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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.8 no.20 Lisboa dez. 2017

 

EDITORIAL

EDITORIAL

Resistir: arte e discursos contra a história

Resisting: art and performance against history

 

João Paulo Queiroz*

*Portugal, par académico interno e editor da Revista Estúdio.

AFILIAÇÃO: Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes (CIEBA). Largo da Academia Nacional de Belas-Artes, 1249-058, Lisboa, Portugal.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

Os discursos são bons contributos dos estudos estruturais: os significantes, deslizantes, tornam-se significados em geração, o tempo chama para si a construção do sujeito. A identidade surge de um desempenho, e os enviesamentos ideológicos são denunciados. A revista Estúdio gera novos discursos, em que os enunciadores são os próprios artistas, tomando por objeto a obra de outros artistas. Entra ar fresco no circuito poderoso da arte. É resistência, ocupar espaço, construir discurso, e contribuir com conteúdo informado e qualificado.

Palavras chave: discursos / gramáticas de produção / gramáticas de reconhecimento / retóricas / Revista Estúdio.

 

ABSTRACT:

The speech analysis is agood contribution from the structural studies research: the signifiers become sliding meanings in continuous generation, and time is a contributor to the construction of the subject. The identity arises from a performance, and hence the ideological biases are reported. Revista Estúdio generates new speeches, in which the enunciators are the artists themselves, taking as subject the work of other artists. Freshness enters in the powerful art circuit. Resistance is demanded, to take up space, build speech, and contribute to more informed and qualified content.

Keywords: speeches / production grammars / recognition grammars / rhetorics / Revista Estúdio.

 

1. Différance e retórica

Os discursos são boas notícias dos contributos estruturais: os significantes são deslizantes, a "différance" torna-se significado em geração (Derrida, 1978:75), o tempo entra na axialidade sintagmática e chama para si a construção do sujeito. A identidade surge de um desempenho, e os enviesamentos ideológicos são denunciados um após o outro. Os enunciados precisam de ser localizados em relação aos enunciadores, dependem deles, constroem-nos.

Aqui apresentam-se diversos enunciados, que se debruçam sobre outros tantos desempenhos (Dias, 2011). Trata-se de tema difícil, a arte. os discursos sobre arte podem ser muito poderosos, se os enunciadores o forem. A arte está no campo da retórica, e legitima-se retoricamente.

 

2. Novos discursos

A proposta é mesmo esta, construir discurso, mas invertendo as hierarquias. A revista Estúdio suscita novos tipos de discursos, em que os enunciadores são os próprios artistas, tomando por objeto a obra de outros artistas. Os interesses legitimadores dissipam-se e entra ar fresco no circuito poderoso da arte. É preciso contrapor resistência, ocupando espaço, construindo discurso, contribuindo com conteúdo informado e qualificado.

 

3. Contributos na Estúdio 20

O Número 20 da Revista Estúdio apresenta dois artigos de pares académicos. De Renata Felinto, Ceará, Brasil, o artigo "Rapunzel, cabelos que tocam o céu: a arte contemporânea como tratamento artístico/cosmético/estético dedicados aos capilares crespos" debate os temas pós-coloniais e de hegemonia racial. O padrão de branco e ocidental hegemónico é o tema explorado nas obras de Juliana dos Santos e de Priscila Rezende. Os cabelos lisos, que se alisam com esforço e utensilagem, mais ou menos eficiente, mais ou menos improvisada. As manifestações tornam-se discursos visíveis de uma opressão interiorizada, assegurando uma auto-colonização.

Marilice Corona, de Rio Grande do Sul, Brasil, no artigo "Os nichos de Josefina Guilisasti: um 'topos' para a pintura ou um espaço de pensamento" debruça-se sobre o modo como a artista chilena Josefina Guilisasti (n. Santiago do Chile, 1963) se apropria da tradição do nicho e da natureza-morta ao apresentar vistas isoladas de objetos ou pássaros de uma melancolia moderna, obrigada à objetividade do espécime, da moldura, da divisão, da classe.

Na secção de artigos originais a concurso, nesta edição da revista Estúdio, apresentam-se 14 artigos originais.

Pedro Miguel Santos Silva, de Portugal, no artigo "O que somos?: Leitura Heideggeriana do trabalho de Ricardo Guerreiro Campos" propõe uma leitura erudita da obra do português Ricardo Guerreiro Campos, pintor e fotógrafo, que assume a identidade como tema de intervenção artística.

O artigo "Ações de (des)velamento: a escrita performativa em Pes(o)soa de Carne e Osso de Santiago" de Samara Azevedo de Souza, do Brasil, debruça-se sobre a obra interventiva do performer Santiago Cao (n. 1974, Buenos Aires, Argentina, e radicado em Salvador, Brasil), mais particularmente sobre a performance "PES(O)SOA DE CARNE E OSSO". Perante o inusitado de um corpo suspenso de uma rede, Cao, ele mesmo, ouve e vê, sofre e sente.

Joao Wesley de Souza, do Espírito Santo, Brasil, no artigo "A impossibilidade Minimal na obra de Jose Carlos Villar" apresenta a obra escultórica deste autor nascido em Villa Velha, Vitória, ES, Brasil, com larga trajetória na escultura em ferro. Sobre este escultor influente no Centro de Artes da UFES poderemos referir alguns estudos complementares da área da crítica genética (Salles, 2000) como por exemplo Lima & Cirillo (2013). Uns e outros estabelecem importantes contributos para melhor apreender a originalidade destes trabalhos impositivos. Mihaela Radulescu de Barrio, de Lima, Peru, no artigo "Personajes y escenarios en las performances de Elena Tejada" apresenta e debate as intervenções da artista peruana Elena Tejada-Herrera, hoje residente nos EUA. Artista que se assume na arte participativa, e pode ser compreendida nas propostas da estética relacional (Bourriaud, 2009) ao mesmo tempo que integra a hibridação peruana como matéria significante interpeladora de discursos pós coloniais e recusando paternalismos do mundo da arte:

En su performance, "Boundaries" [2000], Elena Tejada se esfuerzó por leer en inglés — pronunciado como se escribe — libros de arte, subida en una mesa y rodeada de libros, y terminó masticando y tragando las páginas de uno de estos incomprensibles depositarios de la verdad sobre el arte. (Radulescu de Barrio, 2017: 55-64)

Esta é uma persona extraordinária, que num outro local se expõe, e urina, de cintura nua, frente aos curadores e críticos da Bienal de Lima, de 1997.

De Portugal, Isabel Sabino, no artigo "Julie Brook, naquele quarto a céu aberto," aborda a obra desta autora, Julie Brook (n. 1961, Alemanha), que expande um pequeno espaço, uma caravana, um quarto, num continuo extenso de contemplação demorada e admirada sobre a paisagem. As suas gravações vídeo procuram com insistência uma outra resistência face ao tempo da natureza, das marés, da erosão, e da sua fragilidade essencial.

De Granada, Espanha, Antonio Osorio, no artigo "Itinerancias Espirituales: el deambular metafísico de Simón Arrebola" faz uma aproximação à obra de Simón Arrebola (n.1979, Torredelcampo, Jaén). e ao seu projeto "Itinerancias Espirituales" (2015), partindo da "Divina Comedia" de Dante. Telas que convocam infinitudes, infernos, paraísos, alusões poéticas materializadas em "mapas simbólicos," em desenho meticuloso e pintura poderosa nos seus termos iconográficos e iconológicos.

Marcos Pinheiro, de Brasília, Brasil, no artigo "Construção pela destruição: camadas de pele da cidade revelada pela obra de Vhils" aborda a obra poderosa deste artista urbano (Vhils, n. 1987, Portugal), que faz da sobreposição de vivências, de camadas de usos, e de rostos anónimos, a essência atualizada e efémera das suas intervenções.

Do Paraná, Brasil, o autor Ronaldo Oliveira no artigo "As Ordenações Poéticas de Elke Coelho" aborda a obra apropriativa e densa, rica de sugestões tácteis e visuais desta artista brasileira (n. São Paulo, 1983 e radicada em Londrina, Paraná, Brasil). Proveniente da intervenção que o olhar realiza, quando conhece, escolhe, coleciona, sejam objetos, sejam sensações ou memórias.

Pilar Soto, de Murcia, Espanha, no artigo "Relatos sublimes a través de objetos cotidianos: identidad, poder y cotidianeidad en la obra de Eulália Valldosera" apresenta esta autora multidisciplinar (n. 1963) que torna os quotidianos em momentos de gigantismo perceptivo e de espectáculo, introduzindo a utensilagem associada ao feminino em dispositivos que provocam os sentidos.

Eliane Gordeeff, do Brasil, no artigo "Estilhaços: uma empatia animada" debruça-se sobre a obra em curta-metragem "Estilhaços" (2016), do animador português José Miguel Ribeiro (n. 1966). O passado da guerra colonial surge como ruído de fundo que perpassa as gerações, e se exprime ao longo do tempo.

Isabel de Albuquerque, de Portugal, no artigo "Interioridades" apresenta a obra da joalheira Teresa Milheiro. Uma das suas peças sugeriu a capa deste número 20 da Revista Estúdio, o seu anti-existence device (2009), ampolas prontas a injetar fluídos anestésicos, protésicos e estéticos, como o botox. O corpo quer anular os sinais de existência.

Pedro Ortuño & Sonia Corrales, de Murcia, Espanha, no artigo "Arte Urbano textual como Reivindicación Poética en la Obra de Rogelio López Cuenca" abordam a obra urbana deste artista, Rogelio López Cuenca (n. Nérja, Espanha, 1959), de sentido interventivo e crítico no contexto hiper-urbano, onde os fluxos financeiros competem com os fluxos migratórios em intensidade e desequilíbrio. Como uma das suas intervenções afirma, citando Picabia, há que atravessar as ideias, mais que atravessar cidades e fronteiras. O paraíso terminou, com uma placa de fim de localidade: o código explica-nos a tragédia.

Manuel Mas Martín-Cortés, de Pontevedra, Espanha, no artigo "Dionisio Cañas: entre la Palabra y la Imagen: un Lugar para Reconciliación" aborda o projecto "El Gran Poema de Nadie" do artista Dionisio Cañas (n. 1947, catedrático aposentado da City Univ. de Nova Iorque). As diferentes intervenções poéticas e de reutilização de materiais abandonados fazem do suporte de Cañas os restos gráficos dos dizeres e fazeres mais marginais, aproximando-se das pessoas de rua ou dos refugiados da ilha de Lesbos, Grécia.

O artigo "Lika Mutal, las piedras y el ojo que llora de la artista plástica holandesa que se enamoró del Perú" de Carmen García (Lima, Peru) apresenta a obra da artista holandesa, Lika Mutal, formada e radicada no Peru, onde elege a pedra e uma atitude "Land Art" para as suas intervenções artísticas. O ambiente entra nas preocupações holistas atualizando as oposições antigas: caveira ou condor, as suas presenças coexistem na mesma pedra.

 

4. Gramáticas de reconhecimento e poder

As retóricas necessitam de momentos de produção e de reconhecimento, as suas "gramáticas" (Véron, 1980; 1999) que lhe são exteriores, mas as conformam.

Os discursos da arte são eles mesmos retóricas inseridas em gramáticas de produção, a montante, e sujeitas às gramáticas de reconhecimento, das quais estes artigos também fazem parte, a par da receção continuada da obra. Sendo certo que uma e outra gramática (de produção e de reconhecimento) são ambas portadoras de imputação ideológica, de manifestação do poder, de "astúcia" da sua reprodução (Foucault, 1994), não é menos verdade que existe uma assimetria nesses momentos: a produção está conformada por estruturas de produção, de relação e quadros de conhecimento que se fecham no tempo definido, enquanto que no reconhecimento o processo permanece em aberto para sempre (Hall, 1980). O desafio é atual: a produção destes discursos, por artistas, tem uma legitimidade calibrada pela história, pela diversidade (Nunes, 2010). Certamente irão ter mais ou menos justificação, mas a sua existência não é ignorável. O artista assume mais responsabilidade, incorporando agencias, não apenas do lado da produção solitária, mas também do lado do reconhecimento, onde se completa o ciclo da reprodução do poder (Oliveira & Stratico 2013).

A Revista Estúdio localiza-se: instância retórica, lugar de empoderamento, e ao mesmo tempo local de agência e de astúcia de um poder que aqui só se manifesta através dos artistas, tanto na produção, como no seu reconhecimento continuado, entregando-se à lógica da produção do sentido.

 

Referências

Bourriaud, Nicolas (2009) Estética Relacional. São Paulo. Martins Fontes. ISBN 978-85-99102-97-8        [ Links ]

Derrida, J., 1978. "Cogito and the History of Madness." In Writing and Difference. London: Routledge.         [ Links ]

Dias, Belidson (2011). O Mundo da Educação em Cultura visual. Brasília: Editora do Programa de Pós-graduação em Arte da UnB.         [ Links ]

Foucault, Michel (1994) História da Sexualidade I: a vontade de saber. Lisboa: Relógio de Água. ISBN: 9789727082407        [ Links ]

Hall, Stuart (1980). "Encoding / decoding." In Culture, media, language, 128-38. Disponível em URL: http://www.hu.mtu.edu/~jdslack/readings/CSReadings/Hall_Encoding-n-Decoding.pdf        [ Links ]

Lima, Mariana de Araújo Reis & Cirillo, José (2013) "O último escultor: um olhar sobre o processo criativo do artista josé carlos vilar" In Monteiro, R. H. e Rocha, C. (Orgs.). Anais do VI Seminário Nacional de Pesquisa em Arte e Cultura Visual. Goiânia-GO: UFG, FAV.         [ Links ]

Nunes, Ana Luísa Ruschel (2010). História da Arte e desenvolvimento do pensamento estético da criança: uma aprendizagem significativa. Revista Práxis Educativa, 5(1).         [ Links ]

Oliveira, Ronaldo Alexandre, & Stratico, Fernando A. (2013). "Histórias do sujeito e formação em arte". DOI 10.5212/ PublicatioHuma.v.21i2.0005. Publicatio UEPG: Ciências Humanas, Linguistica, Letras e Artes, 21(2). 187-95.         [ Links ]

Radulescu de Barrio de Mendoza, Mihaela (2017) "Personajes y escenarios en las performances de Elena Tejada". Revista Estúdio, Artistas sobre outras obras. 8(20): 55-64.         [ Links ]

Salles,Cecília Almeida, (2000) Crítica Genética: uma (nova) Introdução. São Paulo: Educ.         [ Links ]

Verón, Eliseo. (1980) A produção do sentido. São Paulo: Cultrix.         [ Links ]

Verón, Eliseo. (1999) Esto no es un libro. Barcelona: Editorial Gedisa S.A.         [ Links ]

 

Enviado a 15 de março de 2017 e aprovado a 17 de março de 2017

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: j.queiroz@belasartes.ulisboa.pt (João Paulo Queiroz)

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