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Da Investigação às Práticas

versão On-line ISSN 2182-1372

Invest. Práticas vol.6 no.2 Lisboa set. 2016

 

RECENÇÃO

Souta, Luís (2014). Fa(r)do Escolar.

Lisboa: Edições Ex-Libris.


 

Ana Luísa Pires

Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúba ana.luisa.pires@ese.ips.pt  

Contacto

 

Fa(r)do Escolar, de Luís Souta, é uma compilação de textos sobre a Escola, em que a visão crítica do autor - umas vezes subtil, outras mais acutilante -, nos conduz a outros tempos e outras épocas, retratando e dando vida a uma realidade educativa, social e política que marcou Portugal nas passadas décadas de sessenta e setenta. Neste contexto espaciotemporal, e tendo na sua base uma forte inspiração autobiográfica, a singularidade das vivências e situações que dão corpo ao livro é trabalhada de forma a evidenciar a matriz social e coletiva que estrutura e dá sentido às narrativas.

Como escreve o autor, “é com o método comparativo, a que a antropologia me habilitou, que recuo no passado: interesso-me pela escola de antanho porque a do presente me preocupa e a do futuro me inquieta” (p. 182).

O livro é composto por cinquenta textos, alguns dos quais já publicados em A Escola da Nossa Saudade, em 1995 (que reuniu textos do jornal A Página da Educação entre 1992 e 1995), e integra também outros textos publicados no Ensino Magazine, entre 2006 e 2012. Como é dito pelo autor, o Fa(r)do Escolar é uma continuidade do livro anterior, uma espécie de segunda edição revista e aumentada, sobre o percurso escolar de um jovem, ao longo de catorze anos.

Referindo que se trata de “episódios etno-ficcionados de uma saga estudantil  - 1960/1974 - com contrapontos sobre a contemporaneidade” (p. 3), Luís Souta retrata com mestria e humor apurado as vivências escolares de um jovem (o Arcílio) durante a sua trajetória educativa, recriando os contextos escolares pelos quais passou: a Primária, o Liceu e a Universidade, que constituem as três partes principais que compõem o livro.

A primeira parte, Primária, é vivida por Arcílio como uma época de “aflição, quase de tortura” (p. 17). A disciplina imposta de forma prepotente, o uso de bata branca “à menina”, as regras tantas vezes aleatórias, as punições (“Arcílio conheceu o peso da régua logo nas primeiras aulas e esses dolorosos encontros mantiveram-se regulares durante longos meses”, (p. 41)), as “máximas pedagógicas” preconizadas pelo professor (“moço que não é castigado não será cortesão nem letrado” (p. 41)), as aprendizagens baseadas na memorização, as pedagogias repetitivas, as “tarefas quase ciclópicas”, as avaliações sobre “enigmas escolares” de calibre duvidoso, tudo isto constituiu uma realidade que deixou poucas saudades. A crítica incisiva do autor tem aqui um papel determinante na desconstrução dos valores e dispositivos pedagógicos dominantes, muito pouco estimulantes e quase nada promotores de aprendizagens significativas.

Os exames ­- o da 4.ª classe e o de admissão ao liceu - constituíam o instrumento da seleção: “a vida escolar de cada um tinha ali sido traçada. (…) uns abandonavam os estudos e iam trabalhar, outros (poucos) iam seguir o ensino liceal em Lisboa, e a maioria ficava-se pelo ensino técnico em Vila Franca de Xira” (p. 50), ilustrando assim o peso dos condicionalismos sociais e económicos no sucesso e no futuro percurso educativo dos estudantes.

Mas se a Escola aqui retratada constituiu um fa(r)do para o jovem Arcílio, também lhe ofereceu a possibilidade de desfrutar das alegrias dos recreios (“o melhor da escola era sem dúvida o recreio” (p. 27), “a escola dividia-se em dois mundos: a aula e fora dela” (p. 29); e do prazer e liberdade das férias grandes, cujas brincadeiras, jogos e confrontos reforçavam os laços com os seus pares. Os jogos da bola, os de hóquei em patins,  as “guerras”, as “batalhas”, as “ocasiões de porrada” fazem parte de um universo masculino muito próprio, que poderia ser objeto de uma interessante análise sobre o género.

Já no Liceu, a turma de galfarros (“o 1º F, turma de matulões, useiros e vezeiros em questões de chumbo” (p. 56)) dá o pontapé de saída para os textos que dão corpo à segunda parte do livro. A felicidade pelos intervalos de cinquenta minutos, os castigos reduzidos às faltas a vermelho, a animação vivida pelos jovens adolescentes num liceu masculino, no qual as “poucas figuras femininas se encontravam apenas entre o corpo docente envelhecido” (p. 91), e onde o aparecimento de uma psicóloga vem a constituir um acontecimento de relevo.

Muda-se o curriculum, mudam-se as rotinas (“levou tempo a adaptar-se àquele rodopio de professores que, de hora a hora, lhe entravam pela sala dentro” (p. 59)), surgem algumas perplexidades face a um universo desconhecido em que se passou “de um para nove” professores, ainda mais diversos do que as matérias que lecionavam - “mais do que as diferenças entre as matérias, evidenciavam-se as diferenças entre os professores” (p. 59). Aqui, o ponteiro vem substituir a régua, o “auxiliar pedagógico”, “como lhe chamava o jovem professor que teimava em lhe dar uso nas cachimónias mais avessas aos números e à tabuada” (p. 59).

A hierarquia estudantil manifestava-se geralmente na caça ao caloiro e no “baixa-a-tola!”, não passando a praxe de muito mais do que isso e apenas durante o início das aulas, cumprindo-se o desígnio de é preciso “malhar no ferro antes que arrefeça” (p. 72).

A vida escolar neste contexto decorreu animada - “andar no liceu até que não era mau, mas se não houvesse pontos, então é que seria uma maravilha!” (p. 79) -, exceção feita ao sistema de avaliação que os acossava para o estudo na véspera, para o empinanço e para a preparação das “armas” (as cábulas), à procura do “dezinho para passar”. Como pensava Arcílio, “todos os exames eram uma tortura. Mas o do 5.º ano do liceu não tinha comparação.” (p. 87). O fa(r)do era bem mais pesado: “Um suplício de dezassete provas, nove escritas e oito orais” (ibid), mas que, se fosse bem-sucedido, permitiria o passaporte para as férias escolares e a passagem para o ano seguinte.

No final do Liceu, a tão almejada Universidade (“Eh pá, entrei na Universidade!”). E, apesar de ser “um orgulho sem planos de futuro”, a descoberta de um mundo desconhecido traz consigo novas expetativas e ilusões. “Foram onze anos a estudar e conviver num mundo masculino e a reclamar por tal ser assim” (p. 101), mas agora existem pela primeira vez aulas mistas e o jovem pode desfrutar do prazer e dos benefícios da companhia feminina (“mais assíduas, atentas, tiravam apontamentos, transmitiam-lhe as directivas dos professores, e nos exames eram preciosos ancoradouros de um saber que nele, por vezes, estava ausente” (ibid).

A diversidade geográfica, cultural, social, étnica e geracional dos colegas foi um dos contributos mais marcantes de uma turma e de um instituto que era “um nicho de diversidades”, numa altura em que “Portugal (o da propaganda) «multiracial e pluricontinental» era ainda visto, na Europa, como um paradigma do princípio napoleónico «um país, uma nação, uma língua»” (p. 102).

Mais uma vez, Arcílio sente o fardo das avaliações de uma forma ainda mais esmagadora. Apesar de se sentir já na maioridade académica e de evidenciar no seu “curriculum vitae escolar 47 exames” (…), “conheceu na Universidade uma faceta da avaliação formal ainda mais pesada e desgastante” (p. 103), que o levou a finalizar o bacharelato com cerca de 100 exames no CV, fruto de um extenso plano de estudos (10 cadeiras por ano) e de um sistema de avaliação que exigia semanalmente exames escritos e orais.

Entre ilusões e desilusões, o estudante vai socializando com a vida académica, alargando os seus conhecimentos por processos formais e informais - através dos gurus associativos, das estórias da Crise de 69, dos livros alternativos à bibliografia oficial, das leituras “subversivas” que conduziram à “tomada de consciência”.

Vivia-se na ressaca da turbulência académica de 69, entre estudantes ordinários e voluntários, uns mais rebeldes, outros mais “parcos na crítica e avessos à contestação”, face à diversidade de trajetórias e de dependências (ministeriais) várias.

Exemplos de rebeldia estudantil, ancorada em sentimentos de solidariedade e de luta contra as injustiças pedagógicas (“sentiram que a ligeireza das aulas não tivera correspondência no nível excessivo de exigências do exame” (p. 113), conduzem o jovem “nos seus primeiros passos de “consciência pedagógica” (p. 114). A defesa do “colectivo” e a prática da contestação levam-nos a adquirir competências sociais e cívicas, mobilizando-os para o associativismo e conduzindo-os ainda mais além — “da pedagogia à política foi um pulo” (p. 115).

O CV enriquece-se com a participação em algumas “missões impossíveis”, gestos temerários de ousadia (delatados pela “bufaria oficiosa”) considerados como uma afronta patriótica, numa época em que o “delirium tremens” do regime se começou a fazer sentir. A política chega aos “caloiros” do associativismo pela mão dos mais velhos, dando origem a “uma vontade indómita de sair daquele “atoleiro”, pugnando pela liberdade e pela autonomia, e combatendo a única coisa que lhes garantiam após a conclusão dos cursos - a guerra colonial.” (p. 128). Como diz o autor, “Aquela juventude (a masculina) vivia nesse permanente trauma: “ser chamado para a tropa”. Por isso mesmo, pôr fim à guerra colonial e combater a ditadura era então prioritário” (p. 137).

Daqui ao quartel foi um pulo: “Arcílio foi para a tropa na primeira incorporação de 1974” (p. 138), passando a fazer parte do contingente dos soldados-universitários dispostos a ajudar a “varrer o regime”.

Com a Revolução, a queda do regime político e os “ventos arrasadores do PREC” que se seguiram - o clima “(quase) insurrecional da época” —, a aprendizagem da vida em liberdade e democracia trazem um novo sentido à vida na academia. Passados os períodos quentes, alguns professores “retomaram os seus feudos e impuseram o retorno ao conservadorismo, que era a marca de água naquela escola, a mais “reaccionária” (para usar um conceito datado) da Academia de Lisboa” (p. 131).

O livro finaliza com um breve epílogo sobre a entrada na (in)esperada profissão - a docente, pois então qual é que havia de ser? -, e com um conjunto muito rico de “notas (de contemporaneidade)”, recheadas de interessantes explicações, comparações e reflexões sobre a Escola que temos (e fazemos) na atualidade.

Os episódios de vida escolar dos estudantes e dos professores aqui retratados constituem um contributo relevante para a compreensão das dinâmicas e dos fenómenos educativos que marcaram uma geração de jovens em Portugal.

Estes acontecimentos, plenos de significado, situados num tempo e num espaço particular, interpelam e questionam professores, educadores, formadores de professores e outros agentes educativos, dando simultaneamente esperança e alento para a mudança, para enfrentar as dificuldades do presente e os desafios futuros.

Se a realidade educativa dos anos de sessenta e setenta do século passado se alterou de forma marcante em muitos aspetos, outros há que não evoluíram de forma tão significativa, ou mesmo que se encontram numa fase de retrocesso, correndo-se o risco do apagamento das memórias e do afastamento dos ideais da Escola pública.

Assim, este livro constitui um trabalho crítico e reflexivo sobre a Escola, desconstruindo lógicas e passados recentes, e reforçando a necessidade de pensar e de fazer uma educação marcada pela “liberdade, alegria, felicidade e aprendizagens úteis — tudo aquilo que escapou a Arcílio” (p. 5).

 

Contacto:

Ana Luísa Pires, Departamento de Ciências Sociais e Pedagogia, Escola Superior de Educação, Instituto Politécnico de Setúbal, Campus do Instituto Politécnico de Setúbal, Estefanilha. 2914-504 Setúbal, Portugal / ana.luisa.pires@ese.ips.pt

 

(recebido em maio de 2015, aceite para publicação em novembro 2015)

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