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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.7 no.13 Lisboa mar. 2016

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

Frans Krajcberg: a identidade brasileira revelada através do olhar para a natureza

Frans Krajcberg: The Brazilian identity revealed through looking at the nature

 

Márcia Helena Girardi Piva*

*Brasil, artista visual. Licenciatura em Educação Artística com habilitação em Artes Plásticas, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo. Mestrado em Artes Visuais, Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Doutoramento em Artes Visuais, Instituto de Artes, UNICAMP.

AFILIAÇÃO: Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Cidade Universitária Zeferino Vaz, Barão Geraldo, Campinas, SP, 13083-970, Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

Este texto tratará de algumas questões – que serão relacionadas à construção da arte de Frans Krajcberg, através do pensamento de Vilém Flusser – sobre identidade brasileira e como o imigrante propaga seus valores históricos em outro ambiente. Krajcberg, com suas fotografias, esculturas e pinturas revela a tragédia da destruição da natureza e luta pela conscientização sobre as consequências futuras da agressão ao meio-ambiente.

Palavras chave: Frans Krajcberg, arte contemporânea, meio ambiente.

 

ABSTRACT:

This paper will address some issues – which are related to the construction of the art of Frans Krajcberg, through Vilém Flusser's thinking – about Brazilian identity and how the immigrant propagates its historical values in another environment. Krajcberg with his photographs, sculptures and paintings reveals the tragedy of the destruction of nature and fight for awareness of the future consequences of the aggression to the environment.

Keywords: Frans Krajcberg, contemporary art, environment.

 

Introdução

Planetário por natureza, Frans Krajcberg, apesar de nascido na Polônia, relata que foi no Brasil que nasceu pela segunda vez. Se no Brasil fala-se de falta de identidade, não podemos aplicar esta questão para este artista que insistentemente luta por nos revelar a pátria que escolheu para viver.

Este texto fará uma análise da trajetória do artista Frans Krajcberg, a partir do pensamento do filósofo Vilém Flusser, sobre questões que se referem à identidade brasileira e como o imigrante propaga seus valores históricos em outro ambiente.

Frans Krajcberg lutou no exército Russo durante a Segunda Guerra Mundial e se viu sozinho no mundo quando toda sua família pereceu no Holocausto. Este fato – o vivenciar os horrores da guerra e a violência do homem contra o homem – intensificou seu pensamento sobre uma reavaliação de quais valores são realmente relevantes para convivermos neste planeta. Como judeu, sentiu a discriminação à flor da pele. Para o artista a divisão por rótulos, que o próprio homem coloca como um fardo, uns sobre os outros, mostra que interesses capitalistas e gananciosos têm um caminho que sempre nos levará ao caos e à destruição. Este artista encontrou a verdade na natureza e sua obra tem como teor principal a denúncia da violência descabida do homem em sua relação com o meio ambiente.

1. O encontro consigo mesmo através do diálogo entre a arte e a natureza

Segundo Vilém Flusser, para o encontro consigo mesmo é necessário: "Retroceder, para podermos imaginar e depois compreender e, por fim, para agir decididamente" (Flusser, 1998: 32). Esta questão colocada pelo filósofo seguirá neste texto, a trajetória de Frans Krajcberg, um imigrante europeu que escolheu o Brasil para viver e que se considera muito mais brasileiro do que muitos brasileiros natos. O artista relata a importância do país para o seu trabalho e sua vida: "Aqui eu nasci pela segunda vez. [...] O Brasil é o país mais rico do mundo. A natureza brasileira é a mais forte, a mais vibrante, vale a pena dançar, gritar, chorar com ela" (Krajcberg, 1985: 03).

Para Krajcberg "a natureza humana é infinitamente mais pobre que a prodigiosa criatividade da natureza" (Krajcberg, 1985: 03). A liberdade proporcionada pelas florestas brasileiras, com sua variedade e movimento, intensificou a descoberta da natureza como fonte ilimitada de criação, motivo de dedicação de toda uma vida à arte e à luta ante ao descaso humano sobre a importância vital da preservação do meio ambiente. Ao preocupar-se com as intolerâncias, com os fanatismos dos nacionalismos e das religiões, o artista posiciona-se como um internacionalista, nesse sentido, a natureza o fez planetário.

Frans Krajcberg chega ao Brasil em 1948, no Rio de Janeiro, sem dinheiro e sem falar o português. Após alguns dias dormindo em bancos de praças, resolve ir para São Paulo, e assim o faz como passageiro clandestino no vagão de um trem. Através do contato com Francisco Matarazzo e com a ajuda de uma funcionária do Museu de Arte Moderna de São Paulo, que falava alemão, conseguiu empregar-se nesta instituição no setor de manutenção, o que lhe possibilitou o contato com diversos artistas.

Krajcberg começa a criar alguns desenhos e pinturas através dos quais sua história de vida parece refletir-se, percebida pela proeminente utilização dos tons de cinza. O artista Lasar Segall, em 1952, compra um desenho de Frans Krajcberg e sabendo que ele havia estudado engenharia, oferece-lhe a função de engenheiro desenhista na indústria de papel administrada pela família Klabin, no Paraná. Neste Estado, inicia uma relação mais intensa com a natureza brasileira. Em pouco tempo deixará o novo emprego para isolar-se na floresta, onde irá executar alguns trabalhos ligados à prática artesanal, à natureza morta e a alguns vegetais que, aos poucos vão ganhando novos coloridos. Krajcberg comenta que queria sempre isolar-se, não sentia mais vontade de viver em sociedade e que foi seu contato com a natureza, que lhe deu um novo sentido para vida.

...Mas isolado por que viver? A natureza soube me dar força e me deu o prazer de sentir, pensar e trabalhar. Sobreviver. Eu andava na floresta e descobria um mundo desconhecido. Descobria a vida. A vida pura. Ser, mudar, continuar, receber a luz, o calor, a umidade. A verdadeira vida: quando eu estou na natureza eu penso a verdade verdadeira, eu falo com verdade, me pergunto com verdade. Quando eu olho para ela eu sinto como tudo isso se movimenta; nasce, morre, a continuidade da vida (Krajcberg, 2008: 05).

No Estado do Paraná, em sua busca pela verdade, indignou-se com as queimadas constantes que sempre tingiam o céu de vermelho e procurou afastar-se desta situação. Krajcberg vai, então, para o Rio de Janeiro, quando irá partilhar o ateliê com o escultor Frans Weissmann. Recebe o prêmio de melhor pintor na IV Bienal de São Paulo, em 1957, e com a venda de alguns trabalhos resolve ir para Paris. Neste período, já intoxicado pela terebentina, decide parar de pintar por algum tempo, é quando vai para Ibiza, na Espanha – e pela primeira vez, sente a necessidade de experimentar a matéria, e não só a pintura. A partir daí começa a fazer gravuras com papel japonês, resgatando as formas da natureza que ficavam registradas sobre a areia, as pedras, recolhendo marcas que passaram a direcionar o processo de criação de suas obras.

Foi no ano de 1959 que o artista fez suas primeiras telas de terra e de pedras (Figura 1), de acordo com Pierre Restany, "a natureza passa a ser seu ateliê... seu estudo e seu médium". (Restany apud Vian-Mantovani; Lanore, 2005: 06).

 

 

Em 1960 trabalhou com Braque e os Novos Realistas, interessou-se pelas pesquisas da Op art e Arte cinética, conheceu bem esse grupo e compreendeu a necessidade própria do artista em expressar o que vivenciava. Estes artistas mostravam a natureza das cidades, porém Krajcberg, mesmo conhecendo e concordando com os questionamentos deste grupo, sentia que a natureza das cidades não era a dele. Ele necessitava da verdade e foi em meio à natureza que, para ele, a verdade passou a ser revelada. Entre idas e vindas para o Brasil, inicia suas viagens pela Amazônia, além de outras regiões brasileiras como Paraná, Mato Grosso, Nordeste e Minas Gerais. Assim começa a consolidar-se uma questão que passará a ser essencial em sua expressão artística: a importância da preservação da natureza para o futuro da humanidade.

Em 1964 recebe o prêmio na Bienal da cidade de Veneza com seus quadros de terras e pedras. De volta ao Brasil, em Minas Gerais, fica fascinado com as terras de Itabirito, puro pigmento para suas obras. A partir daí inicia suas esculturas com troncos de arvores e cipós (Figura 2), recolhidos dos restos das queimadas, assim como suas macrofotografias, onde passa a registrar o que não podia ser visível aos olhos. Em Nova Viçosa, no sul da Bahia, fascinado com o mangue e a Mata Atlântica, se estabelece definitivamente em um sítio localizado à beira-mar, o qual denominou de "Sítio Natura" (Figura 3 e Figura 4), onde permanece desde 1972 até hoje.

 

 

 

 

 

 

Com o olhar atento – em suas viagens por todas as regiões deste imenso Brasil – construiu um diálogo poético através das cinzas que restavam das florestas incendiadas. Propôs a busca da verdade como um apelo a ser traçado a partir da arte – com o intuito de que o homem se conscientize como parte e participante da natureza -, mostrando assim que não há como superar a natureza, pois existe um limite, que é nossa própria sobrevivência.

Krajcberg não se deixou limitar, buscou preservar sua identidade e seus valores a partir de um conhecimento mais profundo sobre si mesmo. Não reprimiu sua condição de polonês ou de judeu, de europeu ou de brasileiro, considerando-se, portanto, um internacionalista. A natureza tornar-se-á sua pátria, visto que foi no seu reencontro com ela que redescobriu sua sensibilidade, seu trabalho, o motivo para viver, onde pôde encontrar-se com a verdade. "Sou um homem inteiramente ligado à natureza. Meu ser, minha vida, minha cultura são a natureza. Dela dependem minha sobrevivência e minha criatividade" (Krajcberg apud Scovino, 2011: 19). O artista diz ter criado uma nova arte para o século XXI – a preocupação planetária -, que é expressa em suas esculturas e fotografias assim como em suas palavras:

Brevemente haverá apenas uma natureza vencida pelo homem, uma natureza destruída pelo homem, assassinada pelo homem. Estou convencido de que a humanidade pode criar um futuro próspero, justo e seguro, e garantindo sua própria sobrevivência. Para isso, precisamos reexaminar as grandes questões de meio ambiente e formular soluções realistas (Krajcberg apud Scovino, 2011: 10-14).

O artista, naturalizado brasileiro, defenderá questões próprias do Brasil por vivenciá-las intensamente. A degradação do meio ambiente, porém, não será tratada com especificidade a este país, mas abrangerá problemas globais, ao defender a preservação do planeta.

A heterogeneidade da massa urbana no Brasil, marcada pela grande diversidade de imigrantes que a formaram, difere-se entre as várias regiões brasileiras. Portanto, apesar de uma única língua – o português – não existe um modelo único que represente a cultura brasileira. Este fato, para o filósofo Vilém Flusser, propicia a possibilidade da formação de um "novo homem", isto é, há espaço para que o imigrante, mesmo em um novo ambiente, possa propagar seus valores históricos. Há um espaço para a liberdade que permanece, porque se distancia de uma história determinante e de ideologias que não permitem alterar caminhos já delimitados. Vilém Flusser pensa o Brasil dentro desta concepção, de um país não histórico e permitindo, portanto, a formação de um novo homem.

O "novo homem" seria aquele que, em um território que não é o dele, não se deixa massificar nem aderir à estrutura da máquina urbana imposta. Apesar da ruptura dos elos em relação à rigidez da sua sociedade original, tem a possibilidade de criar novas estruturas para adaptar-se ao novo ambiente. Desta forma, a ligação com sua origem é somente alterada e sua identidade é conservada, o que propicia o encontro consigo mesmo.

Flusser (1998) comenta que o imigrante, muitas vezes, acaba perdendo sua identidade própria e se diluindo entre as massas, por adaptar-se aos fios que passam a conduzi-lo neste outro ambiente. Este não é o caso de Frans Krajcberg, nada o impediu de traçar sua maneira de viver no ambiente em que melhor se adaptou, independente das convenções, livre de regras e condicionamentos. Tornou-se brasileiro, porém não deixou de ser polonês e judeu, não esqueceu sua história, mas transformou-a em outra, bem brasileira.

 

Conclusão

Foi no Brasil que o artista, após distanciar-se de sua história, de seu país de origem, pôde encontrar-se consigo mesmo. Ao estar perdido dentro de uma nova situação procurou orientar-se. Sua história não foi recusada, mas ao contrário foi colaboradora de um novo olhar para a natureza. Durante a Segunda Guerra Mundial, encarregado na construção de pontes, pôde vivenciar cenários catastróficos em que a natureza era transformada em cinzas e, os homens, com suas vidas interrompidas, eram reduzidos a lixo, em amontoados de corpos.

A arte de Frans Krajcberg torna-se denúncia ao vivenciar no Brasil (Figura 5) cenários semelhantes aos que vivenciou na Guerra.

 

 

Krajcberg é um dos poucos exemplos vivos de total entrega a valores hoje pouco respeitados. Com suas fotografias, esculturas e pinturas revela a tragédia que constitui a destruição da natureza. Recolhe, entre as cinzas das queimadas das florestas brasileiras, troncos calcinados que retornam à vida através da mão do artista (Figura 6). Porém, não é a beleza estética que importa, ao vermos suas esculturas escutamos o grito do artista, que luta pela conscientização sobre as consequências futuras da agressão ao meio ambiente. O artista diz ter nascido neste "mundo que se chama natureza" e que foi aqui no Brasil, que seu contato com ela, pôde restituir-lhe a sensibilidade, a consciência de ser homem e participar da vida, com seu trabalho e seu pensamento.

 

 

Referências

Fick, Hans (1993). Frans Krajcberg –. Textos: Paulo Herkenhoff, Pierre Restany e Marie-Odile Briot. Da Verlag Das Andere Gmbh, Nümberg.         [ Links ]

Flusser, Vilém (1998). Fenomenologia do brasileiro: em busca de um novo homem. Rio de Janeiro, RJ: Eduerj, 176 p. ISBN 9788585881580         [ Links ]

Krajcberg, Frans et al. (2008). Frans Krajcberg: Natura. Catálogo do Museu de Arte Moderna de São Paulo. São Paulo: MAM, 104p.:II.         [ Links ]

Krajcberg, Frans (1985) "Sempre fomos ligados à Natureza. Nós somos a Natureza". Jornal da Tarde. Depoimento. Entrevista concedida a João Meirelles Filho. [20 de julho de 1985]. São Paulo.         [ Links ]

Enku Grand Award Exhibition (2012) Catálogo da exposição, Japão.         [ Links ]

Scovino, Felipe (2011). Frans Krajcberg. São Paulo: Arauco Editora, 272p. ISBN 9788560983117         [ Links ]

Vian-Mantovani, Thérèse; Lanore, Alban (2005). "Dossiê Frans Krajcberg". Museu de Arte Moderna. Tradução Talia Mouracadé & Mimi Sananés.. In Krajcberg: um caso de amor com a natureza: textos compilados. Biblioteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo, p.37.         [ Links ]

 

Artigo completo recebido a 27 de agosto de 2015 e aprovado a 23 de setembro de 2015.

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: mgpiva@yahoo.com.br (Márcia Piva)

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