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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.8 no.20 Lisboa dez. 2017

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

Ações de (des)velamento: a escrita performativa na obra Pes(o)soa de Carne e Osso de Santiago Cao

(Un)veiling Actions: the performative writing in the work Pes(o)soa de Carne e Osso by Santiago Cao

 

Samara Azevedo de Souza*

*Brasil, atriz, performer multimédia. Bacharelado em Artes Cênicas com especialização em Interpretação Teatral, Universidade Estadual de Londrina (UEL), Centro de Educação, Comunicação e Artes, Departamento de Música e Teatro.

AFILIAÇÃO: Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas Artes, Área de Pintura, Centro de Investigação e Estudos em Belas-Artes, CIEBA. Largo da Academia Nacional de Belas Artes, 1249-058 Lisboa, Portugal.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

Esta investigação visa adentrar algumas premissas das ações de (des)velamento de Santiago Cao, onde o performer com seu Corpo discute relações de poderes enraizados nos lugares que transita. Através da obra Pes(o)soa de Carne e Osso, tenta também delimitar alguns aspectos possíveis para a definição do conceito de escrita performativa, se referenciando entre visões do próprio artista, e de Fernando Stratico, quando defende o conceito de imagem performativa.

Palavras chave: corpo / performance / escrita performativa / imagem performativa / arte política.

 

ABSTRACT:

This research aims to traverse into some premises of the (un)veiling actions of Santiago Cao, where the performer with his body discusses relations of micro-powers rooted in the places in which he wanders. Through the work Pes (o) soa de Carne e Osso, it also tries to set out some possible aspects for the definition of the concept of performative writing, referring between the own visions of the artist, and Fernando Stratico, when he advocates the concept of performative image.

Keywords: body / performance / performative image / performative writing / political art.

 

Introdução

 

Quanto pesa a carne?

E quanto pesa a pessoa através da carne, numa sociedade que nega e anula as pessoas?

(Cao, 2010: s/p)

Santiago Cao é artista visual e performer, de Buenos Aires, atualmente a residir em Salvador — BA. Sua pesquisa trata da experimentação dos Corpos (corpo com C maiúsculo como usa o artista) nos Espaços Públicos. Cao denomina suas performances como "Ações de (des)velamento": usando seu Corpo como suporte, procura evidenciar um aspecto da realidade em questão, geralmente escondido pela vista ordinária, encoberto pelo "véu" cotidiano.

Para isto o artista realiza uma vasta pesquisa histórica em livros e na internet sobre o espaço que irá intervir. Cao também atualiza essa leitura em conversas com as pessoas que frequentam o lugar. A partir da construção dessa rede complexa de recolhas, o artista já começa a elaborar uma série de imagens em sua mente. Nas palavras do próprio:

Busco criar uma cartografia para então imaginar, quer dizer, criar em minha mente imagens poéticas que funcionam em modos de metáforas que me permitem vincularme com esse contexto dos modos de Ver que estejam operativos nesses tempos. Procuro produz (sic) alguns (des)velamentos desde o olhar, e uma vez gerado estas imagens, eu procuro maneiras de levá-las ao espaço utilizando o meu Corpo como um suporte da ação e portador dessas metáforas. (Cao & Albonaróz, 2013:9)

Seus afetos, suas lembranças, as contradições existentes entre a história escrita e institucionalizada e as pessoas, as vidas que o habitam. E o trânsito simbólico de todas estas questões para o seu Corpo, que tenta investigar camadas de conflitos, de relações de poderes escondidos nos lugares.

 

1. Peso(s)soa de Carne e Osso

Em setembro de 2010 o lugar cenário das investigações de Cao foi Salvador, na Bahia, Brasil. A cidade foi capital da colônia brasileira até 1763. Seu centro é um lugar preenchido por prédios, escritórios, comércio. Tem o trabalho, a escravidão, marcada em sua história.

A proposta consistia em estar pendurado numa balança, com 70 quilos de carne de um lado, e o seu corpo, no outro, sendo suspensos por uma rede (Figura 1, Figura 2). A ideia era permanecer ali por 8 horas, a jornada de trabalho do cidadão comum. Apenas a esperar. No chão de um lado se via escrito com carvão:

 

 

 

 

PES(O)SOA DE CARNE E OSSO

E do outro:

QUEM PESA MAIS? A PESSOA OU A CARNE?

Existem algumas premissas no trabalho de Cao as quais o artista sempre convoca, para as colocar em diálogo em suas obras, em suas ações de (des)velamento.

Uma delas é o silêncio. O artista quando está na rua, em ação, em performance não responde aos diversos questionamentos propostos pelas pessoas que atravessam a ação e tentam obter dele uma resposta sobre os porquês. Estas perguntas mudam conforme o prolongamento da ação e a repetição das mesmas pessoas a passarem pela intervenção.

No caso de Pes(o)soa de Carne e Osso, o performer afirma que apesar do seu silêncio, ele retribuía as perguntas com um olhar atento, para as que os curiosos soubessem que não se tratava de os ignorar. Mas sim de não dar uma resposta imediata e confortável aos conflitos de cada um que por lá passava.

E para cada pergunta, simplesmente lhes observei em silêncio. Queria que as pessoas soubessem que os escutava, que não os estava ignorando, estabelecendo assim uma comunicação. Mas ao mesmo tempo, ao não dar-lhes resposta verbal, obtinha deles muitas mais perguntas e pelo mesmo motivo, muitas respostas. "Está pagando promessa", afirmavam alguns. "Ele não pode falar" disse um homem e outro agregou "Ele somente fala com os olhos". (2010:s/p)

Outra premissa: o tempo. O tempo necessário para que a intervenção seja realmente uma quebra estranhada do cotidiano. Cao pretendia permanecer por oito horas. Mas como intervém no espaço, e aceita que depois o espaço e seus espectadores também o atravessem, se assim o fluxo seguir, ele não interferiu nas modificações que diferiam do seu planejamento.

Ao final de seis horas, o artista conta que uma mulher abriu passagem entre os que estavam lá e o ofereceu-lhe água. Após tentar saber o que se passava, perguntou a Cao se queria que o soltasse. E concluiu por si, que não era saudável ele lá estar, uma vez que o artista não respondia. A mulher começou a incitar as pessoas para que o libertassem. (CAO, 2010 :s/p)

A combinação entre a rede de material sintético, em contato com sua pele, debaixo do calor do sol de Salvador, causaram feridas nas costas de Cao, que não estavam previstas de início, e que corroboraram a interferência da mulher. A associação do silêncio do artista, que não responde às inquietações dos espectadores, e o tempo de execução da ação, que em Pes(o)soa de Carne e Osso

passou das seis horas, trazem algumas contundentes mudanças no comportamento passivo de quem acompanha uma intervenção urbana. Aliado ao fato da ausência da exposição do registro fotográfico, as pessoas se deparam com um homem, pendurado em uma balança de um lado, do outro lado carne, e não conseguem rotular, definir, entender o que ali se passa. Está fora do sistema. Entra-se numa zona de desconforto total.

No início, o julgamento dos transeuntes era de que se tratava de uma "promessa", dado às características religiosas que recobrem a cidade. Depois, na dúvida do que se passava, os espectadores, que para o artista, se transformam em interatores, "sujeitos que intervindo na ação, a transformaram, definindo um novo rumo ou um novo desenlace para a proposta inicial." (Cao, 2012:1), retiraram o artista da balança. Decidiram entre si que era o mais sensato a se fazer diante do desconhecido.

Cao não evidencia, não espetaculariza o registro de suas performances. Acredita que ao se ver a presença de uma câmera, de um objetivo de registro, ao lado da intervenção urbana, uma zona deconforto é criada pelos espectadores, por poderem rapidamente associar o que se vê fora do contexto, a um "evento de arte". Deste modo, os registros fotográficos que possui de suas obras são feitos distante da vista dos transeuntes, ou acontecem de modo fortuito. Disparam em diversos sentidos para além do controle do artista. Além do tempo estendido e do silêncio, esta poderia ser outra premissa do trabalho de Cao: a não visibilidade dos dispositivos de registro imediato.

 

2. Escrita performativa

Por mais que existam 70 fotos de Pes(o)soa de Carne Osso, tirados por uma câmera posicionada de mod0o escondido da vista dos traseuntes, o foco de Cao não está na construção estética destas fotografias. O caso de El Sueno de La Casa Própria, realizada por Cao em Brasília, em abril de 2011, deixa esta afirmação mais radical. Apenas três fotos, tiradas por acaso, foram feitas de uma ação que aconteceu durante três dias com o artista a perambular de fato, pelo centro da cidade, com uma coleira ao pescoço aliada a uma fechadura.

As fotos resultantes desses registros imediatos são parte da documentação das intervenções urbanas de Cao. Se multiplicam através da rede social Facebook, que é um dos seus suportes midiáticos, e ganham inúmeros contextos que fogem ao alcance do artista.

A outra parte desse registro, a mais potente, a qual é direcionada um pensamento estético, uma escolha visual, são os relatos escritos pelo artista após a ação. Seus relatos narrados em primeira pessoa, performatizam o texto, pois trazem para além da objetividade das fotos, um recorte das sensações, das afetividades, dos encontros acontecidos neste momento. Para o artista, é uma das partes que compõem o trabalho.

Eu não escrevo "sobre o meu trabalho", mas ao escrever o estou completando. Eu considero este escrito como um outro registro, como fotográfico, filmado ou sonoro, que fará um corte subjetivo do que aconteceu. Considero a escrita como um registro narrativo subjetivo do que aconteceu durante a ação. (Cao, 2012:s/p)

Neste sentido é possível entender que os relatos de Cao não tratam apenas de documentar a obra. São em verdade, uma "extensão da obra performática", que preservam em si um "caráter perene", em outras palavras, permanente, em oposição ao caráter efêmero do evento de performance. (Stratico, 2013:31)

Existem dois grupos de espectadores para Cao. O primeiro que acompanha suas ações na rua, e chega a um patamar de ser tão ativo na obra quanto o artista, que a intervém e a modifica em suas idéias originais. E o segundo espectador, que irá acompanhar suas ações através de seus relatos.

Para o autor Stratico, a imagem performativa ultrapassa o âmbito do registro e alcança outro patamar, pois é composta por "construções imagéticas que apresentam uma vida independente" do próprio evento de onde foi gerada. Essas imagens carregam em si um "vácuo que as liberta da contextualização". Na imagem performativa, a necessidade de legitimar a existência do evento é secundária, pois ela cria uma outra "realidade performática que prescinde até mesmo de sua história e genealogia." (2013, p. 31)

Considerando a palavra, o texto, numa perspectiva alargada de imagem, que pode ser contida por fotografias, objetos, vídeos, como também por registros escritos, esta escrita performativa ultrapassa a simples narrativa dos acontecimentos. Se transforma em um relato entranhado e recortado por afetos, por encontros, por sensações descritas pelo próprio artista.

Uma imagem, pouco antes de sair da praça, me entristeceu. Um homem negro dormia no chão. Com roupas velhas e furadas. Sem ninguém a sua volta. Invisível para a sociedade. (Cao, 2010:s/p)

O homem negro não fazia parte da cena concebida a priori por Cao. Foi uma impressão final que o artista resgatou para estar contida em seu relato, em seu texto. É uma informação, uma imagem que talvez, o público presente do evento ao vivo não tenha se apercebido. Mas que aqueles que leêm seu relato, capturam a imagem escondida, desvelada, como um segredo, um momento só presente na escrita.

 

Conclusão

Os relatos escritos desenvolvidos por Cao apresentam a performatividade entrelaçada ao ato do fazer. São construídos a partir da ação, mas também em uma ação reflexiva. Composta por uma série de detalhes que podem não estar contidos na apreciação do próprio evento ao vivo. Ao mesmo tempo que a ação de (des)velamento necessita do relato escrito para atingir sua prova de existência, é no escrever que os véus cotidianos podem ser afastados dando lugar a uma análise mais profunda das camadas de relações, poderes, apresentadas por aquele espaço. Sendo assim, esta escrita utiliza-se do evento como estímulo para a criação de uma outra realidade, numa simbiose complementar, mas também distinta. Um relato que ultrapassa a simples narrativa dos acontecimentos. Um relato entranhado e recortado por afetos, por encontros, por sensações. Uma escrita que performa enquanto acontece por aquele que escreve, para aquele que a lê. Uma escrita performativa.

 

Referências

Cao, Santiago. (2010) Pes(o)soa de Carne e Osso: texto em português. Relato da ação acontecida em 28 de 2010, em Salvador, Bahia, Brasil. Disponível em facebook.com/cao.santiago        [ Links ]

Cao, Santiago. (2016) Conversando sobre Arte: Entrevistado Santiago Cao. Entrevista de Marcio Fonseca. Disponível em http://arteseanp.blogspot.pt/2012/06/conversando-sobre-arte-entrevistado.html        [ Links ]

Stratico, Fernando Amaral (org) (2013). Performance, Objeto e Imagem: Escritos sobre os Rastros de uma Pesquisa. Londrina:UEL        [ Links ]

 

 

Enviado a 26 de janeiro de 2017 e aprovado a 15 de fevereiro de 2017

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: samaraazevedo@campus.ul.pt (Samara Azevedo de Souza)

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