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Medievalista online

versão On-line ISSN 1646-740X

Med_on  no.25 Lisboa jun. 2019

 

VARIA

Ciclos de conferências: “Manuscritos de Alcobaça I e II"

Ana Pagará*, Catarina Fernandes Barreira§

* Mosteiro de Alcobaça, Direção-Geral do Património Cultural, 2460 Alcobaça, Portugal.anapagara@malcobaca.dgpc.pt

§ Instituto de Estudos Medievais, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 1069-061 Lisboa, Portugal. cbarreira@fcsh.unl.pt


 

 

A parceria desenvolvida nos últimos anos entre o Mosteiro de Alcobaça / Direcção Geral do Património Cultural e o Instituto de Estudos Medievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa viabilizou, entre outras atividades de produção e disseminação culturais, a organização conjunta de dois ciclos de conferências dedicados aos manuscritos do Mosteiro de Alcobaça. O primeiro ciclo decorreu entre 24 de Março e 7 de Julho de 2017, num total de cinco sessões, com nove conferências, que tiveram lugar no Mosteiro de Alcobaça, mais concretamente na Sala do Capítulo. O segundo ciclo de conferências, num total de seis sessões, envolvendo dez conferências, decorreu entre 9 de Março e 29 de Setembro de 2018, na Sala das Conclusões do Mosteiro.

Os dois ciclos pretenderam dar a conhecer, aos mais diversos públicos, este património, fundamental para a compreensão e contextualização da comunidade cisterciense de Alcobaça e para a construção da sua identidade, ao longo dos séculos. Os livros manuscritos, por motivos de conservação, não se encontram acessíveis à consulta e manuseamento por parte do público em geral: o acesso a estes testemunhos patrimoniais (bem como as investigações sobre os mesmos) acontece, geralmente, através da realização de exposições e/ou da visualização online, quando a sua digitalização se encontra disponível nos sites das instituições que detêm a sua guarda e conservação, como é o caso dos manuscritos de Alcobaça, consultáveis na Biblioteca Nacional Digital. Com estes dois ciclos de conferências procurou-se promover o conhecimento em torno dos mesmos e levar a todos os públicos esta herança cultural única, sob uma multiplicidade de abordagens.

Igualmente importante para a organização foi a divulgação das mais recentes investigações e dos trabalhos desenvolvidos sobre os códices da livraria do Mosteiro, abordados sob as mais diversas perspetivas, desde a sua materialidade, à observação da decoração iluminada, passando pela análise do conteúdo, quer do ponto de vista litúrgico, musical, jurídico, quer ainda no que diz respeito à contextualização dos códices na vida da comunidade, no seu contexto de produção e de uso(s) e na sua relação com os monges. A história do Mosteiro, do seu poder económico e territorial, da sua relação com o poder real e da comunidade que o habitou e dele fez parte foi, também, um aspeto abordado nestas conferências. Para o efeito, foram convidados investigadores especializados em múltiplas áreas, como a História, a História da Arte, a Conservação e Restauro, a Química, a Música, entre outras.

Salientamos as duas participações de Aires Nascimento – grande especialista na livraria do Mosteiro, que desde há quatro décadas investiga e publica sobre os códices de Alcobaça –, a quem coube o encerramento dos dois ciclos, focando questões tão pertinentes como a identificação e identidade do scriptorium alcobacense (2017), e os problemas relacionados com as traduções que foram feitas no Mosteiro e respetivas autorias (2018). Destacamos igualmente a conferência de Iria Gonçalves, especialista em história económica do Mosteiro nos séculos XIV e XV, que tratou as relações existentes entre Alcobaça e Lisboa, desde a fundação do Mosteiro até meados do século XV.

Conceição Casanova abordou, nos dois ciclos, a importância do estudo e caracterização das encadernações dos códices alcobacenses e o tipo de informações que estas nos dão, bem como metodologias de trabalho a desenvolver e a aplicar. Também com participação nos dois ciclos, Maria João Branco analisou os códices jurídicos de Alcobaça – pese embora as orientações da normativa cisterciense, o scriptorium recolheu e copiou textos recentes – e destacou a cultura jurídica dos seus monges e os papéis que desempenharam junto dos primeiros monarcas portugueses.

No ciclo de 2017, Catarina Miguel abordou as hagiografias românicas alcobacenses inseridas no contexto europeu para destacar as singularidades materiais e técnicas do Mosteiro.O categorizado musicólogo Manuel Pedro Ferreira destacou o papel do scriptorium de Alcobaça na produção de livros destinados ao canto e a sua transmissão. Na sessão de Maio, Ana Lemos abordou os Livros de Horas pertencentes ao fundo de códices de Alcobaça e os problemas em torno do seu uso e Luís Correia de Sousa centrou-se numa das Bíblias do século XIII e na relação desta com D. Mafalda (infanta portuguesa ligada ao Mosteiro de Arouca). A conferência seguinte, da responsabilidade de Catarina Fernandes Barreira e de Luís Miguel Rêpas, destacou a importância da compreensão e reconstituição da liturgia dos defuntos e das procissões associadas, em Alcobaça, a partir de um códice recentemente descoberto em Salzedas. O contributo de Adelaide Miranda centrou-se na abordagem da decoração iluminada dos códices produzidos pelo Mosteiro entre os finais do século XII e os inícios da centúria seguinte.

O ciclo de 2018 iniciou-se com a participação de Teresa Lança Ruivo, que se centrou na intervenção de conservação realizada pela Biblioteca Nacional num dos códices mais antigos produzidos pelo scriptorium alcobacense. De seguida, Catarina Fernandes Barreira abordou um tipo de códice litúrgico – o coletário – para passar à análise e problematização do uso desta tipologia de manuscritos no Mosteiro de Alcobaça. Na sessão de Abril, a conferência de Jonathan Wilson versou a análise da materialidade e do conteúdo de um códice do Mosteiro com ligação à Reconquista cristã e à liturgia a ela associada, nos séculos XII e XIII. Na sessão seguinte, Paulo Lopes e Catarina Fernandes Barreira centraram-se no papel e na ação reformista de um abade de Alcobaça de quatrocentos, D. Estevão de Aguiar, com relações próximas com a corte de Avis, assim como do impacto do seu abaciado no scriptorium e na livraria.

Saul Gomes, especialista em Alcobaça e na sua documentação, focou-se no processo em torno da realização da Leitura Nova e do seu impacto no Mosteiro. Na mesma sessão, a conferência de Mário Farelo abordou as relações com o papado, nomeadamente no século XIII. Como mencionámos atrás, o segundo ciclo foi encerrado em Setembro por Aires Nascimento. Estes dois ciclos de conferências consolidaram um dos objetivos estratégicos e de afirmação do Mosteiro de Alcobaça como centro de estudos e de divulgação da História e do Património material e imaterial da Ordem de Cister. Os textos destas conferências serão publicados no próximo ano (2019), na Coleção “Estudos Monásticos Alcobacenses”.

Estas iniciativas integram-se igualmente nas linhas de investigação do IEM e numa das suas principais missões: a divulgação da investigação junto dos mais variados públicos, uma investigação que transcende a Academia e que, sem perder de vista o rigor científico, se dissemina na promoção do património que é de todos nós mas que, por questões ligadas à sua fragilidade e conservação, é menos acessível ao público. Sublinhamos que a nossa principal intenção é a aproximação do público em geral a este património tão vasto e complexo que constituiu parte fundamental da identidade da comunidade monástica cisterciense de Alcobaça. Dada a boa recetividade destes dois ciclos e o muito que ainda falta perspetivar e dar a conhecer, encontra-se em preparação um terceiro ciclo de conferências, desta feita sobre Música e Liturgia, a decorrer ao longo do próximo ano.

 

 

COMO CITAR ESTE ARTIGO

Referência electrónica:

PAGARÁ, Ana; BARREIRA, Catarina Fernandes – “Ciclos de conferências: ‘Manuscritos de Alcobaça I e II”. Medievalista [Em linha]. Nº 25 (Janeiro – Junho 2019). [Consultado dd.mm.aaaa]. Disponível em http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA25/pagara2512.html

 

Data recepção do artigo: 1 de outubro de 2018

 

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