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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.8 no.17 Lisboa mar. 2017

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

"Através de um corpo que dói": Reflexões sobre o trabalho de Sandra Maria Lucia Pereira Gonçalves

"Through a body that hurts": Reflections on the work of Sandra Maria Lucia Pereira Gonçalves

 

Andréa Brächer*

*Brasil, professora e pesquisadora, artista visual na área de fotografia. Graduação em Publi cidade e Propaganda, Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (FABICO) Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestrado em História, Teoria e Crítica Artes Visuais, Instituto de Artes, UFRGS. Doutorado em Poéticas Visuais, UFRGS.

AFILIAÇÃO: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (FABICO), Departamento de Comunicação Social, Área de Fotografia. FABICO – Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação/UFRGS. Rua Ramiro Barcelos, 2705 Campus Saúde. Porto Alegre – CEP 90035-007. Rio Grande do Sul. Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

O presente artigo refere-se à análise da série fotográfica "Um corpo radiografado, é um corpo que dói, mesmo que em silêncio" da artista visual e pesquisadora brasileira Sandra Maria Lucia Pereira Gonçalves através do conceito norteador de "Crítica genética", conforme explicitado por Cecília Almeida Salles em "Gesto Inacabado: Processo de Criação Artística" (2004).

Palavras-chave: Instagram / smarthphone / raio-X / crítica genética.

 

ABSTRACT:

This article refers to the analysis of the photographic series "An x-rayed body is a body that hurts, even if in silence" of the visual artist and Brazilian researcher Sandra Maria Lucia Pereira Gonçalves through the guiding concept of"Genetic criticism", as explained by Cecília Almeida Salles in "Gesto Inacabado: Processo de Criação Artística" (2004).

Keywords: Instagram / smarthphone / X-ray / genetic criticism.

 

Introdução

Este artigo tem como foco de sua análise a artista visual e pesquisadora na área da Fotografia Sandra Maria Lucia Pereira Gonçalves (Rio de Janeiro, RJ/Brasil 1956) e seu trabalho recente, intitulado: "Um corpo radiografado, é um corpo que dói, mesmo que em silêncio".

Sandra Maria Lucia Pereira Gonçalves é Professora Associada do Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), possui graduação em Comunicação Visual pela Escola de Belas-Artes (EBA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro e em Ciências Sociais pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS). Seu mestrado e doutorado é em Comunicação e Cultura na Escola de Comunicação (ECO/ UFRJ). Desde 2000, produz e expõe obras relacionadas à fotografia que possuem, como ponto de partida, a fotografia analógica. Publica regularmente artigos que refletem sobre o fotográfico. Seu foco de interesse atual se dirige a questões relacionadas à narrativas visuais e que possuem fotolivros como suporte de análise.

Na série analisada para este artigo, estão apresentadas imagens digitais intrigantes com misto de cores, preto-e-branco em alto contraste, ossos (partes internas do corpo) e paisagem que são fruto da mestiçagem de materiais de exames de imagens (radiológicos) que "filtram" a paisagem carioca, dando novos sentidos múltiplos desse ver "através".

Através dos pais, nascemos; através deles recebemos nossa carga genética; através deles recebemos nossa educação; através deles recebemos amor. Com o passar dos anos, nos vemos naquele momento de vida em que nos transformamos nos cuidadores de nossos pais, responsáveis por sua saúde e bem-estar. Nessas imagens, Sandra Gonçalves nos mostra a complexa dimensão da dor – representadas pelas imagens de partes do corpo de seus pais já em idade avançada, aqui retratadas pelas Figura 1, Figura 2 e Figura 3.

 

 

 

 

 

 

Na Figura 1, a imagem é referente ao ombro de sua mãe; na imagem da Figura 2, pode-se visualizar o joelho de seu pai (radiografados após queda e após repouso forçado, o que acarretou em inflamação do joelho, na Figura 2) e também a paisagem nostálgica da janela da casa de seus pais.

Para analisar o trabalho da artista, é proposto utilizar o conceito norteador de "Crítica Genética", conforme escreve Cecília Almeida Salles:

 

A crítica genética é uma investigação que vê a obra de arte a partir de sua construção. Acompanhando o seu planeamento, execução e crescimento, o crítico genético preocupa-se com a melhor compreensão do processo de criação. É um pesquisador que comenta a história da produção de obras de natureza artística, seguindo as pegadas deixadas pelos criadores. Narrando a gênese da obra, ele pretende tornar o movimento legível e revelar alguns dos sistemas responsáveis pela geração da obra. Essa crítica refaz, com o material que possui, a gênese da obra e descreve os mecanismos que sustentam essa produção (Salles, 2004: 12-3).

 

A série em questão é recente, 2016, e encontra-se em execução. Formarão também o arcabouço de informações para o desenvolvimento a seguir: entrevista com a artista e seus escritos não publicados – que já foram cedidos para a redação deste artigo.

Pretende-se, igualmente, ir ao encontro do Tema Geral do CSO 2017, qual seja: "Os artistas conhecem, admiram e comentam a obra de outros artistas – seus colegas de trabalho, próximos ou distantes. Existem entre eles afinidades que se desejam dar a ver" (CSO, 2017).

A artista tem minha admiração pessoal pela maturidade, pesquisa e seriedade com que desenvolve sua produção artística, desligada de tendências e temporalidades do mercado de arte.

 

1. "Através de um Corpo que Dói" ou "Nunca te prometi um jardim de flores"

Sandra Maria Lucia Pereira Gonçalves voltou a produzir em 2016 de "caso com o acaso". Ao olhar um exame de imagem de seus pais, intuitivamente, fez aquele gesto que normalmente fazemos – direcionou um raio-X para a zona de maior incidência de luz do cõmodo da casa de seus pais no Rio de Janeiro. Ao olhar através da imagem, seu olhar de fotógrafa percebeu uma imagem composta de ossos e também paisagem, que passava através da janela. Neste "clic", nasceu a série que hora escrevo.

A mesma vem sendo criada e publicada no Instagram, única rede social que a fotógrafa utiliza em seu dia-a-dia, que acessa a partir de seu telefone celular – um smartphone. As imagens individuais criaram vida e foram destinadas às midias sociais. Lá, foi onde me deparei com elas e onde capturaram, por sua força, também o meu olhar. Portanto, não há um diário físico ou computador, que primeiramente estas imagens habitaram ou habitam. Elas são pura virtualidade. E, ao ritmo de "curtidas" e "comentários", Sandra Gonçalves prossegue a série sem um número necessário final de imagens: agora são 13, 15, enquanto escrevo. Em abril de 2017, quantas serão?

Como aponta Cecília Almeida Salles, há processos criativos que têm novas tecnologias como suporte. Ao invés de manuscritos, o crítico genético irá verificar, não um fim desses documentos, mas uma nova perspectiva, "que contribuem para o aumento de sua diversidade" (Salles, 2004: 16). Na fotografia, hoje, verifica-se esta mudança radical de hábitos de captura, até mesmo, em fotógrafos com larga trajetória e experiência em processos analógicos, como no caso da artista. Fotos capturadas em smartphones são logo publicadas para serem apreciadas por seus seguidores. Portanto, verifica-se também uma mudança na maneira de apreciar este trabalho.

Ao propor o artigo, Sandra Gonçalves ainda mantinha "Através de um Corpo que Dói" como título destas fotografias. No entanto, ao longo do trabalho, mudou a série de nome para "Nunca te prometi um jardim de flores", inspirada por recentemente ter incluído nesta paisagem a imagem de flores de um jardim e a sutileza de que a velhice não promete amenidades na saúde, seja de quem for, a de nossos pais ou a nossa.

 

2. "Nunca te prometi um jardim de flores"

Diferentemente de Flávio de Carvalho na série "Trágica" de 1947, (MAC-SP, 2017), onde desenhos retratam a mãe do artista em seu leito de morte, o trabalho de Sandra Gonçalves trata do envelhecer numa sociedade em que os recursos tecnológicos propiciam diagnósticos e tratamentos de saúde que outras gerações não tiveram acesso, prolongando a existência e o evanecer.

Também ao utilizar-se do raio-X, ao contrário de artistas que questionam o próprio corpo ou o corpo feminino na sociedade contemporânea, como em "Retrato Íntimo" de Cris Bierrenbach (Bierrenbach, 2017), Gonçalves pensa os exames de imagens – sempre dos pais – como momentos de dor. "Dor permanente que os corpos radiografados evocam" (Gonçalves, comunicação pessoal, 2016). De igual modo, reflete sobre as "pernas" radiografadas: "é a perna que caminha e te leva para o mundo e, ao mesmo tempo, com a passagem dos anos, é a mobilidade que vai diminuindo" (Gonçalves, comunicação pessoal, 2016). Sobre os ombros de sua mãe – radiografados após uma queda, que deu origem a um trabalhos de "ombro da mãe e flores" (Figura 3), reflete sobre: "delicadeza e a força do feminino; minha mãe é e sempre foi uma pessoa forte, batalhadora, frágil e delicada" (Gonçalves, comunicação pessoal, 2016).

As partes escuras nos impedem de ver claramente a paisagem, pois há a interferência dos ossos quebrados, rachados ou apenas machucados. A crepitude obstrui o horizonte onde se deveríam observar flores, montanhas, gaivotas e patos. É o mundo da falta de mobilidade, da lentidão, do escurecimento das cores, das formas, daquilo que antes era cotidiano, aprazível e pura alegria.

Este primeiro plano radiológico se impõe como barreira ao aprazível da paisagem. Ele impede uma vizualização bucólica do bairro, dos telhados, dos muros e das pixações, e mais ao longe, do mar.

A opacidade do material de raio-X – , no entanto, não impede de se ver pelas brechas, e partes mais claras nos permitem vislumbrar, mesmo que alteradamente, um pouco do que foi esta vista da janela. A janela da fotogafia de Sandra Gonçalves é ao mesmo tempo a janela da casa dos pais, e esse olhar sobre um momento do tempo, que mescla passado (tempo da memória afetiva da artista – pois é o local onde seus pais residem há anos no Rio de Janeiro, RJ – Brasil) e presente. É a concomitância contemplativa: imobilidade e fragilidade se dão à mostra, como também a bela paisagem da janela.

Talvez uma das sementes desse trabalho tenha sido plantanda a partir de 1995, quando Sandra Gonçalves frequentou o "Curso Bloch de Fotojornalismo", concomitantemente ao seu mestrado.

 

Nesse curso/estágio dei início a um estudo sobre o tempo e a cidade através da linguagem fotográfica (reflexões originadas no mestrado) – o tempo dos modernos e o nosso contemporâneo. Passei a observar como o passado insiste em habitar o presente, como o futuro está já inscrito no passado se fazendo presente nos corpos, dos homens e da cidade (Gonçalves, 2009: 2).

 

Naquele momento o resultado foi um ensaio fotográfico denominado Carvoarias Urbanas, finalizado no ano 2000, que percorreu em exposição vários estados brasileiros e espaços expositivos importantes, como o Palácio do Catete (2001), Espaço UFF de Fotografia (2002), Centro Cultural Solar do Barão/ Museu da Fotografia Cidade de Curitiba (2002), Casa de Rui Barbosa (FotoRio, 2003), Galeria dos Arcos – Usina do Gasõmetro (Porto Alegre, 2004).

Entretanto é no aspecto digital que vê-se a mudança significativa no trabalho de Gonçalves. Segundo David Bate:

 

Celulares e as novas câmeras digitais oferecem para seus operadores um ponto de vista da mobilidade apenas reservado anteriormente a profissionais com pequenas câmeras Leica. Hoje, pequenos dispositivos significam uma menor intrusão em situações e eventos (Bate, 2013: 81).

 

Sabe-se que Sandra Gonçalves, além de trabalhar com filmes (em câmeras SLR), adquiriu nos últimos anos uma Leica digital. Mas para momentos familiares, viagens e postagens no Instagram faz uso constante de seu smarthphone. Essa menor intrusão é reafirmada pela quantidade de postagens de retratos de sua família nessa rede social. Esse aspecto também enseja a intimidade propiciada por estes dispositivos.

Bates (2013: 79) também argumenta que: "É o computador, em sua forma miniaturizada, que torna-se um hub ou "cérebro" para sensores de vários tipos. Os sensores podem ter várias formas, não apenas como câmeras óticas de várias tipos (infra-vermelho, raio-X e assim por diante)[...]"

O autor, portanto, vai ao encontro de como a artista executa seu trabalho em termos técnicos, ratificando que é digital duplamente: pelos exames recentes de imagens que já passaram pela tecnologia digital e sensores e, também, pela tecnologia contida em seu smarthphone.

Outros dois aspectos do trabalho propriciado pela tecnologia digital: formatos variados e mudanças de cores. Já no próprio telefone é possível aplicarmos filtros e capturarmos imagem em diferentes dimensões. Além do que, também podemos "cropar" a imagem (cortar) antes mesmo de publicá-la. O celular e seus "apps" miniaturizaram a função ora destinada ao computador e seus programas de tratamento de imagem. A artista, no entanto, costuma fazer o download das imagens em seu computador e, então, fazer as modificações de cor e formato em programa específico para o tratamento de imagens.

 

Conclusão

Procurou-se no artigo analisar a série fotográfica "Um corpo radiografado, é um corpo que dói, mesmo que em silêncio" da artista visual e pesquisadora brasileira Sandra Maria Lucia Pereira Gonçalves através do conceito norteador de "Crítica genética", conforme explicitado por Cecília Almeida Salles em "Gesto Inacabado: Processo de Criação Artística" (2004). Utilizou-se entrevista com a artista (2016) e um Memorial (2009), texto onde a mesma revela alguns aspectos de sua produção ao longo de sua trajetória artística e acadêmica.

Verificou-se que o trabalho ainda está em execução, não sendo uma série fechada de fotografias, motivo pelo qual, também, ao longo dos últimos meses, recebeu nome diferente: "Nunca te prometi um jardim de flores".

As imagens são realizadas com seu smarthphone a partir da vista da janela da casa de seus pais no Rio de Janeiro – RJ, Brasil. A artista usa como "filtro" exames de imagens – realizados por seus pais nos últimos anos. A temática revela-se já em construção desde, pelo menos os anos 2000, quando começou a interessar-se pela paisagem urbana e pelo corpo. Nesta série, o corpo radiografado é o corpo que ora envelhece, dando-nos a ver momentos de acidentes e enfermidades e a paisagem bucólica de uma cidade, considerada, "Maravilhosa".

A artista tem como plataforma de exibição dessa série o Instagram, após as imagens passarem pelo computador e por programa de tratamento de imagem. O que mostra em sua trajetória artística uma passagem significativa dos meios analógicos para os digitais – tanto no aspecto da captura, do processamento, quanto da exibição.

A artista também nos desvela um universo delicado e belo de imagens: parte cor, parte preto-e-branco. Não intrusivas e delicadas, as imagens abordam a vida cotidiana sem mostrar, literalmente, o momento do evanecer. Lembra-nos de nossa natureza impermanente, em constante mudança e dos laços afetivos que nos unem e nos movem, tanto na vida, como na arte.

 

Referências

Bates, David (2013) The digital condition of photography: cameras, computers and display. In: Lister, Martin. The Photographic Image in Digital Culture. New York: Routledge. ISBN: 978-0-415-53529-8        [ Links ]

Bierrenbach, Cris (2017) Retrato Íntimo. [Consult. 20170114] Disponível em URL: http://crisbierrenbach.com/pessoal/foto/retrato-intimo/        [ Links ]

Carvalho, Flávio de (2017) Série Trágica. [Consult. 20170114] Disponível em URL: http://www.mac.usp.br/        [ Links ]

Gonçalves, Sandra Maria Lucia Pereira (2016) Instagram. [Consult. 20170114] Disponível em URL: https://www.instagram.com/sandramlpgoncalves        [ Links ]

Salles, Cecília Almeida (2004) Gesto Inacabado: Processo de Criação Artística. 2ª. Edição. São Paulo: FAPESP/ Annablume. ISBN: 85-7419-042-X        [ Links ]

VIII CONGRESSO INTERNACIONAL CSO'2017 "Criadores Sobre outras" (2017) Chamada. [Consult. 20161204]. Disponível em URL: http://cso.fba.ul.pt/chamada.htm/        [ Links ]

 

Artigo completo submetido a 20 de janeiro de 2017 e aprovado a 5 de fevereiro 2017

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: andrea.bracher@ufrgs.br (Andréa Brächer)

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