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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.9 no.24 Lisboa dez. 2018

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

Os registos tangíveis de Liene Bosquê

The tangible registers of Liene Bosquê

 

Susana Maria Pires*

*Portugal, artista plástica.

AFILIAÇÃO: Universidade de Lisboa; Faculdade de Belas-Artes; Centro de Investigação e Estudos em Belas Artes (CIEBA). Largo da Academia Nacional de Belas Artes 14, 1200-005. Lisboa, Portugal.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

O trabalho de Liene Bosquê filia de uma investigação sistemática sobre a passagem do tempo e a forma como percecionamos um determinado lugar através da presença e ausência de quem anteriormente o habitou. A sua prática artística decorre de múltiplos processos de moldagem, impressão e apropriação de fragmentos arquitectónicos que se autonomizam na duplicação de linhas e volumes característicos dos edifícios. Conduzindo um aprofundamento da obra "Interior/Exterior", que Bosquê desenvolveu na cidade de Lisboa, o presente texto apresenta os seus registos tangíveis como uma membrana que expõe o avesso do espaço e a textura do tempo.

Palavras chave: Superfície / Matéria / Memória / Tempo.

 

ABSTRACT:

Liéne Bosquê investigates the passage of time, which changes place and how we look at place, through the presence and absence of who inhabit these places. Liene Bosquê's working process includes imprint, mold making and appropriation of architectural fragments. Using materials such as latex, clay, plaster, and fibers she collects and retains characteristic relays of buildings on another surfaces, eliciting notions of temporality, fragility, memory and history. With the focus on the site-specifics work "Interior/Exterior", held in the city of Lisbon, this paper aims to reveal her tangible registers as a membrane which exposes the reverse of space and the texture of time.

Keywords: Surface / Matter / Memory / Time.

 

Introdução

A topografia única de cada pele retém a identidade temporal do ser que nela habita. A epiderme dos corpos viventes e da matéria muda sustém o paulatino aglomerado do devir. Nos dados desta condição depreende-se que a familiaridade entre superfície e superficialidade ocorre apenas na etimologia de ambas as palavras, mas que esta proximidade se traduz errónea na semântica. Superfície, esboça-se aqui como a membrana que conecta o interior com o exterior permitindo o vínculo com a existência material. O ente tocável que é reciprocamente tocante, uma matriz codificada coligida pelo tempo.

Recordemos também que o contacto entre nós e os objetos ocorre na superfície. É no contexto desta complexa interação entre o corpo e o espaço que o filósofo americano Eduard S. Casey estrutura o conceito "Skin Deep" (Casey, 2015), revelando-o como o processo pelo qual o nosso "ser-pele", embutido de toda a sua história pessoal, júbilos e feridas a que foi sujeito, se correlaciona com as texturas dos lugares por onde habita e vagueia.

A experiência do corpo vivo como entidade continuamente impregnada pela memória coletiva, por intermédio da relação com o espaço construído, assumese como foco de investigação de Líene Bosquê. A base do seu trabalho é, portanto, exploração do "lugar" numa equação que enquadra a experiência sensorial de espaços urbanos e domésticos associada a contextos, memórias e história.

Na sua prática artística, Liene, começa por selecionar fragmentos da arquitetura, janelas, portas, ornamentos, puxadores, relevos da construção ou pequenas formas características da casa, para posteriormente obter moldes dos diferentes elementos, geralmente com látex ou porcelana. Os seus registos tangíveis, marcas próprias do espaço, endossam a matriz das suas construções tridimensionais. "Interior/ Exterior" (2008) é uma obra "site-specific" realizada a partir do saguão de um prédio olisiponense. Para a sua concretização a artista aplicou látex diretamente nos vidros e paredes da habitação obtendo como resultado uma "pele-molde" das suas janelas. Esta película flexível, enquanto forma extensiva de contacto, absorve e reproduz a rugosidade imposta pela temporalidade, ou seja, revela os limites palpáveis do edifício mas simultaneamente dá corpo aos resíduos da sua vivência imanente.

 

1. Reter a textura do tempo

A presença de uma ruína exala cheiro e som de nostalgia, sintoma do palimpsesto mnemónico do lugar. Desde o início da sua construção, que arquitetura estabelece vínculos com a vivência física e psíquica de quem a habita. A textura arquitetónica absorve as camadas combinadas da vivência do espaço, inspira os movimentos e os gestos do presente e expira ressonâncias que múrmuram atos passados. Se é verdade que os espaços que nos abrigam imprimem a nossa passagem, a veracidade mantém-se no reverso, todas as casas que habitamos condicionam o nosso diagrama de habitar. O ser abrigado sensibiliza os limites de seu abrigo e é reciprocamente tingido por este.

Liene Bosquê afirma estar interessada na relação entre pessoas e lugares, explora a experiência sensorial dentro e cerca dos espaços arquitetónicos e simultaneamente procura reter para si a memória das paisagens edificadas onde passa e vive. Indubitavelmente a sua proposição artística está intimamente ligada com o seu percurso pessoal e académico. Liene Bosquê (1980) nasceu em S.Paulo e vive desde 2011 em Nova Iorque. Entre 2006 e 2008 residiu em Lisboa onde realizou o Curso Avançado no Centro de Arte e Comunicação Visual (Ar.Co), entre 2009 e 2011 estudou e viveu em Chicago. Segundo a artista o facto de ter saído do Brasil e ter vivido prolongadamente em outros países fê-la sentir necessidade de fincar raízes onde estava a viver. Isso reflete-se no seu trabalho, no conceito, em peças "site-specific" e através da pesquisa da história e cultura do local onde se encontra. Tornou-se-lhe um exercício continuo descobrir outras memórias para a construção sua própria memória pessoal.

Liene ambicionava ser cenógrafa, mas devido à inexistência de um curso superior nesta área decidiu estudar Arquitetura e Urbanismo em simultâneo com um bacharelato em Artes Plásticas, ainda em São Paulo. Fascinada pelo processo criativo a sua prática foi consecutivamente tornando-se mais sólida e complexa. Em uma entrevista que lhe foi dirigida no espaço "Carpe Diem Arte e Pesquisa", onde esteve em residência, Bosquê, afirma que a sua passagem por Lisboa foi uma oportunidade decisiva para o desenvolvimento da sua linguagem pessoal. Em Lisboa, o foco da sua praxis estruturou-se pela repetição do uso da arquitetura como matriz para moldes e impressões com látex, ações que permeiam o seu trabalho até hoje. Porém, diz, foi durante o seu mestrado na School of the Art Institute of Chicago que o seu interesse pela história bem como pela teoria da arquitetura e da cidade marcaram definitivamente o seu campo imagético.

Apontamentos esquecidos do mobiliário urbano, edifícios que foram sucessivamente alterados ou arquétipos do viver de determinada comunidade destacam-se como elementos de particular interesse para Bosquê. De uma perceção atenta do lugar, seleciona e analisa fragmentos da construção, para em seguida, cuidadosamente, prosseguir com o fabrico do molde. Hapticamente e de forma reversível os seus moldes permitem-nos sentir o peso material e a espessura temporal do espaço em que vivemos.

As anamorfoses de Bosqûe herdam notoriamente o legado artístico de Heidi Bucher (1926-1993). A artista suíça foi percursora na aplicação de látex sobre casas e objetos. Foi em meados da década de 1970 que começou a desenvolver a nova técnica na qual encharcava lenços de gaze na borracha de liquida, forrando meticulosamente superfícies amplas. Bucher usou como suporte a casa dos seus avós e o seu próprio atelier. Os "Skinnings" (Figura 1) de Bucher são as peles do lugar, mas são também a fixação de formas e volumes em planos translúcidos, quase vestíveis, quase orgânicos. A justaposição entre a fragilidade da matéria usada e a escala destas obras remete-nos para uma relação visceral com o espaço. Ante o resultado, somos levados a assistir a um antropomorfismo vulnerável dos nossos abrigos.

 

 

Bucher indagou como habitamos os espaços e como eles nos habitam, como eles conduzem as nossas memórias e ações. Ao cobrir e posteriormente esfolar a sua casa de infância, não se ocupou apenas com a transferência das organizações materiais e geométricas, ela acondicionou, reteve, resguardou a memória dos volumes suturados da sua vivência mas, seguidamente, puxou e arrancou com determinação a casca da sua "concha" como um artrópode a provocar a sua própria ecdise.

Há uma organicidade, uma força e uma densidade matérica nas peles esfoladas de Bucher que não encontramos nos trabalhos de Bosquê. Mais silenciosa e subtil, Liene, apropria-se da técnica mas certifica-se que o seu trabalho tem lugar próprio. Em a "Opennings" (Figura 2) o duplo da janela cede ao peso da gravidade. Tem a volúpia de um quase tecido, e parece até, para quem vê a primeira vez, que esteve sempre ali, que é parte integrada do lugar. Muda e harmoniosa trata-se de uma membrana que testemunhou todas as fendas e pequenos aglomerados da fenestra. Da fenestra, a mesma que se abriu e fechou anos a fio por tantas mãos, e todas as mãos deixaram uma partícula de si. Longe de ser uma estrutura estática e inerte, a verdadeira casa concentra esquemas de movimento e hábitos que fazem parte da natureza do espaço da habitação. Aquela membrana agora suspensa entre a zona inferior da janela e o chão reteve a rugosidade de todas essas passagens.

 

 

O campo gravitacional háptico de "Openings" desdobra-se em "Interior/ Exterior" (Figura 3), revertendo, nesta, a presença da obra para o exterior do edifício. E se antes do tecido viscoso parecia condensar a quentura do lar, aqui o silêncio é soberano. O saguão comum de prédios altos parece nunca cumprir a sua função de partilha, é geralmente um terreno sem vida. Nesta obra as janelas de latex repetem-se modularmente a partir das diferentes aberturas. Materialmente idênticas aquela anteriormente citada, estas aparentam ter-se mumificado em pó de betão.

 

 

A perceção distinta de obras idênticas justifica o argumento de que estas superfícies flexíveis são capazes de reter a natureza da substância material que absorvem e reproduzem mas que simultaneamente expõem a fluidez da sua história humana e temporal.

Para Liene Bosquê o discurso material da obra é proficiente, afirmando o seu interesse por materiais que possuem memória, saturados em si mesmos de significado.

Em "Surface Matters of aesthetics, Materiality, and media" (2014) a teórica Guiliana Bruno argumenta que a materialidade não é uma questão de materiais mas sim a substância das relações materiais e que isso vai contaminar o nosso sentido de espaço e de contacto com o meio ambiente bem como o da nossa experiência de temporalidade interioridade e subjetividade.

Bruno acredita e defende que a tensão superficial é hoje uma condição central na arte contemporânea e na arquitetura, sinalizando uma remodelação da nossarelaçãoperceptivacomoobjetoartísticoecomoscomespaçosexpositivos. A sintonia entre o pensamento de Bruno e o projeto de Liene Bosquê efetua-se sobretudo segundo duas linhas estruturantes. A primeira no sentido de que para Bruno repensar a materialidade significa accionar novas formas de conexão. Procura demonstrar que a fisicalidade de uma coisa que se pode tocar não desaparece com a sua extinção e que esta pode vir transformar-se em outro meio expressivo. Bosquê transforma as estruturas rígidas em materiais mais frágeis e flexíveis, o seu trabalho concretiza-se pela transposição de elementos formais entre diferentes naturezas materiais.

Segundo, ambas têm interesse em como atribuímos significados a locais e objetos e como essas experiências podem servir como catalisador para alterar a perspectivas da vivência coletiva dentro do domínio privado.

Não obstante para Bruno a experiência estética é por natureza háptica, pois estabelece-se tangivelmente em uma relação próxima e transitória entra obra e observador. Paralelamente a prática artística de Bosquê surge como índice revelador de um paradigma táctil que nos conduz a uma outra proximidade com a textura do tempo.

 

Conclusão

A pele não é apenas o tecido que abriga os corpos, mas o meio através do qual o organismo se relaciona com o lugar. Não esqueçamos que estas peles são superfícies e que as superfícies são sempre peles. São os limites de outros limites.

A pele é sempre onde o dentro e o fora se relacionam e se distinguem. É um tecido que é ao mesmo tempo conjuntivo e disjuntivo.

Nas obras em estudo, "Openings" e "Interior/Exterior", modelo e objeto coadunam na qualificação significativa, pois o elemento janela é por si um plano de interação e transição. Bachelard (2008) conferiu ao contorno que delimita o interior um percurso de sentidos opostos de variáveis contraditórias, a casa e não casa, o aberto e o fechado, o aqui e o ali, o cosmos e o caos.

As membranas de látex de Liene Bosquê transformam a topografia exterior dos edifícios em geografias interiores. Ao moldar a tessitura de espaços domésticos, Liene, dá existência corpórea a textura da vida privada de outros e por um breve momento permite-nos o acesso à materialidade densa dessa historicidade suspensa.

 

Agradecimentos

A autora é bolseira da Universidade de Lisboa, na Faculdade de Belas-Artes.

 

Referências

Bachelard, Gaston (2008). A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

Bergson, Henri (1990). Matéria e Memória: Ensaio sobre a relação do corpo com o espirito. São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

Bruno, Guliana. (2014). Surface Matters of aesthetics, Materiality, and media. Chicago: University of Chicago Presss.         [ Links ]

Kearney, Richard & Treanor, Brian (Ed) (2015). Carnal Hermeneutics. New York: Fordham University Press.         [ Links ]

Nancy, Jean-Luc (2000). Corpus. Trad. Tomás Maia. Lisboa: Vega.         [ Links ]

 

Enviado a 04 de janeiro de 2018 e aprovado a 17 de janeiro de 2018

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: spires@campus.ul.pt (Susana Maria Pires)

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