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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.7 no.16 Lisboa dez. 2016

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

A geometria de Rui Effe: um sensível conceito

The geometry of Rui Effe: a sensitive concept

 

Marcos Rizolli*

*Brasil, artista visual. Membro do Conselho Editorial. Licenciatura em Educação Artística (Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUC/Campinas). Mestrado e Doutorado em Comunicação e Semiótica: Artes (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP).

AFILIAÇÃO: Universidade Presbiteriana Mackenzie, Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura, Grupo de Pesquisa Arte e Linguagens Contemporâneas – CNPq (Líder). Rua da Consolação, 930 – Prédio 16, São Paulo (SP), CEP 01302-907, Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

Este artigo reafirma a ideia de que a teoria semiótica, em sua matriz norteamericana, pode ser percebida como plataforma crítico-criativa, no universo das artes contemporâneas. Um significativo exemplo: o artista português Rui Effe. Ele mesmo, professor da disciplina Semiótica no Instituto Politécnico do Cávado e Ave, em Barcelos, faz uso expressivo de uma sensível geometria que, através da observação atenta da paisagem, define uma visualidade mediada por estruturas, aparências e conceitos reveladores de agudo conhecimento semiótico – fazendo convergir prática e consciência de linguagem.

Palavras chave: Rui Effe, semiótica, geometria.

 

ABSTRACT:

This article reaffirms the idea that semiotic theory in its North American headquarters, which can be perceived as critical and creative platform, in the universe of contemporary art. One significant example is the Portuguese artist Rui Effe. He, by himself, professor of semiotics discipline at the Polytechnic Institute of Cávado and Ave, in Barcelos, makes significant use of a sensitive geometry that, through careful observation of the landscape, he defines a visual mediated structures, appearances and revealing concepts of acute semiotic knowledge – bringing to converge practice and consciousness of the language.

Keywords: Rui Effe, semiotics, geometry.

 

Introdução

A Semiótica – a teoria geral dos signos, em sua matriz norteamericana, postulada por Charles Sanders Peirce – enquanto ferramenta de estudo acerca das linguagens parece ser um justo recurso para a definição de uma crítica de arte centrada na visualidade artística contemporânea. Pois, se considerarmos os elementos presentes nas semioses artísticas, poderemos entender a Semiótica em dupla argumentação: ao tempo que o conhecimento semiótico instrui a prática de linguagem, permite ao artista contemporâneo exercer, como primeiro fruidor, a análise crítica de sua obra – em exercícios semióticos abdutivos – que seriam, em si, o método da inventividade e da criatividade, na linguagem.

A dimensão meta-criativa das semioses artísticas deve compreender o conceito abdutivo na geração de valores crítico-criativos.

Um artista que bem poderia corporificar essa demanda é o português Rui Effe, que vive e trabalha entre Braga e Lisboa. Licenciado em Artes Plásticas – Pintura, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, com Pós-Graduação em Direção Artística pela Escola Superior Artística do Porto e Mestrado em Artes Plásticas e Comunicação Artística pela Universidade do Minho, o artista vem desenvolvendo desde 1999 inúmeros trabalhos: ilustrações, pinturas, objetos, instalações, vídeo-arte e meta-poemas – já com visibilidade internacional. Effe tem atuado, ainda, como docente no Instituto Politécnico do Cávado e Ave – justamente na disciplina de Semiótica.

Portanto, como artista e professor, atua no arco aplicado das semioses artísticas.

 

1. Geometria Prática

A arte de Rui Effe manifesta-se toda estruturada à partir de uma consciência geométrica que resulta numa notável inteligência formal. O artista se apropria da natureza, da paisagem e dos lugares para, imageticamente, conciliar: geografia e geometria; tri e bidimensionalidade; sobre e justaposição; percepção e cognição – em dimensão autoral.

Parece ser, por esse motivo, um artista clássico – aquele sujeito criativo que observa a natureza como se fosse um fenômeno à espera da ordem mental humana. E assim, poderíamos dizer acerca da geometria prática de Rui Effe o mesmo que Salmi afirmou sobre Michelangelo:

Vê beleza na correspondência da forma com a ideia, pois a beleza depende da intencionalidade, isto é, da adequação da forma ao seu objetivo [...]. A proporção é qualitativa [...]. É uma medida intelectual (Salmi, 1996: 44).

Mais recentemente, Effe vem elaborando trabalhos que se referem às paisagens e aos lugares. Assim, entre prática e consciência de linguagem, se encontrou de forma irreversível com a sua vocação de artista-geômetra: ao insistentemente perseguir as propriedades das imagens, reduzindo-lhes à essência; ao inventivamente perceber as estruturas formais, ampliando-lhes à expressão – sempre em viés analítico.

E, entre todas as formas de expressão da qual o artista se ocupa, as colagens de pequenos formatos, seriam seu dispositivo mais agudamente revelador das conexões abdutivas entre suas semioses expressivas e suas singulares sínteses semióticas.

O artista experimenta a geometria para compreender a linguagem. Age nas estruturas de uma abstração mínima para referir-se à paisagem. Seus lugares geométricos evocam um estado metodologicamente intimista: o procedimento da forma recortada traduz, sem representar, um desenho mental (Figura 1).

 

 

Muito apropriadamente, Effe conduz seu processo criativo para uma produção visual rigorosa, para definir uma ordem formal que espelha – e revela – a geometria como argumento e método. Os recortes – de papéis e figuras – e as colagens – de formas e textos – acentuam a sua predisposição para o recurso control C-control V da expressão artística contemporânea: a montagem – método que faz interagir os mais diversificados códigos de linguagem. Método que faz amalgamar suas semioses em poéticas visuais que, de tão rigorosas e talmente íntimas, dispõe-se ao estabelecimento de uma geometria imprecia, livre de métricas e instrumentos.

A vocação de geômetra instrui o artista. A norma geométrica prapara a sensibilidade.

 

2. Geometria Sensível

A plataforma geométrica adotada pelo artista revela suas intenções expressivas: observar os elementos estruturantes das imagens – da natureza, da paisagem e dos lugares; suas projeções, seus linearismos, suas formas – para dar-lhes visibilidade, numa visualidade construtiva, cerebralmente constituida, que lhes retira da condição sensorial para alcançarem, na linguagem, uma dimensão sensível.

Parece ser, dessa forma, um artista moderno – aquele criador encantado com as aparências das estruturas geométricas. Effe é, assim, um artista-geômetra, que age expressivamnente em usofruto, de uma linhagem de artistas como Vassily Kandinsky ou Paul Klee, que operavam a visualidade, justamente para requer, da linguagem visual, sua condição de autonomia perante o mundo dos fenômenos e, portanto, das representações figurativas, desencadeando os processos e os procedimentos da metalinguagem – moderna e abstrata (Figura 2, Figura 3).

 

 

 

 

Bem assim, como gostaria Baudelaire, aqui citado por Jaffé:

...o pressentimento de que, além da realidade objetiva, pudesse existir uma outra – um mundo imaterial, incorpóreo, que nem os olhos nem as mãos poderiam colher e somente a imaginação e a fantasia poderiam decifrar (Jaffé, 1983: 287).

Sob este ponto de vista, podemos imaginar que Rui Effe pensa como Cèzanne:

Devemos olhar a natureza como se ninguém a tivesse visto antes de nós. Sendo artista, devo ter um olhar original. Sendo artista, penso, sobretudo, nas sensações visuais (Cèzanne, cartas a Emile Bernard, 1904).

Ou, ainda, mais filosoficamente:

Justamente quando a natureza se retrai, a vida da consciência humana alcança a sua plenitude, a sua autonomia, a sua máxima força e pode deslocar-se da natureza por não mais necessitar de exemplos, deixando de ser esse o espelho que reflete a certeza do ser: a consciência continua vivendo e operando o mundo; na realidade, não há mais necessidade de medidas fora da linguagem (Heidegger, 2010: 36).

Para experimentar as suas essências estrutrurantes, Effe elabora uma geometria plasticamente imprecisa. Contudo, agudamente autoral. Respondendo aos seus desejos de forma, arma estratégias: faz das estruturas geométricas, contiguamente, seu fundamento criativo e seu argumento visual para se aproximar do mundo – e , dele, se apropriar.

Abdica da condição perceptiva do mundo, para definir um universo autônomo. Então, Rui Effe, com seu instigante geometrismo – nuclear, concêntrico e rigoroso; orbital, excêntrico e impreciso – empresta da paisagem a sua essência, para transformá-la em linguagem.

Suas folhas de papel e seus recortes formais alcançam a narrativa própria das complexidades semióticas. Sua arte, então, se descola das aparências formais para adotar um exercício intelectual que busca nas referências da história da arte os registros que irão consolidar o seu lugar abdutivo – para se reconhecer numa geometria conceitual.

 

3. Geometria Conceitual

Rui Effe é, então, um artista contemporâneo – aquele que tão bem sabe conciliar a tríade semiótica: qualidade e indexicalidade, devidamente encapsuladas pela dimensão simbólica da visualidade. A prática consciente de linguagem permite ao artista vislumbrar a transcriação da natureza. Torna o mundo o seu lugar simbólico e, entre imagens e textos, exerce a mais alta abstração humana. Entre o visual e o verbal, gera uma geometria paritária entre percepção e cognição (Figura 4).

 

 

Para pensar a geometria das imagens:

A imagem é uma sabedoria que antecede a filosofia e a representação. As imagens que se aprofundam em suas próprias qualidades vivem como um choque a separação do corpo para imaginar a existência (Beuys, 1990: 83).

Effe, de modo irreversível, se posicina na esfera intelectual da criação artística. A sua peculiar geometria – prática e sensível – torna-se, de modo cada vez mais evidente, o pretexto para a realização de colagens que expõem as tensões de espaço e tempo, como se fossem excertos de sua existência.

Para reafirmar tal ponto de vista, poderíamos revindicar, em excertos, a voz de Bárbara Valentina, que nos informa:

Um percurso singular que começou no desenho, onde utilizava o seu elemento mais elementar e depurado: a linha... as relações que lhe interessam são as do eu com o espaço... questiona as noções de percepção do espaço e da forma... todo o trabalho do artista é feito de [...] pormenores que indicam algo maior... abandonou a mera representação figurativa para avançar sobre uma linha conceitual... Rui Effe dedica-se (às) interrogações dos lugares que intervenciona... opta por criar um diálogo com a natureza... questiona dessa forma a função [...] e o lugar da obra de arte (Valentina, 2011).

Assim, percebemos que a linha deslocou-se do gesto manual e resultou compreendida pelo linearismo dos recortes operados pelas láminas da tesoura ou do estilete. A forma, por sua vez, atende ao estado mental na geração de contínuas tensões entre forma e espaço, para determinar lugares conceituais, em estatuto simbólico.

Afinal, o artista se apresenta no centro de suas experiências e deve refletir sobre a sua posição no processo produtivo:

A imaginação junto com a acuidade analítica formam a coluna dorsal do raciocínio [...] A doutrina dos signos é essencial à visão do pensamento como um diálogo. Os signos são a matéria do pensamento, o diálogo sua forma, uma forma básica, geral, que abraça toda a força da imaginação e todas as formas de pensamento crítico (Santaella, 1993: 175-6).

As estruturas formais e escrituras lineares de Rui Effe configuram o conhecimento semiótico do artista. No mesmo instante, definem a sua expressão artística. A geometria é começo, meio e fim. Natureza, abstração, cultura.

 

Conclusão

Rui Effe, então, apresenta seus lugares geométricos. Lugares de síntese universal, que dialogam abdutivamente: com a arte clássica, que buscava a beleza na ordem; com a arte moderna, que reinvidicava a autonomia da linguagem; para se inserirem na contemporaneidade das expressões artísticas, revelando argumentos, questionando conceitos – em dimensão intelectual.

A arte de Effe expõe lugares geométricos que revelam a tríade semiótica: icone, como qualidade sensível; índice, como fato sensorial; símbolo, como argumento cultural.

Em síntese: de todos os lugares, um lugar conceitual que precisa alcançar o espectador. Ao gerar a forma geométrica, o artista atribui densidade sensível à criação artística.

Se dará, finalmente, a sua redenção criativa: um arco tensional no qual o artista cria, produz e teoriza. Bem assim: contribuindo com a definição de uma linhagem artística – aquela dos artistas-pensadores, que têm a história da arte como horizonte, a linguagem da arte como meta... e a crítica como fim!

 

Referências

Beuys, Joseph (1990) Joseph Beuys Block Beuys. Munchen: Schirmer/Mosel. ISBN 3-88814-288-1        [ Links ]

Cèzanne, Paul (1904) Fac-Símile de carta enviada a Emile Bernard. Aix-En-Provence: Casa Cèzanne.         [ Links ]

Jaffé, Hans Ludwig Cohn (1983) 20,000 years of world painting. London: Greenwich. ISBN 978-051-7426-04-3        [ Links ]

Heidegger, Martin (2010) A origem da obra de arte. Lisboa: 70. ISBN 978-856-2938-03-0        [ Links ]

Salmi, Mario (1996) Michelangelo – artista – pensatore – scrittore. Novara: DeAgostini. ISBN: 978-884-1538-97-5        [ Links ]

Santaella, Lucia (1993) Metodologia Semiótica: fundamentos (Livre Docência). São Paulo: Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.         [ Links ]

Valentina, Bárbara (2011) "Quase Nada." In Rui Effe. [em linha] Blog [Consult. 2015-12-21]. Disponível em URL: http://ruieffe.blogspot.com        [ Links ]

 

Artigo completo recebido a 26 de dezembro de 2015 e aprovado a 10 de janeiro de 2016

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: marcos.rizolli@mackenzie.br (Marcos Rizolli)

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