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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.9 no.24 Lisboa dez. 2018

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

O Uncanny na obra de Michaël Borremans

The Uncanny in the work of Michaël Borremans

 

Sofia Torres*

*Portugal, artista plástica.

AFILIAÇÃO: Universidade do Porto; Faculdade de Belas Artes; Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade (I2ADS) Av. Rodrigues de Freitas 265, 4000-222, Porto, Portugal.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

A partir do texto de Freud e atendendo à génese estética do Uncanny, pretende-se propor uma reflexão sobre a sua viabilidade conceptual e prática no imaginário pictórico do pintor Michaël Borremans. As pinturas deste autor, focam-se essencialmente numa temática aliada ao ser humano, contendo sempre uma atmosfera surrealista, que cria de forma ilusória imagens de uma estranha familiaridade, cheias de melancolia e estranhos pressentimentos. Partindo da análise de várias pinturas, pretende-se pensar sobre a abordagem do autor em termos da retórica da imagem, e de que forma o uncanny se manifesta na frágil dicotomia entre aquilo que se percebe e aquilo que se concebe, na sugestão mas constante negação de uma legibilidade palpável, não apenas pela temática utilizada, mas, essencialmente, pela criação de narrativas ambivalentes que suscitam o sentimento de algo ameaçadoramente estranho.

Palavras chave: Michaël Borremans / Pintura / Uncanny.

 

ABSTRACT:

From the text of Freud and taking into account the aesthetic genesis of the Uncanny concept, it is proposed a reflection on its conceptual and practical viability inside the pictorial work of the painter Michaël Borremans. The paintings of this author focus essentially on a thematic allied to the human being, but always containing a surrealist atmosphere, which illusively creates images of a strange familiarity, full of melancholy and strange forebodings. Starting from the analysis of several paintings, it is intended to think about the author's approach in terms of the rhetoric of the image, and how the uncanny manifests itself in the fragile dichotomy between what is perceived and what is conceived, in the suggestion but constant negation of a palpable readability, not only by the theme used, but, essentially, by the creation of ambivalent narratives that arouse the feeling of something threateningly strange.

Keywords: Michaël Borremans / Painting / Uncanny.

 

Introdução

Michaël Borremans (1963) é um pintor e cineasta belga reconhecido pelo seu virtuosismo técnico aliado a uma pintura figurativa com uma densidade de atmosféra e narrativa sombria onde nada parece aquilo que é. As suas pinturas, apelam a uma contemplação onde narrativas aparentemente simples transportam ambiguidade latente de efígies soturnas que parecem esconder ou contar mais do que aquilo que aparentam.

A partir dessa ambiguidade diegética das pinturas de Borremans aliada à carga melancólica e sombria das personagens que a povoam, que surge a associação a um conceito Freudiano: o Uncanny.

O uncanny é um conceito que sumariamente se refere àquilo que é "o sentimento de algo ameaçadoramente estranho."A partir deste texto de Freud, e em comparação com a análise de várias pinturas deste autor, pretende-se propor uma reflexão sobre a viabilidade conceptual e prática do uncanny como conceito motivador e subjacente de forma transversal no trabalho de Michaël Borremans.

 

1. O Uncanny

O uncanny é um conceito que sumariamente se refere àquilo que é "o sentimento de algo ameaçadoramente estranho." Apesar de este conceito ter sido apresentado pela primeira vez através do ensaio de Ernst Jentsch — On the Psychology of the Uncanny, em 1906, é o texto de Freud — Das Unheimlich, publicado em 1919, que continua a ser o principal foco de atracção no fascínio do estudo da forma cultural e teoria do unheimlich.

Freud caracteriza o uncanny como um fenómeno pertencente à área da estética, (Freud, 1994:209) identificando-o como "(…) duas esferas de ideias que, não sendo opostas entre si, se encontram bastante distantes uma da outra." (Freud, 1994:215). Ou seja por um lado significa o que é familiar e agradável, e por outro, o que está dissimulado e escondido da vista. O uncanny, é um sentimento que que provoca um misto de atracção e repulsa, manifestando-se em termos psicológicos perante o confronto com algo que deveria permanecer em segredo, oculto, mas que por alguma razão que se tornou evidente.

Em The Uncanny, Freud procura explicar a origem do termo e de que forma o mesmo pode ser despoletado, assim como as razões e mecanismos psicológicos subjacentes a esse sentimento. A partir do texto identificaram-se quatro elementos visuais, enquadrados nas caracteristicas imagéticas a partir das quais o uncanny pode ser despoletado:

— 1. Bonecas/autómatos: ou quando estamos presentes a incerteza de algo que está animado/inanimado. Em termos visuais, esta característica para se realizar está intimamente relacionada com representações similares a seres humanos.

— 2. Duplo: para Freud este pode ser visto como um limite colateral entre realidade e ilusão, podendo ser reconhecido em espelhos, estátuas, fantasmas, e no desejo de evitar a morte. Também este elemento está directamente relacionado com a representação do ser humano. Essencialmente, o duplo provoca uma sensação de uncanny pois a duplicação serve por um lado para compensar o fim da morte física — ligado ao narcisismo primário e secundário — e para compensar o complexo de castração — (pela duplicação do órgão sexual).

— 3. Membros decepados: esta característica encontra-se dentro dopensamento psicanalítico associada ao complexo de castração. Claramente encontra-se também uma relação com a morte, e a pensamentos animistas ou à questão doautómato, relativo acabeças decepadas ou a "pés quedançam por si sós."

— 4. Morte: A morte aqui não está apenas associada à morte física, mas igualmente ao regresso dos mortos, espíritos e fantasmas. Freud destaca a morte como a fonte mais incisiva do "sentimento de algo ameaçadoramente estranho", pois defende que a nossa relação com a morte foi dos poucos pensamentos/emoções que sofreram menos alterações desde os tempos primitivos. (Freud, 1994:228)

O tema da morte no entanto está presente de forma transversal em todos os elementos que possam despoletar o uncanny. Não há relação de estranheza perante a visão de um membro decepado senão na sua associação à parte ausente do corpo que corresponde a uma morte do todo ou a uma morte do membro perante a separação do todo. E mesmo relativamente aos manequins ou autómatos, é a ideia de um corpo sem vida que se move por si só — sem consciência, sem aquilo que o torna humano — ou seja, sem vida — que causa a sensação de uncanny. A própria questão do duplo tem também a ver com uma reprodução do ego perante o medo da morte física. Assim, o tema da morte tem uma repercussão contínua ao longo de todos os temas visuais que podem despoletar o uncanny no receptor do trabalho.

Mas, não basta a mera visão de um membro decepado ou de um autómato para que algo seja uncanny. Segundo Freud, o efeito depende do modo de como o autor aborda a sua ficção, dependendo da forma como a realidade se afasta ou coincide com a realidade que nos é familiar.

Quando uma narrativa se afasta demasiado da nossa realidade familiar ou quando o autor cria o seu próprio mundo de regras e personagens, desde que as mesmas cumpram os pressupostos dessa mesma realidade, não existe o sentimento de uncanny.

O sentimento surge quando o autor simula respeitar o domínio da realidade familiar e então introduz um dos elementos despoletadores desse sentimento, colocando o espectador ou receptor perante uma dúvida genuína acerca daquilo que está a acontecer.

É neste sentido que as pinturas de Michaël Borremans recriam verdadeiramente esta acepção, não só pelo tipo de figuras utilizadas: manequins, membros decepados, referencias à morte, mas, também pela intangibilidade das suas narrativas, que criam no espectador uma ansiedade constante acerca do que está realmente representado.

 

2. O Uncanny na obra de Michaël Borremans

O trabalho de Michaël Borremans (1963), encontra-se povoado por figuras carregadas de uma ambiguidade latente, entre uma aparência humana sonambolistica ou de manequins de cera, criando essa dúvida entre se estamos perante a representação de um corpo vivo ou morto.

É a abordagem realista dos trabalhos, não só pela técnica assim como pela escala e tratamento da luz, que lhes confere um carácter surrealista e uncanny. Os tecidos conjuntivos da codificação da realidade são distorcidos, mas, é mantida a linguagem básica da figuração literal, onde cada objeto, lugar ou coisa, é retratado com precisão e em proporção à própria realidade. Existe a criação de uma narrativa que, num primeiro olhar, é aparentemente baseada numa realidade familiar, (a figura humana, o realismo da sua execução), no entanto, após um olhar mais atento, o espectador é colocado perante uma dúvida genuína acerca daquilo que está a acontecer.

Em trabalhos como Automat I (Figura 1), a atmosfera uncanny é produzida pela percepção desconcertante que a jovem figura se encontra sem pernas e está colocada sobre uma laje lisa de madeira como uma espécie de manequim na vitrine de uma loja. O próprio titulo da obra — Automat — sugere a probabilidade de movimentação da figura, suscitando uma dubiedade em relação aquilo que está representado, se humano — pela aparência e resolução da carnação, ou manequim — pelo corpo decepado e sugestão do título.

 

 

Encontramos outro exemplo dessa ambiguidade latente em The Preservation (Figura 2):

 

 

(…) esta imagem assombrosa, aparentemente de uma jovem mulher, é pintada em tons de cinza e bege utilizados habitualmente para retratar a carne. No entanto, a manipulação que Borremans deliberadamente faz da tinta evita com que se pareça com carne. A pintura dá-nos a impressão de que a figura está sentada num salão de cabeleireiro (…) no entanto, não há nenhuma indicação de que ela esteja realmente viva. (Murphy, 2005:95-6)

As figuras em Borremans têm sempre uma aparência sonambolística, efígies emocionalmente vazias, como se fossem manequins de cera, criando a dúvida e abrindo uma passagem entre aquilo que está animado ou inanimado, entre a vida ou a morte, tal como refere Delfim Sardo:

(…) uma espécie de espectro de morte, um doppelganger à espreita, intimamente ligado com a noção do autômato (golem), que Freud refere The Uncanny. O tema do duplo, ou doppelganger, também cruza o universo surrealista, batendo num processo de dissensão interna permanente — como se o tema fosse eternamente Eu e o Outro. Este é um dispositivo encontrado na obra de Borremans: (…) as figuras, bem como na descrição das mãos — a simetria do corpo, é a manifestação mais simbolicamente carregada do duplo. (Gioni, Michaud & Sardo, 2007:35-6)

Vemos claramente essa aceção do duplo ou do doppelganger no trabalho Replacement one (Figura 3), onde o espectador é confrontado com a ideia do reflexo num espelho obscuro e vazio, sendo no entanto a imagem reflectida impossível e sugerindo uma acção encoberta entre representado e representação.

 

 

A aura da morte permeia a maior parte dos trabalhos de Borremans, como se vê na série The Bodies (Figura 4 e Figura 5) ou em The Nude (Figura 6). Mas não é só o tema em si — a morte — que despoleta a sensação de uncanny, é a forma de como o mesmo é apresentado que cria esse dilema entre vida/morte, ou seja, como Jentsch aponta: quando existem «dúvidas acerca do facto de um ser aparentemente vivo poder ou não animar-se, bem como o inverso, ou seja, se um objecto sem vida não possui algo de animado." (Freud, 1994:217)

 

 

 

 

 

 

O tema da morte está intimamente ligado às referencias a membros ou torsos decepados, que são também uma constante no trabalho deste autor, como se vê em Sleeper (Figura 7) ou The Consequence (Figura 8).

 

 

 

 

As personagens de Borremans aparecem sempre estáticas, misteriosas, em situações bizarras, e muitas vezes amputadas, sugerindo histórias por contar em narrativas abertas e impenetráveis, produzindo uma espécie de silencio, num equilíbrio tangente entre promessa vs negação de satisfação visual, perante a estória que se pretende apreender.

Apesar de objectivamente o uncanny não ser um conceito referido pelo artista, ele encontra-se de forma transversal infundido na atmosfera e temática dos seus trabalhos. Refere-se aqui o mesmo paralelismo utilizado por Hal Foster, em Compulsive Beauty (1995), onde apresenta uma reflexão sobre o uncanny como conceito subjacente a toda a concepção teórica do surrealismo: "Se há um conceito que compreende surrealismo, deve ser contemporâneo com este, imanente ao seu campo (…) eu acredito que este conceito seja o uncanny (…)." (Foster, 1995::xvii)

Segundo Foster, o conceito de uncanny opera transversalmente em toda a linha de pensamento e nas principais concepções do surrealismo: o maravilhoso, compulsive beauty e objective chance. O uncanny, não é algo que se possa ler ou observar directamente, mas que se encontra nas entrelinhas do pensamento e da obra dos artistas desse período.

No caso da pintura Borremans, essa ligação é ainda mais forte, não se consubstanciando apenas numa lógica de pensamento mas também — e essencialmente — na sua forma pictórica — em personagens, situações, cenários e narrativas que transportam o espectador para aquilo que é inquietante, numa dialéctica semiótica entre o objecto representado e modo de representar. O sentimento de uncanny, consiste essencialmente na característica vital que permite manter a ambiguidade psicológica das suas peças.

 

Conclusão

Apesar do uncanny ser um conceito de origem psicanalitica, é indelével a sua génese estética e a sua vasta aplicabilidade e extensão cognitiva dentro de várias áreas, entre as quais, as artes plásticas.

A partir da identificação de algumas das características visuais a partir das quais este conceito se pode manifestar (bonecas/autómatos, duplo, membros decepados e morte), pretende-se propor uma reflexão sobre a viabilidade conceptual e prática do uncanny dentro do imaginário pictórico do pintor Michaël Borremans.

Apesar desses elementos visuais serem temas recorrentes na pintura de Borremans, é essencialmente na dicotomia do tratamento ambíguo das suas personagens, e na adição de elementos que provocam a dúvida entre aquilo que se está realmente a passar após uma observação mais cuidada, que se provocam as realidades alternativas das suas pinturas e a abertura para uma leitura dentro daquilo que é o sentimento de algo ameaçadoramente estranho.

Independentemente de não ser algo do qual existam testemunhos directos escritos por parte do autor, por comparação com a acepção de Hal Foster em relação ao uncanny e ao surrealismo, considera-se que este conceito é algo transversal a toda a obra de Borremans, inscrito na atmosfera dos seus quadros, na efígie soturna das suas personagens, nos espaços taciturnos e silenciosos das suas narrativas. No entanto, o uncanny não se revela essencialmente apenas em temas ou em formas, mas sim, tal como aponta Freud, na forma de como o autor aborda a sua ficção, na frágil dicotomia entre aquilo que se percebe e aquilo que se concebe, na sugestão mas constante negação de uma legibilidade palpável, não apenas pela temática utilizada, mas, essencialmente, pela criação de narrativas ambivalentes quesugerem o sentimento de algo ameaçadoramente estranho.

 

Referências

Foster, Hal (1995). Compulsive Beauty. Michigan: MIT Press.         [ Links ]

Freud, Sigmund, & Bastos, J. G. (1994). Textos essenciais sobre literatura, arte e psicanálise. Lisboa: Europa America.         [ Links ]

Gioni, M., Michaud, P.-A., & Sardo, D. (2007). Michaël Borremans: Weight. Ostfildern: Hatje Cantz. ISBN 978-3-7757-2130-1        [ Links ]

Murphy, P. T. (2005). Michaël Borremans: The Performance. Dublin: Hatje Cantz.         [ Links ]

Sardo, Delfim (2006). Pintura Redux, Desenvolvimentos na Ultima Década. Lisboa: Público e Fundação de Serralves.         [ Links ]

 

 

Enviado a 04 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 de janeiro de 2018

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: sofiatorres07@gmail.com (Sofia Torres)

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