SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.8 número17El jardín durmiente de Sabine Finkenauer índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Compartilhar


Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.8 no.17 Lisboa mar. 2017

 

EDITORIAL

EDITORIAL

Arte e viragem educativa: alternativas

Art and educational turn: alternatives

 

João Paulo Queiroz*

*Portugal, par académico interno e editor da Revista Estúdio.

AFILIAÇÃO: Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes (CIEBA). Largo da Academia Nacional de Belas-Artes, 1249-058, Lisboa, Portugal.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

Através das plataformas de circulação artística como o Congresso CSO, e suas revistas associadas, tem-se vindo a afirmar uma produção ensaística sobre artistas emergentes, oriundos das novas potências criativas. A proposta tem sido consequente e perseguida de modo sustentado; surgem novas ligações, ano após ano. Os autores de Portugal tomam conhecimento alargado, não do convencionalismo eurocêntrico do grande mercado, mas das alternativas discursivas no mundo de idiomas ibéricos. Esta é uma alternativa, uma instância de afirmação, uma concretização para uma perspetiva inovadora e criadora, congregadora e geradora de pensamento crítico. A atitude é talvez "Altermodern" (Bourriaud) e o resultado é expressivo, ao longo das quase duas dezenas de edições da Revista Estúdio. Talvez seja esta uma manifestação da viragem educativa nas plataformas de disseminação.

Palavras chave: Revista Estúdio / Congresso CSO / Educational turn / Altermodern.

 

ABSTRACT:

Through the artistic circulating platforms as the CSO Congress and their associated journals, an essayistic production has been arising about emerging artists from the new creative powers. This challenge has been persecuted with consistency and sustainability; new connections between artists, year after year. The authors from Portugal become aware, more than the well-established Eurocentric artists but of discursive art alternatives in the world of Iberian languages. This is an alternative, an instance of affirmation, an implementation for a creative and innovative perspective of critical thinking. The attitude is somewhat "Altermodern" (Bourriaud) and the result is significant, along the nearly two dozen editions of Revista Estúdio journal. Maybe this is a manifestation of educational turn through these platforms.

Keywords: Revista Estúdio / Congresso CSO / Educational turn / Altermodern.

 

1. Alternativa

A perspetiva sobre a produção artística tem vindo a ganhar nitidez, contornos e ao mesmo tempo novas difusões, desde que em 2010 a revista Estúdio começou a sua publicação. Este tem sido um percurso alargado de aprendizagem e de agregação de comunicações diversificadas. Abre-se um campo de contactos e de autorias que se afirma como um circuito alternativo aos mecanismos hegemónicos de legitimação. Através das plataformas de circulação artística como o Congresso CSO, e as revistas associadas, a Estúdio, a Gama e a Croma, tem-se vindo a afirmar uma produção ensaística sobre artistas emergentes, oriundos das novas potências criativas. A proposta tem sido consequente e perseguida de modo sustentado; surgem novas ligações, ano após ano. Os autores de Portugal tomam conhecimento alargado, não do convencionalismo eurocêntrico do grande mercado, mas das alternativas discursivas no mundo de idiomas ibéricos. Esta é uma alternativa, uma instância de afirmação, uma concretização para uma perspetiva inovadora e criadora, congregadora e geradora de pensamento crítico.

 

2. Viragem educativa

A atitude é talvez "Altermodern" (Bourriaud, 2009) e o resultado é expressivo, ao longo das quase duas dezenas de edições da Revista Estúdio.

Talvez seja esta uma manifestação do "Educational turn" (O'Neil & Wilson, 2010), uma tendência que reorientou a actividade artística, formativa e curatorial em direção à procura de novos públicos, mais formação académica para os artistas, mais inclusão dos públicos na conceção das intervenções artísticas, mais intervenção.

A revista Estúdio conta-se assim na pista dos que correm para alargar as plataformas de conhecimento alternativo ao art world, sendo um projeto de disseminação e de educação artística informal que se alarga em direção aos próprios artistas: são já muitas dezenas aqueles que se conheceram através destas páginas.

Para este número da revista Estúdio agruparam-se 15 artigos, entre artigos a concurso e artigos do dossier editorial, todos provenientes de artistas que se debruçam sobre a obra de outros artistas.

 

3. Artigos

O dossier editorial integra dois contributos de pares académicos da revista. Joaquín Escuder (Espanha) no artigo "El jardín durmiente de Sabine Finkenauer" apresenta a obra da artista alemã radicada em Barcelona, Sabine Finkenauer (n. 1961), que explora o despojamento retórico em propostas que transportam uma simplicidade conquistada.

Luísa Santos (Portugal) no artigo "João Paulo Queiroz: Desenhos, 20052016, acalmar a natureza inquieta do lugar" aborda as series de pinturas realizadas no terreno e do natural, perto de Fátima, ao longo de doze anos, por João Paulo Queiroz numa procura de uma possível "desublimação."

Na secção de artigos originais a concurso são apresentados 13 artigos. Paula Tacca (São Paulo, Brasil) no artigo "A fotografia, o vivo, o ausente, o agora: a produção da artista brasileira Sofia Borges" que no foto-livro "The swamp," de 2016, reúne as suas principais produções fotográficas num universo onde a fotografia se torna objeto de imaginação material (Bachelard, 1942).

O artigo "Tales, capturando la inocéncia y crueldad de los cuentos de hadas" de Laura Algibez (Madrid, Espanha) debruça-se sobre a obra digital de Sonya Hurtado, concretamente no V & A Museum of Childhood de Londres, em 2016. As fotografias são colagens digitais que evocam um universo onírico de contos e estórias de grande poder evocativo.

De Portugal, Alice Geirinhas no artigo "O Admirável Mundo do coletivo artístico Pandora Complexa" apresenta o colectivo "Pandora Complexa" formado por Júlio Dolbeth e Rui Vitorino dos Santos, que através de um blogue artístico e de intervenções em salas de exposição disseminam um trabalho de um desenho por dia, durante sete anos, resultando em painéis de múltiplos estares mais ou menos monstruosos num conjunto de 2.000 desenhos.

O artigo "Através de um corpo que dói, reflexões sobre o trabalho de Sandra Maria Lucia Pereira Gonçalves" de Andréa Brächer (Rio Grande do Sul, Brasil) apresenta uma "crítica genética" (Salles, 2004) da série fotográfica "Um corpo radiografado, é um corpo que dói, mesmo que em silêncio" de Sandra Maria Lucia Pereira Gonçalves, onde um smartphone e chapas de raios X ou outras intermediações adensam o poder evocativo da imagem.

De Granada, Espanha, Pablo García apresenta, no artigo "Alejandro Gorafe y el objeto mutante: de lo común a lo sublime" uma abordagem à obra de Gorafe (n. 1962) que aborda a coleção, a reconfiguração, o vazio como veículos de geração poética.

Em "Invasão e espreita nos sistemas poéticos de Márcia Braga," Carlos Camargo (São Paulo, Brasil) debruça-se sobre as derivas em torno de uma apropriação conceptual do livro de artista. A instalação "Comer o livro" convida o espectador a comer as letras de vários poemas, na forma de bolachas-letras. Outras peças em cerâmica de Márcia Braga devolvem ao espectador uma organicidade complexa e telúrica, quase sexuada.

De São Paulo, Brasil, Ana Paula de Campos, através do seu artigo "Corpo e ornamento: as provocações de Laura Kalman", sugeriu a capa deste número da Revista Estúdio. A artista norte americana Lauren Kalman explora as vertentes mais incisivas ou menos óbvias da joalharia contemporânea na sua relação intrusiva com o corpo, os seus espaços, os seus interstícios. Uma boca pode ser um local para uma jóia que a alarga e se faz sentir, implicando género, doença, deficiência e corpo como arena permanente de interrogação.

O artigo "Híbridos na construção do imaginário de M T: narrativa, performance, fotografia e gravura" de Helena Kanaan (Rio Grande do Sul, Brasil) aborda a obra de Micaela Trocello, artista argentina que explora a fotogravura para um discurso sobre a espera feminina.

Amine Asselman (Marrocos) no artigo "Zellige y creación contemporánea: la visión mística de Younes Rahmoun" debruça-se sobre aligação entre os mosaicos alicatados, ou zeligues, característicos da cultura árabe na península e no norte de áfrica e a exploração de alguns artistas contemporâneos em torno do tema, como Lalla Essaydi (n. 1956) e Mehdi Georges Lahlou (n. 1983), ou Younes Rahmoun (n. 1975), Fouad Bouchoucha (n. 1981), e Miguel Chevalier (n. 1959), explorando diferentes dimensões, ora materiais, formais, matemáticas, ora simbólicas e mesmo imateriais.

O artigo "La zona limítrofe en la pintura de Rubén Guerrero," de David Serrano (Sevilha, Espanha) estuda as pinturas de Rubén Guerrero (n. 1976) que exploram a materialidade significante para sobre ela construir relações estruturais complexas: o material ganha pensamento através de algumas deformações e transgressões.

Genoveva Linaza (País Basco, Espanha) no artigo "Naturalezas vivas: Un acercameinto a la pintura de paisaje a través de la obra de Carmelo Otiz de Elgea" torna presente o tema da paisagem na exposição desta artista citada no título. Os caminhos pisados, a gravilha, as materialidades caóticas ganham um sentido local e universal na sua pintura a óleo de grandes dimensões.

O texto "Nomades: o processo criativo na obra de Sol Abadi" das autoras Lila T. Nemirovsky (Argentina) & Regina Lara Silveira Mello (São Paulo, Brasil) que apresentam a obra em pedra, cerâmica e vidro da artista argentina, radicada em São Paulo, Sol Abadi.

Do Brasil, Halisson Júnior da Silva no artigo "O feminino entre a imagem e o texto na obra de Alice Geirinhas" apresenta o trabalho gráfico de Alice Geirinhas (n. Évora, Portugal), ela também autora de um outro artigo neste número desta revista. As suas ilustrações, intervenções gráficas, e bandas desenhadas, todas de forte discurso autoral, recentram e reivindicam o género como um campo de procura e de combate cultural (Butler, 1999). Os padrões, os têxteis, a repetição, as fotonovelas são apropriadas num Pop atualizado.

 

4. Guia para reflexão

A diversidade de autores pode ser impressiva, mas é possível extrair algumas regularidades como uma insistente narrativa sobre o corpo e os seus discursos, o corpo e o seu contexto. Os discursos do corpo podem ser construtores de identidades e testemunhos de uma desconformidade entre os significantes e os conteúdos cada vez mais digitalizados, que dispensam os corpos. Mas são os corpos que contam, que sentem, que recordam, que observam, que se localizam na paisagem.

Numa só frase talvez pudesse resumir os artigos apresentados como "o corpo na paisagem" que é a maneira mais simples de descrever a condição temporária dos vivos.

 

Referências

Bachelard, G. (1942) L'eau et rêves: Essai sur l'imagination de la matière. Paris: Corti.         [ Links ]

Bourriaud, N. (Ed.) (2009) AlterModern: at Tate Britain, Tate Triennial. London: Tate Modern. ISBN: 9781854378170.         [ Links ]

Butler, Judith (1999) Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. Second edition. New York: Routlege. ISBN 978-0415389556        [ Links ]

O'Neill, Paul & Wilson, Mick (2009) Curating and the Educational Turn. Amsterdam: de Appel Arts Center. ISBN: 9780949004185.         [ Links ]

Salles, Cecília Almeida (2004) Gesto Inacabado: Processo de Criação Artística. São Paulo: FAPESP/Annablume. ISBN: 85-7419-042-X        [ Links ]

 

 

Artigo completo recebido a 15 de março de 2017 e aprovado a 17 de março de 2017

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: j.queiroz@belasartes.ulisboa.pt (João Paulo Queiroz)

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons