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Observatorio (OBS*)

versão On-line ISSN 1646-5954

OBS* vol.7 no.3 Lisboa jun. 2013

 

O Panóptico de Sauron: Poder e Vigilância no Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien

Sauron’s Panopticon: Power and Surveillance in J.R.R. Tolkien’s Lord of the Rings

 

Hugo Filipe Ramos*

* ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa

 

RESUMO

Este artigo é dedicado aos Estudos de Vigilância e à sua aplicação à obra de Tolkien, Senhor dos Anéis. Nesta análise, é feita uma introdução histórica aos Estudos de Vigilância, uma contextualização histórica e social do autor, identificando, na narrativa em discussão, reflexos de uma sociedade conturbada e, por fim, um enquadramento teórico e social dos Estudos de Vigilância ao “mundo secundário” da Terra Média , demonstrando os paralelismos entre as teorias dos irmãos Bentham e Foucault e as relações de poder presentes nesta região do mundo metafísico do imaginário de Tolkien.No final do artigo, são ainda analisadas duas vertentes das teorias do poder, o poder da retórica e a resistência ou contra-poder, também presentes na Terra Média, assumindo, a par das relações de poder, várias representações simbólicas.

Palavras-chave: poder, vigilância, panóptico, Olho de Sauron, retórica, resistência.

 

ABSTRACT

This article is dedicated to Surveillance Studies and their application to Tolkien’s literary work, Lord of the Rings. A historical introduction to Surveillance Studies, a historical and social contextualisation of the author, identifying, in the discussed story, the reflections of a troubled society, and, finally, a theoretical and social framework that relates Surveillance Studies to the "secondary world" of Middle Earth are presented in this analysis, demonstrating the parallels between Bentham's and Foucault's theories and the social relations of power in this region of the metaphysical world of Tolkien's imagination.At the end of the article, two aspects of the theories of power are also analysed, those being the power of rhetoric and resistance or counter-power, also present in Middle Earth, assuming, just like power relations, several symbolic representations.

Keywords: power, surveillance, panopticon, Eye of Sauron, rethoric, resistance.

 

Introdução

Este artigo esta´ organizado em três grandes partes. Na primeira, temos a introdução ao tema dos estudos de vigilância, preparando um enquadramento que suporta a aplicação desta área de estudos à obra literária de Tolkien: Senhor dos Anéis. É, aqui, estabelecida uma descrição cronológica que denuncia um ponto fulcral de mudança no modo e substância que estes estudos sofreram, demonstrada a sua transversalidade na aplicação das teorias a diversas áreas e temáticas da sociedade e também da cultura e apontada uma das origens dos estudos de vigilância nas obras literárias do início do século XX. Finalizando esta parte, temos uma contextualização histórica e social da vida de Tolkien que aborda, não só as influências na origem da obra, mas também do homem.

Numa segunda parte, é apresentado o enquadramento teórico dos estudos de vigilância no Senhor dos Anéis. Aqui, é introduzido o tema da vigilância e do poder como presenças fortes na obra em discussão. Estabelece-se a relação entre vigilância, poder e conhecimento, seguindo a linha teórica de Foucault aplicada ao “mundo secundário” da Terra Média. A distinção analítica, argumentada por Fausto Colombo, desempenha, aqui, um papel fundamental na análise ao proporcionar uma linha lógica no desenvolvimento do tema pré-moderno e moderno do poder.

Dentro da análise ao poder moderno, é analisado o simbolismo d’O Anel que, assumindo duas perspectivas opostas, torna mais complexa a relação entre agente e sujeitos e os efeitos do poder sobre o seu possuidor. No final, são discutidas as cinco precauções a aplicar, definidas por Foucault, sempre que é feita uma análise ao tema do poder.

Relativamente à terceira e última parte, são apresentadas e analisadas duas vertentes do poder que estão, também, presentes na obra de Tolkien. São elas a retórica e a resistência, ou contra-poder. A retórica é analisada do ponto de vista da inscrição social da ideologia e é feita uma analogia aos estudos das práticas discursivas, enquanto que no tópico sobre a resistência são analisadas as habilidades que Foucault diz emergirem mesmo no centro das relações de poder e as consequências que tiveram no desenrolar da narrativa do Senhor dos Anéis.

Este artigo termina com a conclusão, onde são resumidos e relacionados todos os temas abordados ao longo da presente análise.

A compreensão do tema dos estudos de vigilância e poder é relevante nos estudos sociais, porque permite entender o comportamento dos diferentes actores e as suas dinâmicas orgânicas de sujeição e exercício do poder, tanto na vertente pré-moderna como também na sua vertente moderna. Porque a literatura do início do século XX está, também, na origem dos estudos de vigilância, a aplicação destas teorias à obra Senhor dos Anéis foi motivada pela óbvia presença de focos de poder soberano e também de tecnologias de vigilância na narrativa em análise, juntamente com um gosto particular pela obra de Tolkien.

 

O Panóptico de Sauron: Poder e Vigilânciano Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien

Os estudos de vigilância são relativamente recentes. Existe, no entanto, um facto histórico que, devido a ter despertado uma maior atenção do público e da comunidade académica, marca uma mudança significativa na forma como são conduzidos e na maior frequência com que são produzidos: o ataque do 11 de Setembro de 2001 ao World Trade Center (Lyon, 2003, p.15; Ball, Haggerty e Lyon, 2012, p.xxvii). No entanto, esta temática começou bastante antes.

De acordo com Lyon, desde os anos 50 que existem estudos nesta área, sobretudo devido a uma crescente consciência relativamente aos abusos dos direitos humanos motivados pelo colonialismo, fascismo e comunismo e comportamentos anti-democráticos em sociedades democráticas. Foi também devido a obras literárias como as de Orwell (1949) e ao aparecimento dos computadores e tecnologias associadas, provocando profundas implicações ao nível do comportamento social e organizacional, que estes estudos continuaram. (Ball, Haggerty e Lyon, 2012, p.1)

A área da vigilância observou um exponencial e mais sistemático crescimento nos últimos anos e viu florescer uma série de debates, tanto nos círculos académicos como na esfera pública. O potencial para entender as alterações no comportamento humano foi um factor decisivo no seu crescimento e o número considerável de livros e artigos que podemos encontrar sobre o tema demonstra maturidade e coordenação de esforços de muitos académicos nas abordagens efectuadas a esta problemática.

Como refere G. Marx, os estudos de vigilância, como área de estudo das ciências sociais, apresentam-se distintos de outras áreas de estudo, pois não estão directamente relacionados com diferentes geografias, etnias, géneros ou estilos de vida. Também não são condicionados por uma única perspectiva disciplinar, teórica ou metodológica. Os estudos de vigilância baseiam-se, essencialmente, num conjunto de comportamentos individuais ou grupais que se relacionam com a informação (Ball, Haggerty e Lyon, 2012, p.xxviii) ou, como coloca Foucault1 : conhecimento, sendo, portanto, transversais a todas as sociedades independentemente das diferenças que as separam.

Já sabemos como a teoria do poder de Foucault se relaciona com o conhecimento e também como o poder e a vigilância estão intimamente ligados. A vigilância alimenta o conhecimento que, por sua vez, alimenta o poder, articulando-se entre si numa relação não linear, dinâmica e laboratorial em que são observados indivíduos, adquirida e processada informação que, transformando-se em conhecimento, “empodera” o agente, ou agentes, na posição central da vigilância. Os que lançam o olhar fixo (ou como diria Foucault, o “regard partout”) sobre os observados, os sujeitos. (Ramos, (in press)b, pp.6-8)

Temos, assim, os estudos de vigilância como um campo multidisciplinar e transversal das ciências sociais, onde se cruzam várias áreas de conhecimento, com o objectivo de compreender os impactos sociais da função informativa da tecnologia. Neste caso, o domínio da técnica da observação e recolha de informação, como a decomposição2 da própria palavra indica. No entanto, dada a sua natureza multidisciplinar e distinta, os estudos de vigilância podem ainda ser aplicados em diversos planos do nosso mundo como, por exemplo, o mundo do real (físico) ou o mundo do imaginário (metafísico). Uma das formas presentes no mundo do metafísico é a ficção literária e, de acordo com as palavras de Lyon já mencionadas neste artigo, a literatura esteve também na origem dos estudos de vigilância, sendo assim um exercício interessante promover o percurso inverso e aplicar os estudos de vigilância à literatura.

Já tivemos oportunidade de verificar referências a Huxley3, Orwell4 e Kafka5, entre outros, no entanto, um dos autores mais consagrados do século XX é esporadicamente associado a este campo: Tolkien6.

As obras ficcionais de Tolkien no seu todo e O Senhor dos Anéis em particular ocupam um lugar de destaque na literatura do século XX mas também um lugar controverso no criticismo literário. No entanto, o génio de Tolkien é bem visível no seu “three-decker novel”7, como o próprio o designa, através da invenção de catorze línguas8 diferentes (todas elas com as suas próprias regras de construção), onde se inclui o mais completo Quenya, também designado como linguagem Élfica (Drout, 2007, pp.11-12; Chance, 2010, pp.2-3). A ficção de Tolkien tornou-se assim num fenómeno cultural, cativando gerações de leitores em todo o mundo, sendo alvo de adaptações cinematográficas e inspirando gerações de adeptos de jogos de aventura para computador, que se identificam no papel do aventureiro, tal como no mundo secundário criado por Tolkien (Wardrip-Fruin e Montfort, 2003, pp.508-509).

Todo este novo mundo secundário, do plano do metafísico, foi imaginado na sua mais completa forma geográfica, social, política e substantiva, abrindo, assim, todo um espaço de análise passível de incorporar os estudos sociais e a aplicação de diversas teorias da vigilância e do poder/conhecimento.

É nesta linha analítica do poder/conhecimento e da vigilância, no mundo secundário da Terra Média, que este artigo se insere. De que forma são visíveis teorias da vigilância e do poder na sociedade da Terra Média? Que relações de poder existem entre os seus habitantes e que formas e representações simbólicas assumem na obra de Tolkien?

 

Contextualização Histórica e Social

O modo como analisamos o autor, deve estar intimamente ligado ao homem e o homem está intimamente ligado ao contexto social, cultural, político e económico da sua época. Como refere Drout na introdução da sua enciclopédia:

“Tolkien needs to be seen in the matrix of his historical period as well as within the specific contours of his own life. The Encyclopedia therefore contains a great deal of information about Tolkien’s life and work in Oxford and other historical and cultural events of his country and century. From the great wars to artistic movements (such as Art Nouveau or Arts and Crafts), to trends in politics and literature, a picture of a century [...]” (Drout, 2007, p.xxx)

De acordo com a biografia escrita por Carpenter, John Ronald Reuel Tolkien nasceu no dia 3 de Janeiro de 1892 em Bloemfontein, África do Sul (Carpenter, 1977, p.20). Aos três anos de idade a família mudou-se para Inglaterra, no que era suposto ser uma viagem mais demorada para visitar a família, mas a morte prematura do seu pai transformou a visita demorada numa mudança permanente, ficando a família a residir com os avós maternos de Tolkien em Birmingham e, alguns anos depois, em Sarehole (hoje com o nome de Hall Green, também pertencente à região de Birmingham). Sendo uma família de poucas posses, a mãe, Mabel, tratava da educação dos filhos e Ronald (nome pelo qual Tolkien era conhecido no seio da família) era um estudante aplicado, especialmente interessado no estudo das línguas, motivo pelo qual a mãe lhe ensinou Latim desde cedo. Aos quatro anos, já sabia ler e, pouco tempo depois, já escrevia fluentemente. Incentivado pela mãe, lia muitos livros, apresentando um particular gosto pelas histórias de fadas e um apurado sentido crítico sobre literatura.

Durante a juventude teve o seu primeiro contacto com uma língua construída, o Animalic, invenção dos seus primos enquanto, ao mesmo tempo, estudava Latim e Anglo-Saxão na escola. Mais tarde, surgiram outras línguas inventadas juntamente com os seus primos, como o Nevbosh e, pouco tempo depois, Raffarin, sendo esta última de sua completa autoria. Foi também na juventude que Ronald adquiriu um gosto especial pela poesia, começando a escrever poemas mais frequentemente e com maior dedicação no final de 1914, depois de um encontro, em Londres, com os seus antigos colegas da sociedade secreta “T.C.B.S.”9.

Depois dos anos conturbados da 1ª Guerra Mundial, Tolkien inicia a sua carreira académica em Oxford, no Pembroke College e, mais tarde, no Merton College, onde escreve The Hobbit e os primeiros dois volumes do Senhor dos Anéis. Decorriam, então, os anos do período pré 2ª Guerra Mundial, uma época que influenciou e marcou a narrativa da Terra Média. Este foi um período da idade moderna politicamente agitado e popularmente associado ao nascimento e mecanização do Big Brother. As liberdades individuais não eram especialmente importantes ou tidas em conta e o indivíduo estava desprovido de poder contra um destino cada vez mais controlado pelas forças do Mal (Shippey, 2000, p.ix), fosse, mais tarde, em Auschwitz10, Europa de leste, África do Sul (Chance, 2010, p.1), ou em qualquer outra parte do mundo:

“Although Tolkien’s worldwide popularity began in America in the 1960s, his themes — power, choice, nature, technology, loyalty, loss, and redemption — are not the concerns of one time and place. They resonate in all times and all places” (Drout, 2007, p.15)

Foi nesta influência contextual que Tolkien escreveu a sua aventura épica, oferecendo um olhar crítico e um entendimento sobre a natureza do Bem e do Mal, valores societais como o de comunidade, a ordem natural do Universo e a singularidade e “empoderamento” do indivíduo. Como Chance argumenta (Chance, 2010, pp.1-25), Tolkien respondeu dando voz aos despojados e isso traduziu-se numa calorosa adesão popular no final da década de 50 e década de 60, anos em que se vivia em pleno a Guerra Fria e um crescente receio, definido por Kackman como “Medo Vermelho” (Kackman, 2005, pp.xxiii, 1-25), existindo uma também crescente necessidade social de abstração das tensões políticas e militares. Uma clara alusão aos tempos vividos neste período e aos valores oferecidos pelo Senhor dos Anéis pode ser apreciada numa das mais populares manifestações culturais da época: o graffito11. “God is dead” e “Frodo lives” eram graffiti (figuras nesta página) muito vistos pelas ruas norte-americanas e também europeias. De facto, pelos finais da Guerra da Coreia e inícios da Guerra do Vietname, o governo norte-americano era simbolicamente visto como um “Dark Lord”, pretendendo completo domínio sobre países mais pequenos e de pouco interesse para os americanos e a submissão das crenças e dos direitos individuais dos seus próprios cidadãos, na procura de mais soldados para combater em outros países.

Na realidade, com a construção do Shire12, Tolkien idealizou no mundo secundário, não só uma visão da Inglaterra pastoral do início do século XX, como também uma “realidade utópica” onde os seus instintos de infância residiam e resistiam à realidade conturbada dos tempos em que vivia, realidade utópica essa à qual, independentemente da geração ou país, todos nós gostaríamos de pertencer. Além de dar voz aos despojados e “empoderar” o indivíduo, Tolkien deu também voz a si mesmo, evitando, em certa medida, a recordação de emigrante forçado, retirado à sua existência infantil na África do Sul, refugiando-se no mundo secundário onde podia desempenhar o papel de herói (Chance, 2010, p.3). Como o próprio afirma, numa carta a Deborah Webster:

“I am in fact a Hobbit (in all but size). I like gardens, trees and unmechanized farmlands; I smoke a pipe, and like good plain food (unrefrigerated), [...] I like, and even dare to wear in these dull days, ornamental waistcoats. I am fond of mushrooms (out of a field); have a very simple sense of humour (which even my appreciative critics find tiresome); I go to bed late and get up late (when possible). I do not travel much [...]” (Carpenter, 1971, p.289)

Porém, no mundo secundário da Terra Média, Tolkien não criou apenas o utópico Shire, a zona pastoral, bucólica e calma, na qual a livre expressão e a livre vontade coexistem e onde todos gostaríamos de procurar refúgio. Criou todo um continente onde a luta constante entre o Bem e o Mal se articula com as dinâmicas de poder e conceitos como corrupção, controlo, confiança, subjugação, guerra, dominância, conhecimento e vigilância, reflexo do mundo primário em que vivia.

Apesar de muitas críticas sobre a simplicidade, ou mesmo ingenuidade, na representação literária do Bem versus Mal, igual número de críticos encontrou, no Senhor dos Anéis, matéria para pensamento e reflexão crítica, merecedora de comparação com as ideias e teorias de Nietzsche, Heidegger, Levinas, Girard e Foucault (McIntosh, 2012). Numa carta a Naomi Mitchison, Tolkien, profundo conhecedor da sua obra e do seu significado, responde aos mais críticos:

“Some reviewers have called the whole thing simple-minded, just a plain fight between Good and Evil, with all the good just good, and the bad just bad. Pardonable, perhaps” (Carpenter, 1971, p.197)

 

Enquadramento Teórico dos Estudos de Vigilância no Senhor dos Anéis

A vigilância não é algo novo. Desde os tempos mais longínquos da Humanidade que as pessoas se observam umas às outras pelos mais variados motivos. Estes vão desde os mais facilmente aceites pela sociedade, como tratar e cuidar dos mais próximos ou acompanhar o desenvolvimento dos filhos, até aos menos facilmente aceites, chegando mesmo a ser repressivos, como controlar populações, manter a subserviência de prisioneiros, perseguir e castigar os hereges ou atacar outros povos. Segundo Lyon (1994, p.22), já os egípcios mantinham registos da população com o objectivo de aplicar impostos, obrigar ao serviço militar e controlar a imigração.

O que podemos observar destes exemplos? O poder está directamente ligado e é consequente das posições de observação descritas acima, sempre através de uma acção verbal que se justifica, em si mesma, pelos motivos adjacentes (tratar, cuidar, acompanhar, controlar, manter, perseguir, castigar, atacar, entre outras). É também mantido mediante a continuidade dessa mesma acção. O médico ou o familiar e os pais, detêm o poder através da vigilância. Do mesmo modo, governantes, guardas prisionais, inspectores da Santa Inquisição13 e espiões militares, também se situam na posição de quem detém o poder, tornando-se agentes.

Quando se fala de poder ou estudos de vigilância, o nome Foucault está intrinsecamente ligado à temática. G. Marx define-o mesmo como o avô dos estudos de vigilância contemporâneos (Ball, Haggerty e Lyon, 2012, p.xxvii). Os seus estudos estimularam novas perspectivas no entendimento da vigilância e o seu livro Discipline and Punish (Foucault, 1979) foi fundamental para fomentar novos debates. O tema foi tão estudado por Foucault que aparece em diversas publicações deste e de outros autores. Um dos pontos centrais nos estudos de Foucault é a prisão panóptica dos irmãos Bentham que, per se, levou à elaboração de diferentes teorias. (Ramos, (in press)b)

No entanto, ao enquadrarmos as teorias do poder nesta obra, é importante esclarecer, desde cedo, uma distinção importante. No Senhor dos Anéis, Tolkien faz um tratamento do poder sobretudo ao nível dos efeitos produzidos sobre o seu possuidor e como este o usa nas dinâmicas sociais da Terra Média. Relativamente ao poder que Foucault define como “administrative apparatus” ou controlo governamental e/ou institucional, mencionado em várias publicações (Foucault, 1979, pp.172-173,185,215; Gordon, 1980, p.72; Rabinow, 1984, p.16; McHoul e Grace, 1993, pp.66), é practicamente inexistente. Não porque não exista um claro panóptico na Terra Média, mas porque não existe ligação desse panóptico a um sistema governamental ou institucional que transforme essa observação em memória informativa para uso de um sistema disciplinar continuado. No entanto, existe um claro enquadramento da teoria do poder de Foucault na Terra Média (Drout, 2007, p.541), em todas as suas vertentes.

Como argumenta Colombo (2011), Foucault distingue duas formas diferentes de poder. O primeiro, o poder da soberania, pré-moderno, baseado na visibilidade do soberano e/ou no castigo intermitente e exemplar como forma de manter o controlo. O segundo, o poder disciplinar, moderno, baseado na vigilância contínua, moldando os observados e o seu comportamento social, de modo a preservar o status quo ou atingir objectivos previamente delineados. Esta última forma é definida nas palavras de Perrot, em conversa com Foucault, do seguinte modo: “Here we are [...] preventing people from wrong-doing, taking away their wish to commit wrong. In a word, to make people unable and unwilling” (Gordon, 1980, p.154). No entanto, existe uma constante entre as duas: o poder actua sobre uma relação previamente existente entre duas partes, o agente e o sujeito, tornando-se um resultado e não uma causa para esta relação (McHoul e Grace, 1993, pp.87-88).

Analisemos então cada uma destas formas e a sua representatividade na Terra Média:

a) O Poder Soberano (pré-moderno)

Esta forma de poder está claramente presente na Terra Média. Exemplos disso são Theoden, filho de Thengel, 17º Rei de Rohan; Saruman, “o Branco”, da ordem dos Maiar (que, simbolicamente, deixa de ser “o Branco” à medida que cede à corrupção de Sauron); e Sauron, capitão e servo de Morgoth na Primeira Era e criador d’O Anel14 do Poder que reunia o poder dos outros dezanove anéis da Terra Média (três dos Elfos, sete dos Anões e nove dos Homens mortais).

Dos três, apenas um representa o poder soberano clássico. Theoden é o rei modelo que exerce o reinado por herança da linha de sangue. Mesmo caindo na influência de um feitiço de Saruman, estendido por Gríma (também conhecido por Língua-de-Verme) através do seu discurso ideológico constante, continua no poder, legitimado pela hereditariedade e aceite pelo seu povo, tornando-se num caso de corrupção (mesmo que forçada) que se estende numa rede originada em Sauron. Temos, então, o uso da presença do soberano como extensão do poder de Saruman. Segundo Foucault, Theoden é a representação do poder da soberania (Foucault, 1979, pp.35-36).

Saruman, apesar de representar o poder soberano através do seu comando sobre os restantes Maiar e dos exércitos de Isengard, é o modelo da corrupção como efeito produzido pelo poder sobre o seu possuidor. Este feiticeiro, outrora legitimado pela detenção de um enorme conhecimento, sucumbe à vontade cega de poder. No entanto, adquire novamente estatuto de soberano aliando-se a Sauron e, como seu servo, constrói e torna-se líder de um exército de Uruk-hai para derrotar Theoden em Helm’s Deep. Saruman detém o poder pela imposição da força (própria, do conhecimento e recebida, de Sauron), visibilidade como servo de Sauron e pela reconhecida capacidade discursiva (simbolicamente personificada por Gríma), sendo o único que nunca se arrepende até ao momento da sua morte, revelando-se um personagem completamente plano e despido de vida interior. Saruman é o exemplo do que Hobbes escreveu: “I put for a general inclination of all mankind a perpetual and restless desire of power after power, that ceaseth only in death” (Hobbes, 1651, p.61) ou o que Lord Acton afirmou em 1887: “power tends to corrupt, and absolute power corrupts absolutely” (Shippey, 2000, p.115).

Sauron é a representação simbólica do Mal. Todos os males do mundo primário, contemporâneos de Tolkien e já discutidos na contextualização histórica e social deste artigo, são concentrados neste personagem. Sauron foge ao julgamento dos deuses, depois do seu comandante, e ele próprio, perderem a “Grande Batalha”15. O poder foi-lhe atribuído por Morgoth quando o tornou seu servo e comandante, atribuindo-lhe poderes mágicos de feiticeiro do mal.

No entanto, Sauron, por volta do ano 500 da Segunda Era, começa a reavivar-se e, por volta do ano 1000 da mesma Era, escolhe Mordor para sua fortaleza, dando início à construção da Torre de Barad-dûr, onde viria a colocar o mais ilustrativo símbolo do panóptico de Bentham e Foucault (Foucault, 1979, pp.195-228 e Ramos, (in press)b) e, para Tolkien, a peça central do poder na Terra Média: “the great Eye” ou o Olho de Sauron (figura nesta página).

b) O Poder Disciplinar (moderno)

Em todos os sistemas sociais, não sendo a Terra Média uma excepção, o poder é mediado por um sistema onde agentes procuram impor e manter a obediência de outros àqueles, numa posição de supra-ordenação ou supra-decisão. No mundo primário dos nossos dias, poderíamos considerar o exemplo de um sistema de fiscais que inspeccionam, de forma aleatória e inesperada, estabelecimentos comerciais na procura de incumprimento da lei elaborada pelos deputados na Assembleia da República, os que estão na posição de supra-decisão. Na Terra Média do mundo secundário, estes agentes são, por exemplo, os cavaleiros Nazgûl que, ordenados por Sauron, vagueiam pelas estradas do Shire em busca dos possuidores d’O Anel. Em ambos os casos, existe um sistema de poder mediado em que os fiscais procuram a não conformidade com a regra e aplicam o consequente castigo, no entanto, existe uma diferença que marca o afastamento das teorias de Foucault. O sistema mediado existente na Terra Média não é legitimado pelos seus sujeitos, caindo fora do conceito de institucional, o “administrative apparatus”, proposto por Foucault. Em certa medida, poderíamos afirmar que, neste ponto, o poder soberano e o poder disciplinar se confundem. Por este motivo, Giddens afirma que este tipo de dinâmica, que ele designa como “dialética de controlo”, imposta por qualquer tipo de organização ou associação, deve ser analiticamente separada do poder institucional (1985, pp.9-11).

Porém, quando falamos do poder disciplinar na Terra Média, temos a presença da mais clara ilustração do Panopticismo dos irmãos Bentham e de Foucault, o Olho de Sauron. Este “olho do poder” de Foucault, com o seu “regard partout”, é a representação mitológica do mais cruel e tecnologicamente avançado instrumento da vigilância. Como já tivemos oportunidade de ver em (Ramos, (in press)b), Bentham atesta que, numa situação de vigilância perceptivelmente continuada, os sujeitos impõem a si mesmos uma disciplina de comportamento de acordo com os padrões e a vontade do agente, alterando o seu comportamento social. Torna-se então numa auto-disciplina que resulta, ao nível do sujeito, da aplicação do dispositivo tecnológico da vigilância sobre a relação existente entre as duas partes, tendo como consequência o “empoderamento” do agente.

Na Terra Média, o panóptico de Sauron está presente em todos os momentos da acção, vigiando os sujeitos de forma perceptivelmente continuada com o seu “gaze”, o mesmo de Foucault, e impondo-lhes alterações de comportamento bastante visíveis.

“Then at last his gaze was held: wall upon wall, battlement upon battlement, black, immeasurably strong, mountain of iron, gate of steel, tower of adamant, he saw it: Barad-du^r, Fortress of Sauron. All hope left him.

And suddenly he felt the Eye. There was an eye in the Dark Tower that did not sleep. He knew that it had become aware of his gaze. A fierce eager will was there. It leaped towards him; almost like a finger he felt it, searching for him. Very soon it would nail him down, know just exactly where he was. Amon Lhaw it touched. It glanced upon Tol Brandir – he threw himself from the seat, crouching, covering his head with his grey hood.” (Tolkien, 2009a, pp.338-339)

Mas o panóptico de Sauron não actua sozinho. Juntamente com ele actuam mini-panópticos que, formando uma rede informativa com o instrumento tecnológico principal, espalham geograficamente o alcance da vigilância pela Terra Média. O conceito de mini-panópticos pode ser observado em Andrejevic (2006, p.337). Estes “Little Brothers” são as pedras palantíri que tudo vêem, reúnem informação e estendem a visibilidade do “Big Brother”, o Olho de Sauron.

“'About the palantíri of the Kings of Old,' said Gandalf.'And what are they?''The name meant that which looks far away. The Orthanc-stone was one.''Then it was not made, not made’ – Pippin hesitated – 'by the Enemy?''No,' said Gandalf. 'Nor by Saruman. It is beyond his art, and beyond Sauron's too. The palanti´ri came from beyond Westernesse, from Eldamar. The Noldor made them. Fe¨anor himself, maybe, wrought them, in days so long ago that the time cannot be measured in years. But there is nothing that Sauron cannot turn to evil uses.'” (Tolkien, 2009b, p.154)

Uma descrição mais detalhada das palantíri e dos efeitos que o poder de Sauron exerce sobre os sujeitos, pode ser observado na seguinte passagem:

“Though the Stewards deemed that it was a secret kept only by themselves, long ago I guessed that here in the White Tower, one at least of the Seven Seeing Stones was preserved. In the days of his wisdom Denethor would not presume to use it to challenge Sauron, knowing the limits of his own strength. But his wisdom failed; and I fear that as the peril of his realm grew he looked in the Stone and was deceived: far too often, I guess, since Boromir departed. He was too great to be subdued to the will of the Dark Power, he saw nonetheless only those things which that Power permitted him to see. The knowledge which he obtained was, doubtless, often of service to him; yet the vision of the great might of Mordor that was shown to him fed the despair of his heart until it overthrew his mind” (Tolkien, 2009c, p.100)

Porém, os mini-panópticos não ficam por aqui. A par das pedras palantíri, existem inúmeros espiões ao serviço de Sauron. Quando a irmandade viaja para Mordor, são espiados pelos crebain da Dunlândia, pássaros negros que voam a avisar Sauron da localização do grupo (Tolkien, 2009a, p.244). Estes fazem parte de um vasto grupo de espiões que actua ao serviço de Sauron e estendem o seu raio de acção pela Terra Média.

Analisemos, por fim, um objecto diversas vezes mencionado neste artigo, mas ainda não totalmente explicado do ponto de vista do enquadramento teórico dos estudos de vigilância no Senhor dos Anéis. O Anel (the One Ring). Este anel tem uma dualidade associada que torna mais complexa a sua análise. Sendo um instrumento de poder é também, ao mesmo tempo, um dispositivo da rede de vigilância de Sauron, tornando-se em mais um mini-panóptico.

a) O Anel como Instrumento de Poder

O Anel é transportado por Frodo durante a viagem da irmandade, desde o Shire até Mordor, onde o objectivo é a sua destruição. Durante esta viagem é possível observar como Frodo assume várias identidades, com personalidades diferentes daquela que era a sua, antes de ser o portador d’O Anel. O tratamento dado a um Hobbit, criatura pequena e frágil (como já vimos, representativa da infância de Tolkien) torna-se num tratamento que passa de sujeito a agente. Uma das identidades assumidas por Frodo é a de líder. A irmandade aceita e acata muitas das suas decisões como dados adquiridos e conforma-se com o facto do portador d’O Anel ser o decisor em muitas das opções que têm de ser tomadas durante a viagem.

Ao mesmo tempo, Frodo assume a identidade de Mestre. O exemplo da sua relação com Sam ou Gollum no percurso até Mordor, é exemplo disso, onde ambos os acompanhantes o tratam por “Master Frodo”, adquirindo, eles próprios, a identidade de seus servos (Chance, 2010, p.35). A relação entre Frodo e Gollum é, talvez, o mais representativo exemplo deste microcosmo de poder associado ao Anel. Frodo ameaça-o, por diversas vezes, usando O Anel como “arma de coerção” (Foucault, 1979, pp.128-131) e a submissão de Gollum é evidente, não só no tratamento dado a Frodo mas, também ao acatar toda e qualquer ordem dada por este.

“'Master said so. Master says: Bring us to the Gate. So good Sme´agol does so. Master said so, wise master.' [...] Gollum, however, did not intend to be got rid of, yet. He knelt at Frodo's feet, wringing his hands and squeaking. 'Not this way, master!' he pleaded. 'There is another way. O yes indeed there is. Another way, darker, more difficult to find, more secret. But Sme´agol knows it. Let Sme´agol show you!'” (Tolkien, 2009b, pp.187-188)

Consequência do “empoderamento” de Frodo é também a corrupção da sua alma de Hobbit (a mudança da personalidade bondosa que sempre teve para uma atitude austera e fria) no relacionamento com Sam, quando os dois viajam, sozinhos e perdidos, pelas montanhas.

b) O Anel como Mini-Panóptico

A par deste microcosmos de poder, O Anel desempenha ainda uma função de mini-panóptico. Durante a viagem para Mordor, Frodo cede, por diversas vezes, à tentação de colocar O Anel no dedo, entrando, assim, no mundo do crepúsculo. A entrada neste outro mundo, onde Frodo consegue ver os cavaleiros Nazgûl, torna-o invisível no mundo secundário da Terra Média, mas visível para o Olho de Sauron.

Sempre que Frodo coloca O Anel, oferece a sua localização a Sauron, tornando-se sujeito da vigilância e, ao mesmo tempo, agente de Sauron sobre si mesmo, assumindo uma nova identidade. Tal como Foucault argumenta, o poder é, enquanto parte de uma estrutura mecanizada, uma dinâmica que circula por diversas posições, numa rede orgânica, em oposição a algo que apenas funciona numa estrutura em cadeia hierárquica:

“Power is no longer substantially identified with an individual who possesses or exercises it by right of birth; it becomes a machinery that no one owns. Certainly everyone doesn't occupy the same position; certain positions preponderate and permit an effect of supremacy to be produced” (Gordon, 1980, p.156)

No entanto, ao colocar O Anel e entrando no mundo do crepúsculo, Frodo consegue ver sem ser visto. Este facto é, sem dúvida, uma das principais características do panóptico de Bentham e Foucault, comprovando a ideia d’O Anel como mini-panóptico.

Temos assim uma relação Sauron-Frodo-Anel, bastante complexa, que demonstra que o “empoderamento” do agente existe como consequência da sua própria actuação relativamente aos dispositivos tecnológicos da vigilância e o poder daí resultante é orgânico/móvel.

Foucault apresenta-nos ainda cinco “precauções metodológicas” que devem ser tidas em conta na análise da teoria do poder (McHoul e Grace, 1993, pp.88-90). São elas:

a) A Geografia do Poder

Como acabámos de verificar, o poder não se situa apenas concentrado num único ponto. Durante uma análise, devemos resistir à tentação de localizar um único foco de poder, hierarquizando-o, como o Estado ou o rei. Foucault recomenda que se analise os pontos de poder com relativa autonomia, sejam eles agentes pessoas ou agentes institucionais. Analisando a Terra Média, chegamos à conclusão de que existem tais pontos de relativa autonomia. Por um lado, considerando o mapa, desenhado por Tolkien, podemos comprovar a existência de um triângulo de poder localizado numa posição central da Terra Média, sendo os seus vértices constituídos por Barad-dûr, Isengard e Dol Guldur (ver Apêndice I). Por outro lado, temos a relação de Frodo com O Anel. Esta talvez seja a mais orgânica das relações de poder existente na Terra Média. Enquanto possuidor d’O Anel, Frodo é agente. Enquanto aquele que usa O Anel, Frodo é sujeito. Esta dinâmica de transferência e recepção de poder é uma constante em Frodo.

b) Práticas Efectivas do Poder

Foucault preocupou-se acima de tudo em estudar as tecnologias associadas ao exercício do poder e aos efeitos associados com esse exercício. Deste modo não dedicou especial interesse à matéria dos motivos ou intenções que poderiam levar a mente obsessiva de alguém a querer tornar-se um agente. Da presente análise, temos algumas práticas efectivas de poder que são bastante evidentes na Terra Média. O mais destacado é, sem dúvida, o panóptico de Sauron, ilustrado no “Great Eye” como poder disciplinar. Instrumento supremo da vigilância, este é o ponto central da rede orgânica que alimenta a sua informação através das palantíri, d’O Anel e dos vários espiões espalhados pelo território.

Existe ainda o poder soberano desempenhado por Theoden, Saruman ou o próprio Sauron, como já vimos.

Por fim, temos ainda o poder do conhecimento. Tal como argumenta Foucault:

“We should admit rather that power produces knowledge (and not simply by encouraging it because it serves power or by applying it because it is useful); that power and knowledge directly imply one another; that there is no power relation without the correlative constitution of a field of knowledge, nor any knowledge that does not presuppose and constitute at the same time power relations” (Foucault, 1979, p.27)

Este é, sem dúvida, personificado por Gandalf que, devido ao seu extremo conhecimento e experiência de muitos anos de vida, é reconhecido numa posição de poder e legitimado pelos sujeitos com ele relacionados.

c) A Dinâmica Circular do Poder

Como já vimos, Foucault adverte para a tentação de concentração do poder num único ponto, hierarquizado, nas análises teóricas efectuadas. O poder existe no que poderia ser definido como uma “dinâmica circular” de uma rede orgânica em que o poder passa de posição em posição, não pertencendo apenas a alguém por direito adquirido ou a uma única localização. Na Terra Média podemos observar esta dinâmica na posição do personagem central. Frodo adquire a posição de poderoso, quando se torna portador d’O Anel e volta à sua posição de “normalidade” depois da destruição do mesmo. Por outro lado, podemos ainda observar esta dinâmica no rei Theoden o qual, durante a submissão a Saruman (por feitiço), não tem poder real (apenas simbólico) e, depois da sua libertação por Gandalf, reassume a posição de soberano poderoso. Estas dinâmicas confirmam a ideia de Foucault de que o poder, enquanto estrutura mecanizada, é dinâmico e não tem um possuidor único.

d) A Inversão da Análise Descendente do Poder

Foucault adverte ainda para uma existente tendência de analisar o exercício do poder de uma perspectiva descendente, da posição do aparentemente poderoso, no topo, para o menos poderoso, no fundo da hierarquia. Esta tendência provêm de uma tentação de atribuir o poder às classes dominantes e, como Foucault argumenta, a dominância de classes não representa, per se, a heurística final da teoria do poder.

Na Terra Média também não encontramos tal heurística como solução final da problemática do poder. Existe um “empoderamento” distribuído, através das diversas classes presentes no território, sendo cada uma delas detentora de um particular poder ou tecnologia associada.

Referindo apenas algumas, os Elfos detêm o poder da vida eterna e da beleza, como influência sobre os seus sujeitos. Frodo, em representação da classe dos Hobbits, detém o poder de Mestre soberano no microcosmos que engloba Sam e Gollum durante a viagem. Por fim, os Maiar, classe à qual pertencem Gandalf e Saruman, detêm o poder do conhecimento e da feitiçaria.

e) Os Dispositivos de Conhecimento/Poder

Muitos dos dispositivos de conhecimento e poder foram já descritos neste artigo. Foucault preocupou-se mais com os instrumentos tecnológicos que produzem o conhecimento do que com a ideologia produzida por estes. Podendo o conhecimento, gerado pelos dispositivos, ser verdadeiro ou não, o que é realmente importante é a eficácia da tecnologia na produção desse conhecimento.

Na Terra Média, temos diversos dispositivos tecnológicos de vigilância geradores de conhecimento, sendo os principais, o Olho de Sauron na Torre de Barad-dûr, as pedras palantíri espalhadas pela Terra Média e O Anel.

 

A Retórica do Poder

Tal como acabámos de ver, para Foucault é mais importante a tecnologia do conhecimento e a sua eficácia na alteração do comportamento social do que o conhecimento em si. Como dizem McHoul e Grace sobre Foucault:

“While ideological productions certainly exist, they are much less important than the instruments and procedures which produce them, and what may be called the historical 'conditions' of this knowledge” (McHoul e Grace, 1993, p.90)

No entanto, é possível observar algumas das características do poder da retórica ou da eloquência discursiva como inscrição social da ideologia de Sauron na Terra Média, merecendo, por esse motivo, uma breve reflexão teórica.

Um dos mais ilustrativos exemplos do poder da retórica está presente na relação entre Gríma e Theoden, durante o período do feitiço que Saruman lançou sobre este último.

Gríma exerce o poder de Saruman sobre aqueles que legitimaram Theoden através do discurso envenenado de Gríma, conseguindo a obediência e respeito dos súbditos do rei. Todas as decisões de Theoden são, então, tomadas por Gríma que, aproveitando-se da legitimação do poder soberano de Theoden, inscreve a ideologia de Saruman e Sauron na população do reino de Rohan.

No entanto, este não é o único exemplo do poder discursivo na Terra Média. Como tivemos oportunidade de ver em (Ramos, (in press)a, p.8-9; Rebelo, 1998), existem quatro fases para a inscrição social da ideologia através do poder discursivo.

a) Afirmação

Nesta fase primária da inscrição social da ideologia, o destinador e o enunciador da mensagem fundem-se. No período que antecede a acção do Senhor dos Anéis, Sauron assume ambos os papéis, do “sujeito que diz”, sendo o ponto central e iniciador da difusão da sua própria ideologia. É possível associar esta fase ao período seguinte à Grande Batalha, a Segunda Era, quando Sauron erra pela Terra Média e dá início à construção da Torre de Barad-dûr.

b) Propagação

Na fase da propagação existe uma separação entre o destinador e o enunciador. Os papéis separam-se e Sauron continua como o destinador, enquanto outros personificam o papel do enunciador. É o caso de Saruman e de Gríma que, tentando reunir mais aderentes à causa de Sauron, convencem Theoden (com a ajuda do feitiço de Saruman) a ser mais um enunciador junto do seu povo. Outro caso da propagação é bem visível quando Saruman tenta, através da persuasão discursiva, convencer Gandalf a juntar-se à ideologia de Sauron, facto que acontece durante a primeira conversa que ambos têm na Torre de Isengard.

Os dispositivos retóricos de Saruman são variados e incluem o desejo de aprovação e medo de represálias por parte do seu destinador, adulação interesseira, apelos à pena ou piedade, entre outros (Drout, 2007, pp.589-590; Shippey, 2000, p.75).

c) Publicização

Durante esta fase existe um crescimento ideológico exponencial com a entrada na acção de múltiplos actores que espalham a palavra ideológica. Esta fase tem início quando Saruman constrói os exércitos de Isengard, constituído por milhares de orcs16, que começam a massificação ideológica, espalhando o seu domínio pela Terra Média. Nesta fase, o destinador desaparece imperceptivelmente e lentamente de cena, sendo que a última vez que Sauron é avistado acontece no prólogo. Durante o decorrer da acção na Terceira Era da Terra Média, nunca Sauron é visto. A sua presença é meramente simbólica, através do “Great Eye”, depois desse momento e em toda a restante acção, tornando-se então omnipresente. A sua omnipresença, confundindo-se com o poder soberano, é uma das estratégias da inscrição social da ideologia com mais eficácia ao nível da sua aceitação e legitimação.

d) Massificação

A última fase da inscrição social da ideologia é aquela que não chega a completar-se na acção do Senhor dos Anéis. Antes que a massificação seja atingida e possa emergir o senso comum relativamente à ideologia de Sauron, Frodo e a restante irmandade conseguem, através da resistência ao poder (o contra-poder, como veremos no próximo tópico), destruir O Anel em Orodruin, pondo fim à inscrição social da ideologia de Sauron na Terra Média.

 

A Resistência ao Poder

Existe um forte tratamento do poder e da vigilância no Senhor dos Anéis, como já tivemos oportunidade de demonstrar mas, não sendo tão evidente, existe também um tratamento da resistência a esse poder e a essa vigilância. A resistência na Terra Média está, sem dúvida, ligada a um conceito de moralidade que envolve defender o Bem e lutar contra o Mal. No mundo primário de Foucault, esta resistência está associada ao desenvolvimento de habilidades naturais dos sujeitos sob vigilância em contornar essa mesma vigilância (Foucault, 1979, p.210) e, consequentemente os efeitos do poder. Foucault refere que nas relações de poder existe sempre um proporcional e coexistente contra-poder que serve o propósito de equilibrar as forças em dinâmica activa:

“[the power] must also master all the forces that are formed from the very constitution of an organised multiplicity; it must neutralise the effects of counter-power that spring from them and which form a resistance to the power that wishes to dominate it: agitations, revolts, spontaneous organisations, coalitions - anything that may establish horizontal conjunctions.” (Foucault, 1979, p.219)

Mas Foucault vai ainda mais longe, quando afirma:

“I would suggest [...] that there are no relations of power without resistances; the latter are all the more real and effective because they are formed right at the point where relations of power are exercised; resistance to power does not have to come from elsewhere to be real, nor is it inexorably frustrated through being the compatriot of power. It exists all the more by being in the same place as power; hence, like power, resistance is multiple and can be integrated in global strategies” (Gordon, 1980, p.142)

No âmbito das teorias de Foucault, o contra-poder é tão mais eficaz e eficiente quanto mais dirigido for às técnicas do poder e não ao poder em si mesmo (McHoul e Grace, 1993, p.86). Este direccionamento às tecnologias de vigilância é precisamente o que acontece na Terra Média, quando a irmandade tenta, a todo o custo, evitar a vigilância do panóptico de Sauron, seja ela na forma do “Great Eye”, das pedras palantíri ou dos diversos espiões que servem o “Dark Lord”. Na realidade, não observamos uma resistência ao poder de Sauron, até porque a tentação da corrupção, que deriva de um confronto directo com as forças de poder do Mal, é superior à capacidade de resistência que os sujeitos detêm. Tomemos como exemplo as diversas situações em que Frodo coloca O Anel no seu dedo e entra no mundo do crepúsculo. Em todas elas, a capacidade de resistir ao poder de Sauron diminui. Frodo apercebe-se disso e evita, por todos os meios, colocar O Anel. Os restantes membros da irmandade também têm conhecimento desse facto, agindo sempre no sentido de evitar o uso d’O Anel ou avisando Frodo dos seus efeitos (Gandalf é um dos mais activos nesta última tarefa). Neste contexto, o poder de Sauron é tão forte que, apenas a proximidade d’O Anel, ameaça corromper Frodo até ao ponto da exaustão. Porém, a resistência deste Hobbit é bem sucedida até ao final da acção.

Existem outros exemplos da resistência aos dispositivos tecnológicos do panóptico de Sauron. Depois da vitória dos Ents sobre Isengard, a pedra palantíri de Saruman é recuperada por Pippin, mas Gandalf apressa-se a escondê-la por entre as suas vestes para que o panóptico seja travado. Do mesmo modo, por cada vez que Frodo resiste à colocação d’O Anel, está a evitar ser visto e localizado pelo Olho de Sauron, também travando o panóptico. Por último, o exemplo da reacção do grupo ao esconder-se dos crebain da Dunlândia é mais um exemplo da resistência e anulação da vigilância:

“[...] Sam could see for himself what was approaching. Flocks of birds, flying at great speed, were wheeling and circling, and traversing all the land as if they were searching for something; and they were steadily drawing nearer.'Lie flat and still!' hissed Aragorn, pulling Sam down into the shade of a holly-bush” (Tolkien, 2009a, p.244)

Na Terra Média, é maior a evidência da resistência aos dispositivos tecnológicos de vigilância do que ao poder de Sauron, estando esta história de resistência e de contra-poder na génese da história do Senhor dos Anéis.

 

Conclusão

Uma das principais características dos estudos de vigilância é a sua transversalidade e independência da geografia, etnia, género ou cultura do(s) objecto(s) em análise, podendo desse modo ser aplicados em diversos planos. Este artigo partiu do interesse particular pela obra de Tolkien e também pela curiosidade lógica da aplicação dos estudos de poder e vigilância ao Senhor dos Anéis, invertendo o percurso da origem desta temática que também se encontra na literatura. Passámos, assim, da análise no plano físico para a análise no plano metafísico.

Tolkien viveu numa época rica em conflito social e demonstrações constantes das dinâmicas orgânicas do poder. Foi também uma época em que se ansiava pelo “empoderamento” das classes mais desfavorecidas e do indivíduo como herói de uma geração. O período entre as duas Grandes Guerras e a sua continuação, durante a 2ª Guerra Mundial, foi de grande influência na escrita de Lord of the Rings, obra que é um reflexo da sociedade conturbada que se vivia naqueles anos.

A ascensão do Big Brother, da constante desconfiança e da vigilância, deram o mote a Tolkien para a criação dos seus personagens e dos objectos simbólicos que podemos apreciar na Terra Média. Já antes teria sido possível observar o panóptico de Bentham em Nineteen Eighty-Four (Orwell, 1949), um reflexo diferente da mesma sociedade, mas nunca tão bem ilustrado como foi por Tolkien, na Torre de Barad-dûr, através do Olho de Sauron.

Nesta narrativa, podemos encontrar um excelente retrato da sociedade da primeira metade do século XX, não apenas no seu lado mais sombrio, mas também no seu melhor e mais bucólico paraíso: o Shire.

Tal como Foucault, Tolkien questionou a racionalidade da sua época através das ciências humanas. Foucault incidiu sobre as matrizes da prisão, dos hospitais e dos asilos numa época em que a sociedade estava revoltada com as instituições e Tolkien “ficcionalizou” estas matrizes criando Sauron, os seus seguidores, a região negra de Mordor e as tecnologias de vigilância.

Também de uma forma comum, Tolkien e Foucault, cada um com as suas “armas”, mostraram a sua objecção à introdução de tecnologias de imposição de poder sobre a sociedade.

É, assim, possível observar no Senhor dos Anéis vários aspectos da teoria do poder de Foucault. O poder soberano, onde se incluem personagens como Theoden, Saruman e Sauron e o poder disciplinar, onde se incluem diversas tecnologias de vigilância, entre elas, o Olho de Sauron, as palantíri e os espiões que vagueiam pelas regiões da Terra Média.

Podemos ainda observar diferentes dinâmicas orgânicas nas relações de poder entre os agentes e os sujeitos e, inclusivamente, sujeitos que são agentes e novamente sujeitos, personificando complexas influências que o poder exerce sobre a relação pré-existente entre as duas partes. Existe ainda a dualidade simbólica d’O Anel, sendo objecto de poder soberano e também disciplinar, no papel de mini-panóptico, confirmando a existência de algumas vertentes das teorias de Foucault na acção do Senhor dos Anéis relativamente à dinâmica circular do poder, incluindo as formas de contra-poder/resistência, como habilidades naturais que emergem dos sujeitos sob influência dessa dinâmica.

Contrariando um pouco Foucault, efectuámos, ainda, o exercício teórico da tentativa de enquadrar o poder da retórica nesta obra e, depois da análise efectuada, é possível concluir que Tolkien também se apoiou nesta forma de poder para enriquecer a narrativa e dinamizar as relações de poder já existentes.

De acordo com Foucault, relativamente ao sistema do poder disciplinar (moderno), não se trata de aplicar o castigo directamente sobre o corpo mas sim de capturar a sua alma (1979, pp.16-17). E foi assim, falhando a quarta fase da inscrição social da ideologia de Sauron e perante a resistência do contra-poder em oposição às tecnologias de vigilância, que a Terra Média foi salva pela derrota do panóptico e poupadas as almas dos seus povos.

 

Referências

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Notas

Para a numeração das referências bibliográficas em formato de ebook, foi usada a letra em tamanho mínimo e o iPad colocado na vertical.

1 Michel Foucault (1926–1984) foi um filo´sofo france^s, teo´rico social, historiador das ideias e cri´tico litera´rio. As suas teorias filoso´ficas abordaram o que e´ o poder e como funciona, o modo como controla o conhecimento e como e´ usado como forma de controlo social. Os seus escritos sobre o poder, o conhecimento e o discurso, te^m sido amplamente influentes nos ci´rculos acade´micos.

2 Tecnologia é uma palavra composta de origem grega, te????????, formada pela palavra techne (te???, "arte, técnica ou comércio") e logos (?????, "conhecimento"). Assim, tecnologia define-se como o conjunto de conhecimentos relacionados com processos e técnicas para fabricar objetos que desempenham determinada função.

3 Huxley, A., 1932. Brave New World. London: Chatto & Windus.

4 Orwell, G., 1949. Nineteen Eighty-Four. London: Secker and Warburg.

5 Kafka, F., 1925. Der Prozess. Berlin: Verlag Die Schmiede.

6 John Ronald Reuel Tolkien (1892–1973), de nacionalidade inglesa, foi um escritor, poeta, filólogo e professor universitário, mais conhecido como o autor dos êxitos literários The Hobbit, Lord of the Rings e The Silmarillion, tendo este último sido publicado post mortem pelo seu filho: Christopher.

7 Tolkien identificou O Senhor dos Anéis como "three-decker novel" numa carta enviada a Caroline Whitman Everett. "The Imaginative Fiction of J.R.R. Tolkien" (dissertação de Mestrado, Florida State University, 1957), p.87.

8 Para um estudo mais completo sobre as línguas inventadas por Tolkien, recomendamos a leitura de "Languages Invented by Tolkien" (Drout, 2007, pp.332-344).

9 Em 1911, enquanto estudantes no King Edward's School em Birmingham, Tolkien e três amigos, Rob Gilson, Geoffrey Bache Smith e Christopher Wiseman, formaram uma sociedade secreta chamada T.C.B.S. - "Tea Club and Barrovian Society", nome que aludia ao seu gosto e prática da degustação de chá nas lojas de Barrow e, secretamente, na biblioteca da escola (Carpenter, 1977, pp.53-54; Drout, 2007, pp.635-636).

10 Campo de concentração de Auschwitz (em Alemão: Konzentrationslager Auschwitz) era a maior rede de campos de extermínio, construído e operado pelo 3º Reich na Polónia anexada pelos alemães durante a 2ª Guerra Mundial.

11 Graffiti (palavra de origem inglesa; singular: graffito) é a designação dada aos escritos ou pinturas efectuadas ilicitamente numa parede ou outra superfície de um local público.

12 Região noroeste da Terra Média, onde residem os Hobbits.

13 A Santa Inquisição foi um grupo de instituições pertencentes ao sistema judicial da Igreja Católica Romana, cujo objectivo era combater a heresia e os seus praticantes. Teve início na França do século XII e foi mais tarde expandida a outros países europeus, bem como aos impérios coloniais espanhóis e portugueses nas Américas, Ásia e África.

14 O Anel (em inglês: The One Ring), também conhecido por “Ruling Ring”, é o anel secretamente produzido por Sauron no fogo subterrâneo de Mordor que, por magia, reúne os poderes dos outros anéis existentes na Terra Média.

15 A Grande Batalha foi o evento que marcou o fim da Primeira Era e o início da Segunda Era da Terra Média. Nesta batalha, Morgoth e Sauron foram derrotados, ficando Sauron como um ser errante na Terra Média.

16 Um orc é um indivíduo da raça mitológica de criaturas humanóides, geralmente descritas como brutas, agressivas e repulsivas. As feições tendem a ser grotescas (geralmente parecidas com o que seria uma mistura entre macaco e porco) e a cor da sua pele varia entre o preto, o cinzento e o verde. As origens dos orcs são atribuídas aos escritos de Tolkien, onde a sua existência é, simbolicamente, oposta à dos Elfos (o Mal em oposição ao Bem), representando os inimigos da luz e tudo o que é sagrado, puro e verdadeiro.

 

Agradecimentos

Dr. Mark Andrejevic, pela sua generosidade e disponibilidade ao ter enviado o manuscrito do livro “iSpy: Surveillance and Power in the Interactive Era” e, assim, permitir o enriquecimento da pesquisa efectuada.

Dra. Paula Ramos, pela sua incansável e minuciosa leitura deste artigo em busca de incorrecções gramaticais e pelas sugestões ao nível da língua portuguesa.

Patrícia Torres, por ser a minha maior crítica, fazendo-me ver “o outro lado” quando este me foge. O seu sentido estético e crítico é brilhante.

Por fim, mas não menos significativo, um grande agradecimento à Dra. Oksana Danchevskaya, pelo suporte e inspiração nos momentos mais difíceis da investigação e redacção deste artigo.

 

Apêndice I

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