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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.7 no.13 Lisboa mar. 2016

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

Um desvio para o imaterial: Sandro Novaes

A turn into the imaterial: Sandro Novaes

 

João Wesley de Souza*

*Brasil, professor, artista visual e arquiteto. Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal Fluminense. Mestre em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre em Producción e Investigación en Artes, Facultad Alonso Cano da Universidad de Granada (UGR). Doutor em Arte pela Universidad de Granada (UGR).

AFILIAÇÃO: Universidade Federal do Espirito Santo, UFES. Centro de Artes (CAR). Departamento de Artes Visuais (DAV). Avenida Fernando Ferrari, 514. Goiabeiras, Vitoria ES, CEP: 29075 910 Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

Este escrito objetiva a construção de uma leitura especifica sobre duas configurações visuais que o artista visual Sandro Novaes elaborou para uma exposição individual no Museu de Arte do Espirito Santo, MAES, em Vitoria, Brasil. O método de abordagem que elegemos para este fim é centrado em uma atitude interpretativa, sujeita ao modo exclusivo de recepção do autor, orientando se, deste modo, para um distanciamento das jurisprudências, artístico-históricas, em primeiro plano.

Palavras chave: Arte Conceitual, Imaterialidade, Imaterial.

 

ABSTRACT:

This paper aims to build a specific reading about two visual settings that the artist Sandro Novaes prepared for a solo exhibition at the Museum of Fine Art of Espírito Santo, MAES, in Vitoria, Brazil. The method of approach that we have chosen for this purpose is centered on an interpretative approach, subject to the exclusive way of the author's reception, directing it in this way, for a distancing of the artistic and historical jurisprudences, as an exclusive principle.

Keywords: Conceptual Art, Immateriality, Immaterial.

 

Introdução

A legenda desta escrita, "Um desvio para o imaterial", aponta para um conjunto de imagens artísticas, as quais anunciamos antecipadamente, que se deterão no âmbito do conceito de imaterialidade. Uma inclinação à ausência material seguida de uma articulação conceitual que delimita e explicita linhas e pontos compreensíveis a nossa percepção, seria então, o sentido geral que podemos comentar, ao depararmos com as configurações planares e espacial que Sandro Novaes selecionou para apresentar em um formato de exposição individual, que se constituem o objeto deste texto. Encontrarmo-nos deste modo, diante de imagens que darão referencia a esta leitura especifica que propomos. Tudo que vemos e que podemos participar imaginativamente nos encaminharia, em tese, para uma experiência reflexiva que culminaria no reconhecimento de linhas e pontos imateriais a serem percebidos durante a fruição destas configurações. Buscamos com isto, evidenciar o princípio fenomenológico que norteia o gesto do referido artista visual na construção das suas imagens. Enfatizaremos este modus operandi, apontando as recorrências que fundamentam o princípio filosófico que imprime sua marca no sentido estético das imagens, tanto nos desenhos quanto na instalação em analise.

 

Considerações sobre os antecedentes históricos e formais

Antes de avançarmos sobre a leitura e a escrita, propriamente ditos, caberia aqui sublinhar uma independência ou negligencia intencional, em relação aos antecedentes históricos que estas imagens permitem corresponder. A princípio afastaremos deliberadamente a intenção de estabelecer uma jurisprudência artística histórica para as imagens que veremos, assim procederemos, por entendermos que esta seria uma atitude própria do historiador, fato que não diz respeito a um texto de artista sobre outro artista. Tomamos este caminho para que seja permitido, um outro approach, mais descompromissado com o peso absoluto dos referentes iconográficos mais imediatos que qualquer observação mais minuciosa poderia suscitar. Propomos então, um encontro entre um sujeito que se dispõe a contemplar as imagens que outro artista se arriscou a lançar ao mundo, independente do sentido de originalidade que tantos danos de esvaziamento e de impedimentos trazem aos autores de imagens inscritas no contexto contemporâneo. Lembramos então, uma importante advertência proferida por Mario Pedrosa em Mundo, homem, arte em crise, (2007)ao se referir ao encontro com as imagens artísticas realizadas no contexto cultural brasileiro.

A obra de arte é a objetivação sensível ou imaginária de uma nova concepção, de um sentimento que passa, assim, pela primeira vez, a ser entendido pelos homens enriquecendo lhes as vivências. O artista apenas organizou para nós, para nosso conhecimento, para nossa contemplação, uma forma-objeto, um objeto-sentimento, um sentimento-imaginação. E esta forma se nos apresenta não como uma comunicação de algo preciso que existia e continua a existir lá fora, no mundo exterior ou num lugarzinho bem determinado do mundo interior do artista, mas como uma aparição que para, com estrutura acabada e que se repete por inteiro e sempre de súbito, toda vez que entramos em contato com ela. (Pedrosa, 2007: 15).

Esta aproximação careceria então, da necessidade de um toque especial, uma mirada livre da opressão das matrizes referentes instituídas que quase sempre, se encontram no estrangeiro, portanto, longe do alcance da experiência que o nosso olhar poderia propiciar. Se não vemos estas imagens pelo que elas simplesmente são, como se apresentam em si mesmas, sem o peso destas referências iconográficas, não conseguiremos perceber e inserir os sentidos que as mesmas seguramente possuem, independente do proposito de originalidade. Tal princípio, atuando como elemento regulador do olhar e da subsequente escrita, poderá resultar em um texto de artista, um fenômeno imediato que nasce do encontro entre aquele que vê, e as substancias que uma imagem poderia exprimir, para um determinado sujeito que observa participando. Outro sujeito, também íntimo do gesto criativo.

 

Um desvio para o imaterial

Abordando inicialmente as obras bidimensionais que nos remetem imediatamente à sua consequência espacial instalada, este texto visa no seu decorrer, explicitar a condição fenomenológica que sujeita e norteia estas configurações, como principio.

Ultrapassando o mero uso do desenho como ato primeiro e interpretativo do mundo, então visto como objeto que imprime sentidos no imaginário do sujeito, Sandro Novaes inicia seu projeto expositivo, apresentando obras planares não figurativas que buscam induzir o observador, a uma experiência visual que termina viabilizando o afloramento de fenômenos relacionais na forma de conceitos e de conhecimentos que emergem da experiência de um observador ativo. Imagens construídas com linhas negras que contrastam com o fundo branco do papel, convergem para um foco de perspectiva, solicitando que nosso olho acompanhe seu percurso. Tal expectativa provocada pela deambulação do olhar sobre estes caminhos gráficos é interrompida por uma ausência de continuidade, como podemos observar no primeiro e no último desenho da Figura 1.

 

 

O que vemos a seguir, não confere com o que estava encaminhado anteriormente. Esta quebra de expectativa, esta descontinuidade, termina gerando uma diferença, um rastro imaginativo que logo depois do contato com estas imagens planares, passa a existir inquietantemente, emergindo desta experiência visual, como um fenômeno pulsante na imaginação do observador.

Ao fim, a percepção ativada sobre o plano gráfico, constrói uma linha inexistente, digamos imaterial, posto que seja algo que em realidade não existe, porém percebemos por complementação gestaltica. Ao termino deste passeio exploratório do nosso olhar, acabamos construindo uma sutil linha nesta diferença. Deste modo, Sandro faz uso de uma linguagem planar, não para representar algo da realidade centrado na relação indicial com o mundo, mas sim, usa o desenho na sua possibilidade experimental, autônoma e interna. Sua imagem seria apenas um subterfugio para permitir uma experiência vivificante ao observador. Espaços percebidos e construídos por descontinuidades, ou aqui entendidos como linhas não existentes, são encontrados, surgindo como volumes convincentes em um suporte absolutamente planar. Neste sentido, sua imagem gráfica reafirma a noção de arte do engano, um autentico trompe l'oeïl, ato tão recorrente e comum no desenho como meio expressivo, porém resta de toda esta experiência visual, os conhecimentos fundados no encontro entre a obra e seu observador, fatos estéticos que darão consequências espaciais, como veremos a seguir.

Ao abandonar a parede que suporta as citadas obras planares, quando viramos o corpo dando uma volta atrás, encontramo-nos diante de um espaço expositivo, de planta trapezoidal que convenientemente suporta uma instalação com fios que se comportam, agora como linhas traçadas no espaço. Tal proposta visual, além de dar continuidade e duração ao que já vimos anteriormente, tira evidente partido desta condição de espaço de perspectiva forçada, viabilizando assim, uma instalação penetrável onde o corpo do observador pode adentar-se e participar, como podemos observar na Figura 2.

 

 

Nesta instalação relacional, agora construída com linhas reais de algodão, nas cores branca e negra, em um baixo contraste com o fundo branco do espaço, Sandro Novaes aplica o mesmo sentido conceitual experimentado nos trabalhos planares para, neste momento, enfatizar além de linhas inexistentes, os pontos imateriais, elementos possíveis de serem entendidos como conhecimentos surgidos na interação do observador com esta instalação.

Tais pontos imateriais que apontamos, tratam-se, em verdade, de novos focos de perspectivas que podem ser percebidos pelo fruidor ao caminhar para dentro do espaço físico desta obra tridimensional. Uma vez encontrando e posicionando nestes pontos focais, ao observador é possível reconhecer, mais uma vez, construindo por complementação gestaltica, novas linhas inexistentes que nascem da quebra de expectativa do olhar, quando tenta percorrer as direções indicadas pelas reais linhas de algodão. Neste sentido, nesta contradição, entre linhas e espaços reais que se opõem diretamente às suas antíteses, as linhas e pontos inexistentes, Sandro exprime seu principio dialético. Fica evidente a fonte terminológica que norteia todos os seus gestos e propósitos, torna-se claro para aquele que usufrui de suas imagens, que por traz de toda esta simplificação abstrata, além desta ausência de imagens representacionais, um fundamento conceitual centrado na fenomenologia, rege suas atitudes.

No que se diz respeito à simplificação da imagem à sua ossatura irredutível, e mesmo quando identificamos o uso dominante da abstração, poderíamos relacionar a obra deste artista visual ao modernismo, porém seu trabalho transcende esta referencia quando desdobra alguns fundamentos fenomenológicos que se conectam diretamente com atitudes facilmente reconhecidas nos procedimentos formais e conceituais da arte contemporânea brasileira. Podemos dizer que Sandro Novaes faz durar alguns procedimentos oriundos do Neoconcretismo, desdobrando na atualidade, estratégias que retiram o observador da passividade própria daquele que vê a obra de arte em um espaço expositivo, convidado o mesmo, para uma participação que faz dele, condição indispensável para o surgimento do fenômeno, deste modo, fazendo jus e dando sentido a suas imagens, uma vez que: tanto as linhas inexistentes quanto os pontos imateriais, só podem ser percebidos sob a égide da participação.

 

Nós e os outros, ver e ser visto, ou quando tudo mistura

Ao finalizar este percurso, onde um olhar acompanhado de uma proliferação conceitual tenta encaminhar uma direção para outros pósteros leitores destas imagens, resta como substancia gerada neste caminhar, uma noção de espelho. Queremos dizer que: quando um artista se propõe a descrever o que percebe na obra de outro, o mesmo, não consegue escapar de um antropomorfismo artístico dominante que indica uma excessiva contaminação com o objeto de investigação estética. Uma impossibilidade absoluta de dicotomia se impõe entre o sujeito que analisa e o objeto em questão. Fato recorrente entre dois sujeitos, um que produz e outro que tenta ver, a certa distancia, esta mesma produção. Inevitável proximidade, atribuída a uma inelutável condição determinada pelo conhecimento mutuo de um mesmo métier.

 

Referências:

Pedrosa, Mário. (2007) Época das Bienais: Mundo, homem, arte em crise. São Paulo: Perspectiva.         [ Links ]

 

Artigo completo recebido a 30 de dezembro de 2015 e aprovado a 10 de janeiro de 2016.

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: joao.souza@ufes.br (João Wesley de Souza)

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