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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.3 no.5 Lisboa jun. 2012

 

AMBIVALÊNCIAS

As narrativas verbivisuais de Valêncio Xavier

TheValêncio Xavier's verb-visual narratives

 

Paulo César Ribeiro Gomes*

*Brasil, artista visual, curador independente e professor universitário.Doutor em Artes Visuais – Poéticas Visuais (UFRGS) com estágio na EcoledesHautesEtudesenSciencesSociales (2002). Mestre em Artes Visuais – Poéticas Visuais (UFRGS). Graduação: Bacharelado em Artes Plásticas Habilitação Desenho pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Endereço para correspondência

 

 

RESUMO
Este artigo apresenta o artista brasileiro Valêncio Xavier Niculitcheff (SãoPaulo,1933), destacando sua excelência conceitual, a habilidade construtiva e a capacidade de aliciamento de sua obra híbrida,que articula, com maestria e habilidade, características como a narrabilidade, a ficcionalização e o documental, inserindo-o na tradição de artistas/autores que articulam literatura e artes visuais em narrativas que podemos classificar como verbivisuais.

Palavras-chave: Valêncio Xavier, narrativa visual, arte contemporânea

 

 

ABSTRACT
This paper presents the Brazilian writer Xavier ValêncioNiculitcheff (São Paulo, 1933), highlighting his conceptual excellence, constructive ability and grooming capacity of his work, with hybrid features, which articulates wonderfully characteristics such as narrative, fictionalization and documentary aspect, including him in the tradition of artists/authors that articulate literature and visual arts into narratives that we can classify as verb-visual.

Keywords: Valêncio Xavier, visual narratives, contemporary art

 

 

"Valêncio Xavier não tem três metros de altura, pinos saltando das têmporas nem a pele esverdeada. Mas entre os apelidos que já recebeu em 65 anos de vida, um de seus favoritos é 'Frankenstein de Curitiba.'"(Machado, 1999:1)A inusitada apresentação de Cassiano Machadochama a atenção do leitor para as características atribuídas a Xavier, mais especificamente a sua obra, que foge as classificações tradicionais, não se enquadrando em qualquer dos gêneros canônicos, seja na literatura, seja nas artes visuais. É precisamente essa característica de hibridismo que nos atrai na obra do artista, e sobre a qual nos deteremos.

Cassiano Machado escreveuque "o autor apresenta uma espécie bem-acabada do gênero narrativa visual". Décio Pignatari, na mesma matéria, propõe que por narrativa visual devemos entender "a arte de contar uma história promovendo a interação constante de ilustrações e texto" e ainda que a "narrativa visual é muito nova no mundo; Valêncio é o pioneiro no mundo todo". Se isso não define o gênero tem ao menos o mérito de registrar o nome da coisa – narrativa visual.Se esta tentativa de definição pode ser aplicadaàs histórias em quadrinhos e a outros experimentos de narração seqüencial, ela cabe melhor a uma obra que tem por características um acentuado caráter plástico, a par de uma eficiente narrativa.

Em O Mez da Grippe (Figura 1), obra que Valêncio Xavier classifica como novella, são articuladas imagens de origens diversas com textos apropriados e outros do próprio artista. Esta complexa narrativa tem vários níveisou várias estórias nas quais são narradas, ao mesmo tempo, a aparição e a evolução da Gripe Espanholana cidade de Curitiba, nos meses de outubro a dezembro de 1918; os relatórios oficiais públicos e secretos; as notas da imprensa (e todo o processo de ocultamento do problema pelas autoridades sanitárias); o final da Primeira Grande Guerra e sua repercussão internacional e local; um movimento pró-alemão, promovido por descendentes de origem germânica na cidade de Curitiba e a conseqüente repressão pelas autoridades; a evolução dos dramas locais através das notas fúnebres; a vida cotidiana da cidade através de suas notas policiais e acontecimentos mundanos; um homem que se aproveita de sua condição de médico para seduzir e possuir diversas mulheres; o depoimento de uma sobrevivente da peste em 1976; reclames etc.

 

 

Uma narrativa de uma amplitude quase imensurável, em suas reduzidas 73 páginas, da vida da provinciana Curitiba, tornadapossível graças à utilização de recortes de jornais, ilustrações efotografias antigas, interpoladas com textos do próprio autor.

A questão da narrativa pictórica, que ocupou artistas e estudiosos por tanto tempo, aparentemente foi equacionada com o declínio da pintura histórica no século XIX e sua substituição por outras modalidades narrativas, como o cinema e a fotografia. A evolução da questão das narrativas nas artes plásticas, segundo Marc Jimenez, encontrou seu prolongamentojá no século XX, na "idéia de certos partidários do modernismo artístico" (Jimenez, 1999:101) como Clement Greenberg. Sem nos determos na evolução posterior da questão, enfatizamos aqui o aspecto mais notável desse processo, ou seja, a idéia da convergência das artes como a característica fundamental da arte do período. As aproximações e os intercâmbios entre as práticas artísticas, além de abolir as fronteiras, abandona a necessidade de classificar, de ordenar, de "administrar o domínio do imaginário e do sensível". Interroga-nos o mesmo autor se não se estaria sonhando com uma "polissensorialidade" que reatasse, de forma nostálgica, com "a obra de arte total" e se esforçasse por unificar a esfera estética?" (Jimenez, 1999: 103). Também tratando da questão da condição pós-moderna das artes, o crítico Adriano Pedrosa afirma que "uma das contribuições mais notáveis do pensamento e da prática pós-modernos foi a de subverter e colapsar as modernas categorias que segmentavam as linguagens estéticas – pintura e escultura, nas artes visuais; documentário e ficção, no cinema; crítica e ficção, na literatura" (Pedrosa, 1996: 20-21).

Outro aspecto a ser considerado, na análise da obra de Xavier, é a importância dos documentos na sua constituição. Se documento é, conforme o dicionário, algo que serve de prova, para a historiografia contemporânea, documento éa "expressão de toda e qualquer manifestação humana, comopor exemplo, objetos, paisagens, signos etc., além de documentos escritos" (Vieira, 2000: 74). A ênfase que é dada à questão da prova é marca do caráter de realidade que o documento deve ter. Numa artistacomo Sophie Calle (Paris, 1953), por exemplo, o que observamos é que seus documentos são, a princípio, verdadeiros. Só a princípio, pois quando sabemos como eles foram feitos, temos a real dimensão de sua veracidade. No caso de Valêncio Xavier,ao invés de fabricação temos documentos originais, que mantêm sua verdade e valor informativos, recontextualizados para o discurso artístico, o que nos leva a considerá-los inválidos enquanto documentos, pois não correspondem estritamente à verdade que (teoricamente) ele atestam. No caso de Valêncio Xavier, observamos que ele parte do princípio de dar destaque a veracidade das informações documentais utilizadas.

Tratando da questão das narrativas pictóricas no Nouveau Réalisme, Jean-Luc Chalumeau informa que estes artistas utilizaram-se de meios e recursos oriundos da história em quadrinhos, da fotonovela, de imagens publicitárias etc., todas com características narrativas bastante acentuadas. Mas a narração pictórica praticada por eles tornou-se fragmentária e de leitura árdua, pois "os pintores não se dedicaram senão raramente à missão de contar diretamente uma história [e] trata-se sobretudo de um 'tecido narrativo' mais do que de um desenvolvimento preciso." (Chalumeau, 1981: 157). Como contribuição mais importante da arte do período, Chalumeau destaca aintrodução da dimensão temporal. Se essa característica esteve presente nas artes plásticas em outros períodos, conforme podemos constatar nas análises efetivadas por Nelson Goodman (em Of Mind and Other Matters, 1984), ela abandonou o palco no século XIX e, a produção moderna vai enfatizar o aspecto espacial em detrimento do temporal.

Jacques Aumontafirmou que a questão da narrativa está ligada à questão da imagem e de como esta imagem pode conter uma narrativa, implicando, obrigatoriamente, na reflexão sobre a questão do tempo, pois "se a narrativa é um ato temporal, como pode inscrever-se na imagem se ela não é temporalizada? E, se ela o for, qual é a relação entre o tempo da narração e o tempo da imagem?" (Aumont, 1993: 244) A relação entre o dizer (verbal) com o mostrar (mimético), encaminha nossa reflexão para a ação de mostrar ou narrabilidade, ou seja, a possibilidade de narrar por "mostração", que é, em última instância, a retomada de uma forma de expressão plástica histórica do universo erudito, conforme Goodman, unida a formas que hoje fazem parte do universo das culturas midiáticas.

A obra de Valêncio Xavier pode ser colocada no universo híbrido dos escritores e poetas que, em meados do século XX, promoveram a interação entre literatura e artes visuais. Dentre estes podemos enumerar o Un Coup de Dés, poema fundador de uma nova estética litero-visual, de Stephané Mallarmé; Bruges, La Morte, romance com imagens, de Georges Rodenbach; os Calligrammes, de Guillaume Appolinaire e, a Nadja, narrativa com imagens, de André Breton. São obras nas quais seus autores/artistas, ao articularem imagens e textos, promoveram a integração entre literatura e artes visuais, equação impossível de ser pensada anteriormente, pois eram áreas separadas em dois universos distintos: literatura e ilustração.

Valêncio Xavier produznarrativasverbivisuais, gênero híbrido de visualidade e narração, que transitamconfortavelmente no estreito limite entre documentário e ficção. Uma obra palpitante, resultado da insuperável capacidade de seu autor de transmutar um material que, nas mãos de outro, teriam o efeito sonífero de um relatório. Esta capacidade de injetar emoção, ou melhor, de fazer pulsar a emoção contida nos documentos, é um dos dados que diferencia as construções verbivisuais de Valêncio Xavier da simples reedição de documentos ou da simples ilustração.

A semelhança dos procedimentos criativos com outros artistas visuais, a abolição das divisórias de gêneros e áreas, a associação de materiais heterogêneos e, finalmente, a capacidade"de ordenar, de administrar o domínio do imaginário e do sensível" (Jimenez, 1999: 103), nos possibilita inserir a obra de Valêncio Xavier no universo expandido das artes visuais contemporâneas. Uma obra que, pelo seu resultado híbrido, alcança aquela polissensorialidade pretendida por Jimenez, que consegue unificar a esfera estética.

 

Referências

Aumont, Jacques(1993) A Imagem. SP: Papirus,         [ Links ].

Chalumeau, Jean-Luc(1981) Lectures de l'art. Paris: Chêne/Hachette. Consultado na tradução francesa L' Art en Théorie et en Action. Paris: Éditions de L'Éclat, 1996 (edição que apresenta a tradução dos dois primeiros capítulos do livro citado).         [ Links ]

Gomes, Paulo César Ribeiro (2003) Comentários: alterações e derivas da narrativa em artes visuais (Tesede doutoramento em Artes Visuais, ênfase em Poéticas Visuais). PortoAlegre: Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais/Universidade Federal do Rio Grande do Sul.         [ Links ]

Goodman, Nelson(1984) Of Mind and Other Matters. Cambridge. Mass.: Harvard Univ. Press.         [ Links ]

Jimenez, Marc (1999) O que é a estética? São Leopoldo, RS: Editora Unisinos.         [ Links ]

Machado, Cassiano Elek(1999) Frankenstein de Curitiba mostra nova cria literária. Folha de São Paulo Folha Ilustrada, 4º caderno, página 1, São Paulo, sábado, 20 de março.         [ Links ]

Pedrosa, Adriano (1996) O lugar da arte brasileira contemporânea em tempos de multicuturalismo. São Paulo: Eventual 2, Outubro. p.20-21.         [ Links ]

Vieira, Maria do Pilar de Araújo et alii (2000) A Pesquisa em História. SP: Editora Ática,         [ Links ].

Xavier, Valêncio (1998) O Mez da Grippee outros livros. SP: Companhia das Letras.         [ Links ]

 

 

Artigo completo submetido em 20 de janeiro e aprovado em 8 de fevereiro de 2012.

 

Endereço para correspondência

Correio eletrónico: oluapgomes@ibest.com.br (Paulo Gomes).

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