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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.10 no.26 Lisboa jun. 2019

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

"Ninhos e o Arquivo Agora": fotografia e projeção na obra de Elaine Tedesco

"Nests and the Archive Now": photography and projection in the art work of Elaine Tedesco

 

Andréa Brächer*

*Brasil, artista visual e professora.

AFILIAÇÃO: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Instituto de Artes, Departamento de Artes Visuais. Rua Senhor dos Passos, 248, CEP 90020-180, Centro, Porto Alegre, RS, Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

No artigo analisa-se a obra da artista brasileira Elaine Tedesco na exposição "Ninhos e o Arquivo Agora". A artista projeta e refotografa no espaço expositivo negativos fotográficos da década de 80 de seus arquivos. O Ninho é utilizado como metáfora de abrigo na exposição, e as imagens ressignificadas são de crianças fotografadas em cenas de brincadeiras ou trabalho infantil. Conclui-se que a artista, por seu processo de criação,torna essas imagens potentes, forte e críticas socialmente.

Palavras chave: fotografia / projeção / arquivo.

 

ABSTRACT:

The article analyzes the art work of the Brazilian artist Elaine Tedesco in the exhibition "Ninhos e o Arquivo Agora". The artist designs and reframe 1980s photographic negatives of her archives, in the exhibition space. The Nest is used as a shelter metaphor in the exhibition, and the resigned images are of children photographed in scenes of play or child labor. It is concluded that the artist, by its process of creation, makes these images powerful, strong and socially critical.

Keywords: photography / projection / archive.

 

Introdução

O artigo tem como foco a artista visual e pesquisadora Elaine Tedesco (Porto Alegre, RS/Brasil — 1963) e seu trabalho intitulado: "Ninhos e o Arquivo Agora". A artista é Professora Adjunta do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e atua na área de fotografia junto ao Departamento de Artes Visuais e no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais. Possui graduação em Artes Visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Seu mestrado (2002) e doutorado (2009) são em Poéticas Visuais pela mesma universidade — UFRGS. Desde os anos 1980 produz e expõe obras artísticas. Como artista plástica atua na produção de fotografia, instalação e videoperformance.

"Ninhos e o Arquivo Agora" é o nome da exposição coletiva que a artista participou junto com Lurdi Blauth no Porão do Paço Municipal da Prefeitura de Porto Alegre (RS/Brasil) entre 1 agosto e 13 de setembro de 2013. Embora a exposição possa ser considerada uma coletiva, pretende-se analisar as obras fotográficas, para este artigo, de autoria de Elaine Tedesco, bem como seu processo de criação. A exposição é um dos resultados parciais da pesquisa "Procedimentos de contato: desdobramentos da fotografia em imagem numérica na atualidade", UFRGS/ Feevale, coordenada por Elaine Tedesco e Lurdi Blauth (Universidade Feevale).

O "Ninho", na exposição, foi usado como uma metáfora de acolhida (Blauth & Tedesco, 2013a:192) e também como objeto na instalação. O local, histórico, hoje restaurado e transformado em espaço cultural, já foi uma prisão e um despósito de mantimentos da municipalidade. Na Figura 1 temos uma vista da sala de exposições com as imagens fotográficas impressas de Elaine Tedesco ao fundo e ao lado direito, e no primeiro plano, os ninhos vermelhos de sua autoria.

Pretende-se analisar a obra da artista visual brasileira Elaine Tedesco na exposição "Ninhos e o Arquivo Agora", quando serão aprofundadas as questões da projeção e o uso de seu arquivo fotográfico nessas obras.

 

 

 

1. Do Arquivo à Projeção

As fotografias aqui visualizadas e exemplificada pela Figura 2, nos mostra uma imagem impressa a partir de um arquivo digital, esse, obtido a partir de um negativo 35mm, preto-e-branco, projetado na parede do local da exposição. As imagens fazem parte de

[…] uma série de fotografias que tem como ponto de partida a revisão de conjuntos de negativos que foram obtidos no entorno do Mercado Público de Porto Alegre, na praça XV e no Parque Farroupilha, fotografando pessoas, com uma Leica M2, no início dos anos 80 (Blauth & Tedesco, comunicação pessoal, texto de apresentação da exposição 'Ninhos e o arquivo agora').

 

 

A artista é advinda da tradição da fotografia em preto-e-branco e tais negativos permaneceram guardados pela artista até serem (re)vistos enquanto arquivo. Guardam uma história documental e testemunhal — aquela das crianças em seus afazeres de criança — brincadeiras -, bem como naqueles afazeres que lhes arrancam da infância — o trabalho infantil. Seu arquivo fotográfico é descrito pela artista da seguinte forma (trecho retirado de sua tese):

[…] É importante informar que, apenas em setembro de 2008, depois de estar usando, também, câmeras digitais, passei a nomear esse conjunto de negativos de arquivos. Isso porque, mesmo fotografando há 25 anos, organizar os negativos e diapositivos sempre foi um problema. Enquanto meus colegas fotógrafos tinham uma preocupação considerável com a conservação e arquivamento de seus negativos, o máximo que consegui fazer, ao logo dos anos, foi guardá-los em papel manteiga, dentro de ter (sic) ou quatro caixas, com tudo misturado.
No início dos anos 90, tentei organizar, ao menos, as fotografias que documentavam as montagens das exposições e, nessa década, eu consegui guardar todas em uma única pasta arquivo. Mas o arquivo (objeto) para guardá-las nunca foi comprado.
(Tedesco, 2009:137-8)

Portanto, aqui a artista descreve o que entende como a organização do arquivo de fotografias, e o conteúdo do arquivo utilizado para a exposição analisada. Diferentemente do que comenta Hal Foster em "An Archivel Impulse" (2006), Elaine Tedesco não é movida pela necessidade de colecionar ou arquivar, ou trabalhar com dados de internet, como fazem muitos dos artistas contemporâneos que usam o arquivo como impulsionadores de seu trabalho de arte. Seu arquivo de fotografias é local de retorno para novos experimentos e trabalhos.

O processo de trabalho para a exposição no Porão consistiu-se em projetar negativosescolhidosdeseuarquivo,comumantigoprojetordeslides,sobreasparedes do lugar. Tal estratégia de "projetar" imagens é não é nova no trabalho da artista. A projeção já é descrita em sua tese de doutorado, onde as projeções são o encontro da matéria luz da projeção com o anteparo para formar uma imagem. Este anteparo, ao contrário do esperado, não é (necessariamente) uma parede branca e/ou lisa, mas as paredes das cidades (algumas internas e externas), em decorrência disso, ocorrem sobreposições, contaminações — como relata a mesma (Tedesco, 2009:12). Ainda, comenta, do interesse nesses lugares em que ocorrem as projeções e que durante a tese lhe interessavam, normalmente, espaços abandonados, e/ou construções precárias.

Pode-se vê-las, também, como espaços de indeterminação que mostram o transcurso do tempo, a vida do lugar, a falência e o descaso — são casas velhas, fábricas e prédios públicos. Lugares carregados de temporalidades, durações e memórias, provisoriamente transformados durante a realização das projeções de fotografias sobre suas paredes, que se impregnam de luminosidade, de figuras e de sombras. (Tedesco, 2009:12)

Que temporalidades, que durações e que memórias estas projeções nos evocam? O local das projeções de "Ninhos e o Arquivo Agora" é um prédio histórico dentro do Centro Histórico de Porto Alegre (RS/Brasil). O edifício foi tombado em 1979 e, após restauração, passou a abrigar espaços de arte e o acervo artístico da cidade de Porto Alegre. Originalmente constuído entre 1898 e 1901 para ser a sede da Intendência da cidade, abrigava entre outros orgãos, o 1O. distrito policial, e "os prisioneiros ficavam em celas com latrinas instaladas no porão" (Prefeitura de Porto Alegre, s/d). O Porão hoje abriga exposições de arte. O local, já resturado, tem em suas paredes tijolos artesanais à mostra, e é nesse anteparo, que Elaine Tedesco projeta suas imagens de crianças. Crianças que foram fotografadas, no caso da Figura 2 no entorno do local, junto ao Mercado Público, como o título aponta. Se o antigo prédio já foi prisão, e o porão já foi carceragem, agora abriga acervo artístico e exposições temporárias artísticas. No entanto, ao projetar o menino vendendo frutas, Tedesco ressignifica as ima-gens em relação ao lugar.

A que tipo de prisão estas crianças estão acorrentadas, vivendo nas ruas a vender frutas para sobreviverem? Que prisão de infância é essa que as obriga a trabalhar em tenra idade? Dentro das paredes da antiga carceragem estão ao abrigo da rua, da violência dos adultos, das drogas, dos estupros e da morte. Tedesco provoca um deslocamente espacial com estas imagens. Mas será que a antiga carceragem é um ninho?

O que é um ninho? No texto de apresentação da exposição encontramos escrita a origem que as artistas indicam para o título da exposição e de sua proposta poética.

No pensamento bachelardiano encontramos algumas reflexões: o ninho tem a função de habitar, e é uma imagem que desperta em nós a imagem de uma primitividade. Ao observarmos um ninho, sempre ficamos encantados com a sua engenhosidade e perfeição com que o pássaro constrói a sua pequena morada, deixando a marca de um instinto que sempre se repete. O ninho é também um esconderijo da vida alada, onde talvez se possa ficar invisível sob o céu. Ao mesmo tempo em que é um abrigo precário, também remete ao devaneio da segurança e o lugar do refúgio absoluto. Estas imagens me instigam a pensar sobre flutuações dialéticas entre o interior e o exterior, entre o escondido e o manifesto, entre possibilidades e impossibilidades. (Blauth & Tedesco, comunicação pessoal, texto de apresentação da exposição 'Ninhos e o arquivo agora').

Podemos então inferir que essas imagens que documentavam a cidade e a infância, recebem um abrigo, um refúgio, um esconderijo, mesmo que precário, um ninho de acochego e de invisibilidade? Tedesco ao tornar público seu arquivo fotográfico torna-o visível, retira-o do refúgio do esquecimento, do abrigo arquivístico a que toda fotografia passada se destina. Vive a dialética do esquecimento e da lembrança, do passado e do presente.

 

2. Da Projeção à Imagem Digital e à Impressão

Dando continuidade a seu processo de criação, após a projeção, Elaine Tedesco fotografou digitalmente a parede da sala de exposições e criou a série de imagens apresentadas na mostra. Impressas no tamanho 90 x 60 cm, 60 x 90cm e 50 x 34 cm, apresentavam as características de cor dos negativos preto-e-branco, mostrando uma imagem negativa, propositalmente reenquadrada de modo a mostrar o deslocamento de ponto de vista do fotógrafo em relação ao centro da projeção, como vemos na Figura 3.

 

 

Tedesco nos apresenta nessas fotografias o reverso da imagem, muito mais preto do que branco, forçando o espectador médio a fazer a reversão da mesma em sua mente e imaginá-la positiva. Mas parece que é no escuro da projeção dentro do Porão e nos tons de preto e cinza do fotograma que residem a força do trabalho da artista. Um pequeno negativo que contém a delicada silhueta da criança, amplia-se, tornando-se uma grande figura, uma grande imagem, quase sombra contra a parede. Ao invés de ampliador, é no projetor que ocorre a ampliação fotográfica e a imagem funciona como a sombra projetada: "ela parece ser do tamanho de um leão, mas em fato não é maior do que uma figura microscópica de papelão (Stoichita, 1999:201) — nesse caso é bom lembrar que estamos nos reportando a um negativo de pequeno formato.

Na Figura 3 temos o menino segurando uma caixa, ele olha para o lago com pedalinhos. Sua caixa pode ser para vender pequenos biscoitos ou ser a caixa de um engraxate, que importaria? Seu foco (e de Tedesco também) é o lago — onde famílias e crianças tradicionalmente pedalam e se divertem. Teria ele uma família para retornar? Teria ele o dinheiro necessário para o prazeroso passeio no lago? Quanto questionadora essa imagem é, e ao mesmo tempo, repleta de possibilidades de sonhos e amargas realidades.

Retomando as palavras já citadas da artista: "durante a realização das projeções de fotografias sobre suas paredes, que se impregnam de luminosidade, de figuras e de sombras." (Tedesco, 2009: 12). Essas sombras são visíveis na Figura 2, Figura 3 e Figura 4. Assim, entre projeções e impressões, a artista nos conta uma história de infância, ora de sonho, ora de realidade. Ora de luz, ora de escuridão. Nos questiona e nos ajuda a refletir sobre o escondido e o manifesto, e entre as possibilidades e as impossibilidades de uma vida infantil, nem sempre "aninhada", abrigada e protegida.

 

 

 

Conclusões

Analisou-se a obra da artista visual brasileira Elaine Tedesco na exposição "Ninhos e o Arquivo Agora" (2013, Porão do Paço Municipal da Prefeitura de Porto Alegre, RS/Brasil), quando foram aprofundadas as questões da projeção e o uso de seu arquivo fotográfico na mesma.

Tanto a fotografia qunto a projeção estão presentes no trabalho da artista já algumas décadas, mas aqui procurou-se analisar o uso de seu arquivo de negativos em preto-e-branco, que deram origem às projeções e as imagens digitais impressas expostas.

Ao projetar suas imagens e refotografá-las, ressignifca as imagens infantis da década de 80. No contexto espacial e geográfico da galeria de arte — Porão do Paço Municipal da Prefeitura de Porto Alegre — a metáfora do ninho é utilizada como local de abrigo e de refugio de suas imagens de arquivo. Cruza a projeção, a luz, a sombra e os negativos com as brincadeiras de criança e o trabalho infantil. Assim, nos conduz pelos universos da infância idealizada e a da infância que exclui socialmente. Potente, forte, crítico, o trabalho de Elaine Tedesco não nos abriga em ninho nenhum.

 

Referências

Blauth, Lurdi & Tedesco, Elaine (2013) "Ninhos e o arquivo agora". Anais do Congresso Poéticas da Criação, UFES, Vitória. [Consult. 2018-12-04] Disponível em URL: https://www.youblisher.com/p/895483-ANAIS-DO-POETICAS-2013/. ISBN:978-85-64586-68-0        [ Links ]

Foster, Hal (2006) "An Archival Impulse". In: Merewether, Charles (ed.) The Archive: Documents of Contemporary Art. Londres: Whitechapel. P. 143-148. ISBN: 0-85488-148-4.         [ Links ]

Prefeitura de Porto Alegre (s/d) "Paço dos Açorianos." [Consult. 2018-12-19] Disponível em: URL: http://www2.portoalegre.rs.gov.br/vivaocentro/default.php?p_secao=68 .         [ Links ]

Stoichita, Victor I. (1999) A short history of the shadow. Londres: Reaktion Books. ISBN: 978-1861890009        [ Links ]

Tedesco, Elaine Athaydes Alves (2009) Um processo fotográfico em sobreposição no espaço urbano. 218 f. Tese (Doutorado). Curso de Artes Visuais, Artes Visuais, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.         [ Links ]

 

 

Artigo completo submetido a 03 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: andrea.bracher@terra.com.br (Andréa Brächer)

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