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Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar

versão impressa ISSN 2182-5173

Rev Port Med Geral Fam vol.33 no.6 Lisboa dez. 2017

 

CLUBE DE LEITURA

Disfunção erétil: haverá melhoria com o exercício físico?

Erectile dysfunction: does it improve with physical exercise?

Carolina Ferreira*, Maria Gouveia*, Sara Carmona*, Raquel Sanches*

*USF São Julião


 

Silva AB, Sousa N, Azevedo LF, Martins C. Physical activity and exercise for erectile dysfunction: systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med. 2017;51(19):1419-24. doi: 10.1136/bjsports-2016-096418

Introdução

A disfunção erétil (DE), definida como a incapacidade persistente do homem em obter e manter uma ereção, é uma entidade comum e aumenta com a idade (prevalência de 37% nos homens com 70-75 anos). De etiologia multifatorial, é causa de deterioração de qualidade de vida e a sua presença prediz um maior risco cardiovascular. Apesar de o tratamento farmacológico ser a primeira linha de tratamento, o papel das intervenções no estilo de vida tem vindo a ser reconhecido.

Objetivo

A revisão sistemática e a meta-análise pretendem avaliar os efeitos da atividade e exercício físico na função erétil, em ensaios clínicos sobre a disfunção erétil.

Métodos

A revisão sistemática foi conduzida de acordo com a Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analyses (PRISMA) statement. Realizou-se a pesquisa bibliográfica em seis bases de dados eletrónicas, entre janeiro de 1990 e julho de 2016; foi feita pesquisa manual de referências bibliográficas de estudos controlados randomizados. Critérios de inclusão dos estudos: população de homens adultos com o diagnóstico de disfunção erétil (independentemente da etiologia ou duração), feito com base em critérios de diagnóstico como o questionário International Index of Erectile Dysfunction (IIEF) ou história clínica compatível; se a intervenção resultasse de atividade física em exclusivo ou em associação a farmacoterapia; se a comparação fosse a ausência de atividade física ou exercício e/ou tratamento habitual providenciado pelo médico; se o resultado fosse uma mudança na qualidade da ereção reportada pelo utente através de um score de sintomas de disfunção (como o IIEF); se o estudo fosse um ensaio clínico controlado e randomizado; se o período de seguimento fosse de pelo menos 30 dias. Foram registados a diferença entre o score de função erétil basal e no período de seguimento, expressa em percentagem, bem como o valor p. Dois autores avaliaram o risco de viés dos estudos selecionados, utilizando a ferramenta da Cochrane. Para a meta-análise foi calculada a diferença média entre o grupo de intervenção e o grupo de controlo. Foi feita uma análise de sensibilidade em que cada artigo foi removido sequencialmente da análise para se avaliar se os estudos individualmente enviesavam o resultado do grupo.

Resultados

Dos 5.465 estudos iniciais foram selecionados sete, onde se incluíam 478 participantes (submetidos a intervenções de exercício aeróbio, pélvico ou combinado). A ferramenta utilizada para avaliar a disfunção erétil foi homogénea, pois todos utilizaram o questionário IIEF. A percentagem de aumento no score IIEF variou entre 15,01% e 129,33%. O período de seguimento variou entre oito semanas e dois anos. O risco de viés foi identificado como moderado/alto devido à impossibilidade de ocultação entre os doentes e clínicos, bem como à ocultação questionável por parte dos avaliadores dos resultados. Foi feita uma meta-análise em que os dados agrupados mostraram uma melhoria estatisticamente significativa no score da função erétil, com uma diferença média de 3,85 entre o grupo de intervenção e o grupo de controlo (intervalo de confiança (IC) 95% entre 2,33 a 5,37). O benefício continuava a ser demonstrado mesmo depois da análise de sensibilidade, pois a diferença média do score variou entre 3,39 e 4,28. Analisando os subgrupos, o benefício foi também demonstrado: nos doentes com fatores de risco cardiovasculares isolados e naqueles com doença cardíaca coronária ou prostatectomia radical; nas intervenções de curto e longo prazo; nos ensaios clínicos que avaliaram a atividade física e exercício isoladamente ou em adição ao tratamento habitual com maior benefício no tratamento combinado. Os estudos que avaliaram os exercícios pélvicos não mostraram benefício significativo no score da função erétil (5,10, IC, 1,34-11,54).

Conclusão

Este trabalho concluiu que a atividade física e o exercício físico se associam a uma melhoria da disfunção erétil reportada pelo doente, principalmente com o exercício aeróbico de moderada a elevada intensidade.

Comentário

Tal como referido, a DE é definida com a incapacidade persistente de iniciar e manter uma ereção suficiente para permitir uma performance sexual satisfatória.1 É uma patologia comum em Portugal, com uma prevalência de cerca de 12,9%.2 Afeta a saúde física e psicológica do doente e pode ter um impacto significativo na qualidade de vida.2-3

Internacionalmente não é feita nenhuma recomendação sobre a realização de atividade ou exercício físico como parte integrante do tratamento da disfunção erétil. São referidas apenas mudanças nos estilos de vida, que podem preceder ou acompanhar o tratamento farmacológico, mas não especificam a realização de atividade física/exercício como uma possibilidade de tratamento.4-6

Iniciámos a análise desta revisão e meta-análise pela qualidade metodológica e pelo interesse da temática estudada. Os estudos foram selecionados com critérios de inclusão bem definidos que incluíam apenas homens adultos com diagnóstico de disfunção erétil (foi definida a população, a intervenção, a comparação e o resultado). Os critérios de exclusão estavam também bem definidos. Em relação à comparação «atividade física/exercício vs. ausência de exercício e/ou tratamento habitual», verificou-se uma melhoria estatisticamente significativa da pontuação do score da função erétil, com uma diferença média de 3,85 entre o grupo de intervenção e o grupo de controlo (IC95%, 2,33-5,37). A revisão e meta-análise têm, no entanto, algumas limitações. O número de estudos selecionados (n=7) e o número total de participantes (n=478) foi relativamente baixo. Não foi possível assegurar uma ocultação eficiente tanto para os doentes como para os investigadores e é questionável que tenha ocorrido na análise dos dados, podendo enviesar os resultados obtidos. O tempo de seguimento foi muito heterogéneo, variando entre as oito semanas e os dois anos. Por fim, nenhum dos estudos avaliou quais os potenciais malefícios da intervenção.

Uma revisão sistemática realizada em 2011 já tinha demonstrado que a mudança de estilos de vida e a farmacoterapia para corrigir os fatores de risco cardiovasculares eram efetivos em melhorar a função sexual em homens com DE.7 O estudo aqui apresentado remete para a relação entre a prática de atividade física e exercício e a disfunção erétil, demonstrando que no grupo que faz exercício físico, exercício aeróbico de moderada a elevada intensidade, há uma melhoria da função sexual. Estes resultados são pertinentes para a prática clínica, reforçando a necessidade de intervenção nos estilos de vida para uma educação para a saúde eficiente e permitem afirmar que o tratamento dos doentes com DE, em qualquer nível de cuidados, deve incluir sistematicamente a prescrição do exercício físico. Ainda assim, seria importante a realização de estudos adequadamente controlados e randomizados que pudessem evitar os vieses detetados e clarificar os efeitos do exercício a longo prazo na DE, os seus eventuais riscos e a definição dos parâmetros de tempo, frequência, intensidade e duração para otimizar os seus efeitos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. NIH Consensus conference - Impotence: NIH consensus development panel on importance. JAMA. 1993;270(1):83-90.         [ Links ]

2. Vendeira P, Pereira NM, Tomada N, Carvalho L. Estudo EPISEX-PT/Masculino: prevalência das disfunções sexuais masculinas em Portugal. Cad Sexologia. 2011;(4):15-22.         [ Links ]

3. Feldman HA, Goldstein I, Hatzichristou DG, Krane RJ, McKinlay JB. Impotence and its medical and psychosocial correlates: results of the Massachusetts Male Aging Study. J Urol. 1994;151(1):54-61.         [ Links ]

4. Hatzimouratidis K, Eardley I, Giuliano F, Hatzichristou D, Moncada I, Salonia A, et al. Guidelines on male sexual dysfunction: erectile dysfunction and premature ejaculation. Arhem, NL: European Association of Urology; 2015.         [ Links ]

5. Montague DK, Jarow JP, Broderick GA, Dmochowski RR, Heaton JP, Lue TF, et al. The management of erectile dysfunction. Linthicum, MD: American Urological Association; 2011.         [ Links ]

6. Bella AJ, Lee JC, Carrier S, Bénard F, Brock GB. 2015 CUA Practice guidelines for erectile dysfunction. Can Urol Assoc J. 2015;9(1-2):23-9.         [ Links ]

7. Gupta BP, Murad MH, Clifton MM, Prokop L, Nehra A, Kopecky SL. The effect of lifestyle modification and cardiovascular risk factor reduction on erectile dysfunction: a systematic review and meta-analysis. Arch Intern Med. 2011;171(20):1797-803.         [ Links ]

 

Conflitos de interesse

As autoras declaram não ter quaisquer conflitos de interesse.

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