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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.9 no.24 Lisboa dez. 2018

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

Porque a toalha de mesa apareceu na pintura de Adriane Hernandez?

Why did the tablecloth appear in Adriane Hernandez's painting?

 

João Carlos Machado*

*Brasil, Artista visual e performer.

AFILIAÇÃO: Universidade Federal do rio Grande do Sul, Instituto de Artes, Departamento de Arte Dramática. Rua General Vitorino, 255. , Bairro Centro — Porto Alegre/RS, CEP: 90020-171 Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

O texto versa sobre as pinturas recentes da artista Adriane Hernandez que apresentam composições formadas pela imagem de plantas, folhas e pássaros atravessados por padrões reticulados em xadrez que costumam figurar em toalhas de mesa. Indaga-se sobre possíveis motivações para os acontecimentos pictóricos descritos nele, propondo que a sua presença é proveniente de uma especulação e de uma trajetória que partiu da pintura, visitou os objetos físicos e a fotografia para depois retornar à pintura.

Palavras chave: Pintura / procedimentos criativos / conceitos.

 

ABSTRACT:

The text deals with the recent paintings by the artist Adriane Hernandez that present compositions formed by the image of plants, leaves and birds crossed by reticulated patterns in chess that usually appear in tablecloths. He speculates on possible meanings and motivations for the pictorial events described in him, proposing that his presence comes from a speculation and a trajectory that departed from the painting, visited the physical objects and the photography to return to the painting.

Keywords: Painting / creative procedures / concepts.

 

Introdução

As pinturas recentes da artista Adriane Hernandez apresentam composições formadas pela imagem de plantas, folhas e pássaros atravessados por padrões reticulados em xadrez que costumam figurar em toalhas de mesa.

Com muito cuidado, percebemos que os efeitos colorísticos belos e sofisticados e a composição visual por vezes complexa que se colocam diante dos nossos olhos podem nos distrair do pensamento do fazer pictórico que engendra estas montagens pintadas.

Na verdade, apesar do efeito enganar nosso olhar, não temos aí pedaços de toalha de tecido comumente utilizados para cobrir mesas nos lares e restaurantes, mas uma pintura que imita estes padrões.

Este texto não se propõe a responder à pergunta colocada em seu título, mas indagar sobre possíveis sentidos e motivações para os acontecimentos pictóricos descritos acima.

Aqui apenas conjecturamos que a presença destes elementos é proveniente de uma especulação pictórica que por sua vez é fruto de uma trajetória que partiu da pintura, visitou os objetos físicos e a fotografia para, depois de uma longa elaboração retornar à pintura.

 

1. Diante da tela

Tomo a liberdade de me imaginar no lugar desta artista, em meio às tintas, potes, godês improvisados, cavaletes, fita adesiva e uma série de outros materiais necessários para fazer a pintura que está à minha frente. No atelier, tudo que preciso para pintar está ao alcance do meu corpo, na parede, no cavalete e na mesa. Não preciso me movimentar muito para alcançar cada coisa. A minha atenção, essa sim, terá que se movimentar entre cada parte e o todo da pintura. Ela me exigirá uma mão firme com pincéis delicados, com a psicomotricidade necessária para afixar as imagens de pássaros e plantas a partir dos modelos fotográficos e impressos que estão dispostos ao alcance da minha vista. Requisitará minhas capacidades compositivas, pensamentos e escolhas sobre planos, espaços e a distribuição dos elementos, assim como minha sensibilidade com relação ao uso da cor entre a representação (imitação) e decoração (no melhor sentido do termo), para atingir um efeito sensorial visual que me pareça interessante e satisfatório. Serão exigidos também alguns procedimentos "mecânicos", na definição e isolamento das áreas a serem preenchidas com as formas regulares da padronagem da toalha de mesa, coisa que ocorrerá em diversas etapas. Para produzir a pintura de fragmento de toalha de mesa são utilizados moldes feitos com fita adesiva, e a utilização de moldes, matrizes e gabaritos é uma lógica produtiva do múltiplo (entendido aqui como formas de arte que se valem da reprodutibilidade técnica seriada). Além disso, com um olhar também no efeito total do trabalho, estará em jogo minha capacidade de lidar com a complexidade da quantidade e da qualidade das relações entre estes elementos todos, que sempre se apresentam de maneira simultânea sobre a superfície da tela, no jogo dinâmico, recursivo e retroalimentativo estabelecido por eles. E as surpresas desse jogo requererão um estado de presença e a capacidade de lidar com os acontecimentos que surgirão ao acaso (controlado?), pois quando sobreponho as áreas destinadas aos fragmentos de toalha de mesa sobre a composição que já estava em andamento, não tenho como antecipar o que vai acontecer no choque entre estas superfícies e as demais. E talvez seja essa uma das razões para os fragmentos de toalha de mesa terem emergido na pintura (Figura 1). O desafio, o calculado e o inesperado atuando juntos, provocando a pintora.

 

 

Mas considerar que tais procedimentos são suficientes para engendrar estas pinturas seria simplificar demasiado o longo processo de experiências e escolhas que levaram a ele. Porque trabalhar com jogo de planos pictóricos? Quais os motivos que levaram a escolher as imagens que aparecem nestas pinturas? O que significa a presença dos fragmentos de toalha de mesa? Penso que, paradoxalmente, estas são perguntas para as quais os artistas não precisam ter respostas exatas, pois muitas emergem de sensação ou da intuição de sua potência semântica, embora ao mesmo tempo elas devam participar de uma (longa) cadeia de cogitações e desejos surgidas ao longo de uma trajetória, de um processo de pensamento. Pensamento pictórico, no caso.

 

2. Uma dimensão reflexiva

Acompanhando o trabalho da artista ao longo do tempo, vemos como algumas temáticas do cotidiano são, ao mesmo tempo, pretextos para a prática pictórica e um modo de observar e valorizar elementos que nos aproximam das coisas triviais do mundo em que estamos imersos. Se considerarmos uma abordagem (talvez filosófica) da função da pintura e da arte no nosso mundo, como um disparador da atenção fina que nos faz questionar os fenômenos que nos rodeiam, podemos considerar que a apresentação destes elementos para os nossos olhos são ferramentas de uma abordagem inquisitiva do mundo no qual estamos imersos. A arte tem a potência de nos fazer pensar sobre as coisas de um modo que o olhar pragmático do cotidiano não costuma contemplar. Pensar a pintura, e através dela pensar o mundo, pois assim, "a pintura nos reconduzia à visão das próprias coisas" (Merleau-Ponty, 2004:56).

E eis que, munidos desta dimensão reflexiva, a temática figurativa e a temática do proceder pictórico se atravessam e se retroalimentam. Mais além do prazer estético que as atuais pinturas de Adriane Hernandez nos provocam, seria necessário conhecer uma boa parte de sua produção anterior para verificar os nexos sofisticados que gosto de acreditar que estão presentes nesta produção. No trabalho desta artista, após a apresentação de imagens de detalhes de objetos e elementos decorativos de banheiros em pinturas mais antigas (Figura 2), seguiram-se imagens de cozinha, de pães, e de suas migalhas sobre as toalhas de mesa (Figura 3). Penso que a pintura que remete às padronagens presentes em azulejos cerâmicos e tecidos estampados exigiu a multiplicação destes elementos mínimos seriados, para os quais a impressão gráfica de imagens capturadas por fotografia foi uma solução técnica e estética que dava conta desta necessidade de repetição da forma e da figura.

 

 

 

 

A possibilidade reprodutiva da fotografia, própria da lógica dos múltiplos, expandida através de adesivos e outras soluções afins, permitiu expandir a pintura sobre os objetos mais variados e sobre o espaço além da tela.

Na condição de colega artista e de apreciador da arte e do seu fazer me interessa observar como se dão os atravessamentos e interpenetrações entre procedimentos e conceitos operacionais de linguagens distintas, que neste caso ocorrem entre a fotografia, o múltiplo e a pintura. Assim, parece-me que o olhar de observação das coisas com o intuito de capturá-las na pintura se expandiu para a fotografia, e as propriedades de reprodução e repetição da fotografia e da arte impressa se fizeram presentes na prática pictórica, gerando uma retroalimentação de procedimentos.

 

3. Algumas familiaridades

A repetição de elementos, desde pequenas porções de miolo de pão até pontos coloridos, cuidadosamente aplicados sobre diversas superfícies que avançam para além do suporte tradicional da pintura remetem, no meu entendimento, à necessidade apontada por outros artistas de sair do espaço da parede e da tela para que a pintura avance sobre o mundo, como pretendia Hélio Oiticica: "Já não quero o suporte do quadro, um campo a priori onde se desenvolva o "ato de pintar", mas que a própria estrutura deste ato se dê no espaço e no tempo" (Oiticica, 2006:84).

E assim, a pintura se torna penetrável ou, por vezes, vestível (Figura 4).

 

 

E é este elemento que saiu da pintura e ganhou o mundo que retorna nos fragmentos pintados de toalha de mesa na sua produção atual. Aí, passam a conviver com outros elementos, representativos imitativos como os pássaros e plantas, e decorativos como linhas e pequenas superfícies repetidas que estabelecem um jogo complexo de formas e camadas (planos) sobre a pintura. Se os elementos vulgarmente chamados de abstratos (são concretos!) pertencem a uma categoria diferente dos concernentes à classe da imitação do real, os fragmentos de toalha de mesa ocupam um lugar intermediário entre a representação (a imagem de uma padronagem de toalha de mesa) e a pura apresentação visual, guardando algo da classe dos sinais convencionados, mais ou menos como explorado por Jasper Johns nos seus trabalhos com alvos e algarismos.

 

Conclusão

Todos à mesa, a pintura está servida.

Neste texto busquei apresentar diversos ingredientes concernentes ao pensamento criativo e pictórico da artista Adriane Hernandez, procurando demonstrar a complexidade e a interpenetração de conceitos e operações técnicas e criativas nas suas pinturas recentes.

Friso aqui essa relação estreita entre conceitos e operações pois, incrivelmente, sei que há aqueles que consideram ainda hoje que a "pintura morreu", ou que a arte contemporânea não tem lugar para ela. Me causa estranheza quando escuto, em pleno século XXI, pessoas do campo das artes visuais afirmarem que para haver uma camada conceitual potente em um trabalho a estesia e a sensorialidade devem ser expurgadas ou diminuídas, aos moldes da arte conceitual da década de mil novecentos e sessenta. Da mesma forma, me causa assombro ouvir que a conceitualidade seja contrária à visualidade e à habilidade técnica e manual, e também a incapacidade ou negação de perceber os sentidos produzidos pelo modo como as obras são engendradas, como queria Sartre ao afirmar que "um retrato, uma paisagem, uma forma, só podem ser reconhecidos na pintura na medida em que deixemos de ver a pintura como ela é" (Sartre, 194:204). Os tempos contemporâneos da arte exigem uma capacidade de lidar de maneira adequada com a singularidade e a multiplicidade de seus modos de ser, a arte contemporânea (ou melhor, da contemporaneidade) ao invés de ser um estilo, que se possa caracterizar através de recorrências formais ou de procedimentos, é justamente aquela que encontra soluções adequadas aos universos especulativos dos artistas, das mais variadas maneiras.

Considero que a estranheza causada pela junção dos elementos de natureza distinta nas pinturas atuais da artista, ao mesmo tempo que nos provoca, seja um tipo de reflexo dos atravessamentos e do enredamento das coisas que nos rodeiam. Pois acredito que uma consciência propriamente contemporânea sobre o mundo e sobre a arte seria aquela que admite e busca a complexidade, evitando as visões simplificadas que por vezes se acomodam em percepções fáceis e rasteiras.

E é neste universo de cogitações e questionamentos que as pinturas de Adriane Hernandez, com seus fragmentos de toalha de mesa, se colocam para a artista e para nós, que temos o prazer de degustá-las com os olhos.

 

Referências

Merleau-Ponty, Maurice. (2004). "Conversas: 1948". Organização e notas de Stephanie Menase. Tradução Fabio Landa e Eva Landa. São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

Oiticica, Hélio. (2006) "A transição da cor do quadro para o espaço e o sentido de construtividade". In: Ferreira, Glória; Cotrim, Cecília. (2006) Escritos de artistas: anos 60/70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Pp 82-95.         [ Links ]

Sartre, Jean-Paul. (1940). L'imaginaire. Paris: Gallimard.         [ Links ]

 

 

Enviado a 02 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 de janeiro de 2018

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: iadad@ufrgs.br (João Carlos Machado)

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