SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.8 número17Cuentos, capturando la inocencia y crueldad de los cuentos de hadas: Sonya Hurtado"Através de um corpo que dói": Reflexões sobre o trabalho de Sandra Maria Lucia Pereira Gonçalves índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Compartilhar


Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.8 no.17 Lisboa mar. 2017

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

O Admirável Mundo do coletivo artístico Pandora Complexa

Brave World of the artistic collective Pandora Complexa

 

Alice Geirinhas*

*Portugal, artista visual, professora. Doutoramento em Arte Contemporânea, Universidade de Coimbra Colégio das Artes (CA). Mestrado em Práticas Artísticas Contemporâneas, Universidade do Porto, Faculdade de Belas-Artes (FBAUP). Licenciatura em Escultura, Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes (FBAUL).

AFILIAÇÃO: Universidade de Coimbra, Faculdade de Ciências e Tecnologias, Departamento de Arquitetura. R. Colégio Novo, 3000-143 Coimbra, Portugal.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

Pandora Complexa é um coletivo artístico formado por Júlio Dolbeth e Rui Vitorino dos Santos, e também o nome do blogue artístico e do projeto de arte na world wide web do coletivo destes dois artistas que vivem e trabalham na cidade do Porto. Ambos formados em Design de Comunicação. Esta comunicação é referente à ultima mostra em espaço de galeria do projeto Pandora Complexa, realizada no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, integrada na exposição "Cinema Quarteto, Quatro Salas, Quatro Artistas", de 23 de setembro a 7 de novembro de 2016.

Palavras-chave: ilustração / desenho / narratividade / monstros / abjeçao.

 

ABSTRACT:

Pandora Complexa is the name for an artistic collective formed by Júlio Dolbeth and Rui Vitorinodos Santos. It is also the name ofanartistic blog and aworldwide art's project from these two artists' collective wholiveand workin Oporto, Portugal. Both graduated in Communication Design. This communication refers to the last exhibition from Pandora Complexa exposed in Coimbra's University of Arts College, integrated in the exhibition "Cinema Quarteto, Quatro Salas, Quatro Artistas" from 23rd September until 7th November of 2016.

Keywords: illustration / drawing / narrativity / monsters / abjection.

 

Introdução

Olá, depois de dois mil desenhos cadaum, necessitamos de um período pararepensarmos uma nova direção para o projeto. Vamos continuar, provavelmente noutro sítio, com outras regras. Avisamos logo que chegarmos a uma conclusão. Obrigado por nos acompanharem durante este tempo, vemo-nos em breve!

– Blogue Pandora Complexa, 22 de maio, 2013

 

Este é o último post, publicado a 22 de maio de 2013 no blogue Pandora Complexa, coletivo artístico formado por Júlio Dolbeth e Rui Vitorino dos Santos, formados em Design de Comunicação pelas Belas-Artes do Porto, onde vivem e trabalham.

O projeto Pandora Complexa foi iniciado a 22 de julho de 2006. Ao longo de sete anos o coletivo publicou diariamente no blogue Pandora Complexa, dois desenhos realizados nos seus diários gráficos de formato A5, até chegarem cada um deles aos dois mil desenhos.

As regras deste projeto de arte na web, são mínimas: o formato do papel, blocos idênticos, desenho do Rui à esquerda e o do Júlio à direita e publicar um desenho por dia. Os temas não são combinados nem seguem uma narrativa. Não há ligações entre os desenhos, só a natural contaminação de estarem lado a lado até serem no total quatro mil desenhos.

O nome surgiu de uma ideia de criarem uma personagem para os respetivos diários gráficos, para serem possivelmente transformados num fanzine. Pandora a personagem feminina e associada ao mito ocidental da caixa de Pandora e complexa, dada a aproximação da palavra escrita (grafia) em várias línguas.

A facilidade da publicação on-line, ampliou a escala e o alcance do projeto e quase sem custos de produção.

 

1. Desenhos de coisa nenhuma

No prefácio do seu livro, "Transfiguração do Lugar Comum", sobre o resgate da arte para o mundo real, Arthur C. Danto conta a história da apropriação do título do livro. Muito antes de o escrever, deparou-se com este título num romance de Muriel Spark, onde uma das personagens é a autora de um livro intitulado "Transfiguração do Lugar Comum." Danto, sempre cobiçou este título e guardou-o na memória para um futuro livro.

Passado uns anos, ao contatar a escritora para obter a sua permissão da apropriação de um título fictício (dela) para um título real (dele), perguntou-lhe de que assunto tratava o livro da personagem. De arte, respondeu ela. E assim Danto viu no processo de apropriação do título do livro, a súmula do assunto do seu livro, banalidades transformadas em arte, transfigurações do lugar comum.

Digamos que o projeto diarístico de Pandora Complexa transfigura a banalidade de um desenho por dia, um desenho que se quer banal, automático, sem pretensões a coisa nenhuma a não ser essa mesmo de ser despretensioso e sobretudo que faça parte dum quotidiano banal, onde o gesto do desenho seja um ato digerido no dia-a-dia, à semelhança de alguns jogos e processos criativos, como o automatismo, utilizado pelos surrealistas e dadaístas quer na escrita quer no desenho.

O desenho, o acaso, a repetição, a ilustração e as suas diversas abordagens de narratividade são o foco da experimentação do coletivo Pandora Complexa que integra a linguagem do desenho, o medium mais intuitivo e instável que permite um registo intimista, fluído e neste caso também diarístico. Aqui, o desenho inclui-se nas áreas da experiência humana associadas à noção de intimidade, informalidade, autenticidade, imediatismo, subjetividade, memória, narrativa (Dexter, E. 2005). Cada desenho contém ou condensa uma possível narrativa para uma audiência implícita.

O projeto Pandora Complexa é um patchwork dessa definição de desenho ligada à experiência do humano onde o desenho é um fim em si mesmo, sistematizado (dois desenhos por dia), visitável a todas as horas (o blogue) e passível de ser comentado em modo virtual (Figura 1, Figura 2).

 

 

 

 

Mas este é um projeto artístico que se desenvolveu no meio de bits, pensado para a world wilde web, mas traduzível em átomos, quer dizer que se adapta e se transmude numa instalação, um espaço físico possível de ser percorrido pelo espetador, o espaço físico do olhar, o oposto do espaço flat do interface inicial deste projeto.

 

1.1 A Exposição: "Cinema Quarteto. Quatro salas, quatro artistas"

A primeira transmutação (leia-se exposição), para o espaço físico ocorreu na ESAP de Guimarães em junho de 2007; a segunda no espaço a Fabrica Features Lisboa, em março de 2008, e em abril também de 2008, na Galeria Gesto no Porto. As duas últimas exposições ocorreram em Coimbra, 2012 na Casa da Esquina e em 2016 no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, a mostra da totalidade do projeto.

Deste projeto diarístico – um desenho por dia – , foram ainda publicados dois livros (Figura 3). O primeiro em 2008 "Pandora Complexa 500", formato A5, como os originais, 112 páginas, impresso a preto e branco e a offset, 300 exemplares numerados e assinados. O segundo em 2012, o mesmo formato, 88 páginas, impresso a Riso, duas cores sobre papel amarelo, 100 exemplares.

 

 

A última exposição do coletivo, com a totalidade do projeto, ocorreu passado 3 anos do fim da Pandora Complexa e integrada na exposição "Cinema Quarteto. Quatro salas, quatro artistas" na sala de exposições do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra. A exposição reunia trabalhos de André da Loba, João Fazenda, Lord Mantraste e Pandora Complexa (Julio Dolbeth e Rui Vitorino Santos), ilustradores cujo trabalho conjuga a construção de histórias, ilustração, design e o objeto livro.

O enfoque da exposição seria não só, o desenho, a narrativa visual, a metáfora, percepções visuais, mas também os processos e metodologias artísticas de cada um, a proliferação de meios de reprodução de múltiplos, desde a impressão digital à risografia, blogues (Pandora Complexa) e livros.

O título "Cinema Quarteto. Quatro salas, Quatro Artistas" indica uma apropriação direta ao slogan da antiga sala mítica de cinema em Lisboa, "Cinema Quarteto, quatro salas, quatro filmes". A exposição, apesar de coletiva, foi desenhada e pensada como um conjunto de quatro exposições individuais que se interligavam quer pela arquitetura do espaço quer pela definição do desenho como processo e como medium primordial. A alusão ao cinema é também uma estratégia de como o desenho se alia à narratividade visual, sem as estruturas formais e tipologias programáticas tradicionais da narrativa, sendo que a narrativa visual se articula numa sucessão de acontecimentos que sugerem ou não, uma narrativa (Livingston:2002).

Os diários gráficos, os blocos A5 com argolas, digitalizados e colocados lado a lado no blogue, foram desmembrados para se constituírem em 4000 desenhos de 21x14,8 cm, numerados no verso. Esta nova abordagem da Pandora, a instalação plástica em espaço expositivo, mantém no entanto, o lado intimista, inacabado, informal do desenho. A colagem dos desenhos diretamente na parede com fita-cola de papel, a obsessão de não ter espaço vazio entre eles, o horror ao vazio, envolve-nos a nós, espetadores/leitores numa vertiginosa viagem de possíveis histórias repletas de estranhas personagens, lugares improváveis e ações absurdas.

Os desenhos sucedem-se e organizam-se em filas verticais alternadas, tal como no blogue – Rui à esquerda e Júlio à direita – segundo uma ordem cronológica, dando enfâse à primeira fase do projeto, os primeiros meses da publicação on-line, e à fase final.

Dessa visualização do início e do fim do projeto, tornou-se evidente e perceptível a evolução no registo pessoal do desenho de cada um, no sentido de um traço mais gestual, fluído e determinado e na persistência da ausência da cor, com as devidas e enigmáticas exceções.

Os primeiros desenhos são marcados pelo uso da grafite, da caneta de ponta fina de desenho e da cor. A cor é sempre aliada ao preto e branco, muitas vezes em modo de preto e branco mais uma cor. Rosa choque, encarnado, azul, verde. Cores primárias e contrastantes. Cor de canetas escolares, cor de caneta "Bic."

E ao longo do tempo a cor é esquecida, o traço a preto (Figura) domina o branco do papel (fundo), num movimento deslizante do pincel que transmite essa velocidade cruzeiro de quem desenha todos os dias. Os traços de um e de outro tornam-se mais parecidos, e só conseguimos distinguir a autoria a partir de pequenos nadas, como os fálicos narizes das personagens do Rui, que nunca desaparecem da sua gramática visual.

O texto integrado no desenho, é outra das características perceptíveis deste projeto. Muitas das vezes, o texto é a fala ou o pensamento da personagem, escrito na primeira pessoa do singular, outra é um texto/imagem sem evidente conexão ao desenho, ou o texto/legenda que articula e cita vagamente uma ação.

Durante os 7 anos de duração da Pandora Complexa, o texto permanece interruptamente ligado à imagem. No último post/desenho publicado em maio de 2013, o texto inserido no desenho refere explicitamente o fim da Pandora: "tudo tem um fim, e este é gajo para ser o último post da pandora (Rui); Reborn There's a time when there's a need for a change (Júlio)."

A figuração Pandora Complexa é, como já foi referido, uma sucessão de personagens estranhas, entre o monstro e o humano, heróis e heroínas-monstros, inquietantes e em permanente interrogação sobre tudo e sobre nada, sobre a ordem e o sistema do mundo, um obsessivo mapeamento de novas regiões do inconsciente, onde o self não seria nem sujeito, nem objeto, mas sim abjeto, como propõe Julia Kristeva "o peso da insignificância sobre o qual não há nada insignificante e que me esmaga. Nas margens da não-existência e alucinação, uma realidade que se eu a reconhecer, aniquila-me. Aí, o abjeto e a abjeção são os meus guarda-costas. O princípio da minha cultura." (Kristeva, 1980:11). Quer dizer que estas personagens-monstros singulares e híbridos, questionam a sua, a nossa própria humanidade e colocam-nos a nós como monstros, no sentido de José Gil, onde o monstro não se situa fora do domínio humano, mas no seu limite. Significa que a humanidade "procura nos monstros, por contraste, uma imagem estável de si mesmo, não é menos certo que a monstruosidade atrai como uma espécie de ponto de fuga do seu devir-inumano: devir-animal, devir-vegetal ou mineral." (Gil, 1994:135)

Estes heróis e heroínas complexas, existem e formam um espaço singular, ambíguo não-identificável, sem limites e fronteiras, sem regras nem normas de conduta social. São assim, por serem indefinidas e inclassificáveis, personagens abjetas, portas de entrada para esse território da não-existência e da alucinação. O monstruoso como abjeção que ameaça e atrai. A tendência para a metamorfose e o horror de se tornar outro. (Gil, 1994)

A questão da narratividade visual de Pandora Complexa, remete-nos para a narrativa da expressão e da não-narrativa, e do que é uma narrativa e da utilização multifacetada do termo nas diversas áreas do conhecimento humano (Literatura, Cinema, Psicologia, Antropologia, Filosofia, Arte...) e de como o pensamento e o discurso, podem ser considerados narrativas (Livingston, 2002). Sabemos que o projeto começou sem a preocupação de narrativa, no entanto com a sistematização e a longa duração do projeto, a narrativa afluiu entrópica e desconcertante, através de sucessões de imagens alucinantes, onde o espetador/leitor constrói a sua micro –narrativa, apenas com aquilo que lá põs.

 

Conclusão

No campo do narratividade e do desenho, este projeto diarístico e expandido em duas vertentes, a da web e a do espaço expositivo, sem pretensões de ser coisa alguma a não ser a prática e o prazer do desenho através da sua informalidade e intimidade. No entanto, Pandora Complexa, abordou a questão do quotidiano através da registo diário cuja sistematização e persistência no tempo abriu a possibilidade da construção de uma narrativa entrópica e relacionada com as micro-narrativas. associadas por oposição às metanarrativas. as grandes narrativas do modernismo ao invés das micro-narrativas da pós-modernidade, ou da modernidade liquida (Bauman, 2000) onde o sujeito (eu) poderá ser um meta-sujeito na medida em que especula como forma de conhecimento, mas situado numa narrativa oposta e inversa das metanarrativas, situado nas pequenas narrativas locais, micronarrativas, as narrativas do quotidiano. (Lyotard, 1993).

 

Referências

Bauman, Zygmunt (2000) Liquid Modernity. Cambridge: Polity. ISBN: 0-7456-2409-X        [ Links ]

Dexter. E ( 2005) (Edt), Vitamin D. New Perspective In Drawing. London: Phaidon. ISBN:978 0 7148 4545 6        [ Links ]

Gil, J. (1994). Monstros. Lisboa: Quetzal.ISBN: 972-564-189-2        [ Links ]

Kristeva, J. (1980). Pouvoirs de l'Horreur: Essai sur l'Abjection. Paris: Éditions du Seuil.ISBN:2-02-005539-2        [ Links ]

Livingston, P. (2002) Narrative. In Gaut, Berys; Lopes, Dominic Mclver (Edts), The Routledge Companion to Aesthetics (pp. 359-370). London, NY: Routledge. ISBN:0-415-20737-1        [ Links ]

Lyotard, Jean-François (1993) O Pós-Modernismo Explicado às Crianças. Lisboa: Dom Quixote (2ºEd). ISBN: 972-20-0560-X        [ Links ]

Pandora Complexa (s/d) Blogue. [Consult. 2017-01-19] URL URL: http://pandoracomplexa.blogspot.pt        [ Links ]

 

Artigo completo submetido a 20 de janeiro de 2017 e aprovado a 5 de fevereiro 2017

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: gxalice@gmail.com (Alice Geirinhas)

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons