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 número27Recensão: DOMÍNGUEZ SÁNCHEZ, Santiago (ed.) - Documentos pontificios medievales del monasterio de Santa María de Poblet (1132-1499). León: Universidad de León, Área de Publicaciones, 2017 (600 pp.)Costas com Dom: Família e Arquivo (Séculos XV-XVII): Tese de Doutoramento em História/Arquivística Histórica, apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Outubro de 2018. Orientação dos Professores Doutores Maria de Lurdes Rosa e João Paulo Oliveira e Costa índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
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Medievalista

versão On-line ISSN 1646-740X

Med_on  no.27 Lisboa jun. 2020

 

RECENSÃO

Recensão: Custódio, Delmira Espada − As Perfeitíssimas Horas da rainha D. Leonor. Madrid/Andorra: Taberna Libraria / A4 Ediciones, 2018 (202 pp.)

Francisco Pato de Macedo1
https://orcid.org/0000-0002-7307-3062

1Centro de Estudos de Arqueologia, Artes e Ciências do Património, Universidade de Coimbra, 3000-395 Coimbra, Portugal, fracedo@gmail.com


 

O Livro de Horas quatrocentista pertencente à rainha D. Leonor de Lencastre e que integrou a livraria do Convento da Madre de Deus de Lisboa constitui uma preciosidade bibliográfica do acervo da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP, Il 165). Em finais de 2018, foi dada à estampa, em hora feliz, uma requintada edição fac-similada deste códice, com encadernação em pele e uma tiragem de 500 exemplares autenticada por notário, com a chancela da Taberna Libraria de Madrid e da A4 Ediciones de Andorra. Faz parte integrante desta cuidada edição, um volume de estudos da autoria de Delmira Espada Custódio, investigadora do Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova de Lisboa. Esta obra em formato fólio, impressa em papel linho e encadernação em seda, reproduz no essencial a dissertação de mestrado que a citada autora apresentou a esta Universidade. Contudo, este volume reúne também um contributo de Eduardo Lourenço sobre a personagem ambivalente da rainha D. Leonor, um Prólogo da autoria de Maria Adelaide Miranda do Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova de Lisboa, bem como uma oportuna Introdução da autoria de Elisa Ruiz Garcia da Universidade Complutense de Madrid, sobre o papel dos Livros de Horas na vida religiosa, social e cultural dos leigos no ocaso da Idade Média e no limiar da Modernidade.

Delmira Custódio deu à sua dissertação de mestrado, apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova em 2010, o seguinte título: A luz da Grisalha. Arte, liturgia e história no Livro de Horas dito de D. Leonor (BNP, Il 165). No entanto, no volume agora publicado preteriu a designação Livro de Horas dito de D. Leonor em favor da denominação mais expressiva: As Perfeitíssimas Horas da rainha D. Leonor, que dá título ao livro. Esta alteração irá, com toda a probabilidade, sugerir a designação pela qual futuramente passará a ser conhecido este códice, em pergaminho e velino, com iluminura de Willem Vrelant, iluminador flamengo, oriundo de Utreque e ativo em Bruges entre 1454 e 1482, que nele utiliza a técnica da grisalha. Este processo pictórico, através do recurso a um tom sobre tom na escala de cinzas, confere à iluminura uma especial beleza, que é complementada com iniciais ornadas com fundo a ouro, cercaduras ornamentadas com diversos motivos e ouro destramente aplicado em formas vegetais e em figuras, o que contribui para conceder ao códice um caracter sumptuoso.

Na mudança de designação para Perfeitíssimas Horas, a remeter claramente para o valor do códice, não deixou de pesar a surpresa e o fascínio que este terá exercido sobre Delmira Custódio no contacto direto, diário e repetido, que com ele estabeleceu a partir do momento em que foi possível fazer a sua digitalização, e que a levou a escrever na página 187: “A luz que os seus fólios libertam, a delicadeza e regularidade com que foram concebidos, fazem deste códice uma obra maior da iluminura flamenga quatrocentista”. O conhecimento demonstrado pela autora dos detalhes deste códice, mas também dos de muitos outros manuscritos iluminados, não apenas flamengos, mas igualmente com outras proveniências, que utiliza em análises formais comparativas, permite considerar o seu juízo imparcial.

De facto, o Il 165 BPN é um códice de qualidade excecional, que se encontrava inacessível nos cofres da Biblioteca Nacional de Portugal e era apenas do conhecimento de um número muito reduzido de especialistas e que agora, depois de condignamente dado a conhecer através do referido projeto editorial, encontra no livro de Delmira Espada Custódio uma resposta inequívoca sobre a sua especial importância.

As Perfeitíssimas Horas, que se incorporaram na livraria da que foi designada de “A Mais Perfeita Rainha”, prosseguem envoltas em grande mistério, adensado pela ausência de documentação comprovativa da sua encomenda à oficina de Willem Vrelant e ao modo como chegaram à posse desta rainha, subsistindo a dúvida de lhe terem ou não sido destinadas.

Para quem terá então sido realizado este Livro de Horas flamengo? A resposta a esta pergunta constituiu o leitmotiv da investigação de Delmira Custódio, tal como se comprova logo no primeiro capítulo do livro intitulado: “Leonor de Lencastre Rainha Perfeitíssima. As horas iluminadas da sua livraria”, em que a autora aborda a biografia da rainha não tanto com o propósito de criar uma biografia original, como afirma, mas para atentar nas suas ações e realizações, tendo em vista refazer os possíveis percursos do manuscrito, de modo a entender por que vias é que o mesmo terá chegado às mãos da soberana portuguesa.

Abordar a biografia desta rainha não é tarefa simples. D. Leonor de Lencastre teve uma vida longa para o tempo (1458-1525), partilhou o cetro real durante catorze anos, pelo casamento com o rei D. João II, e viveu mais trinta na condição de viúva. A sua vida estendeu-se por quatro reinados (D. Afonso V, D. João II, D. Manuel, D. João III) durante os quais a sua forte influência nunca deixou de se fazer sentir. Esta rainha dividiu a sua vida de viúva entre o austero Paço da Madre de Deus, em tarefas dedicadas à piedade e à caridade, e o Paço de Santo Elói, em empresas abertas ao mundo das artes e das letras. A posteridade encarregou-se de dar dela a imagem de uma rainha frágil, com um legado que Eduardo Lourenço diz poder resumir-se na palavra misericórdia. No entanto, se D. Leonor foi devota e misericordiosa, foi também uma rainha erudita, poderosa e trágica. Era possuidora de uma livraria com um total de 313 livros, em que se incluíam 4 Livros de Horas e, curiosamente, esta rainha detentora de requintados livros manuscritos, impulsionou igualmente a Imprensa, então em expansão. Atenta à arte produzida no seu tempo em diversas latitudes, a rainha D. Leonor patrocinou e promoveu uma ampla produção artística de cariz cosmopolita.

Por conseguinte, poderia ter-lhe cabido a responsabilidade da encomenda do Livro de Horas da autoria de Willem Vrelant. Porém, a não ter sido sua essa responsabilidade, esta encomenda terá sido seguramente feita por um comitente de prestígio e meios, como defende Delmira Custódio apoiada na qualidade do velino e na empaginação, na excelência do desenho e na qualidade plástica das iniciais ornadas, no rigor da ornamentação e na singularidade iconográfica das figurações marginais.

Um livro iluminado é composto por vários registos a funcionar por si próprios, embora na dependência uns dos outros, de modo a criarem um sistema que funciona como uma espécie de organismo. Podem destacar-se fundamentalmente nestes registos, o texto e a iconografia, com particular relevo, no caso deste Livro de Horas, para as iluminuras de plena página e para as orlas, o centro e a margem, que consubstanciam um discurso de grande potencial interrogativo e interpretativo.

Delmira Custódio no seu trabalho questionou estes diversos registos, tanto no que concerne ao texto e à estrutura do livro, assunto em que se revela uma profunda conhecedora, quanto no que diz respeito à grande expressividade e detalhe da iluminura.

A autora descreve minuciosamente as seis iluminuras de página plena que o códice conserva (Visitação, Anúncio aos pastores, Circuncisão e Apresentação no templo, Matança dos Inocentes, Juízo Final e Ofício Fúnebre) e analisa-as através dos esquemas geométricos da composição, da iconografia e das relações com as margens. Ocupa-se igualmente das vinte e três cercaduras ornadas, que atribui inequivocamente a Willem Vrelant. Na diversidade dos temas nestas patentes e para as quais propõe uma identificação, conclui não existir uma narratividade contínua, embora avance com uma leitura iconográfica em que identifica cenas narrativas laicas, distintas dos textos bíblicos que acompanham. Em especial nas margens das Horas da Virgem, a autora considera existir um carácter narrativo original com uma temática que a conduziu a aventar a hipótese de a encomenda ter partido de alguém ligado a corte dos Valois. Hipótese que corrobora com uma permanência de Vrelant em França antes de se instalar em Bruges, tal como é avançado por diversos autores.

A qualidade plástica excecional, as figurações marginais e uma narratividade sem paralelo em nenhum outro códice, entre outros aspetos, estão na base da hipótese que a autora defende de a encomenda do códice a Vrelant se ter devido ao mecenato da Casa de Borgonha, aliás possuidora de uma riquíssima livraria. D. Leonor mantinha ligações familiares a esta Casa e é possível que o códice tenha chegado à rainha portuguesa através do seu primo, o imperador Maximiliano.

A análise formal comparativa das miniaturas permitiu ainda à autora estabelecer a ligação entre Willem Vrelant e o iluminador castelhano Juan de Carrión. As afinidades formais existentes entre o Livro de Horas (BNP, Il 165) e o Ms. 854 da Pierpont Morgan Library, um Livro de Horas, provavelmente feito para o Infante D. Afonso de Castela e Aragão (1453-1468) pelo iluminador castelhano, demonstram a existência de contacto entre os dois iluminadores, ocorrida certamente quando o artista flamengo esteve na corte castelhana. Tal permitiu a Delmira Custódio demarcar um possível percurso do códice produzido por Vrelant a partir de Castela até às mãos da rainha D. Leonor.

A análise formal comparativa das miniaturas possibilitou ainda a integração no Corpus das obras de Willem Vrelant de um Livro de Horas quatrocentista atualmente pertencente à Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

O estudo de Delmira Custódio, no modo como interroga e interpreta os diferentes registos que consubstanciam As Perfeitíssimas Horas da rainha D. Leonor, é um contributo essencial para este projeto editorial internacional em boa hora atraído por este códice de excecional qualidade, que permite estabelecer conexões entre a história, a cultura e a arte europeias de quatrocentos.

 

COMO CITAR ESTE ARTIGO

Referência electrónica:

MACEDO, Francisco Pato de - “Custódio, Delmira Espada - As Perfeitíssimas Horas da rainha D. Leonor. Madrid: Taberna Libraria, 2018 (202 pp.)”. Medievalista 27 (Janeiro - Junho). [Em linha] [Consultado dd.mm.aaaa]. Disponível em http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/medievalista27/macedo27R3.html

 

Data recepção do artigo / Received for publication: 10 de Maio de 2019

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