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Revista :Estúdio

versão impressa ISSN 1647-6158

Estúdio vol.3 no.5 Lisboa jun. 2012

 

INTENTO

Pela fresta (1998): o papel do espaço eda memóriano processo de criação da obra de Shirley Paes Leme a partir de seus cadernos de anotações

PelaFresta (1998): space and memory from Shirley Paes Leme's creative process

 

Aparecido José Cirilo*

*Brasil, artista visual e professor na Universidade Federal do Espírito Santo.Doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduação em Artes pela Universidade Federal de Uberlândia. É editor da Revista Farol (issn 1517-7858).

Endereço para correspondência

 

 

RESUMO
Objetiva analisar o processo de criação da obra Pela Fresta, de Shirley Paes Leme (1998). Centra-se no tempo da feitura da obra, buscando marcas do processo percorrido pela mente criadora da artista desde a percepção da imagem geradora até a sua efetivação no espaço expositivo. A análise dos documentos desvela como se constrói a tensão da memória da artista em interação coma do espaço e a da matéria da obra.

Palavras chave: Arte Contemporanea, Shirley Paes Leme, Processo de criação

 

 

ABSTRACT
This text aims to analyze Shirley Paes Leme's creative process of a site-specific installation Pela Fresta (1998). It targets the time of the creative acts looking for marks of the relationship between the artist's living experiences and the memories of gallery space to show how this artist interacts with that site specific.

Keywords: Creative process, site-specific,Brazilian art

 

 

Introdução

O texto apresenta uma análise de aspectos do processo criativo da artista Shirley Paes Leme. Busca-se compreender procedimentos de aproximação da memória e do espaço como matérias no projeto poético da artista. Shirley nasceu em 1955, em Cachoeira Dourada, GO. Vive e trabalha em São Paulo. É graduada em Belas Artes/UFMG; tem doutorado em Fine Arts (1986) nos Estados Unidos.

A análise dos documentos de criação de Paes Leme revela uma tendência do seu processo de criação: a memória, sua, dos materiais e do público, é fio condutor que age e direciona a gênese das suas obras, mediação entre lembrança; matéria edificante do seu percurso.

Desse modo, este texto, trata de aspectosda relação com a materialidade do espaço e a tendência para a construção de um discurso memorialista que determina uma produção e reflexão centradas na mediação de sua memória com a memória do espaço. Para tanto, busca-se a verificação e análise de ações e procedimentos que envolveram aspectos da instalação Pela Fresta, de 1998.

 

1. Do tempo, do espaço e da forma

Uma porta se abre para o interior da galeria. Impedido o corpo de entrar caminhando sobre seus pés. Outros sentidos são chamados pela percepção. Entra-se pelos olhos. O olhar percorre a imensidão. Sensação. Calma mansidão de madeira jazente. Perene. Tranqüila em seu sono. Como magma quente que desliza sobre a montanha, esconde toda a rapidez da transformação que se processa. Perigo. O tempo age. No vaguear dos sentidos, outros corpos se fazem presentes ao longo do percurso. Um ponto luminoso no meio desse mar (Figura 1).

 

 

Uma pequena luz ascendente. Verticalidade luminosa que descansa quase imóvel. Por entre o lenho, parece o foco de um grande incêndio que não se realiza por um pacto entre os corpos que lhe rodeiam. Perigo em potência. Mais ao fundo, outro elemento de tensão. Levitante mesa, parece voar sobre a matéria que a forma (Figura 2 e Figura 3). Ao lenho que a compõe, agora sobrevoa. Congelada; queda em suspensão. Segredo que se deita em sua gaveta parece cair nesse mar de matéria.

 

 

 

2. Um olhar para a gênese da obra

O tempo da obra segue seu percurso aos sentidos do público. Porém, a análise do processo de criação se preocupa com o período que antecede a instalação, no tempo da feitura, busca marcas do processo percorrido pela mente criadora. Nesse tempo da gênese, experimentações se dão de modo simultâneo – sem hierarquia – e quase sempre registradas pela artista. São analisados documentos que envolveram a gênese de Pela Fresta (1998).Por se tratar de um sitespecific, optou-se demarcar a análise pelas relações espaciais e formais que a envolvem.

Assim configurado, o espaço da galeria é matéria deste trabalho de Paes Leme. Para tal, é preciso entender a arquitetura como limitação e como desafio. A artista é limitada por regras: elementos arquitetônicos (portas, colunas e janelas) que se interpõem entre ela e o espaço como obra. O desafio passa a ser o diálogo com os elementos constituintes do espaço em busca da mediação entre o seu imaginário poético e o proposto pelo espaço da galeria.

A questão inicial: o uso das colunas do prédio como suporte ou como elemento gerador? O primeiro movimento decorre de uma aproximação com a estrutura arquitetônica: um esboço trás a planta baixa do espaço e demarca cada coluna, sua relação no espaço. Elas se configuram no e como espaço de ação sobre o qual se deverá agir: suporte ou forma? Assim, a particularidade arquitetônica torna-se um desafio e incorpora-se como matéria no procedimento de experimentação espacial da instalação (Figura 2 e Figura 3).

As anotações são índices da experimentação espacial, formal e material nos primeiros estudos de ocupação da galeria. Sua análise permite perceber como a artista reflete sobrepresença e ausência; oposições semânticas; Paes Leme procura entender a pulsação desse corpo. Ela busca incorporá-la ao seu projeto. Sem simulacros no espaço.

A artista parece ver na oposição a própria semiose que define o projeto: "cheio/vazio; janela/coluna; oposição". A contraposição parece ser a imagem geradora para essa reflexão sobre a instalação em curso. Nos dois desenhos, percebe-se o movimento criador que agrega forma e memória arquitetônicas do espaço à forma do objeto. Somente em outro desenho (Figura 4), é que se pode afirmar que há uma decisão em direção ao que a artista define como mar de gravetos. Paes Leme é enfática: faz uso indicativo-descritivo do texto "planta/mar de gravetos". Define outro elemento formal-espacial da obra: o piso. O proposto é reforçado pelo texto; restringe-se a subjetividade interpretativa.

 

 

Outra anotação de seu caderno revela a intenção mínima intervenção em nivel físico na estrutura do espeço: as paredes (serão brancas); é tomada a decisão da cor: ficarão (Figura 5); decisão fundamental para o efeito de luminosidade da obra.

 

 

À idéia da alvura das paredes brancas, Paes Leme anexa o marron-dourado dos galhos de eucalipto, matéria predominante em sua produção, desde 1986. Um grande mar sobre o qual se deitam elementos que dele emergiram: a mesa, a fibra do algodão, as lembranças da artista, rodeada de matéria natural com a qual dialoga em seu processo de criação. Em um esboço no pé de uma página do caderno de anotações da artista, no qual a maioria dos desenhos está situada entre 1985 e 1986, a imagem preliminar da instalação é esboçada, aparentemente uma idéia fugaz não desenvolvida naquela época, mas registrada em sua forma embrionária. Em nenhum dos projetos localizados, há qualquer referência visual à presença física da chama na obra. Parece que essa decisão se deu num campo da memória de Paes Leme que não foi registrado em seus cadernos de anotações.

Outro aspecto pouco relacionado nas suas anotações é a sua forma final. Em vários esboços a artista pensa sobre como ocupar a galeria, mas não há um estudo final com o projeto executado. Há apenas um esboço, no pé de uma página, no qual a maioria dos desenhos está situada entre 1985 e 1986 (Figura 6). A imagem é um detalhe, uma idéia registrada em sua forma embrionária. Provavelmente essa imagem foi retomada, ou por acesso ao caderno ou por lembrança, mas do mar de gravetos presente em vários esboços Paes Leme decido pela efetivação deste croqui da década de 1980, sem referencias de transição entre as idéias anteriores e ele.

 

 

2.1 A escolha do título

O procedimento de escolha do título, uma das possíveis portas de entrada do percebedor para o trabalho, é fundamental para a relação de sentido que irá ser estabelecida pelo trabalho como um todo. Em suas anotações (Figura 7), Paes Leme expõe esse raciocínio gerador.

 

 

Esse documento reflexivo sobre o título é formado por um conjunto de palavras, em sua maioria enfileiradas em duas colunas na vertical. Parece que a artista escreve possibilidades: lenta, respiração, sonho interior, são, sombras do passado … uma a uma, palavras-nomes se sucedem; carregam em si conceitos que ela busca interagir com a obra. O uso de grafismos como setas e circunscrições parece fazer um recorte no mar de possibilidades que se lhe colocam os vocábulos. Indica caminhos, escolhas, limites. Os procedimentos da mente criadora parecem estar sendo desvelados, descortinados diante dos olhos da própria artista.

Primeiramente, faz ligações por meio de setas; algumas parecem indicar atenção e possível desdobramento; outras convergem para similares semânticos: como fresta (Figura 7) (à esquerda) e entre fresta (à direita), uma possível ligação entre os dois conceitos. Estas últimas converge para cima; indicam um percurso em direção ao topo da página: a síntese. No centro superior da página, a decisão, o título final. Demarcado; indicado: ESTES. Mais uma vez a artista faz uso da função indicativa do texto verbal; não restam mais dúvidas do título da instalação: PELA FRESTA.

 

Conclusão

Pela Fresta traz, em silêncio, segredos da memória, derramados como matéria que ocupa a sala; uma sombra do passado, que, como fronteiras, revela, entre fresta, o sonho interior. Geografias íntimas demarcadas pela imagem da chama. Numa lenta respiração, a chama retoma outros momentos, quando sonhos e fantasias se configuram. Fronteira entre o ser e o artista existentes em Paes Leme.No diálogo de Paes Leme com a matéria, estabeleceu-se o pacto entre os elementos. Efetiva-se a relação dialógica que caracteriza o trabalho dessa artista. A tensão gera angústia; a pulsão, para superá-la, gera o movimento que se prolonga para além da fresta.

A análise desses documentos não se coloca como uma possibilidade de minimizar a angústia que se instaura no público em contato com a obra que não se dá por inteira, apenas pela abertura da porta de acesso à galeria. Este estudo apenas desvela partes de como ela se constrói ao longo do seu processo de gestação. Compartilha-se, com o leitor, a angústia de Paes Leme, que se lança nessa quixotesca aventura para desvelar os segredos de sua memória. E isso a coloca em um novo percurso em direção à criação e às incompletudes e às incertezas que envolvem o processo de criação.

 

 

Artigo completo submetido em 20 de janeiro e aprovado em 8 de fevereiro de 2012.

 

Endereço para correspondência

Correio eletrónico: josecirillo@pq.cnpq.br (José Cirilo).

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