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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.7 no.16 Lisboa dez. 2016

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

Estruturas de luz: a fotografia artística de António Quaresma

Structures of light: the art of photography António Quaresma

 

Cícero de Brito Nogueira* & Núbia de Andrade Viana**

*Brasil, fotografia e design gráfico. Licenciado em Educação Artística /Desenho, Universidade Federal do Piauí (UFPI), Mestre em História do Brasil, UFPI. Frequenta o curso de doutoramento em Belas Artes, bolsista do Projeto Ciência Sem Fronteiras.

AFILIAÇÃO: Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Largo da Academia Nacional de Belas-Artes, 1249-058, Lisboa, Portugal.

**Brasil, ilustradora. Licenciada em Educação Artística / Artes Plásticas pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), Mestre em Comunicação, UFPI.

AFILIAÇÃO: Universidade Federal do Piauí, Centro de Ciências da Educação. Campus Universitário Ministro Petrônio Portella, Bairro Ininga, 64049-550 – Teresina – PI, Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

O artigo propõe uma análise do trabalho do artista António Quaresma. Não encontraremos uma analise rígida formal, mas sim uma organização da sua estrutura sensorial, objetivando mostrar ao observador a construção artística do ato fotográfico, revelando-nos a fotografia como arte. A análise do seu trabalho foi dividida em fases: retratos, paisagens, fotogramas, flores, foto montagem e erro na fotografia. O resultado é uma impressão fluída, quase como uma aquarela, com transparência e cores fortes.

Palavras chave: arte, fotografia, luz, cor.

 

ABSTRACT:

The article proposes an analysis of the work of artist Antony Lent. We will present a sensory structure organization, aiming to show the viewer the artistic construction of the photographic action, revealing us photography as art. The analysis of his work was divided into phases: portraits, landscapes, flowers, frames, photo montage and error in photography. The result is a fluid, almost like printed, or like watercolor, with transparency and strong colors.

Keywords: art, photography, light, color

 

Introdução

No mundo contemporâneo a fotografia aparece tanto como um reforço de lembrança, quanto como uma imediata possibilidade artística. O artista-fotográfico estudado aqui é António Quaresma de Sousa Filho, professor do curso de Arte na Universidade Federal do Piauí, nasceu em 7 de Janeiro de 1953, na cidade de Campo Maior no Piauí. Formou-se em Educação Artística na habilitação em Plástica pela Universidade Federal da Paraíba em 1981, através de concurso passou a ser professor da UFPI no mesmo ano.

Começa a fotografar no projeto PDR (Projeto de documentação Rural) de fotografia, feito pela Universidade Federal do Piauí, depois como professor seu trabalho já florescia, tanto que, após concluir mestrado na Universidade de New York, ganhou notoriedade fora do país com exposições nos Estados Unidos, Portugal, Alemanha e Coreia do Sul.

Este texto tem como principal interesse, compreender a produção fotográfica artística do autor, utilizando os elementos cor, forma e contorno como estruturas de análise. A cor é abordada de acordo com a percepção visual: combinações, contrastes e emoção. Na questão formal o processo seguido foi da combinação de elementos que vão do figurativo ao abstrato. O contorno é tratado de forma singular, é algo que traz individualidade na questão das silhuetas e construção de textura.

 

1. A produção Artístico-fotográfica de Antônio Quaresma

A foto é um ato codificado, deslocando a noção de realismo para uma interpretação pessoal do artista. Em sua relação com a arte há questões como sua singularidade momentânea, cores, composição, expressão, conceito, entre outras.

A foto, ao contrário da pintura, remete não somente a um objeto possivelmente real, mas também a um objeto necessariamente real, e não se pode negar que o objeto exista. A foto é uma emanação do referente e testemunha um aconteceu assim. Resumindo, a imagem fotográfica não é a realidade, mas, pelo menos, sua perfeita analogia, e é exatamente esta perfeita analogia que geralmente define fotografia (Barthes, apud Santaella & Noth, 1999:128).

A sua produção artística fotográfica deseja quebrar o formalismo na fotografia, trazendo um novo método que se baseia numa noção do ponto de vista fotográfico, pois a escolha é mais que uma ferramenta criativa, é uma parte integrada no processo de execução do objeto artístico.

 

1.1 O estilo fotográfico

Um artista que coloca em seu trabalho muitos valores regionais de um contexto fortemente banhado de luz e cores, e que ao retratar uma cena coloca toda a sua pessoalidade. Movendo-se de um figurativo ao abstrato a qualquer momento temos seu particular modo de ver e nisso a própria transmissão singular de como monta seu discurso visual.

A análise do seu trabalho foi dividida em fases: retratos, paisagens, fotogramas, flores, foto montagem e erro na fotografia.

 

1.1.1 Retratos

Nos retratos feitos por António Quaresma nota-se a espontaneidade, mesmo quando posados. Preferencialmente para um bom retrato Quaresma prefere que o fotografado esteja sem maquiagem, com os cabelos molhados, do jeito que nasceu. Para se ter um real valor expressivo é preferível retratá-los ao natural, sem deixar de lado um certo alinhamento (Figura 1).

 

 

O seu retrato, pode ser entendido por um "não-ser", onde suas formas apresentam-se diluídas, movendo-se com o pensamento do fotografo. Essa ciência da imagem praticada é feita através de suas cores que em essência produzem representações da sua relação com a realidade, com a linguagem e com a arte. Podemos tomar essas cores como um conjunto de escolhas arbitrárias que lutam para criar uma experiência. A forma é só uma referência perdida em seu jogo de mostrar e esconder, e assim ele caracteriza novas imagens em retratos perdidos no seu significado sintético.

Em contrapartida temos o momento do autorretrato, nestes António Quaresma se põe como uma abstração de si, um instante perdido de pensamento, um mero pedaço de luz, ou por vezes repartido por um mosaico, feito por, momentos 3x4, de sua vida (Figura 2).

 

 

Os efeitos especiais, podem dar ao retrato uma multiplicidade, principalmente quando se "brinca" com as relações dos planos envolvidos, sobrepondo-os e montando-os. Quaresma demonstra, uma forma particular de iluminar e mesmo de retirar, a própria luz trazendo efeitos duros e criando sombras definidamente vivas.

Para o artista o ato de se retratar, deve se ater ao contorno, não se preocupando em delimitar o espaço e sim em impedir que o meio o invada. A suas cores para isso são limitadas, neste processo, para garantir o tom do seu discurso, para dar à luz e ao fenómeno distorcido da realidade uma forma de representar que não é sua, mas que utiliza a seu corpo para por posta a sua realidade.

 

1.1.2 Paisagens

As fotografias urbanas são temas recorrentes onde as verticais convergem dos edifícios para o céu. O preto e os tons de cinza dos prédios, somados ao céu, completam-se mutuamente, reforçando a atenção do observador, enquadrando a atenção em um paralelismo, a fim de criar uma imagem tridimensional de estruturas, luz e cor, tendo nos volumes um teor de dominação do ambiente.

Dois detalhes estão bem presentes em seus enquadramentos urbanos, o céu limpo e dominador e o cinzento dos edifícios, formando uns agrupamentos simples, perfeitos para criar uma forma impactante de imagem abstrata. Sua escala gigantesca é captada com uma iluminação perniciosa, permitindo reduzir o enquadramento, conseguindo um ponto de vista ideal (Figura 3).

 

 

Na busca pela abstração nas formas sólidas de várias cidades pelo mundo vemos a precisão de seus ângulos, dar um novo formato aos obeliscos, distorcendo-os, inclusive na maneira de observá-los. Seu ponto de interesse em muitas vezes está na própria linha diagonal ou curva que se estende de um canto ao outro dando um efeito dinâmico.

 

1.1.3 Fotogramas

Um fotograma é a forma mais simples de fotografia. Não é necessário a câmera para realizar fotogramas, basta somente papel fotográfico, uma fonte de iluminação e algo para colocar sobre o papel ou na sua frente.

Destacamos os fotogramas como uma marca pessoal no trabalho de Quaresma, resgatando uma técnica antiga da própria fotografia. Ele ressignifica o trabalho com fotogramas anexando cores e transparências e uma nova tecnologia a seus acabamentos.

Nos fotogramas de folhagem ele apresenta um ensaio natural da própria forma. Sua suave transparência nos dá uma sensação de trama. O tema destaca-se através da luz que direciona e evidencia os contornos, registrando e destacando os detalhes num relevo vivo (Figura 4).

 

 

Ele trabalha com fotogramas preto e branco e com fotogramas coloridos, estes são um capitulo a parte no seu trabalho. A cor se emancipa com a utilização de colorização digital. Quaresma se julga daltônico aos espectros de verde, marrons, rosas e roxo, conclui que fica um pouco confuso, quase chega a se perder no momento de uma escolha mais hetorotodoxa.

Em algumas faixas do espectro no comprimento de onda da luz, os tons que mais o agrada são os sépias, marfins, marrons, gostando também do branco e preto, sem esquecer da cor vinho do rubi, mas as cores preferidas para ele são as combinações do laranja com o azul. "[...] não se deve negligenciar a cor, senão estudar bem o seu uso conjuntamente com a luz e o desenho, de modo que [...] dominar todas as partes." (Kossovitch, 1988: 207).

Para os fotogramas de Quaresma é sempre perceptível a relação de atração e concorrência entre cor e textura, o que contribui para o efeito de descoberta das áreas de vida em cada imagem. As cores luminosas dos fotogramas de Quaresma são puras, a ponto de pareceram vindas de um mundo lírico, no entanto a própria forma necessita de cor. Suas imagens são cuidadosamente organizadas de forma que as cores possam distrair a atenção e complementar a estrutura de interesse principal, ficando dispostas de modo que esse peso consiga se nivelar à força visual dos outros elementos.

 

1.1.4 Flores

As fotos de Quaresma com esta temática tratam muito mais do imaginário, criando fascinantes ensaios. Seu enquadramento explora o multicolorismo das plantas, podendo ver em cada detalhe a diversidade das formas, sempre possibilitando novas combinações de cores e sempre preocupado em evidenciar um movimento abstrato de cores vivas.

A composição das flores, nos aparecem dispostas em massa, ou de forma individual. As de massa, tanto as flores e as folhas preenchem o frame completamente criando seu próprio fundo, formando um "diálogo" rico em texturas únicas (Figura 5).

 

 

A luz, ou a ausência dela é um dos fatores mais importantes para se delinear um contorno. As sombras em qualquer trabalho podem definir a forma, até mesmo criar por si próprias, um contorno dominante.

 

1.1.5 Fotomontagem

As cópias se obtêm normalmente a partir de um único negativo, porém, se revelarmos dois ou mais negativos sobre uma mesma folha de papel, poderemos acrescentar o detalhe suplementar que faz com que uma boa fotografia fique excelente.

Quaresma cria imagens totalmente novas, em seu laboratório ou no seu computador. A tecnologia na produção de seus ensaios é extremamente relevante, segundo o artista tudo veio a seu tempo, a fotografia digital, traz para a montagem artística uma série de vantagens sobre o filme. A precariedade dos laboratórios, como também a falta de filtros, foi resolvida devido à tecnologia das novas máquinas. "[...] pode-se definir a manipulação eletrônica de uma fotografia como o prosseguimento de sua elaboração [...] trata-se de criar uma terceira realidade a partir de uma segunda realidade." (Samain, 2005: 325)

Algumas de suas formas misturam as transparências e a suavidade das cores dos fotogramas com desenhos simples de linhas rápidas e marcantes. Num trabalho de contrastes entre cores e formas, nítidas ou não (Figura 6).

 

 

1.1.6 O erro na fotografia

Um feito acidental na fotografia pode ser erro no olhar de um fotografo, mais pode ser útil para outro. Surpreendentemente no erro, às vezes se conseguem imagens atraentes e originais. Conhecendo o tipo de efeito que os "erros" de processamento, produzem, Quaresma aproveita para criar seus próprios efeitos especiais, salvando os "desastres" e transformando-os em ensaios interessantes.

Para ele a surpresa de seu trabalho consiste em descobrir a potencialidade artística de erros. A distorção deliberada ou não de processamento consegue com êxito uma solução estética interessante se for possível escolher o enquadramento mais impactante. Com uma seleção cuidadosa, das peças fotográficas, inicia-se uma correção da cena, através das cores, podendo produzir estranhas e atraentes imagens, misturando contrastes entre o preto e cores quentes ou trabalhando somente o preto e branco (Figura 7).

 

 

Quaresma traduz um novo caminho na sua percepção visual, e na sua paixão pelo detalhe nas formas naturais. Nesta vertente de trabalho, temos um pesquisador dos acidentes fotográficos, que também revelam uma relação singular com a própria natureza, de forma analógica.

Sua produção imagética é uma experimentação que procura de fugir dos condicionamentos de modelos globais da composição das cores, formas e contornos. Suas novas imagens produzidas na contemporaneidade implicam uma outra forma de encadeamento do sujeito com o mundo material e humano, num outro espaço-tempo, simultaneamente real e simulado. O estado de suas imagens tem cores como agentes primeiro, o erro agora é o certo, uma prevalência da imagem, resultado da sua importância cognitiva, em especial na sua arte e na comunicação de sua fotografia da luz dentro da imagem.

 

Conclusão

Para se produzir arte não é necessário apenas técnica apurada, mas sim um olhar atento e decisivo, capaz de perceber à sua volta. O grau de percepção de Quaresma influência a desconstrução da imagem e sua abstração imaginativa reconstrói a realidade, através de novos ângulos e sensibilidade estética apurada. Nesta perspectiva, o resultado tem valor artístico, porque ela não é um simples registro, nem um tempo morto, nem apenas um relato, ela é uma linguagem própria e viva, é a expressão do autor.

Se a arte é a expressão de uma intencionalidade numa impressão material. A fotografia artística de António Quaresma se enquadra perfeitamente neste conceito.

 

Referências

Santaella, Lúcia & Noth, Winfried (1999). Imagem: cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras. p. 128.         [ Links ]

Samain, Etienne (2005). O fotográfico. São Paulo: Hucitec. p. 32.         [ Links ]

Quaresma, Antonio. (2015) Photo Art Galeria. Teresina. [Consult. 2015-11-10] Disponível em URL: http://www.photoartgaleria.com        [ Links ]

 

Artigo completo recebido a 30 de dezembro de 2015 e aprovado a 10 de janeiro de 2016

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: nubiandrade@ufpi.edu.br (Núbia de Andrade Viana)

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