clima. Tradução de Ana Cristina Pais. Lisboa: Editorial Presença, 653 pp.

 

Vivemos em tempo de crise. As escolhas que fizermos serão decisivas. Ou mudamos radicalmente o nosso sistema económico, ou ele muda radicalmente o nosso mundo. O capitalismo e o clima estão em colisão. As alterações climáticas são uma batalha entre o capitalismo e o planeta. É esta a tese da jornalista e ativista canadiana Naomi Klein. Publicado em 2014,1 Tudo pode mudar pode ser considerado uma sequela de um livro anterior que a autora intitulou A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre.2 Em 2008, Naomi Klein argumentou que o mercado desregulado e global não triunfou democraticamente. Pelo contrário, o capitalismo usa constantemente a violência contra o indivíduo e a sociedade, aproveitando-se das crises (guerra, desastres ou insegurança) para introduzir medidas impopulares de choque económico. Também podemos considerar Tudo pode mudar3 como mais um volume da sua crítica ao capitalismo. Vale a pena recordar outro livro da autora publicado em 2000, com o título No Logo,4 onde aborda as más práticas das grandes marcas, desde o dinheiro que gastam em publicidade e seus efeitos negativos, à exploração dos seus trabalhadores.

Em Tudo pode mudar a autora sustenta que a problemática das alterações climáticas traz consigo um “poder revolucionário” (Capítulo 1). Para evitar um “futuro sombrio” é necessário mudar o modo como vivemos e “como as nossas economias funcionam”, mudar as “histórias que contamos sobre o nosso lugar na Terra” (p. 15). A crise climática pode, por isso, “constituir a base de um poderoso movimento de massas” (p. 19).

Num regresso à sua crítica do “fundamentalismo do mercado livre” (Capítulo 2), Klein denuncia a imposição de um quadro político global com máximas liberdades para as empresas multinacionais, que detêm demasiado poder político. Denuncia os mecanismos que lhes dão esse poder. Salienta a existência de lóbis ideológicos e económicos poderosos por detrás do negacionismo em matéria climática. Segundo ela, podemos encontrar nas negociações internacionais das últimas décadas dois processos paralelos: o falhanço do processo climático e o vitorioso processo de globalização empresarial. É o fundamentalismo de mercado que tem sabotado a resposta coletiva às alterações climáticas. Neste sentido, afirma que grande parte do movimento pelo clima desperdiçou décadas procurando soluções de mercado para o problema. As alterações climáticas constituem um desafio profundo ao “centrismo cauteloso” e ao “fetiche do centrismo” (p. 37).

Para superarmos a crise climática necessitamos de ação coletiva numa escala sem precedentes. A difamação da ação coletiva e a veneração da busca do lucro infiltraram-se nas nossas sociedades e nas nossas almas. Por isso é necessário “ultrapassar os bloqueios ideológicos” (Capítulo 3). Para evitarmos o pior, as soluções modestas não bastam. Os defensores do capitalismo verde não são realistas quando apregoam as maravilhas da tecnologia verde ou a dissociação dos impactos ambientais da atividade económica. A economia não pode continuar a funcionar da mesma maneira.

A autora acredita que há uma relação clara entre a propriedade pública e a capacidade das comunidades abandonarem os combustíveis fósseis. É necessário derrubar um dos mitos ideológicos da era do mercado livre: que os serviços geridos pelo setor privado são superiores aos do setor público. O “planeamento e a proibição” (Capítulo 4) têm também um papel a desempenhar. Mas um planeamento que difere das versões mais centralizadas do passado. As comunidades deveriam receber poderes para definir os métodos que melhor funcionam para elas. A descentralização do poder e a ação climática bem-sucedida andam de mãos dadas.

É também fundamental “ir além” do modelo económico extrativista (Capítulo 5). O extrativismo é uma relação não recíproca com a Terra, baseada no domínio e na violência, uma relação que tira sem cuidar. O extrativismo também está ligado à ideia de “zonas de sacrifício”, lugares que não contam, que podem ser envenenados e destruídos. Esta “ideia tóxica sempre esteve ligada ao imperialismo”, com povos e culturas sacrificáveis e noções de superioridade racial (p. 211).

Neste livro, Naomi Klein também aborda as “ligações entre grandes empresas e grandes grupos verdes” (Capítulo 6) e a ideia de que são “os multimilionários verdes” que “nos vão salvar” (Capítulo 7). Refere-se às boas intenções de alguns, apresentando factos de como as exigências de construir um império de sucesso superaram o imperativo climático.

Sobre as soluções tecnológicas para os problemas, a autora é clara e mesmo demolidora, afirmando que a geoengenharia pode ser “o último ato trágico nesta história fantasista de controlo” (p. 326). Pergunta “a solução para a poluição é mais poluição?” (Capítulo 8). A geoengenharia é de alto risco e com grande probabilidade de criar ainda mais problemas. A solução não é consertar o nosso mundo, mas sim consertarmo-nos a nós próprios. É necessário regressar à precaução. Por exemplo, cabe à indústria provar que os seus métodos são seguros. Quando a saúde humana e o ambiente estão substancialmente em risco, não é necessária certeza científica absoluta antes de passar à ação.

As tentativas “de enfrentar as alterações climáticas” serão infrutíferas, a não ser que sejam encaradas “como parte de uma batalha muito mais alargada de cosmovisões, um processo de reconstrução e reinvenção da ideia do que é coletivo, do que é comunitário, do que são recursos comuns, do que é civilizado e do que é cívico” (p. 552). As soluções para a crise climática “são também a melhor esperança de construir um sistema económico muito mais estável e equitativo, que fortaleça e transforme a esfera pública, promova o trabalho em abundância e digno e controle radicalmente a ganância empresarial” (p. 159). Uma resposta robusta às reduções de emissões pode constituir a base de um projeto económico transformador. Daí a pertinência do slogan “Alteração do sistema, não alterações climáticas” (p. 195). Naomi Klein neste livro faz um intenso apelo à mobilização e à ação. Apresenta exemplos da crescente resistência dos cidadãos aos planos da indústria extrativa de combustíveis fósseis (Capítulo 9) e acredita no potencial destes movimentos para revitalizar a democracia (Capítulo 10). Defende os direitos dos indígenas (Capítulo 11) como direitos de todos e o pagamento da dívida histórica dos países mais ricos (Capítulo 12). Podemos no entanto levantar algumas questões: Como fazer face aos poderosos interesses instalados e mobilizar um conjunto de pessoas e países que não se sentem seriamente ameaçados pelas alterações climáticas no imediato? Saberão as sociedades superar as tensões resultantes das crescentes migrações ambientais e resistir à tentação da guerra? Poderão as alterações climáticas contribuir para mudar o sistema político e económico, mas para pior? Como terá dito Walter Benjamin “cada ressurgimento do fascismo dá testemunho de uma revolução fracassada”.5 É uma responsabilidade histórica. Cabe-nos dar a resposta nas próximas décadas.

Este livro, que como o anterior já deu origem a um documentário cinematográfico (realizado por Avi Lewis), é também uma tomada de posição num crescente debate que se tem desenrolado sobre a possibilidade de se superar a crise climática (e ecológica) no quadro do funcionamento do sistema capitalista, nomeadamente na sua versão neoliberal. A célebre expressão “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo” está a perder validade. Entre aqueles que acreditam que podemos superar a crise climática no quadro do capitalismo e aqueles que defendem que só no quadro de um sistema substancialmente diferente se pode garantir a sustentabilidade ecológica e o bem-estar da humanidade, Naomi Klein toma posição.

 

NOTAS

1 Naomi Klein (2014), This Changes Everything: Capitalism vs. The Climate. New York: Simon & Schuster, Inc.

2 Naomi Klein (2008), The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism. New York: Henry Holt and Company, Inc.

3 Venceu o prémio Hilary Weston Writers’ Trust Prize for Nonfiction.

4 Naomi Klein (2000), No Logo: Taking Aim at the Brand Bullies. Toronto: Vintage Canada Edition, Random House of Canada Limited.

5 Walter Benjamin citado por Slavoj Žižek (2013), Demanding the Impossible. Organização de Yong-june Park. Cambridge: Polity Press.

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