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Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar

versão impressa ISSN 2182-5173

Rev Port Med Geral Fam vol.33 no.1 Lisboa fev. 2017

 

CLUBE DE LEITURA

A fitoterapia no tratamento dos sintomas da menopausa: qual a evidência?

Plant-based therapies in menopausal symptoms: what is the clinical significance?

Daniela Almeida Ribeiro, Sara Matos Moreira

Médicas Internas de Medicina Geral e Familiar , Unidade Local de Saúde de Matosinhos, USF Leça


 

Franco OH, Chowdhury R, Troup J, Voortman T, Kunutsor S, Kavousi M, et al. Use of plant-based therapies and menopausal symptoms: a systematic review and meta-analysis. JAMA. 2016;315(23):2554-63.

Introdução

A menopausa é considerada o fim da vida reprodutiva da mulher. Esta fase pode estar associada a sintomas como os afrontamentos, suores noturnos e secura vaginal. As queixas de afrontamentos e suores noturnos são reportadas em 50,3% a 82,1% das mulheres em menopausa.

Para o controlo desta sintomatologia estão disponíveis tratamentos médicos, nomeadamente a terapia hormonal de substituição. Contudo, devido ao seu potencial efeito negativo ao nível do sistema cardiovascular e cancro de mama, 40 a 50% das mulheres ocidentais optam por terapias complementares, onde se incluem os medicamentos à base de plantas.

Estes medicamentos incluem a suplementação oral com fitoestrogénios, como as isoflavonas de soja e outros extratos de soja, ervas medicinais como red clover e black cohosh, ervas medicinais chinesas ou outras.

Neste contexto foi realizada uma revisão sistemática e uma meta-análise para avaliar o efeito dos medicamentos à base de plantas no controlo dos sintomas da menopausa.

Métodos

Foi realizada uma pesquisa bibliográfica nas bases de dados de medicina baseada na evidência (OVID, MEDLINE, EMBASE e Cochrane) até 27 de março de 2016. Nesta pesquisa selecionaram os ensaios clínicos controlados e randomizados que avaliavam o efeito dos medicamentos à base de plantas (plantas, fitoestrogénios, soja, isoflavonas, ginseng, black cohosh, cimicifuga, ERr 731 rhubarb raponticin, erva de São João, medicamentos complementares, tradicionais e de medicina chinesa) nos sintomas da menopausa, incluindo afrontamentos, suores noturnos e secura vaginal, em mulheres na perimenopausa, menopausa ou pós-menopausa.

Os ensaios elegíveis foram divididos em dois grupos de intervenção: (1) terapias biológicas, incluindo os fitoestrogénios (isoflavonas de soja, isoflavonas de red clover, entre outros), black cohosh, erva de São João, entre outras, e (2) ervas medicinais, chinesas ou outras, como o ERr 731 rhubarb raponticin.

Resultados

De acordo com os critérios de seleção foram incluídos 62 ensaios (52 sobre terapias biológicas e 10 sobre ervas medicinais), envolvendo 6.653 mulheres. A duração das intervenções variou entre quatro semanas e dois anos, mas a maioria tinha mais de 12 semanas.

Em relação à suplementação com fitoestrogénios compostos e com fitoestrogénios individualmente verificou-se uma diminuição do número dos afrontamentos diários (RR -1,31; IC 95% -2,02 a -0,619) e da secura vaginal (RR -0,31; IC 95% -0,52 a -0,10). Contudo, não se verificou uma diferença significativa nos suores noturnos. Em relação ao red clover foi associado a melhorias nos suores noturnos, mas não na frequência dos afrontamentos.

A suplementação individualmente com black cohosh não foi associada a alterações do número de afrontamentos ou de suores noturnos.

Não foi possível realizar uma meta-análise sobre a relação das ervas medicinais com os sintomas da menopausa devido ao número limitado de ensaios clínicos controlados e randomizados. Os resultados dos ensaios que avaliaram o uso de ervas medicinais chinesas, no geral, não demonstraram associação com os sintomas da menopausa; porém, os resultados não são consistentes. Os ensaios que avaliaram o uso de ervas medicinais não chinesas (como a ERr 731, um extrato isolado da Rheumrhaponticum e o pycnogenol, um extrato de casca de pinheiro) reportaram uma diminuição do número de afrontamentos (RR -1,62; IC 95% -2,29 a -0,95).

Conclusão

Os resultados desta meta-análise sugerem que quer os suplementos de fitoestrogénios compostos quer individualmente estão associados a reduções modestas na frequência dos afrontamentos e da secura vaginal. Contudo, pelas limitações metodológicas, são necessários mais estudos de elevada qualidade para determinar a associação entre a fitoterapia e o controlo dos sintomas da menopausa.

COMENTÁRIO

Os sintomas mais frequentes durante a menopausa são os sintomas vasomotores, alterações do sono, alterações urogenitais e sexuais e as perturbações do humor.1

Os sintomas vasomotores moderados a severos têm potencial de redução da qualidade de vida, sendo o tratamento mais eficaz a terapêutica hormonal de substituição, reduzindo em 75% a frequência e a gravidade dos sintomas.2-3

Contudo, grandes ensaios clínicos demonstraram um risco acrescido de patologia cardiovascular e de cancro de mama nas mulheres sob terapêutica hormonal de substituição, o que levou a comunidade médica, e mesmo as mulheres, a questionar a sua segurança.2-3

Assim, vários estudos e ensaios clínicos têm sido realizados no âmbito da fitoterapia e dos medicamentos alternativos para o tratamento dos sintomas da menopausa, incluindo a suplementação oral com fitoestrogénios, ervas medicinais como red clover e black cohosh, ervas medicinais chinesas ou outras.

Por ser um tema em discussão permanente na comunidade científica e pelo elevado número e diversidade de fitoterapias disponíveis pareceu-nos pertinente a análise desta revisão, a qual procurou compilar a evidência atualmente disponível acerca deste tema.

Relativamente às questões metodológicas, a maior parte dos estudos randomizados incluídos são limitados por amostras pequenas, analisam apenas uma terapia ou sintoma específico e têm períodos curtos de seguimento e conclusões inconsistentes.

Esta revisão colmata algumas destas questões, pois permitiu analisar a associação de uma ampla variedade de medicamentos à base de plantas no tratamento de três sintomas (afrontamentos, suores noturnos e secura vaginal), envolvendo 6.653 mulheres com um follow-up superior a 12 semanas, na maioria dos casos.

No que se refere aos resultados, esta revisão sugere que a suplementação com fitoestrogénios compostos ou individualmente está associada a reduções modestas na frequência dos afrontamentos e na secura vaginal, mas não demonstrou redução significativa nos suores noturnos.

Uma revisão da Cochrane não encontrou evidência que a suplementação com fitoestrogénios reduzisse a frequência e a severidade dos afrontamentos e dos suores noturnos. Afirma ainda que não foi encontrada evidência de que a utilização destes suplementos esteja associada a efeitos laterais nocivos a curto prazo.4

Os fitoestrogénios são derivados de espécies vegetais, com uma estrutura química semelhante à do estradiol e, portanto, aparentemente podem ter alguma atividade estrogénica. Podem ser agrupados em três grandes classes: isoflavonas, lignanos e cumestanos. Contudo, este mecanismo de ação também pode ser associado a efeitos adversos como a hiperplasia endometrial. A biodisponibilidade destas substâncias é muito variável e dependente do tipo de dieta.2

Em relação à suplementação individualmente com black cohosh, a NICE acrescenta que existe alguma evidência de que pode diminuir os sintomas vasomotores.5 Contudo, esta revisão não encontrou associação com alterações no número de afrontamentos ou de suores noturnos, afirmando que existe uma falta de clareza em relação aos seus compostos e mecanismos de ação, bem como aos seus efeitos adversos, não recomendando o seu uso no tratamento dos sintomas da menopausa.

Os resultados dos ensaios que avaliaram o uso de ervas medicinais chinesas, no geral, não demonstraram associação com os sintomas da menopausa. E os ensaios que avaliaram o uso de ervas medicinais não chinesas (como o pycnogenol, um extrato de casca de pinheiro) reportaram uma diminuição do número de afrontamentos; porém, os resultados não são consistentes e a evidência é limitada para que se possa recomendar o seu uso.

A interpretação destes resultados tem que considerar algumas limitações metodológicas. Designadamente, não foram avaliados os efeitos adversos desta terapêutica, apenas foram estudados três sintomas (excluindo sintomas como alterações do humor e disfunção sexual), a qualidade dos estudos incluídos foi limitada, contribuindo para a heterogeneidade dos achados, o número de estudos disponíveis para realizar algumas avaliações foi pequeno, além de que os sintomas eram reportados pelas mulheres, o que pode ter levado a vieses de memória e de informação, permanecendo a falta de informação acerca dos efeitos adversos a longo prazo associados à fitoterapia.

Desta forma, pelas limitações metodológicas enumeradas, os autores consideram que são necessários mais estudos de elevada qualidade, metodologia homogénea e amostras relevantes para determinar a associação entre a fitoterapia e o controlo dos sintomas da menopausa.

Depois da análise deste artigo e da revisão da literatura atual, concluímos que, embora este tipo de terapêutica tenha sido proposta para o tratamento da sintomatologia vasomotora, ainda não está comprovada a sua eficácia. Apesar de múltiplas formulações estarem disponíveis no mercado, a sua segurança é incerta e as interações medicamentosas não estão esclarecidas.3,6

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Cavadas LF, Nunes A, Pinheiro M, Silva PT. Abordagem da menopausa nos cuidados de saúde primários (Management of menopause in primary health care). Acta Med Port. 2010;23(2):227-36. Portuguese

2. Silva DP, Carvalho JL, Sousa M, Antunes AM, editors. Consenso e estratégias para a saúde da mulher na pós-menopausa (Internet). Lisboa: Sociedade Portuguesa de Ginecologia; 2004.         [ Links ] Available from: http://www.spginecologia.pt/uploads/menopausa.pdf

3. Roberts H, Hickey M. Managing the menopause: an update. Maturitas. 2016;86:53-8.         [ Links ]

4. Lethaby A, Marjoribanks J, Kronenberg F, Roberts H, Eden J, Brown J. Phytoestrogens for menopausal vasomotor symptoms. Cochrane Database Syst Rev. 2013;12:CD001395.         [ Links ]

5. National Institute for Health and Care Excellence. Menopause: diagnosis and management (Internet). London: NICE; 2015. Available from: https://www.nice.org.uk/guidance/ng23/resources/menopause-diagnosis-and-management-1837330217413         [ Links ]

6. Mintziori G, Lambrinoudaki I, Goulis DG, Ceausu I, Depypere H, Erel CT, et al. EMAS position statement: non-hormonal management of menopausal vasomotor symptoms. Maturitas. 2015;81(3):410-3.         [ Links ]

 

Conflitos de interesse

As autoras declaram não ter conflito de interesses.

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