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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.10 no.25 Lisboa mar. 2019

 

EDITORIAL

EDITORIAL

É possível descolonizar a arte?

Is it possible to decolonize art?

 

João Paulo Queiroz*

*Portugal, artista visual e professor, coordenador da Revista Estúdio.

AFILIAÇÃO: Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes (CIEBA). Largo da Academia Nacional de Belas-Artes, 1249-058, Lisboa, Portugal.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

É possível descolonizar a arte? Entre a arte o poder estabelece-se ora oposições ora alianças, ambas construtoras de identidades e de discursos, no contexto da crise de descentramento em torno do etnocentrismo, do género, do pós-colonialismo. As imagens tornaram-se hoje mais letalmente políticas (as fakenews, os memes, as redes): são as 'imagens armadilha,' ou as 'imagens ofensivas.' Ao museu, tingido de hibridação, sobra a desconfiança da sua génese colonial: o oriente foi imaginado primeiro no museu, nos artefactos egípcios que o legitimaram.

Palavras chave: Revista Estúdio / descolonizar / género / imagem.

 

ABSTRACT:

Is it possible to decolonize art? Between art and power, oppositions or alliances are established, both constructing of identities and discourses, in the context of the crisis of decentralization around ethnocentrism, around gender, and around post-colonialism. Images have now become more lethally political (the fakenews, the memes, the web): they are 'trap images,' or 'offensive images.' The museum, dyed with hybridization, there remains the distrust of its colonial genesis: the East was first imagined in the museum, in the Egyptian artifacts that legitimized it.

Keywords: Estudio journal / decolonization / gender / image.

 

1. Arte e Poder

Um dos desafios contemporâneos advém do descentramento da subjetividade e do reconhecimento que as identidades se baseiam mais em discursos do que em espécies. Dito de outro modo, o sujeito não é já substantivo, como até há pouco se posicionava. Assim se coloca em perspetiva crítica o etnocentrismo (Bhahbha, 1994), os problemas do género (Butler, 1992), ou a urgência pós-colonial (Said, 1993). Muitas das obras reconhecidas assentam em discursos de poder, ou reproduzem discursos de poder, desde Jane Austen, passando por Joseph Conrad, a Aida de Verdi, ou a autores tão recentes como Albert Camus, ou Hemingway. No campo das artes visuais obras tão inovadoras como a Olympia, de Manet, as séries de Gauguin, as mulheres de Picasso, a par com uma muito boa parte da pintura surrealista, neofigurativa, pop, ou mesmo os mais recentes trabalhos de autores como Jeff Koons ou Murakami, pode ter sérias dificuldades no escrutínio pós estrutural ou pós moderno.

 

2. Imagens armadilha

O problema é desconcertante: afinal a inflação pode chegar ao museu e desvalorizar as imagens ou tingir a arte pela desvalorização do consumo. É que a conviver com elas estão as 'imagens armadilha' (Queiroz, 2018) que tão rápido como armas de destruição maciça se encarregam de fazer novas vítimas no falso quotidiano das redes. São as imagens ofensivas, as imagens da ofensiva populista que agita o pathos das redes. Lado a lado, a arte existe enquanto 'entidade económica' nos diversos sentidos e momentos, como em qualquer outra mercadoria.

 

3. Realidade aumentada

A tecnologia pode robustecer os mecanismos que fazem reféns nos museus: a electrónica, as black boxes, os projetores LCD, os LEDs, mais do que serem meros suportes, transformaram-se em fins em si mesmos, numa lógica de inovação a todo o custo. Nos últimos anos as derivas electrónicas foram mais do que perguntas, respostas. Respostas à espetacularização do museu, ao apelo superficial, ao divertimento, ao hibridismo do parque temático em "realidade aumentada".

 

4. Ouvir no Estúdio

Ouvir os criadores, os artistas, pode ter uma pertinência resistente. Pertinência, se for um exercício continuado. Resistente se se propiciarem discursos alternativos, fora dos circuitos de legitimação, descentrados, e verdadeiramente críticos, sem interesses no teatro da arte contemporânea (Rauscher, 2018; Nascimento, 2018; Viladomiu Canela, 2018; Venzon, 2018).

 

5. Ler os contributos

Margarida Prieto (Lisboa, Portugal) no artigo "Solid Matter de Mónica Capucho," debate a contaminação disciplinar (desenho, texto, pintura e escultura) e a importância do espaço expositivo na relação que pode ser estabelecida e explorada em objetos pintura, aqui objetos específicos.

Em "La mirada irónica de Kepa Garraza," Naiara Herrera Ruiz (Bilbao, Espanha) aborda a pintura metalinguística, que toma o próprio art-world como veículo de enredo, como justaposição de sentidos, como evidências irónicas de desvalorização ou de alerta.

Maria Cristina Fukelman (La Plata, Argentina) no artigo "Un estudio breve sobre la apropiación de las obras canónicas en la pintura de Martin La Spina en clave de alegoría y simbolismo" toma o discurso também metalinguístico de Martin La Spina, que convoca imagens eruditas e populares em pinturas dentro de uma substância estética algo neofigurativa informada pela inquietação da crítica da cultura visual, pelas 'imagens ofensivas.'

Em "Ilídio Salteiro y el proyecto curatorial Dinero-Dinheiro: un comisariado alternativo que da voz a los artistas," Antonio García López (Murcia, Espanha) visita as atividades curatoriais de Ilídio Salteiro, nomeadamente o seu projeto "Dinheiro", projeto que provoca o debate, na arte, sobre o dinheiro, o mercado, a volatilidade, a credibilidade, o valor.

Luís Herberto (Lisboa, Portugal) no artigo "Os 'Diários Digitais' de Natacha Merritt: Verdade ou Consequência?" explora os trânsitos editoriais como o que sucedeu com os 'Digital Diaries,' um conjunto de fotografias em variadas cenas íntimas publicadas na internet e da projeção para o art world pela editora Taschen, na sua edição de 300.000 exemplares.

O artigo "Rafael Luna: series para una vida" de Olga Duarte Piña & Lauro Gandul Verdún (Sevilha, Espanha) revisita o imaginário pós movida, narrativo e irónico de Rafael Luna.

Javier Rodríguez Casado (Madrid, Espanha) no artigo "Juan Zamora: adonde las palabras transportan" aborda os espaços vazios, os ocos, as porosidades, as anti-hierarquias exploradas pelas peças tridimensionais de Juan Zamora.

Em "Ensaio sobre as paisagens de Lenir de Miranda," Paulo Gomes (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil) aborda as paisagens multimateriais, brutalistas, concretas, do artista Lenir de Miranda.

Luisa Paraguai & Beatriz Amaral (Campinas, São Paulo, Brasil) no artigo "O cheiro nas narrativas marginais de Teresa Margolles" aborda as obras "Vaporización" (2001-2003) e "En el aire" (2002-2003) de Teresa Margolles numa exploração do olfato como uma das vertentes da modernidade: a higienização parece ter uma vertente política.

No artigo "Le Madonne Trans de Carlos Alberto Negrini," de Marcos Rizolli (São Paulo, Brasil) aborda-se a trans sexualidade e a sua representação iconoclasta e reivindicante.

Sara Fuentes Cid (Espanha, e Lisboa, Portugal) no artigo "La metáfora en la obra de Jorge Perianes: una investigación sobre conceptos transversales al Arte, la Ciencia y la Filosofía" estuda a metáfora substantiva de Jorge Perianes, em obras como "Categorías" (2011), em que os significantes se auto-referenciam numa narrativa meta descritiva de absurdos ou de analogias de mundividências ou de sistemas de pensamento, das próprias obras de arte.

Em "(Simulacros): Los imposibles del vocabulario expositivo a través de Jagna Ciuchta," Gonzalo Rey (Pontevedra, Espanha) aborda-se a instalação de Jagna Ciuchta "When You See Me Again It Will not Be Me" (2011) explorando o conceito de simulacro e interrogando as matérias da obra de arte.

Ronaldo Oliveira & Carla Juliana Alves (Londrina, Paraná, Brasil) em "As tramas do corpo/cidade de Margarida Holler" estudam as diferentes dimensões criadoras e expansivas de Margarida Holler: o "Corpo-morada", o "Corpo percepção", "Corpo-Ciência", como perspetivas para uma expressão de adentramento.

O artigo "Tres mujeres para una O.R.G.I.A artística: Nuevos lenguajes didácticos para una educación en valores basados en el arte feminista y queer" de Bartolomé Palazón & Leticia Fayos (Saragoça, Espanha) aborda o grupo artístico O.R.G.I.A formado por Beatriz Higón, Carmen Muriana e Tatiana Sentamans. O género e a sexualidade são convocados num posicionamento feminista e queer, numa expansão política e crítica.

Marta Negre (Barcelona, Espanha) no artigo "Lo busco y no lo encuentro: dos films de Joaquim Jordà acerca de los trastornos cerebrales" apresenta o realizador Joaquim Jordà, que em 1997, sofreu um transtorno cerebral que lhe provocou agnosia e alexia. Os medicamentos, os enredos em torno de sonhos e de ambientes hospitalares, a mordacidade, são objetivados através da doença, na forma documental. O corpo, a sua organicidade funcional, a sua continuidade narrativa, apresenta-se descontinuo, frágil, desde o seu interior, através do seu viver.

O artigo "Memórias de uma mente com lembranças: o imaginário doméstico no trabalho de Rick Rodrigues" de Luciane Bucksdricker (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil) reflete sobre as ficções instalativas que tomam a domesticidade como pretexto plástico. É uma visita ao imaginário do lar, da casa, em Rick Rodrigues (n. 1988, Espírito Santo, Brasil), que mitiga os meios expressivos em benefício de uma alusão poética e visual.

Gustavo Torrezan (São Paulo, Brasil) no artigo "O processo de criação de Ricardo Basbaum quanto ao uso do diagrama e da voz" aborda a obra de Ricardo Basbaum (n. 1961, Brasil), autor que explora as expansões na forma de "ARTISTA-ETC" nas suas atividades de professor, curador, crítico, escritor e músico. O projeto é emancipador, tanto do artista como do seu público.

 

6. Descolonizar a arte

É possível descolonizar a arte? Entre a arte o poder estabelece-se ora oposições ora alianças, ambas construtoras de identidades e de discursos, no contexto da crise de descentramento em torno do etnocentrismo, do género, do pós-colonialismo. As imagens tornaram-se hoje mais letalmente políticas (as fakenews, os memes, as redes): são as 'imagens armadilha,' ou as 'imagens ofensivas.' Ao museu, tingido de hibridação, sobra a desconfiança da sua génese colonial: afinal o oriente foi imaginado primeiro no museu, nos artefactos egípcios que o legitimaram, desde as campanhas de sábios que invadem o Egipto.

 

Referências

Bhabha, Homi K. (1994) The Location of Culture. London: Routledge. ISBN:0-41533639-2        [ Links ]

Butler, Judith. (1990). Gender trouble: feminism and the subversion of identity. New York: Routledge. ISBN 0-415-92499-5        [ Links ]

Butler, Judith.(1997) Excitable Speech: A Politics of the Performative. New York: Routledge.ISBN: 9780415915885        [ Links ]

Description de L'Egypte (2002): publiée par les ordres de Napoléon Bonaparte. Koln: Benedikt Taschen. ISBN 3-8228-2168-3.         [ Links ]

Edward W., Said, (1993) Culture and Imperialism. London: Vintage books. ISBN: 9780099967507        [ Links ]

Nascimento, Cinthya Marques do (2018) "O retrato urbano do caboclo amazônico na obra de Eder Oliveira." Revista Croma, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8547, e-ISSN 2182-8717. 6, (12), julho-dezembro. 70-77.         [ Links ]

Queiroz, João Paulo (2018) "As imagens e a inflação." Revista Croma, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8547, e-ISSN 2182-8717. 6, (12), julho-dezembro. 12-17.         [ Links ]

Rauscher, Beatriz (2018) "O que eu como produz paisagem: arte e política na obra de Jorge Menna Barreto." Revista Croma, Estudos Artísticos. ISSN 21828547, e-ISSN 2182-8717. 6, (12), julho-dezembro. 54-62.         [ Links ]

Venzon, André (2018) "Xadalu, sobrenome Brasil: a questão indígena na arte urbana." Revista Croma, Estudos Artísticos. ISSN 2182-8547, e-ISSN 2182-8717. 6, (12), julho-dezembro. 111-120.         [ Links ]

Viladomiu Canela, àngels (2018) 'Modelos de resistencia' de Daniel G. Andújar." Revista Croma, Estudos Artísticos. ISSN 21828547, e-ISSN 2182-8717. 6, (12), julho-dezembro. 84-93.         [ Links ]

 

 

Artigo completo submetido a 10 de abril de 2019 e aprovado a 15 abril de 2019

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: j.queiroz@belasartes.ulisboa.pt (João Paulo Queiroz)

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