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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.7 no.13 Lisboa mar. 2016

 

ARTIGOS ORIGINAIS

ORIGINAL ARTICLES

A construção de uma cartografia poética de determinada produção de artistas visuais na Amazônia

Building a particular mapping of visual artists in the Amazon

 

Keyla Tikka Sobral*

*Brasil, artista visual. Bacharel em Comunicação Social; Mestre em Artes pela Universidade Federal do Pará.

AFILIAÇÃO: Universidade Federal do Pará, Instituto de Ciências da Arte, Programa de Pós-Graduação em Artes. Av. Magalhães Barata nº 611 BELÉM-PARÁ Cep: 66060281 Brasil.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO:

Este artigo reflete sobre uma cartografia poética de determinados artistas visuais que atuam ou são de origem da Amazônia Legal, a partir de viagens realizadas nesse território entre 2013 e 2014, observando de que maneira os artistas se articulam para realizar suas produções e o que eles pensam sobre uma região cheia de especificidades, diferenças e complexidade como é a Amazônia. Reflito ainda a poética dos Diários de Bordo, com a intenção de (re) descobrir a região através da escrita, compreendendo esta como parte do percurso de entendimento sobre a Amazônia.

Palavras-chave: Amazônia, Arte Contemporânea, Cartografia

 

ABSTRACT:

This article reflects on a poetic cartography of certain visual artists who work or originate in the Amazon, departing on some trips made in that territory between 2013 and 2014, noting how artists articulate themselves to develop their productions and what do they think about a region so full of peculiarities, differences and complexities as the Amazon. I present also the poetics of diaries, with the intention of (re) discovering the region through the writing, understanding this as a part of the path of understanding on Amazon.

Keywords: Amazon, Contemporary Art, Cartography

 

Introdução

O presente artigo vem falar sobre uma cartografia poética de artistas visuais que pensam e trabalham na Amazônia Legal, a partir de viagens realizadas por mim, enquanto artista-pesquisadora, nas seguintes cidades que compõe essa região: Porto Velho, Belém, Boa Vista, São Luis, Palmas, Cuiabá, Manaus, Macapá e Rio Branco, durante os anos de 2013 e 2014.

A maior parte destas viagens foram realizadas no território amazônico através do projeto Amazônia das Artes do Sesc-Pará, projeto que incentiva artistas a divulgarem seus trabalhos em diversas cidades desta região.

Foi uma oportunidade de conhecer mais de perto o Norte do Brasil, e, deparar-me com similitudes e diferenças, se sentindo por muitas vezes como uma espécie de estrangeiro dentro do seu prórpio território.

 

1. Diários de Bordo

Durante as viagens foram realizados diários de bordo que foram elementos das viagens e são elementos importantes de todo o processo, espaços estes reservados para a escrita sobre a região, aos desenhos realizados dentro dos aviões, e que reverberaram sobre as sensações imediatas; um diário de bordo com discurso factual e literário, espaço para uma prática poética sobre o viajar na região amazônica.

Aceitar participar do projeto era disparar essa vontade de "caixeiro-viajante", de exercitar uma certa flanerie, não nas cidades modernas europeias, mas nas cidades do modernismo e da pós-modernidade amazônida. Entendo a flanerrie a partir do que Baudelaire, ao se remeter ao fluxo de descobertas do sujeito na cidade moderna deambula pela cidade, no fluxo a descobrir a metrópole, o que mais adiante Walter Benjamin irá abordar com um mergulho filosófico profundo. Aqui, nossa flanerie é pós-moderna, em cidades que viveram certo fausto na Belle Époque, carregando, ainda seus signos de modernidade, mas que vivem imersas em contradições na contemporaneidade. Nossa flanerie é flanerie, pois buscamos os detalhes, as pequenas surpresas, os encontros que se processam no inesperado do acontecimento. O flâneur percebe a paisagem, como afirma Walter Benjamin "Paisagem – eis no que se transforma a cidade para o flâneur. Melhor ainda, para ele a cidade se cinde em seus pólos dialéticos. Abre-se para ele como paisagem e, como quarto, cinge-o".

A intenção com os diários de bordo foi realizar uma espécie de registro subjetivo das viagens, transformando também numa ação poética através da escrita e dos desenhos, construindo assim anotações diárias sobre um "re-descobrimento", o "re-conhecimento" da região Amazônica (afinal, era a primeira vez que estava conhecendo as outras cidades da mesma região).

A propósito, importante sublinhar que além dos navegadores, várias outras pessoas excursionaram pelas terras amazônicas, antes deles diversos povos cruzaram a região, disseminando sua cultura, deixando marcas, dispersando até mesmo sementes e colaborando na constituição da diversidade do bioma que compreende a Amazônia. Como por exemplo o escritor Mário de Andrade, que no livro Turista Aprendiz, também recorreu a um diário de bordo para expressar suas impressões do Norte e Nordeste do Brasil:

[...] A foz do Amazonas é uma dessas grandezas tão grandiosas que ultrapassam as percepções fisiológicas do homem. Nós só podemos monumentalizá-las na inteligência. O que a retina bota na consciência é apenas um mundo de águas sujas e um matinho sempre igual no longe mal percebido das ilhas. O Amazonas prova decisivamente que a monotonia é um dos elementos mais grandiosos do sublime. É incontestável que Dante e o Amazonas são igualmente monótonos. Pra gente gozar um bocado e perceber a variedade que tem nessas monotonias do sublime carece limitar em molduras mirins a sensação. Então acha uma lindeza os barcos veleiros coloridos e acha cotuba a morte dos pretendentes, se prende ao horizonte plantado de árvores que a refração apara do firme das ilhas e do livro de Jó. A foz do rio Amazonas é tão ingente que blefa a grandeza [...] (Andrade, 2002: 60)

O diário de Mário de Andrade estava cheio de anotações, pedaços de papel, desenhos, páginas datilografadas, outras à mão, notas avulsas, de forma que ficou rico em detalhes.

Escrever os diários era de alguma forma ser envolvida pelo fluxo dos rios e pelo fluxo das palavras, que me acompanhavam durante as viagens, durante todo o percurso. Estar em trânsito, sempre de passagem, e, sempre ser surpreendida pela palavra.

Propus a minha escrita para o registro das viagens, ser de maneira factual e poética, como assinala a pesquisadora Rosane Preciosa: "Escrevemos para dar visibilidade ao invisível, para responder ao chamamento das nossas marcas, que o corpo carrega consigo".

Blanchot assinala sobre diários de bordo:

O Diário representa a seqüência dos pontos de referência que um escritor estabelece e fixa para reconhecer-se, quando pressente a metamorfose perigosa a que está exposto. É um caminho ainda viável, uma espécie de caminho de ronda que ladeia, vigia e, por vezes, duplica o outro caminho, aquele onde errar é a tarefa sem fim (Blanchot, 1987: 19)

Anotar as expedições, o deslocamento do corpo pela Amazônia. É fazer ainda um espécie de auto-(re) conhecimento próprio, como sublinho dentro de minhas anotações: "Conhecer a si mesmo é atravessar a ponte."

 

2. Construção de uma cartografia

Minha pretensão nessas viagens foi principalmente a de conhecer alguns artistas que atuam e pensam a região, tendo como um dos objetivos a realização de uma cartografia de encontros a partir de um território tão complexo como a Amazônia. Coloquei como estratégia para construção desse mapa, o ritual do encontro e da interação, fossem esses pessoais ou virtuais, já que corria o risco de encontrar os artistas no momento em que estava lá ou não.

Comecei a anotar sobre as pessoas que nas viagens eu tive contato, que fizeram parte da minha vivência, e, que eram artistas ou produtores culturais que indicavam nomes de outros artistas.

Fiz um recorte particular baseado nos encontros sem intenção curatorial ou de afirmação de "mapa definitivo" sobre as artes visuais na região norte. Importante relatar que como sujeito participe, pois também atuo como artista visual, estava ali para tentar compreender de que maneira atuamos e nos articulamos.

Foram sendo desenhados em minha cartografia os nomes dos seguintes artistas: Danielle Fonseca (Pará), Orlando Maneschy (Pará), Paulo Trindade (Amazonas), Sávio Stoco (Amazonas), JJ Nunes (Amapá), Ueliton Santana (Acre), Joeser Alvarez (Rondónia), Isaias Miliano (Roraima), Marina Boaventura (Tocantins), Marcos Dutra (Tocantins), Thiago Martins de Melo (Maranhão) e Clóvis Irigaray (Mato Grosso). Um grupo de artistas misturado entre jovens e experientes artistas, com carreiras consolidadas e outras em ascensão.

Um dos pontos a esclarecer foi de que maneira fiz esse agrupamento de pessoas? Durante as viagens pela Amazônia consegui conversar com muita gente, na sua maioria estudantes de universidades, produtores culturais e artistas. A cada viagem fui elencando nomes, de acordo com os encontros que se davam e as trocas que aconteciam. Tive oportunidade de trocas e compartilhamentos com a maioria deles, quer seja durante a viagem, ou depois dela. Conheci os artistas Marina Boaventura (Tocantins), Marcos Dutra (Tocantins) e Isaias Miliano (Roraima), nas próprias localidades, que são artistas atuantes em seus estados, e travamos muitos diálogos a partir de então.

Os artistas Danielle Fonseca (Pará), Orlando Maneschy (Pará), já faziam parte das minhas anotações desde o começo da viagem e acompanharam todo o processo dessa pesquisa.

Os artistas Sávio Stoco (Amazonas), Paulo Trindade (Amazonas) e Joeser Alvarez (Rondónia) não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente durante as viagens, mas consegui conhece-los depois, já em Belém, e, os coloquei na minha cartografia (Figura 1).

 

 

Os outros nomes foram sendo anotados a partir de indicações locais como os nomes dos artistas visuais Thiago Martins de Melo e Clóvis Irigaray, que foram mencionados por produtores culturais do Maranhão e Mato Grosso.

E por último, mesmo não conseguindo viajar para o Acre e Macapá, devido a falta de verbas, e ciente que o projeto só se concluiria ao completar o meu mapa, que era incluir alguns nomes de produtores de artes visuais atuantes nestas localidades da Amazônia Legal. Recorri então a internet para realizar essa viagem imaginária, pesquisei na internet e livros o nome de alguns artistas do Acre e Macapá, e, cheguei aos nomes de Ueliton Santana e JJ Nunes.

Dando prosseguimento a construção do percurso, dediquei-me a leituras sobre a região, e a pesquisa sobre as produções dos nomes dos artistas anotados; continuei conversando com a maioria deles através de e-mails e redes sociais, e com alguns, tive oportunidade de rever pessoalmente, e com isso prolongar nossa discussão sobre nossas fronteiras, nossos territórios, similitudes e particularidades.

 

Conclusão

De que maneira estar num local tão peculiar afeta sua produção artística? Percebo o trabalho de Clóvis Irigaray (Mato Grosso) em consonância com o de Isaias Miliano (Roraima), onde percebem a natureza ao redor com grande relevância, e apresentam em pinturas e esculturas seu olhar atento para a região como fortalecimento da própria cultura.

Danielle Fonseca (Pará) (Figura 4) com suas instalações, pinturas e esculturas vem apresentando a região através das águas, onde o rio e a filosofia atravessam juntos; Orlando Maneschy (Pará) (Figura 5) apresenta em seus vídeos sua experiência de um devir-natureza; Sávio Stoco (Amazonas) e Marcos Dutra (Tocantins) pensam a paisagem amazônica a partir da manipulação de diferentes técnicas e suportes; Marina Boaventura (Tocantins) (Figura 3) parte do corpo trazendo em suas performances reflexões sobre um território intímo e afetivo.

 

 

 

 

 

 

 

Paulo Trindade (Amazonas) imprime em suas instalações e vídeos um tom político com sua subjetividade de resistência, bem como, encontramos o Thiago Martins de Melo (Maranhão) (Figura 7) que não reside mais na região, mas seu trabalho está impregnado de questões políticas ligadas ao norte do país.

 

 

 

E JJ Nunes (Amazonas) (Figura 6) e Joeser Alvarez (Rondónia) (Figura 2) pensam seus trabalhos diretamente ligados a sociedade urbana, se apropriando da cidade transformando-a em palco para suas ações artísticas.

Percebo os processos em fluxo contínuo, um fluxo norte, uma Amazônia que os atravessa, que carregam em si e que reverberam através de processos artísticos elaborados num espaço social complexo. Uma Amazônia híbrida, misturada, plural.

São diálogos vistos ali entre arte e vida. A vivência incorporada a prática artística, fruto de suas inquietações. E que constituem um circuito paralelo, um circuito transversal comparado aos grandes centros.

São visões de um imaginário que os arrebata, que os fazem experimentar poéticas, cada um com suas diferenças e que os unem pelas fronteiras dessa grande imensidão verde.

O ritmo da Amazônia é mais compassado, como o ritmo do rio Madeira, denso e delicado, numa tarde dourada qualquer. E compassadamente se dão os processos, as descobertas e redescobertas de uma região tão imensa, misteriosa e enigmática.

 

Referências

Andrade, Mário de (2002) O turista aprendiz. Belo Horizonte: Itatiaia.         [ Links ]

Benjamin, Walter (2000) "Paris do Segundo Império". In: Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Obras escolhidas III. São Paulo: Brasiliense.         [ Links ]

Blanchot, Maurice(2013). O livro por vir. São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

Preciosa, Rosane. (2012) "Errância, contaminações, fluxos esquizos." Revista Visualidades, Goiânia, v 10, N. 2, julho-dez.         [ Links ]

 

Artigo completo recebido a 07 de setembro de 2015 e aprovado a 23 de setembro de 2015.

 

Endereço para correspondência

 

Correio eletrónico: keylasobral@msn.com (Keyla Tikka Sobral)

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