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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.9 no.24 Lisboa dez. 2018

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

Sistema marginal: a coleção em Sara Ramo

Marginal system: the collection in Sara Ramo

 

Luisa Paraguai Donati*

*Brasil , artista visual.

AFILIAÇÃO: Brasil, artista visual, professora e pesquisadora. Afiliação: Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC Campinas), Faculdade de Artes Visuais, Centro de Linguagem e Comunicação, Programa de Pós-Graduação em Linguagens, Midia e Arte (LIMIAR). Campus I — Prédio da Reitoria, Rodovia Dom Pedro I, km 136m, Parque das Universidades — Campinas – SP, CEP 13086-900, Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

Este texto aborda a prática artística de Sara Ramo, que problematiza as tipologias dos objetos do cotidiano ao propor outros arranjos espaciais, como na série "Como aprender o que acontece na normalidade das coisas" (2002-2005) e na instalação "O jardim das coisas do sotão" (2004). A partir de Baudrillard (2002) contextualizam-se estas produções, enquanto táticas de resistência (Certeau, 2008), nas/pelas quais a artista negocia relações para objeto/hábito e objeto/tempo, desarticulando os processos culturais em sociedade.

Palavras chave: arte e design / narrativas visuais / sistema de objetos / sistema marginal / coleção.

 

ABSTRACT:

The text is concerned with the Sara Ramo's poetics, which problematises the typologies of everyday objects by proposing other spatial arrangements, such as in the series "How to learn what happens in the normality of things" (2002-2005) and in the installation "The garden of things of the loft" (2004). From Baudrillard (2002) we intend to contextualize these productions, as "resistance tactics" (Certeau, 2008), in which the artist negotiates object/habit and object/time relations, while disarticulating the cultural processes in society.

Keywords: arts and design / visual narratives / objects system / marginal system / collection.

 

Introdução

Este texto aborda a prática da artista Sara Ramo, a partir da sua problematização sobre as tipologias dos objetos do cotidiano quando propõe outros arranjos formais, funcionais e simbólicos, como na série "Como aprender o que acontece na normalidade das coisas" (2002-2005) e na instalação "O jardim das coisas do sotão" (2004). Sara nasceu em Madrid, Espanha, em 1975, e desde criança vive entre a Espanha e o Brasil. Iniciou sua formação na Universidade Complutense de Madri e terminou na Universidade Federal de Minas Gerias, Belo Horizonte. Hoje vive e trabalha em São Paulo. Desde o final dos anos 90 tem criado instalações, vídeos, fotografias, nos quais

O mundo de Sara é um mundo de coisas: panelas, vidros e potes de creme, xícaras, camas, vasos de plantas, bacias de plástico; ou estatuetas de bichos, escorregadores, pedras, objetos descartados, cadeiras, poltronas de teatro. São coisas banais, com as quais convivemos no nosso dia-a-dia e nas quais já nem prestamos mais atenção. Sara as desloca de seus lugares, agrupa, dispersa; às vezes faz delas um uso inusitado, ou então se limita a isolá-las, apontá-las (Senra, 2012).

A partir de Baudrillard (2002) com o conceito "sistema marginal" pretendese contextualizar a poética, enquanto táticas de resistência (Certeau, 2008), nas/pelas quais a artista rompe com os sistemas de significações da cultura e negocia outras configurações para as relações "objeto /hábito" e "objeto/ tempo" (Baudrillard, 2002). Sem pretender escrever um estudo sobre a cultura material, aponta-se a problematização em torno do termo "funcionalidade", que compreendido como um aspecto da atuação do homem no ambiente, valida-se na/pela modelização de comportamentos, construção de distinções sociais e criação de representações simbólicas. Neste sentido, importa-nos apontar Miller (2010: 50), que com referências em Goffman (1986) e Gombrich (1979) argumenta teoricamente sobre o que nomina de "the humility of things". Deixando de lado as evidentes/reconhecidas contingências ou potencialidades das relações homem/objeto, o autor afirma que nossa constituição/existência cultural dá-se na medida em que os objetos se apresentam familiares, nos habitam sem serem percebidos – tornam-se um hábito, e portanto, invisíveis.

Assim, primeiramente, considerando o cotidiano expresso pelo hábito, Sara Ramo, na série "Como aprender o que acontece na normalidade das coisas" (2002-2005) (Figura 1 e Figura 2), contrapõe-se às representações herdadas ou ensinadas e desloca os objetos de um banheiro doméstico de seus lugares, dispersando e organizando-os em outras disposições espaciais. A artista, enquanto acondiciona a materialidade das coisas e seus discursos, oriundos dos modos de usos, em outros formatos, desarticula os processos culturais de legitimação em sociedade.

 

 

 

 

Em um segundo momento, ao escolher, ordenar e classificar, a artista, na instalação "O jardim das coisas do sotão" (2004) (Figura 3), retirou todos os objetos descartados e empilhados no sótão do Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte, Minas Gerais, e os organizou em função de suas características formais/plásticas como um jardim. Sara negocia a temporalidade como ação subjetiva/potente e instala sua obra-coleção, questionando o espaço institucional e a sua pura acumulação de objetos sem uso.

 

 

Para compreendermos estas modalidades de ação poética, que derivam da constituição dos gestos regulares no /do cotidiano para uma condição instável de outra ordem – um movimento subjetivo de transfiguração, indicamos a seguir os tópicos "objeto /hábito" e "objeto /tempo", baseados em Baudrillard (2002).

 

1. Objeto-hábito na série "Como aprender o que acontece na normalidade das coisas" (2002-2005)

Os objetos conformam a prática na/da cultura, da mesma maneira que os comportamentos das pessoas configuram os modos de uso. Esta interdependência sistêmica evoca totalidades significativas, "o conjunto de relações de diferença e similaridade, modelos e séries" (Ono, 2006:37), que podem ser explicitadas por Baudrillard (2002) quando escreve,

Sem dúvida os objetos desempenham um papel regulador na vida cotidiana, neles são abolidas muitas neuroses, anuladas muitas tensões e aflições, é isto que lhes dá uma 'alma', é isto o que os torna 'nossos', mas é também isto que faz deles o cenário de uma mitologia tenaz, cenário ideal de um equilíbrio neurótico (Baudrillard, 2002:98).

Neste sentido, conforme Miller (2002) afirma, a partir de Bourdieu e LéviStrauss, toda sociedade elabora suas práticas através de padrões manifestados em uma multitude de formas diversas, e os objetos mediam estas lógicas formuladoras quando aplicadas em suas funcionalidades e consequentes modos de uso.

Para pensar o contexto proposto pela artista Sara na série "Como aprender o que acontece na normalidade das coisas" (2002-2005) (Figura 2), enquanto objetos moduladores ativos da nossa percepção de mundo, partimos de uma perspectiva fenomenológica para reconhecer a cultura material como agente desses processos. Retomamos Gombrich (1979) para afirmar que o olhar passeia rapidamente pelos elementos familiares (na série fotográfica os acessórios comuns de um banheiro doméstico, como espelho, lixeira, toalhas, e produtos pessoais e de limpeza, como creme, shampoo, remédio, pacote de algodão) para deter-se e examinar as quebras, ou surpresas no padrão, e em seguida, absorvendo as diferenças, constituir/formar uma nova continuidade. Nesta operação Sara direciona nosso olhar em objetos comuns, que deslocados nos surpreende, pois deixam de ser desapercebidos, pois guardados estavam.

Para a compreensão crítica deste exercício operativo, Baudrillard (2002:102) afirma "O hábito é descontinuidade e repetição – e não continuidade como o emprego sugere. É pela divisão do tempo em nossos esquemas 'habituais' que solucionamos o que pode ter de angustiante sua continuidade e a singularidade absoluta dos eventos".

A artista, primeiramente, descreve um lugar específico da casa – o banheiro –, explorando a intimidade/privacidade pessoal, histórica e progressivamente determinada nas famílias burguesas a partir do século XVIII. Para em seguida, desafiar com sutileza o leitor quanto à normalização desses hábitos, assim como as possibilidades de controle pelo consumo, que conformam o nosso dia-a-dia.

 

2. Objeto-tempo em "O jardim das coisas do sotão" (2004)

Em um segundo momento, a artista escolhe, ordena, classifica, enquanto negocia a temporalidade como ação subjetiva e potente para instalar "O jardim das coisas do sotão" (2004). Esta prática de reunir, conforme interesse pessoal, osobjetosdescartadospelo Museu, descreveoconceitodecoleção, quesegundo Baudrillard (2002:111-2) diferencia-se do ato de acumulação, "tanto quanto por sua complexidade cultural, é pela falta, pelo inacabado que a coleção se separa da pura acumulação".

Ainda que, se identifiquem e contabilizem os mesmos elementos, importa para a artista as regras, as lógicas de codificação, que, enquanto diferentes, desarticulam as estruturas do projeto inicial. Com o exercício de propor uma outra normalização, Sara aponta um interesse formal – cores, texturas, formatos e tamanhos, da materialidade dos objetos para constituir o seu discurso, sem buscar esgotar a reunião destes elementos (Figura 4 e Figura 5). Nesta organização do repertório definido, sua dimensão sistemática é qualificada pelo tempo da escolha, da própria composição, conforme Baudrillard (2002) escreve

O profundo poder dos objetos colecionados não lhes vem com efeito nem de sua singularidade nem de sua historicidade diversa, não é por este meio que o tempo da coleção deixa de ser o tempo real, é pelo fato de a própria organização da coleção substituir o tempo (Baudrillard, 2002:103).

 

 

 

 

Conclusão

Ao se apropriar subjetivamente dos códigos do local e de uso, a artista mobiliza a materialidade das coisas, para desarticular os modos estabelecidos e inventariar. Esses modos de agir – "formalidades das práticas" (Certeau, 2008: 92), explicitam as suas intenções projetuais, na medida em que desviam as ordens e as relações de poder estabelecidas pelos modos de consumo e lugares institucionais. Neste sentido, Sara parece questionar a ordem museal, que elege e expõe justamente o consagrado como arte. "Uma instituição que coleta e mostra esta espécie de produção imaginária que nossa sociedade chama de "arte" (Senra, 2012).

Sara cria um jogo, uma certa resistência ao "lugar ordenado pelas técnicas organizadoras de sistemas" (Certeau, 2008:97). Enquanto a obra anuncia, a artista enuncia e formula seu fazer, não coerente com a configuração instituída / institucionalizada, mas com seus princípios. Oscila entre o conhecer a ordem dos lugares e o espacializar, entre um ver e um fazer, capaz de organizar outros movimentos e caminhos. Como afirmam Edwards et al. (2006) o conhecimento na /pela prática envolve a mobilização dinâmica do corpo/mente dentro de um ambiente de objetos, que evocam diferentes possibilidades de uso.

A operação poética de Sara Ramo apresenta-se como "modalidade de ação" (Certeau, 2008:92) que sistematiza os objetos subjetivamente em um movimento de transfiguração, que parte da regularidade dos gestos e do cotidiano, para uma condição dialética. Sara Ramo desvia, fabula, inventa.

 

Referências

Baudrillard, Jean (2002) O sistema dos objetos. São Paulo: Editora Perspectiva. ISBN: 85-273-0104-0.         [ Links ]

Certeau, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2008.         [ Links ]

Edwards, Elizabeth; Gosden, Chris; Phillips, Ruth B. (2006) Sensible objects: colonialism, museums and material culture. Oxford, New York: BERG. ISBN: 978-1-84520-324-5.         [ Links ]

Fortes D'Aloia & Gabriel (s.d.) Sara Ramo. [Consult. 2018-01-02] Disponível em URL: http://fdag.com.br/artistas/sara-ramo/.         [ Links ]

Goffman, Erving (1986) Frame analysis: an essay on the organization of experience. Boston: Northeastern University Press. ISBN: 0-930350-91-X.         [ Links ]

Gombrich, Ernst H (1979) The sense of order: a study in the Psychology of Decorative Art. London: Cornell University Press. ISBN: 978-0-8014–1143-4.         [ Links ]

Miller, Daniel (2010) Stuff. Cambridge, UK; Malden, USA: Polity Press. ISBN: 978-0-7456-4424-0.         [ Links ]

Ono, Maristela (2006) Design e Cultura: sintonia essencial. Curitiba: Edição da Autora. ISBN: 85-906446-0-X.         [ Links ]

Senra, Stella (2012) Sara Ramo, ou o exercício da liberdade. [Consult. 2018-01-02] Disponível em URL: https://stellasenra.wordpress.com/2012/06/07/sara-ramo-ou-o-exercicio-da-liberdade/.         [ Links ]

 

 

Enviado a 04 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 de janeiro de 2018

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: luisaparaguai@gmail.com (Luisa Paraguai Donati)

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