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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.9 no.24 Lisboa dez. 2018

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

O que resta e o que se quebra na poética da perda e da destruição na casa labirinto de Raquel Andrade Ferreira

What remains and what is broken in the loss and destruction poetic in Raquel Ferreira's labyrinth house

 

Adriane Rodrigues Corrêa* & Eduarda Azevedo Gonçalves**

*Brasil, artista visual.

AFILIAÇÃO: Programa de Pós-graduação Mestrado em Artes Visuais. Bolsista FAPERGS/CAPES. Centro de Artes (CA) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Centro de Artes (Cearte), R. Cel. Alberto Rosa, 62 — Centro, PelotasRS CEP: 96010-770, Brasil.

**Brasil, artista visual e pesquisadora.

AFILIAÇÃO: Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Centro de Artes (CA). Grupo de Pesquisa: Deslocc: deslocamentos, observâncias e cartografias contemporâneas CNPq/UFPEL. Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Centro de Artes (Cearte), R. Cel. Alberto Rosa, 62 — Centro, PelotasRS CEP: 96010-770, Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

O presente artigo versa sobre as obras videográficas e objetuais "era domingo e o almoço havia sido servido" e "Narrativas de uma destruição" da artista brasileira e pesquisadora em arte Raquel Andrade Ferreira, realizadas no período dedoutoramento no Programa de PósGraduação em Artes Visuais pela Universidade Federal de Porto Alegre-PGAVI/UFGRS, sob orientação do prof. Dr, Hélio Fervenza. As duas obras são abordadas evidenciando a relação estabelecida entre o objeto em seu contexto de uso poético e o objeto em suas redes simblicas deperda e transformação dacasa em espaço de destruição, caos e labirinto da artista mulher. Assim como, evidenciaremos, alguns aportes teóricos evidenciados em sua tese e outros, como Rafael Ortiz, artista que se constituiu a partir de demolições, destroços, quebras e outras ações de destruição no âmbito amplo e a artista Martha Rosler que cerca-se das práticas do quebrar no campo doméstico.

Palavras chave: Destruição / casa labirinto / perda.

 

ABSTRACT:

This article deals with the videographic and object works "It was Sunday and lunch had been served" and "Narratives of a destruction" by Brazilian artist and art researcher Raquel Andrade Ferreira, produced during her doctoral period in the Visual Arts Postgraduate Program, at Federal University of Porto Alegre — PGAVI/ UFGRS, under the advisement of Prof. Dr. Hélio Fervenza. These two works are analyzed through showing the established relation between the object in its poetic use context and the object in its symbolic networks of loss and transformation of the house in a destruction space, in chaos and in labyrinth of the woman artist.

Keywords: Destruction / labyrinth house / loss.

 

Introdução

O presente artigo versa sobre as obras "Era domingo e o almoço havia sido servido" e "Narrativas de uma destruição — Parte V." da artista brasileira e pesquisadora em arte Raquel Andrade Ferreira, que fazem parte de sua tese desenvolvida na linha de pesquisa em poéticas do processo no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — UFGRS, sob orientação do prof. Dr. Hélio Fervenza. A tese sob o título: Espaço da Perdae da Destruição, o labirinto como metáfora da casa e vice-versa na constituição de uma poética contemporânea, serviu como fundamento para podermos identificar motivação no campo prático como teórico para basilar nossa argumentação. As duas obras são abordadas levando em consideração a relação estabelecida entre o objeto e o gesto de uso levando em considerações algumas premissas: a relação do objeto antigo com a sua tradição simbólica na uma cultura local social e econômica na cidade de Pelotas, no interior do Rio Grande do Sul, local onde reside a artista. Assim como, as relações de perda e transformação da casa em espaço de destruição, caos e labirinto evienciado por uma artista mulher.

Raquel Andrade Ferreira é natural de Herval e reside em Pelotas. Atualmente, é professora de Artes no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia — Rio Grande do Sul, no campus Rio Grande. Desde o desenvolvimento de sua pesquisa na graduação, a artista utiliza sua casa-ateliê para a produção de seus objetos artísticos, isto é, o espaço doméstico é o espaço de criação e de cognição. A casa é o mote de sua pesquisa em que amplia a significação e percepção da casa em labirinto, lugares de afetos, desafetos, de perda, destruição e ressignificação.

 

1. Era domingo e o almoço havia sido servido

A obra "Era domingo e o almoço havia sido servido", realizado em 2013 (Figura 1), exposta no Espaço de Arte Àgape na cidade de Pelotas é constituído por alguns objetos, um prato ornado com uma estampa de uma paisagem preso a parede, e demais objetos domésticos — xícaras, bules e pratos quebrados e agrupados no chão, logo abaixo do objeto pendurado. Nessa disposição, a artista incialmente nos revela duas relações com os objetos. A primeira relação é suscitada quando nos deparamos com o prato decorativo pendurado na parede. O mesmo nos induz a sua apresentação como peça decorativa em paredes de salas de jantar e na cozinha, de algumas residências atuais, mas usualmente nas casas de famílias economicamente abastadas. Os pratos decorativos eram símbolo de tradição no passado, quando as famílias faziam questão de imprimir suas iniciais e brasões em louças da mais fina porcelana.

 

 

Encontramos alguns desses em antiquários que se sucedem na cidade de Pelotas onde Ferreira reside. Simultaneamente avistamos logo abaixo do prato decorativo, no chão, os cacos de objetos, deslocados de seu carater estético e usual. Ao lermos o título, a segunda relação nos leva a outro sentido daqueles objetos, a da destruição de uma coberta de mesa. Essa percepção nos conduz a mesa da artista ou a outras mesas, em que a disposição de objetos em uma situação doméstica, mais especificamnete de um almoço dominical, em que tradicionalmente arrumamos a mesa com as melhores louças, as cobertas de mesa ricamente adornadas para reunir a família estão quebrados. O único prato preservado é o prato ovalado com a paisagem, que geralmente é o continente da comida principal, ou seja, a artista preserva um único prato em que a natureza é estampada em sua placidez clássica e todo o resto do aparato de um suposto almoço foi destruído. Nesse ínterim identificamos a representação de uma relação de afeição que é perdida, nos induzindo a crer que o ritual do almoço de domingo ruiu. Nesse momento Ferreira nos faz sentar a mesa da casa labirinto, conceito que desenvolve em sua tese:

É um espaço mental que foi se constituindo dentro da casa. […] se o labririnto evoca a experiência da perda de orientação, através da desconstrução de um sentido único, verifico que as experiências dadas nos meus trabalhos apontam para outra percepção espaço-temporal que são próprios dos espaços labirinticos. […] como um conceito que engendra um mundo objetivo e subjetivo dacasa, que faz dela um abrigo confortável e ao mesmo tempo um espaço de transmutação do que nos constitui, do que ganhamos e do que perdemos, próprio do cotidiano (Ferreira, 2015: 92).

Ou seja, a obra nos dá a ver o que a casa abriga cotidianamente e que nem sempre é visível, que são os conflitos interpessoais geralmente expurgados quando nos reunimos em torno de hábitos sociais, ou seja, quando sentamos juntos numa mesa de domingo, num belo domingo de sol e "quebramos os pratos", ditado brasileiro para nos referirmos ao desabafo das dores, dos conflitos e das diferenças. A artista desacoberta por meio da destruição dos objetos no âmbito doméstico, a desorientação, a perda e a desordem da casa.

 

2. Narrativas de uma destruição — Parte V

Na obra "Era domingo e o almoço havia sido servido" a artista, nos apresenta o que resta de um almoço na casa labirinto, casa desorientada, no que tange a configuração tradicional de objetos e mobiliário, que comumente rege a configuração que representa também a estrutura familiar e social. À mesa da casa de Ferreira já não estão mais os pratos, pois a louça foi quebrada, quebraram-se os pratos no almoço de domingo, poderiamos reafirmar. Lembremo-nos que no título da obra o sujeito é indeterminado, somos todos sujeitos convidados a imaginar o que haveria ocorrido depois que o almoço foi servido e assim juntar e catar os restos da louça pois quem não quebrou os pratos destruiu os elos. Segundo Baudrillard:

… os móveis e os objetos existem aí primeiro para personificar as relações humanas, povoar o espaço que dividem entre si e possuir uma alma. A dimensãoreal em que vivem é prisioneira da dimensão oral que tem que significar. Possuem eles tão pouca autonomia nesse espaço quanto os diversos membros da família na sociedade. Seres e objetos estão alias ligados, extraindo os objetos de tal conluio uma densidade, um valor afetivo que se convencionou chamar sua "presença" (Baudrillard, 1997:22).

No caso dessa obra os objetos aludem a personificação de fatos corriqueiros ao sentarmos em uma mesa, o conflito e o apaziguamento, esse último apartado nas representações factuais e objetuais da artista. Na obra "Narrativas de uma destruição -Parte V.", a destrição, o gesto de quebrar é potencializado, pois trata-se de um vídeo em destruída.

A obra de vídeo registra uma performance realizada em agosto de 2012 no espaço conhecido como "Garagem experimental da casa da Alice" projeto de extensão do Centro de Artes da UFPel. Essa performance foi registrada em vídeo e fotografia, em tempo real. Esse trabalho foi apresentado na exposição coletiva Artes e Ofícios para Todos I, que ocorreu em setembro de 2012 no Galpão das Artes e Ofícios da cidade de São Paulo. Consiste em uma ação onde um armário antigo, do tipo cristaleira, é destronado através de um gesto de destruição violento. Seu interior encontrava-se repleto de alguns objetos de louça e porcelanas decorativas, mas também alguns outros de uso diário, tais como: xícaras, pratos, sopeiras, jarros. (Figura 2, Figura 3).

 

 

 

 

O armário aqui em questão foi adquirido em um Antiquário na cidade de Pelotas, oriundo de expedições de garimpo em feiras e lojas de antiguidades, realizadas constantemente por Ferreira. A cidade de Pelotas teve uma formação original dentro do Estado, foi núcleo das charqueadas, as mesmas fazendo fortunas e fomentando a importância econômica e a tornando por excelência um centro industrial e comercial. O charque era exportado para a Europa em frotas de navios, esses quando retornavam ao sul do país traziam os objetos, mobiliários e diversos adornos. Embora Pelotas tenha aos poucos se destituído do poderio econômico, ainda se evidência por meio de seus prédios, objetos e adornos construídos e adquiridos durante o período de riqueza (Magalhães, 2011).

O modelo de armário escolhido, tipo cristaleira, é comumente encontrado em muitas casas e geralmente localizado em lugares de grande visibilidade guardando objetos decorativos em salas de estar e é esse enquanto continente de relicários que é destruído pela artista. Não há como deixar de apontar o gesto que destrói como a contramão do gesto que o conserva os guardados herdados simbolizando o período em que charqueadores revelavam um estilo de vida afortunado de refinamento de maneiras e espíritos. Aristocratas, cheios de prestígio (Magalhães, 2011). Ferreira quebra, danifica, inutiliza, avaria, estraga, fende, racha, lasca, fratura, despedaça como ato de destruição (Figura 4, Figura 5, Figura 6).

 

 

 

 

 

 

Ela revela que "…a quebra nos meus trabalhos como uma destruição, visto que é uma ação voluntária de demolir, de arruinar, de causar estrago" (Ferreira, 2015:149). Segundo Vilém Flusser o gesto de destruir significa "…derogar unas reglas por las que las cosas se ordenan, de manera que essas cosas se desmoronam" (Flusser, 1994:80). Ou seja, a artista enaltece que ao praticar atos de destruição dos objetos do cotidiano de uso doméstico são operações de perda ou ainda uma vontade de transformar as coisas em consequência gerar o desapego (Ferreira, 2015). Embora reconheçamos a relação estreita com um ato paradoxal de destruição de tradição cultural da cidade que habita, é necessário evidenciar os vínculos com o campo da arte, fundamentalmente com gestos de destruição de artistas.

Desde o início dos anos 1960, Raphael Montañez Ortiz produziu uma série de trabalhos cujos gestos e procedimentos artísticos são da ordem da destruição na série Achados Arqueológicos (Figura 7). Nesse período, o artista o artista destrói objetos do mobiliário doméstico fabricados industrialmente, tais como camas, sofás, poltronas, cadeiras, almofadas, ente outros. Ferreira posteriormente destrói, assim como o artista, entretanto os objetos e em alguns momentos seus continentes, escolhidos e provenientes do espaço doméstico da casa e não numa dimensão industrial. Na época o gesto de destruição de Ortiz liberava os objetos de sua memória (Ferreira, 2015:242), de uma memória capital.

 

 

Os gestos de Ferreira se por um lado dilaceram objetos e os sentidos, a memória atribuídos a eles numa instância cultural em que são conservados como relicário da opulência econômica na cidade de Pelotas, por outro lado alcança outros significados mais amplos quando os aproximamos de um gesto comumente empregado no contexto da casa, a lida feminina. Obviamente que, os gestos de quebrar pratos se opõem ao gesto mais comum no trabalho dos dias, comumente papel feminino na casa, ou seja de lavar, guardar, ajeitar as louças (Figura 8, Figura 9). Não podemos descartar essa relação factual nos imbuída dia a dia:

 

 

 

 

Cotidiano é aquilo que nos é dado a cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma opressão presente. Todo dia, pela manhã, aquilo que assumimos ao despertar, é o peso da vida, a dificuldade de viver, ou de viver nesta ou noutra condição com esta fadiga, com este desejo. O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior. É uma história a meio-caminho de nós mesmos, quase em retirada, às vezes velada. (Certeau, 2009:31)

O autor nos redireciona as maneiras pela qual o gesto passa a ser no cotidiano o que nos prende e o que nos torna humanos históricos, e que consequentemente nos indica uma condição feminina: "mulheres não quebram os pratos". De qualquer maneira, Ferreira se opõem a essa condição feminina por meio do desapego aos objetos da casa, da cozinha, postados a mesa. A partir de tais questões podemos identificar similitudes com a obra da artista americana Martha Rosler que se utiliza em sua prática artística do ambiente doméstico e dos objetos que o habitar. No vídeo Semióticadacozinha, de 1975 (Figura 10), a artista se coloca postada diante de uma câmera, atrás de uma mesa coberta de objetos e utensílios de cozinha. Partindo de uma sequência alfabética, nomeia cada um desses objetos acompanhado de gestos agressivos que evidenciam com intensidade o movimento do uso. Esse vídeo pode ser considerado uma crítica ao papel tradicional da mulher no ambiente da casa. Notamos também que ao agarrá-los com agressividade, a artista expressa o esgotamento e a quebra de convenções de comportamentos triviais do cotidiano feminino. Ao destruir os objetos, a cristaleira desvela quem quebrou os pratos depois do almoço servido.

 

 

 

Conclusão

É importante destacar que a produção de Ferreira se movimenta no continuo do cotidiano, com meios e materiais que estão ao nosso alcance e em uso nas nossas casas, mas sem alusão a algo para além de seu uso. Por isso, poeticamente a artista os retira da essencialidade e de sua estabilidade, os direcionando as estruturas inconscientes e ideológicas. Desde a tenra idade sabemos como usar uma simples faca para cortar o pão, pegar alça de uma chávena, porém, quando a artista propõe outros gestos para acionarmos seus usos, uma outra maneira de os manipularmos, esse ato gera novos significados, uma ruptura e a relação das pessoas com eles, bem como questões de gênero e sócio culturais. Segundo Rosa Martinez no célebre texto O trabalho dos dias:

Há exercícios manuais que são como pequenas iluminações pois nos conscientizam de que nossa vulnerabilidade é paradoxalmente nossa força, de que nossa inevitável dor forma parte da lógica doservivente ede que o tédio que invade os recantos denossas habitações cotidianas vibra uma lacerante verdade sobre o sentido de nosso estar no mundo (Martinez, 1998:1).

A verdade de Ferreira se insinua nas ruínas dos aparatos usuais domésticos, nos cacos de uma louça servida durante um almoço de domingo na casa labirinto.

 

Referências

Baudrillard, Jean (1997) O Sistema dos Objetos. São Paulo: Perspectiva. ISBN: 85-273-0104-0.         [ Links ]

De Certeau, Michel (2009) A Invenção do Cotidiano 1. Artes de fazer. Petropólis: Vozes. ISBN: 978-85-326-1148-2.         [ Links ]

Ferreira, Raquel Andrade (2015) Espaços da perda e da destruição : o labirinto como metáfora da casa e vice-versa, na constituição de uma poética contemporânea. Porto Alegre: Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul & Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais.270pp.[Consult. 2107-12-20]. Disponível em URL https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/131026.         [ Links ]

Flusser, Vilém.(1994) Los Gestos. Fenomelogía y Comunicación. Barcelona:Helder. ISBN:84-254-1832-1        [ Links ]

Magalhães, Mario Osório (2011) História e Tradições da Cidade de Pelotas. Porto Alegre:ardotempo. ISBN: 978-85-62984-20-4.         [ Links ]

Martinez, Rosa (1998) Rivane Neuenschwander. São Paulo: XXIV Bienal de São Paulo.[Catalogo]         [ Links ].

 

 

Enviado a 04 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 de janeiro de 2018

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: drica.correa@yahoo.com.br (Adriane Rodrigues Corrêa)

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