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 número27A diplomacia e os diplomatas na baixa Idade Média portuguesa (1431-1475)Recensão: DOMÍNGUEZ SÁNCHEZ, Santiago (ed.) - Documentos pontificios medievales del monasterio de Santa María de Poblet (1132-1499). León: Universidad de León, Área de Publicaciones, 2017 (600 pp.) índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
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Medievalista

versão On-line ISSN 1646-740X

Med_on  no.27 Lisboa jun. 2020

 

RECENSÃO

Recensão: PANZRAM, Sabine e CALLEGARIN, Laurent (eds.) - Entre Civitas y Madīna. El Mundo de las Ciudades en la Península Ibérica y en el Norte de África (siglos IV-IX). Madrid: Casa de Velázquez, 2018 (393 pp.) [1]

António Rei1
https://orcid.org/0000-0002-7269-3227

1Intituto de Estudos Medievais, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa; Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos - Projeto DIAITA, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1600-214 Lisboa, Portugal; 3004-530 Coimbra, Portugal, ajrei@sapo.pt


 

Nas regiões próximas das duas margens do Estreito de Gibraltar, que os gregos chamaram de Herakleios Porthmos (Colunas de Hércules) e os latinos como Gaditanum fretum (Estreito de Cádis), deu-se uma singular concentração de núcleos urbanos durante o Império Romano.

De acordo com o atual estado da arte, considera-se que a importância e o significado daquele conjunto de cidades, como centros de poder, ter-se-á mantido ininterrupto até ao início do século VIII, quando se deu a entrada dos muçulmanos na Península, e uma maior fixação dos mesmos no Magrebe. Tal facto tem sido considerado sempre como um decisivo ponto de viragem na história destas regiões.

De que forma aquela constelação urbana se alterou, antes ou depois daquele momento?

Em 1985 já Hugh N. Kennedy no seu estudo precursor “From Polis to Madina” chamara a atenção para o facto de que a madīna deverá ser considerada como uma realidade urbana que surge, principalmente, em consequência de transformações sociais e económicas, mais do que como resultado de uma abrupta “islamização” da sociedade.

Esta coletânea, em função de uma nova valorização do mundo das cidades da Antiguidade tardia, procura questionar aquelas eventuais continuidades ou descontinuidades, entre os finais da Antiguidade e a Alta Idade Média, dentro de uma perspetiva interdisciplinare sobre uma base material que assenta em estudos muito recentes.

A obra colige estudos em torno da realidade urbana na Península Ibérica e no Norte de África, entre os séculos IV e IX; ou seja, desde o início da cristianização do Império Romano até ao período que antecede o Califado omíada. Com uma extensão total de 393 páginas, organiza-se em dois grandes blocos: “I - El mundo de las ciudades en la Península Ibérica” (pp.21-187), e “II - El mundo de las ciudades en el Norte de África” (pp. 189-316). São antecedidos pelo Índice (pp. IX-XI); por dois mapas gerais da Península Ibérica e do Magrebe (pp. XII-XIII, não paginadas); por um “Prólogo”, dos editores (pp. XV-XVI), e por uma “Introdução”, de Sabine Panzram (pp. 1-12) onde é feita uma apresentação e resumo da obra. Entre aqueles elementos propedêuticos e o início do primeiro bloco, Hugh N. Kennedy revisita (pp. 13-20), mais de três décadas depois, o seu trabalho “From Polis to Madina” (1985), estudo que os editores identificam como uma referência matricial, quer para a área temática, quer para a abordagem científica da mesma.

Após os dois blocos que compõem o grosso dos conteúdos da coletânea, surge um texto, designado de “Contraponto”, da autoria de Patrice Cressier (pp. 317-330), e, por fim, a obra conclui com uma extensa e exaustiva Bibliografia, que ocupa mais de 60 páginas (pp. 331-393).

Cada um dos dois blocos constituintes divide-se em três partes: “Perspectivas generales”, “Estudio de casos” e “Enfoques temáticos”. A única diferença entre ambos é que na segunda parte do primeiro bloco, relativa à Península Ibérica, há quatro capítulos, enquanto a parte homónima do outro bloco, sobre o Norte de África, apenas conta três.

A coletânea integra textos em vários idiomas: oito em espanhol, cinco em inglês, quatro em francês e três em alemão.

O primeiro bloco, “I - El mundo de las ciudades en la Península Ibérica”, compõe-se de:

“Perspectivas generales”

Javier Arce (pp. 23-31) fala-nos de uma progressiva cristianização dos núcleos urbanos tardo-antigos, e que começou pela construção de igrejas nas zonas periféricas dos mesmos. O progressivo abandono dos templos clássicos nos centros das cidades e a sua substituição por igrejas, que começaram a povoar o espaço intramuros, levou, nos finais do século V, a uma completa cristianização da vida citadina.

Sonia Gutiérrez Lloret (pp. 33-47) explica que, tomando por base a sucessão de assentamentos entre os séculos VI e X, a cidade islâmica de al-Andalus nada teria em comum com a anterior cidade romana, ainda que, por vezes, a constante topográfica possa sugerir uma aparência de continuidade. A autora assinala três períodos: do século VI ao VIII: retração urbana, perda da monumentalidade, amuralhamento, e menor população. Abandono definitivo da cidade clássica, entre os séculos VIII e IX e início de uma nova realidade urbana, totalmente islâmica. A qual se consolidará entre os séculos IX e XI.

“Estudio de casos”

Miguel Alba Calzado (pp. 51-74) identifica alguns diferentes períodos passados por Augusta Emerita (Mérida), a qual sofre uma expansão económica quando passa a ser a sede do vicarius de Diocleciano, e quando o culto de Santa Eulália se expande. Mais tarde, no século VI, dá-se a transformação completa de Mérida numa cidade cristã, por ação dos seus bispos. E finalmente a sua rendição às forças muçulmanas em 713, as quais constroem a Alcáçova para controlar o acesso à velha ponte romana. Mérida entrará no seu ocaso cerca de dois séculos mais tarde, com a emergência de Badajoz, esta por ação dos vários senhores dos Banū Marwān.

Jaime Vizcaíno Sánchez (pp. 75-103) constatou para Carthago Nova (Cartagena) uma recessão já em pleno século II, eventualmente relacionada com o esgotamento de minas na sua região. No entanto, o facto de que, no século IV, Cartagena foi feita cabeça da província da Carthaginensis originou um novo impulso que estimulou a atividade comercial e assentou as bases económicas que levaram a que, mais tarde, já no período visigodo, tivesse sido uma sede episcopal que se tornou famosa e próspera.

Darío Bernal Casasola (pp. 105-117) trabalha as indústrias de conservas de peixe - o garum e o peixe de salmoura -, em cidades próximas da margem norte do Estreito de Gibraltar. E estabelece continuidades naquelas atividades industriais e económicas até ao século VI ou mesmo para além dele. A chegada dos muçulmanos não representou uma rotura, mas deixou de existir uma maior uniformidade no desenvolvimento daquele conjunto urbano.

Maria Teresa Casal García (pp. 119-132) estudou `aqunda, um arrabalde de Córdova, um bairro periférico da capital Omíada. Aparece citado nas fontes em 711 e acabou sendo destruído em 818 em consequência da rebelião contra o Emir al-Hakam I. Foi local de residência de mercadores, de comerciantes e de antigos soldados, dos quais ficaram testemunhos de que usaram cerâmica árabe, que tiveram ovelhas, cabras e galinhas, mas não tinham porcos. E da sua economia, comercial e / ou doméstica, subsistiram moedas de cobre, os fulūs.

“Enfoques temáticos”

Ruth Pliego Vázquez e Tawfiq Ibrahim (pp. 135-151) marcam uma continuidade de cerca de cinco séculos de oficinas de cunhagem de moeda, desde o reinado do imperador Cláudio (séc. I d.C.) até ao reinado de Leovigildo (séc. VI). As moedas tinham inscritas, entre outras marcas, o nome da cidade em que eram cunhadas, o que identifica um fator de diversidade nas cunhagens. Pelo contrário, a emissão de moeda no âmbito do al-Andalus assenta numa única oficina de cunhagem, na capital, Córdova, enquanto a dinastia omíada se manteve no poder até ao século XI. Outros diferentes testemunhos materiais encontrados são sinetes, em chumbo, alguns dos quais terão servido para selar os acordos estabelecidos entre o novo poder islâmico e as elites locais visigodas.

Francisco José Moreno Martín (pp. 153-171), à luz de novos achados arqueológicos e das tentativas de reconstrução da topografia da Toledo do século VII, refuta duas teses: a de que Toledo replicaria os modelos urbanos de Roma e de Constantinopla; e de que, de acordo com fontes cronísticas do século IX, aquela planta toledana teria, por sua vez, servido de modelo para a capital do reino asturiano, Oviedo.

Chrtistoph Eger (pp. 173-187) estudou os ritos funerários. As necrópoles situavam-se, preferentemente, como também na Antiguidade, junto às portas das cidades ou das vias principais. Em certas cidades os muçulmanos procuraram claramente um novo local de enterramento, evitando os cemitérios dos cristãos e de judeus. Nos casos em que ocorre uma sobreposição de sepulturas islâmicas sobre enterramentos cristãos pode tal facto indiciar um momento de conversão ao islão de parte da população da cidade em causa.

O segundo bloco, II - El mundo de las ciudades en el Norte de África, divide-se, como o anterior, em:

“Perspectivas generales”

François Baratte (pp. 191-201) assinala a ininterrupta vitalidade das cidades, mesmo para além da invasão dos Vândalos. Aponta para que a problemática que permita compreender a sua evolução posterior se articule com o domínio bizantino e que continue até à presença islâmica. Até bem entrado o século V continuavam coexistindo, nas cidades, templos do culto imperial com ostentosas igrejas cristãs.

Corisande Fenwick (pp. 203-219) afirma que as épocas vândala e bizantina foram essenciais para a transformação da cidade clássica em cidade medieval. Após um século de estagnação urbana, com a entrada dos muçulmanos na Ifrīqiya, as cidades acabaram por recuperar dinamismo e por terem um novo florescimento.

“Estudio de casos”

Elsa Roca e Fathi Béjaoui (pp. 223-239) estudam duas cidades norte africanas, Ammaedara e Theveste, e cujos bispos já tinham estado presentes num sínodo em Cartago, em meados do século III, durante um longo processo de cristianização que, em ambas as cidades, se prolongou até ao início do século V. Mais tarde, os períodos de presença vândala, e depois de presença bizantina, apenas deixaram marcas arquitetónicas de cariz militar. No entanto, enquanto Theveste continuou o seu processo de expansão urbana, em Ammaedara deu-se o contrário, com o início de um retrocesso no perímetro da cidade, e consequentemente de perda de importância regional.

Elizabeth Fentress (pp. 241-252) debruça-se sobre a cidade portuária de Meninx / Girba, que também era um grande centro de produção de púrpura. No século VI, quando foi integrada no Império Bizantino, ainda continuava sendo importante. Foi posteriormente abandonada, e já só no século VIII voltou a ter ocupação, embora esta ocupação apenas tenha usado um terço dos espaços antes usados pelos romanos.

Ridha Ghaddhab (pp. 253-271), a partir de achados de lagares de azeite e de olarias, como indicadores da vida económica, cruzados com uma lista de cidades, identifica uma rotura. Tendo sido postos em funcionamento, mais tarde, pelos muçulmanos, acabam por marcar uma evidente interrupção.

“Enfoques temáticos”

Anna Leone (pp. 275-283), através de resultados de intervenções arqueológicas em espaços públicos decorados com estátuas, concluiu que no século IV se deu o abandono da estatuária nos fóruns e nos templos, com a posterior trasladação de algumas delas para decoração das entradas de banhos públicos. Mais tarde, a integração daquelas regiões norte-africanas no Império Bizantino conduziu à recuperação do gosto pela monumentalidade e ao retorno ao uso mais abundante do mármore.

Lennart Gilhauss (pp. 285-302) usa o estudo da epigrafia como indicador da cultura urbana. Através dela estuda monumentos honoríficos situados em espaços públicos. Constata, de forma mais lenta e gradual que a autora anterior, que os mesmos monumentos começam a rarear a partir dos finais do século III, ainda que os locais convencionais para a demonstração de estátuas e retratos, em especial o fórum, não são abandonados antes do século V. E que durante este período de alteração e descontinuidade as representações honoríficas, antes mais abrangentes, se foram restringindo apenas aos imperadores e a alguns altos funcionários.

Esther Sánchez Medina (pp. 303-316) demonstra a descontinuidade do poder dos bispos no Norte de África, sob o poder dos Vândalos. Um universo de cerca de seis centenas de bispos que existiram entre a Tingitana e a Tripolitânia, entre os finais do século IV e inícios do século V, e até então elites urbanas, passaram a ser considerados pelos germânicos como as cabeças das resistências ao poder vândalo emergente. Tal facto conduziu a que aqueles sobre os quais pairasse alguma suspeita tivessem acabado por ser exilados do seu bispado.

Contraponto - onde Patrice Cressier (pp. 317-330) nos fornece uma visão do urbanismo na longínqua África do Norte - o atual Marrocos e a Mauritania Tingitana da época romana -, e na qual quer a romanização quer a cristianização nunca foram muito evidentes. Se, em função das fontes escritas, a descrição daquela região no século X em nada faria recordar o panorama da época romana, ainda não se conseguiram, no entanto, dados que permitam identificar os elementos que produziram a descontinuidade. Estima-se assim que possa ter existido uma decisiva influência dos elementos étnicos locais, uma vez que a dinâmica económica não terá sofrido alterações.

Bibliografia (pp. 331-393) - Um exaustivo rol contendo bem mais de 1200 títulos. Integrando Repositórios de Inscrições Latinas e fontes escritas: gregas, latinas e árabes, que ocupam quatro páginas (pp. 331-334), e ficando com 59 páginas para publicações de estudos e artigos (pp.335-393).

Notas finais

É, no entanto e no mínimo, surpreendente, que naquele enorme volume de bibliografia relativa ou correlativa com as temáticas tratadas, apenas se encontrem 3 títulos de autores portugueses. Digamos que parecem existir algumas falhas de comunicação, entre os diferentes meios científicos, em um dos sentidos, ou em ambos. Certamente aspeto que o futuro alterará positivamente.

E os mapas das páginas XII e XIII, também algo inexplicavelmente, cartografaram a “ausência” das cidades do ocidente da Lusitânia (século IV), e mais tarde do Garb al-Andalus extremo (século IX).

No relativo ao mapa das Cidades do século IV, a falta mais evidente e surpreendente é a de Scalabis (Santarém), cabeça do Conventus Scalabitanus, enquanto a Egitânia, Coimbra, Viseu e Lamego, pelo contrário, estão presentes, ainda que todas elas cidades secundárias.

No mapa das Cidades do século IX aparecem Lisboa e Beja, mas, mais uma surpresa, também surge Silves, cidade que só acabou por emergir a partir do século XI, como capital de uma pequena Taifa.

 

COMO CITAR ESTE ARTIGO

Referência electrónica:

REI, António - “PANZRAM, Sabine e CALLEGARIN, Laurent (eds.) - Entre Civitas y Madīna. El Mundo de las Ciudades en la Península Ibérica y en el Norte de África (siglos IV-IX). Madrid: Casa de Velázquez, 2018 (393 pp.)”. Medievalista 27 (Janeiro - Julho 2020). [Em linha] [Consultado dd.mm.aaaa]. Disponível em http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA27/rei27R1

 

Data recepção do artigo / Received for publication: 4 de Janeiro de 2019

 

NOTA

[1] Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito da Norma Transitória - DL 57/2016/CP1453/CT0072. / This work is funded by national funds through the FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., under the Norma Transitória - DL 57/2016/CP1453/CT0072.

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