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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.7 no.13 Lisboa mar. 2016

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

As incursões gráficas e pictóricas de Tadeu Jungle (ou, o elogio do ruído)

The Graphic and Pictorial Inroads of Tadeu Jungle (or, the Praise of Noise)

 

Omar Khouri*

*Brasil, artista visual e poeta. Licenciado em História, Universidade de São Paulo, mestre em Comunicação e Semiótica-Literaturas – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC SP), doutor em Comunicação e Semiótica-Artes, PUC SP, e livre-docente em Teoria e Crítica da Arte, Universidade Estadual Paulista 'Júlio de Mesquita Filho'.

AFILIAÇÃO: Universidade Estadual Paulista 'Júlio de Mesquita Filho', Instituto de Artes (IA-UNESP), Departamento de Artes Plásticas, campus de São Paulo. Rua Dr. Bento Teobaldo Ferraz Nº 271 CEP 01140-070 São Paulo. SP Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

Este artigo trata do poeta e artista multimédia Tadeu Jungle, que começou a operar a partir da 2ª metade dos anos 70, integrando-se ao grupo de poetas experimentais de São Paulo. Sua atuação incorpora muitos meios e linguagens, com ênfase, porém, na Poesia. Notória característica em sua obra é a utilização do ruído como elemento estrutural, donde resultam poemas perturbadores e apreciáveis, com evidentes momentos de invenção e humor.

Palavras-chave: Tadeu Jungle, Poesia Intersemiótica, Ruído, Humor

 

ABSTRACT:

This article focuses the multimedia poet and artist Tadeu Jungle, who began operating from the 2nd half of the seventies, joining the group of São Paulo's experimental poets. His performances incorporate many media and languages, with emphasis, however, in Poetry. Notorious feature in his work is the use of noise as a structural element, which results in disturbing and appreciable poems, with obvious moments of invention and humour.

Keywords: Tadeu Jungle, Intersemiotic Poetry, Noise, Humour

 

Tadeu Jungle: identidade e contexto

Na tentativa de compreensão de um fenômeno, procura-se classificá-lo, verbalizá-lo, etiquetá-lo, para que se tenha, sobre ele, controle, um certo controle, diga-se. Tadeu Jungle possui companheiros de jornada poética, muito embora a sua produção tenha como que uma identidade própria, que poderia ser resumida em: ousadia, humor e ruído, o que vem a desembocar numa estética do borrão, poder-se-ia dizer. Pertence a uma geração que começa a operar em fins dos anos 1970, adentrando os 90, e daí em diante. Tadeu Jungle: o ruído já desponta no nome artístico que acabou por adotar, pois este adveio do engano do poeta Edgard Braga (1897-1985) – um dos mentores dos poetas que se identificaram, entre outros procedimentos, com a caligrafia gestual (Edgard Braga, 1976: passim). Braga trocou o nome de família – Junges: jovem, em alemão – por algo similar, sob o ponto de vista da forma: Jungle: selva, em inglês.

Nasceu, o artista-poeta Tadeu Jungle, em São Paulo (SP, Brasil), em 1956, cidade onde reside e atua de modo contumaz. É formado em Comunicação Social (ECA-USP), com especialização em Rádio e TV. Lida com palavras, assim como com elementos da Pintura e do Desenho: funde-os. Performer nato, vem atuando há décadas, tendo sido um dos pioneiros, juntamente com Walter Silveira (1955-), da arte dos graffiti, em São Paulo, numa época em que a atividade ainda não se havia tornado moda/mania nos centros urbanos brasileiros e a Pauliceia, ponto de atração mundial dessa modalidade da street art. Tadeu Jungle é, também, videomaker, fotógrafo, editor e promotor de eventos, homem de televisão e publicitário. Publicou em veículos coletivos, como Artéria, Zero à Esquerda e outros. Participou, também, de mostras nacionais e internacionais de Poesia. Como vídeo-artista, fez parte de uma produtora, que congregava 4 jovens, chamada TVDO, a qual produziu vídeos que, além de ganharem muitos prêmios, entraram para a história da Vídeo-Arte no Brasil. Tratava-se da segunda geração de videomakers da Terra Brasilis, geração esta que já possuía acesso a aparelhos sofisticados, embora ainda muito caros. A TVDO estabeleceu para si regras básicas, como que dogmas (temporários), nos quais todos os componentes do grupo/produtora acreditavam e, obviamente, seguiam: 1. Tudo pode se tornar um programa de TV. 2. Edição e sonorização são fatores fundamentais na manipulação da informação. 3. Cinema e/ou TV: TVDO conforme a tela em que se vê. A grife ainda hoje é utilizada, sempre que algum dos componentes do grupo original faz um vídeo experimental (Walter Silveira, 2000).

 

1. Ruído como elemento constitutivo estrutural da obra de arte

Uma das características herdadas das vanguardas históricas, a ruptura das fronteiras entre as artes e linguagens, entre o que tradicionalmente era o artístico e o não-artístico, como a que se observou na Pintura, com os cubistas a misturar às tintas areia, ou com a colagem, introduzindo no território da Grande Arte elementos estranhos: papéis e outros materiais; na Música do Futurismo, encontramos Luigi Russolo (1885-1947) e o seu rumorismo, que acabou por desembocar na obra do músico John Cage (1912-1992), que rompeu, em definitivo, com a distinção entre sons musicais e não-musicais. Ruído, acaso e silêncio (Augusto de Campos, 1998: passim). Ruído: perturbação no processo comunicacional, seja na comunicação sonora ou visual, ou afetando qualquer de nossos sentidos, a não-informação (Pignatari, 2003: passim). Ou seja, observou-se, a partir dos Modernismos, que alguns criadores elevaram o ruído à categoria de elemento constitutivo estrutural da obra de arte – desdizer para reelaborar. Abre-se a obra ao acaso (que se opõe a controle), principal aliado do ruído ou se o provoca por meio de uma série de procedimentos que vão do erro proposital aos destratos. Aí, as origens do que se observa nos vídeos assinados por Tadeu Jungle, assim como em seus poemas.

 

2. Vídeo-Arte: um trabalho de Tadeu Jungle

Heróis da Decadênsia (sic), é produção da TVDO e The Academia Brasileira de Vídeo, 1987, e dá a medida do procedimento jungleano da utilização exacerbada do ruído como elemento constitutivo estrutural da obra de arte, chegando até à exaustão. A não-pretensão do verdadeiro, sequer do verossímil é outra das características do trabalho. Neste, as três regras acima expostas são colocadas em ação. São utilizados tanto materiais prontos, como os originais. Gravações são feitas num contexto, sendo, a seguir, descontextualizadas e recontextualizadas, criando situações inverossímeis no processo de edição, como é o caso do parentesco forjado entre o padre (Dom Paulo Evaristo Arns) e o poeta (Roberto Piva), que aparecem ao longo do vídeo. Sutilezas são colocadas, como a que remete ao nascimento de Vênus, na abertura do vídeo, introduzindo, em seguida, a metalinguagem, configurada na maxi-exposição da retícula da imagem videográfica. Ou a da figura falante de Dom Paulo, quase inaudível (Figura 1), deixando passar quase que tão somente a sua "música", figura saturada de luz, luz-metáfora de sabedoria, com um quê de ironia. Ruídos estão disseminados por todo o vídeo (a começar do nome, com erro ortográfico proposital), em que o som também entra com um papel importante, perturbador. No que tem de Kitsch proposital, o vídeo de Tadeu Jungle chega a lembrar um certo Almodóvar. Mas, trata-se de Tadeu, o Jungle.

 

 

3. O universo da visualidade e do ruído na Poesia: 5 poemas jungleanos

É muito forte o peso da caligrafia nos poemas de Tadeu Jungle que, de resto, podem ser oralizados. No que há de gráfico, notamos o seguinte: ele persegue a gralha, o defeito, a gagueira, o ruído... Busca freneticamente os defeitos para incorporá-los aos poemas, o que faz com que adquiram dimensão estética. No poema O lance do gago (Figura 5), além da gagueira tipográfica, dialoga com o Stéphane Mallarmé de Un coup de dés – Um lance de dados. Grosso & Fino, no dizer de Décio Pignatari (2004: 213 ss.).

 

 

 

 

 

 

 

3.1 Um quase-ideograma

Ideograma para Yoko (Figura 2): a memória dos graffiti está presente neste trabalho de Tadeu Jungle. A feitura tem algo de circunstancial, tendo-a motivado o assassínio de John Lennon, companheiro de Yoko Ono, em 8 de dezembro de 1980. O que há de preto na fatura remete ao Oriente de Yoko, com aquele sistema de escrita chinês que os japoneses adotaram, chamando-o canji. Só que esse ideograma é um pseudo-ideograma já que, num segundo lance de olhos sobre o "preto" do poema, identificamos letras do código alfabético – a escrita ocidental transliterando o nome da artista de origem nipônica: Y O K O. Os "oo" incompletos abrigam as manchas vermelhas feitas com spray: a de cima, escorre e pode remeter tanto ao fenômeno feminino da menstruação, como ao sangue que escorreu como consequência dos tiros que atingiram John Lennon. O vermelho na parte inferior, o SOL do Japão (que aparece na bandeira), país de origem de Yoko. O nome de família – Ono – também pode ser lido na mancha em preto sobre o branco do papel. O spray confere tactilidade ao poema: olhos e mãos para melhor decodificá-lo/senti-lo.

3.2 Poema ready-made

Poema (Figura 3) é trabalho de 1982 (traz data e local no verso: zoológico de Amsterdam, julho 82). O ruído, em Tadeu Jungle, é mesmo uma marca. Tanto que, neste trabalho, a sua contribuição propriamente se resume a: 1º ter assumido algo pronto como poema; 2º ter provocado defeitos na mancha gráfica. Trata-se, em verdade, de um ready-made: foto de placa de zoológico com texto (Poema / FELIS CONCOLOR ... NOORD EN ZUID AMERIKA) e figura do animal (Puma), mais mapa-múndi, onde estão assinaladas as áreas de habitat natural do referido animal. O interesse que isso despertou no poeta, obviamente se liga ao fato de a grafia do nome do animal num zoológico holandês, ser POEMA, e ele o assumiu enquanto tal. O ready-made como procedimento recorrente, um trabalho em que o conceitual paira acima de qualquer resultado enquanto objeto ou configuração gráfica/pictórica.

3.3 Transformação brasílica

Em Progresso (Figura 4 e Figura 5), de 1982. Trabalho feito com xerox (reprografia) em quadricromia. É factura sequencial. Traz grande carga de referências, remetendo principalmente a trabalhos de outros artistas. O quadro 1 reproduz muito fielmente, a bandeira brasileira, com algumas dobras. Verde, amarelo, azul e branco presentes chegam a se superpor. Da legenda, apenas aparece EM E PROGRESSO. No quadro 2, a mesma bandeira, mas com o posicionamento levemente alterado, e uma série de ruídos, bastante perturbadores. Leve alteração de posicionamento faz com que se leia simplesmente, em termos de legenda, EM PROGRESSO, já que dobras fizeram desaparecer ORD e E. Por uma alteração de registro, tem-se a duplicação da impressão, como naqueles indesejáveis erros gráficos e isto faz com que a imagem fique desfocada, quase incompreensível. Altera-se a cor, introduz-se o vermelho, altamente perturbador. Quase que totalmente, os brancos de estrelas e faixa (s), tornam-se verdes e vermelhos, que quase não se tocam. Elemento também altamente perturbador, é o símbolo do crescente que aparece como que abraçando a estrela solitária que se situa acima da faixa. Acontece que, invertido, o crescente se torna decrescente e o progresso encontra, aí, a sua barreira: força agindo em contrário. Constitui-se na única imagem que não se duplica. Pode-se ver, aí, uma crítica à situação do Brasil, uma visão terrivelmente pessimista do eterno país do futuro... Parentesco de procedimento há com os ready-mades de Marcel Duchamp. Esse trabalho de Tadeu Jungle mantém estreito diálogo com toda uma tradição: bastaria lembrar, do nosso Primeiro Momento Modernista, a bela capa que Tarsila do Amaral fez para o livro Pau Brasil, de Oswald de Andrade (1925: 1ª capa).

3.4 Um lance especial

Quintessência da poesia-ruído, da estética do borrão, O lance do gago (Figura 6), além de todo admirável trabalho cacográfico, da dupla impressão serigráfica – roxo e amarelo, dos borrões, que perpassam o texto, e das anotações que parecem aleatórias, possui um lado humorístico. Lê-se o texto com algum esforço: a pressa é a inimiga da perfeição, porém perpassado de ruídos, com coroamento do erro ortográfico "feissão", de "perfeição". Isto pode significar que, quando o gago engrena, ainda assim comete as suas ratas. O texto possui algo de construtivo-concretista, minado pelo acaso, que conduz aos ruídos: perturbações que se notam na emissão do gago. E a paródia acontece: o poeta força um diálogo com Stéphane Mallarmé que, para a Poesia Concreta, paira sobre tudo e todos, transformando o lance de dados no lance do gago. Se para Mallarmé (1897) Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Stéphane Mallarmé, 1969), para Tadeu Jungle (1982) O lance do gago jamais abolirá o ruído. Assim como o acaso está presente em todo processo de comunicação, também o ruído estará. E, no caso do gago, exacerbado.

 

 

3.5 Onde está você?

Nada mais elementar do que a apropriação de uma frase presente em lugares como shoppings, estações de metro, museus, naqueles mapas (ou diagramas) que mostram a localização de alguém num todo. Um ready-made? Sim, porém com características muito especiais, pois nesse elementar há coisas surpreendentes, mesmo sabendo que há equivalentes em outros idiomas e a frase se presta para o mesmo fim óbvio: localizar o usuário. Acontece que, em português, o texto beira a perfeição (Figura 7): tem-se uma frase com três palavras, uma grafada embaixo da outra, em branco, configurando-se um retângulo em fundo vermelho quadrado. Cada um dos elementos que compõem a frase possui quatro letras, formando dissílabos oxítonos terminando com vogais que, quando ditos, criam um ritmo iâmbico: . / . / . / Você está aqui. A terminação vocálica de um termo é o início vocálico de outro: Vocêestáaqui. E, graficamente, há que se notar que as vogais que terminam os vocábulos vêm acompanhadas de sinais, que vão decrescendo: ê á i: do acento circunflexo ao agudo, chegando ao pingo estrutural da letra i. Porém, o que há de mais notável na factura é o fato de trazer consigo uma afirmação que sempre corresponderá à verdade: onde quer que se esteja se estará ali. Daí, é que o prático assume um aspecto cômico e ontológico. Você está aqui.

 

 

Amarração final

Rigor e desmazelo, acaso e controle, ruído e informação – Tadeu Jungle opera nesse território. Em seus poemas, tanto se vislumbra a herança dos poetas concretos, como a do ready-made duchampiano, da Arte Pop, da irreverência oswaldiana, destacando-se, ainda, a cali- ou a cacografia gestual. Da geração surgida no Brasil nos anos 1970, Tadeu Jungle é um desses valores maiores. É menos conhecido como poeta que como vídeo-artista, e sua contribuição tem sido grande em todos os campos em que vem atuando. Porém, seu legado maior está no âmbito da Poesia, em que o verbal e os códigos da visualidade se encontram e fazem configurar poemas que se distinguem pela qualidade. Tadeu Jungle possui uma obra com suportes duráveis: vídeos, poemas, fotos. Porém, sua atuação-no-mundo, suas performances memoráveis são parte estrutural dessa obra que vem construindo e permanecerão graças a indícios mas, principalmente, por meio de relatos. Fazedores como Tadeu Jungle colocam a Arte brasileira, a Poesia, em especial, num patamar bastante elevado.

 

Referências

Andrade, Oswald de (1925) Pau Brasil. Paris: Sans Pareil.         [ Links ]

Braga, Edgard (1976). Tatuagens. São Paulo: Edições Invenção.         [ Links ]

Campos, Augusto de (1998) Música de Invenção. São Paulo: Perspectiva.         [ Links ]

Campos, Augusto de, Pignatari, Décio e Campos, Haroldo de (2006) Teoria da Poesia Concreta: textos críticos e manifestos 1950-1960. Cotia-SP: Ateliê         [ Links ].

Jungle, Tadeu (1981) Frequência das Aranha: pega na minha (sic). São Paulo: Edições Bacana.         [ Links ]

Jungle, Tadeu (1987) Heróis da decadênsia (sic). São Paulo: TVDO. Vídeo.         [ Links ]

Jungle, Tadeu (2014) Videofotopoesia. Rio de Janeiro: F10-Oi Futuro (org. Aberto Saraiva).         [ Links ]

Jungle, Tadeu (1997) Você Está Aqui. São Paulo: Edição Autônoma.         [ Links ]

Mallarmé, Stéphane (1969) Un coup de dés jamais n'abolira le hasard: poème. Paris: Gallimard.         [ Links ]

Pignatari, Décio (2004) Contracomunicação. 3ª ed. Cotia-SP: Ateliê Editorial.         [ Links ]

Pignatari, Décio (2003) Informação Linguagem Comunicação. 25ª ed. Cotia-SP: Ateliê Editorial.         [ Links ]

Revista Artéria 5 (1991) São Paulo: Nomuque Edições.         [ Links ]

Revista Artéria 6 (1992) São Paulo: Nomuque Edições.         [ Links ]

Revista Zero à Esquerda (1981) São Paulo: Nomuque Edições.         [ Links ]

Silveira, Walter (2000) Depoimento ao Autor.         [ Links ]

 

Artigo completo recebido a 10 de agosto de 2015 e aprovado a 23 de setembro de 2015.

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: omarckhouri@gmail.com (Omar Khouri)

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