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Laboreal

versão On-line ISSN 1646-5237

Laboreal vol.14 no.1 Porto jul. 2018

http://dx.doi.org/10.15667/LABOREALXIV0118BM 

PESQUISA EMPÍRICA

 

O espaço experiencial da dor: sofrimento, corpo e inscrição social depois do acidente de trabalho entre trabalhadores industriais portugueses

El espacio experiencial del dolor: sufrimiento, cuerpo e inscripción social tras un accidente de trabajo entre trabajadores industriales portugueses

L'espace expérientiel de la douleur: souffrance, corps et inscription sociale après l'accident de travail parmi les travailleurs industriels portugais

The experiential spectrum of pain: suffering, body and social inscription after the work accident among Portuguese industrial workers

 

 

Bruno Monteiro (1) e Virgílio Borges Pereira (2)

(1) Instituto de Sociologia da Universidade do Porto Faculdade de Letras da Universidade do Porto Via Panorâmica s/n 4150-564 - Porto

bjrmonteiro@gmail.com

(2) Departamento de Sociologia da Faculdade de Letras e Instituto de Sociologia da Universidade do Porto Faculdade de Letras da Universidade do Porto Via Panorâmica s/n 4150-564 - Porto

jpereira@letras.up.pt

 


RESUMO

Este artigo apresenta resultados preliminares de um estudo sociológico sobre a experiência de sofrimento físico e social de trabalhadores portugueses que sofreram um acidente de trabalho. Por via da combinação entre métodos distintos, usando um inquérito extensivo de uma amostra nacional de trabalhadores sinistrados e entrevistas em profundidade, este artigo identifica as principais caraterísticas que definem a experiência vivida dessas dores e explora, a partir da Análise de Correspondências Múltiplas, as virtualidades concedidas por uma leitura relacional da informação em termos sociológicos. Além de mostrar que a desigualdade está intensamente associada à (re)produção de acidentes laborais, este artigo argumenta que as inscrições sociais e os dispositivos institucionais têm um contributo importante na definição das experiências de sofrimento pós-sinistro.

Palavras-chave: pós-acidente; incorporação; dor; divisões sociais; experiência vivida

 


RESUMEN

Este artículo presenta los resultados preliminares de un estudio sociológico sobre la experiencia física y social del sufrimiento en trabajadores portugueses que han tenido un accidente de trabajo. A través de la combinación de distintos métodos, utilizando una encuesta extensiva en una muestra nacional de trabajadores víctimas de accidentes y entrevistas en profundidad, este artículo identifica las principales características que definen la experiencia vivida de esos dolores. Asimismo, explora, a partir del Análisis de Correspondencia Múltiple, las virtualidades concedidas por una lectura relacional de la información en términos sociológicos. Además de mostrar que la desigualdad se encuentra intensamente asociada a la (re)producción de accidentes laborales, este artículo explica cómo las inscripciones sociales y los dispositivos institucionales contribuyen a la definición de las experiencias de sufrimiento tras el siniestro.

Palabras-clave: pos-accidente; incorporación; dolor; divisiones sociales; experiencia vivida

 


RÉSUMÉ

Cet article présente des résultats préliminaires d'une étude sociologique sur l'expérience de la souffrance physique et sociale des travailleurs portugais qui ont eu un accident de travail. À partir d'une combinaison de différentes méthodes, et en utilisant des résultats d'une enquête extensive d'un échantillon national de travailleurs sinistrés et des entretiens en profondeur, cet article identifie les principales caractéristiques de l'expérience vécue de ces douleurs et explore, à partir de l'usage de l'Analyse de Correspondances Multiples, les virtualités d'une lecture relationnelle de l'information en termes sociologiques. Outre la démonstration de l'importance de l'association entre les inégalités sociales et la (re)production des accidents de travail, l'article argumente que les positions sociales occupées par les agents et les dispositifs institutionnels ont une contribution importante dans la définition des expériences de la souffrance après le sinistre.

Mots-clés: post-accident ; incorporation ; douleur ; divisions sociales ; expérience vécue

 


ABSTRACT

This paper discusses some preliminary results of a mix-method sociological study about the experience of physical and social suffering lived by Portuguese workers involved in work accidents. Based on an extensive survey to a national sample of injured workers and in-depth interviews, the paper identifies the major characteristics that define how such physical and social pain was experienced and explores, with the help of Multiple Correspondence Analysis, the gains obtained from a socio-relational reading of this information. Besides showing that inequality is heavily inscribed in the (re)production of work accidents, the paper argues that social inscriptions and institutional devices play a major role in the definition of the post-accident pain experiences felt by the surveyed injured workers.

Keywords: Post-accident; embodiment; pain; social divisions; lived experience

 


1. Introdução: uma «guerra civil» invisível em Portugal

Ao longo dos treze anos compreendidos entre 2000 e 2021, teve lugar uma «guerra civil» em Portugal, somando 3196 vítimas mortais. Dando uma tangibilidade inesperada à expressão utilizada por Karl Marx, este número é apenas a expressão mais dramática dos acidentes de trabalho ocorridos durante aquele período de tempo, compreendendo de 215 632 a 248 097 acidentes todos os anos e implicando uma perda anual entre 6 088 165 e 7 624 893 dias de trabalho. O impacto do acidente sobre as dimensões pessoais, as práticas quotidianas e o apoio institucional vê-se, por vezes, estudado em separado, isolando cada uma dessas vertentes em pesquisas parciais e parcelares. A investigação integrada sobre a sua imbricação comum numa mesma trajetória biográfica – por outras palavras, num mesmo corpo socializado (Wacquant, 1998) – apela para uma «sociologia de indivíduos» mais do que para uma «sociologia de variáveis». Usando os materiais empíricos reunidos num recente projeto de investigação, este artigo procura apresentar o espaço experiencial da dor que se constitui para distintos grupos de trabalhadores industriais que sofreram acidentes de trabalho em Portugal. A partir deste ponto de vista analítico, podemos visualizar as associações e contrastes estabelecidos entre as dimensões da dor aparentemente mais «pessoais», os dispositivos institucionais usados para o tratamento e a reabilitação, e as redes e práticas que sustentam a vida prosaica destes trabalhadores depois da ocorrência de um acidente laboral. Neste artigo, tentou-se suplementar a leitura relacional dos dados estatísticos que informa esta abordagem sociológica com os contributos trazidos pelas observações etnográficas e epidemiológicas que interrogam as vertentes sociais e culturais da incorporação, até nos seus aspetos mais imediatamente tidos por «biológicos» (Lock and Kaufert, 2001; Scheper-Hughes and Lock, 1987; Holmes, 2013). Deste modo, procurou-se renovar a rearticulação entre as dimensões «objetivas» e «subjectivas» das consequências biográficas pós-sinistro, que permanecem incomunicáveis entre elas quando são analiticamente distribuídas por distintas especializações académicas e científicas.[i]

2. Acidentes de trabalho, experiências de dor e situação socioinstitucional

Lidar com uma noção carregada de preconceitos de senso comum, como sucede com «acidente de trabalho», implica a concretização de ruturas epistemológicas abruptas – ou, vendo-as de outro modo, aproveitar os próprios obstáculos que se colocam durante a pesquisa como oportunidades para desafiar os limites assumidos, ainda que inconscientemente, a respeito do desenvolvimento de uma sociologia da incorporação dos acidentes de trabalho alinhada com os incentivos trazidos por uma epidemiologia social (vd. Krieger, 2005). Por razões de concisão, vamos selecionar um grupo de quarto princípios de interpretação sobre acidentes que trabalho que, especialmente resilientes entre as conceções populares e eruditas a seu respeito, mereceram ser desafiadas desde o início da nossa pesquisa. Primeiro, o acidente não é o fim da história. No entanto, quando comparado com a pletora de estudos sobre as determinantes sociais e ecológicas dos acidentes de trabalho, o número de pesquisas sobre o pós-sinistro é mais escasso (Ghisi et al, 2012). Tem grande relevância o estudo das consequências sociais, institucionais e pessoais que derivam da ocorrência de um acidente de trabalho, que tende a deslizar para a «invisibilidade» ainda que seja literalmente incorporado pelo trabalhador sinistrado (Daubas-Letourneux, 2012). Há «mais do que o olho avista» para além do horizonte do acidente, incluindo implicações que são físicas e mentais, tal como são sociais e emocionais (Lax and Klein, 2008).

Segundo, a própria trajetória pós-acidente está estruturada por vetores sociológicos que explicam variações na magnitude da dor, no enquadramento institucional da reabilitação ou reinserção, ou nas redes de sociação – em suma, as consequências do acidente estão longe de ser eles próprias acidentais em termos sociais (Desmarez, Godin e Renneson, 2007). Em oposição a uma «des-socialização» da própria noção de acidente de trabalho (Renoir, 1980), é importante sublinhar a necessidade de suplementar as interpretações ergonómicas, tecnológicas ou psicológicas por meio da ênfase sobre o encastramento sociológico dos trabalhadores sinistrados.

Terceiro, as reverberações biográficas do acidente de trabalho não significam tomar individualmente os trabalhadores como recetores passivos de um «destino». São desenvolvidas estratégias para lidar com o acidente e as suas implicações, ainda que de maneira sensível aos atributos sociais, culturais e económicos que caracterizam os trabalhadores em questão – uma circunstância que pode dobrar o viés inicial criado pela estruturação social sobre a incidência assimétrica de acidentes de trabalho entre as distintas ocupações e setores. Aliás, a disponibilidade e as utilizações das «tecnologias de cuidado» são elas próprias condicionadas por tais mediações (Lovelock, 2012).

Por último, existe uma limitação especificamente analítica, nascida de tradições disciplinares que tendem a excluir entre si o social e o biológico, o económico e o interpessoal, o psicológico e o institucional como componentes independentes dentro do universo das pesquisas sobre o pós-sinistro (Dembe, 2001). Daqui surge a necessidade de desenvolver uma abordagem teórico-metodológica que sobreponha as lentes física, psicológica e sociológica no estudo das trajetórias biográficas subsequentes ao acidente de trabalho, incluindo os processos de regresso ao trabalho (Franche e Krause, 2002). A presente pesquisa foi uma tentativa para mostrar, pela mera composição da equipa de investigação, que é possível superar na prática os cânones mais consagrados que separam sociologia e psicologia – e, deste modo, resgatar o projeto maussiano de uma sua imbricação (Mauss, 1969). Tendo este propósito mais abrangente, este artigo procura precisamente construir e explorar o espaço experiencial da dor que nasce de um acidente de trabalho.

3. Método

O projeto de investigação “Regresso ao trabalho depois do acidente: superar obstáculos” foi promovido pela Associação Nacional dos Deficientes Sinistrados no Trabalho (ANDST), com o apoio do Instituto Nacional para a Reabilitação, entre Março e Novembro de 2016. A equipa de investigação era constituída por sociólogos e psicólogos do trabalho, visando estabelecer uma plataforma comum que fosse capaz de exibir, discutir e, desejavelmente, corrigir os enviesamentos, limitações ou desconhecimentos mútuos decorrentes de culturas de conhecimento específicas e das próprias divisões do trabalho científico (“social” vs. “individual”, “objetivo” vs. “subjetivo”, ...), enquanto beneficiava de uma combinação de heranças paradigmáticas e das respetivas técnicas de inquirição. O projeto teve como peça central a aplicação de um inquérito por questionário a sinistrados do trabalho. A construção deste beneficiou da realização prévia de 12 entrevistas em profundidade, que permitiram a reconstrução das trajetórias biográficas e institucionais de indivíduos sinistrados em acidentes de trabalho. Juntamente com a revisão de investigações prévias sobre o tema, estas entrevistas foram usadas para selecionar os elementos sociais e profissionais críticos para a comparação das situações dos entrevistados antes e depois do acidente, para mapear os enquadramentos institucionais durante os processos de reabilitação e de reparação e para identificar os aspetos pessoais e coletivos da fase pós-acidente contemplados no desenho do inquérito.

O inquérito continha 53 questões, divididas por três núcleos principais de pesquisa: caracterização sociográfica; circunstâncias e consequências do acidente; e a vida quotidiana depois do acidente. Baseado num diálogo com investigação sociológica anterior sobre a estruturação do território português (Ferrão, 2017) e sobre o significado das divisões sociais e da sua relevância nos acidentes de trabalho (Pinto e Queiroz, 1990; Pinto, 2000), o inquérito deu prioridade à recolha de informação sociográfica sobre o sexo, a idade, o estatuto marital, a composição familiar, a escolarização, o local de nascimento e de residência, a situação laboral, o desemprego, assim como sobre a profissão atual dos respondentes. Privilegiando o estudo enraizado das circunstâncias e consequências do acidente (Burdof et al., 1997; Dembe, 2001, Keller, 2001), o inquérito permitiu a reunião de informação significativa sobre os acidentes dos inquiridos, incluindo medidas extensivas sobre os impactos físicos e psicológicos nos indivíduos, como o Nottingham Health Profile [ii], e o apoio institucional que receberam. Para além da descrição do acidente, o inquérito reteve elementos adicionais sobre a situação social dos inquiridos antes e depois do acidente – tipo de incapacidade, fonte de rendimento, profissão e calendário de trabalho diário, entre outras informações, foram especificamente documentadas no inquérito. O estudo da (re)constituição da vida quotidiana dos inquiridos depois do acidente, inspirado por resultados anteriores de pesquisas sobre o quotidiano de trabalhadores portugueses (Monteiro, 2014; Pereira, 2011), envolveu o inventário de informação sobre a dinâmica familiar, o tempo de lazer, as práticas de sociabilidade e as perspetivas sobre o futuro pessoal.

Foi, assim, construída uma amostra nacional representativa de população sinistrada no trabalho. Esta reteve o género e a região como critérios de representatividade, de acordo com a distribuição do número de acidentes de trabalho registada nas últimas estatísticas nacionais disponíveis à data sobre acidentes de trabalho (2010). A seleção dos casos individuais foi realizada, de modo aleatório, a partir da base de dados da própria ANDST, com a exceção de casos de associados com mais de dez anos de inscrição, uma vez que tal circunstância poderia impedir um relato detalhado do acidente. Através do estabelecimento de limiares para as dimensões de género e regionais consideradas, os potenciais enviesamentos contidos na base de dados revista (4097 indivíduos) foram controlados, pelo menos, nestas dimensões. O género e a região foram retidos como variáveis de seleção para a estruturação da amostra por serem as informações mais exaustivas disponíveis na base de dados da Associação. Não obstante limitações intrínsecas, esta opção assegurou a robustez e a confiança necessária à utilização da amostra, para além de permitir um uso adequado dos recursos limitados disponíveis para o desenvolvimento deste projeto de investigação. Os detalhes sobre a gravidade do acidente eram de difícil recolha, ou encontravam-se incompletos, na base de dados da Associação, razões que estiveram subjacentes à respetiva não inclusão na construção da amostra. O mesmo se aplica às diferentes ocupações profissionais. As definições das profissões dos membros no momento do acidente estavam registadas de modo impreciso ou equívoco na base de dados, tornando, por isso, arriscada qualquer tentativa de as agregar em categorias mais vastas – na verdade, foi apenas o inquérito que permitiu determinar com maior precisão as profissões dos inquiridos.

O inquérito permitiu a reunião de informação relativa a um total de 366 indivíduos, de acordo com um procedimento que fora desenhado para ultrapassar quer as limitações do projeto (urgência temporal, equipa de pesquisa com apenas dois investigadores no terreno juniores a tempo parcial, restrições financeiras) quer as limitações decorrentes de uma população a inquirir geograficamente dispersa e fisicamente fragilizada (e, frequentemente, constrangida economicamente, dados os perfis sociais detetados durante os contatos). Depois da seleção de casos elegíveis para o inquérito, um contato telefónico com os potenciais inquiridos era estabelecido com o objetivo de explicar as ambições do inquérito e o pedido de colaboração efetuado; quando a colaboração era objeto de aceitação, um exemplar do inquérito era enviado pelo correio com instruções e um envelope para a respetiva devolução. Uma segunda chamada telefónica era efetuada para confirmar a receção do inquérito e para dar instruções adicionais ou resolver questões decorrentes do contato com o inquérito. Beneficiando das visitas ocasionais à Associação, ou de iniciativas desta, um número mais pequeno de membros da Associação (N=40) foi inquirido pessoalmente sempre que preenchiam as exigências metodológicas. Nestes casos, era solicitado a colaboradores permanentes da Associação para aplicarem eles próprios o inquérito aos membros conhecidos naquelas visitas. Dos 760 inquéritos distribuídos destes dois modos, recolheram-se 366, perfazendo uma taxa de devolução de 48,2%. Durante a aplicação do inquérito, os colaboradores cumpriram as instruções metodológicas mais rigorosas, o que foi confirmado pela presença daqueles dois membros juniores da equipa de pesquisa de terreno nas instalações da Associação, circunstância que lhes permitiu também verificar pessoalmente todos os inquéritos recebidos pelo correio.

A amostra constituída pelos inquéritos válidos era fundamentalmente constituída por homens (77%), 40% dos respondentes tinham 55 ou mais anos. Para os objetivos da pesquisa aqui apresentada, a informação reunida nos inquéritos foi usada para construir uma base de dados, submetida posteriormente a um tratamento e a uma interpretação necessários à sua leitura relacional, que apresentaremos na secção seguinte deste texto. De modo a maximizar o potencial da análise, a nossa leitura relacional focar-se-á nos inquiridos com uma ocupação profissional específica no período do acidente, retendo, em concreto, os trabalhadores que exerciam profissões enquanto operários industriais, o que corresponde a 186 inquiridos. 93% destes trabalhadores são homens. 39% tinham 55 ou mais anos. Dada esta concentração, optou-se por não fazer incidir a análise sobre o significado das divisões de género.

4. As modalidades da experiência posterior ao acidente de trabalho dos operários industriais: uma leitura relacional

Tomando por referência a informação apresentada na Tabela 1, desenvolvemos um procedimento iterativo que permitiu a produção de uma leitura sociológica relacional (Bourdieu, 1979ª) do impacto do acidente de trabalho na vida quotidiana dos operários industriais inquiridos no âmbito da pesquisa. Esta leitura relacional, informada pelos princípios da Análise Geométrica de Dados e realizada com base numa Análise de Correspondências Múltiplas [iii] (ACM) “específica” [iv](Le Roux & Rouanet, 2010), retém 26 questões, 62 modalidades, organizadas de acordo com três temas: sociabilidade quotidiana e atividades culturais depois do acidente (nove variáveis, 23 modalidades); a relação dos inquiridos com diferentes instituições com um papel na definição dos respetivos acidentes (nove variáveis; 18 modalidades); e a leitura dos inquiridos sobre a natureza e o impacto do acidente de trabalho que sofreram (oito variáveis; 21 modalidades). A Tabela 2 apresenta os eixos, valores próprios, taxas de variância e taxas de variância modificadas da ACM “específica”, que desenvolvemos com recurso ao programa de análise e tratamento de dados SPAD versão 7. 4. A análise retém os resultados dos dois primeiros eixos, que têm uma taxa modificada de 78,36% e, como veremos, são suscetíveis de uma leitura relacional significativa tanto em termos estatísticos como sociológicos.

 

 

Representações do impacto do acidente (R)

Práticas quotidianas após acidente de trabalho (sociabilidade e cultura) (P)

Apoio Institucional (I)

Perfil legal da incapacidade (6 modalidades)

Praticar desporto (3 modalidades; 1 passiva)

Empresa (2 modalidades)

Ter dor depois do acidente (2 modalidades)

Jardinagem (3 modalidades; 1 passiva)

Tribunal (2 modalidades)

Ter medo depois do acidente (2 modalidades)

Tarefas domésticas (3 modalidades)

Companhia de seguros (2 modalidades

Ter vergonha depois do acidente (2 modalidades)

Atividades sociais (3 modalidades; 1 passiva)

Hospital (2 modalidades)

Ter um mau futuro por causa do acidente (2 modalidades)

Leitura (3 modalidades)

Sindicato (2 modalidades)

Sentir-se desconfortável com o próprio corpo por causa do acidente (2 modalidades)

Ir ao café (3 modalidades)

Família e amigos (2 modalidades)

Reabilitação física depois do acidente (3 modalidades; 1 passiva)

Sair com amigos (3 modalidades)

ACT (2 modalidades)

Reabilitação psicológica depois do acidente (3 modalidades)

Andar a pé (3 modalidades)

Instituto Nacional de Reabilitação (2 modalidades)

Ira o cinema (3 modalidades)

Segurança Social (2 modalidades)

Oito variáveis; 21 modalidades

Nove variáveis; 23 modalidades

Nove variáveis; 18 modalidades

Tabela 1: variáveis usadas na leitura relacional da experiência do pós-acidente de trabalho.

 

 

 

Eixos

Valores próprios

Taxas de Variância (%)

Taxas de Variância Modificada (%)

1

0,1646

12,13

50,01

2

0,1309

9,65

28,35

3

0,0789

5,09

6,9

4

0,0690

4,71

4,47

Total dos valores próprios: 1,3564

 

 

Tabela 2: Análise de Correspondências Múltiplas “Específica” – Eixos, Valores Próprios, Taxas de Variância e Taxas de Variância Modificada.

A Figura 1 apresenta a nuvem dos indivíduos dos 186 trabalhadores industriais que foram submetidos ao procedimento de análise estatística enunciado.

 

 

 

A Tabela 3 e a figura 1 apresentam o primeiro eixo da ACM “específica”, que tem uma taxa modificada de 50,01%, com as suas 25 categorias mais significativas. As modalidades aqui representadas contribuem com 78,2% da variância do eixo. Em suma, no lado direito podemos encontrar as modalidades que dizem respeito à prática pelos operários industriais inquiridos de uma sociabilidade moderada e ao usufruto de um apoio institucional relevante (com mobilizações de diferentes instituições, i.e. Segurança Social ou Sindicatos) associadas a sentimentos acrescidos de dor (com uma contribuição global de 51,0% para a variância do eixo). No lado esquerdo da figura, associam-se as experiências definidas pela ausência de práticas de sociabilidade e de apoio institucional (com uma contribuição de 27,2% para a variância do eixo).

 

 

Contribuições

Variáveis e modalidades

Eixo 1

Esquerdo

Direito

(R) Dores insuportáveis por causa AT

Tenho dores insuportáveis +

2.0

(R) Vergonha por causa AT

Sinto vergonha

4.0

(R) Não me sinto bem corpo por causa AT

“Não me sinto bem com o meu corpo”

3.0

(P) Prática da jardinagem após AT

Jardinagem +

1.9

(P) Arranjos domésticos após AT

Arranjos domésticos -

2.7

Arranjos domésticos +

2.8

(P) Prática de leitura após AT

Leitura -

3.3

Leitura +

2.3

(P) Ida ao café após AT

Café -

3.7

Café +

2.6

(P) Sair com amigos após AT

Amigos -

5.5

Amigos +

3.8

(P) Ida ao cinema após AT

Cinema +

2.5

(I) Apoio do tribunal após AT

Tribunal +

2.6

Tribunal -

2.5

(I) Apoio da seguradora após AT

Seguradora +

1.8

Seguradora -

2.4

(I) Apoio do hospital após AT

Hospital: +

3.8

Hospital -

2.3

(I) Apoio do sindicato após AT

Sindicato +

2.5

(I) Apoio familiar após AT

Família +

3.1

Família -

4.8

(I) Apoio ACT após AT

ACT +

4.8

(I) Apoio INR após AT

INR +

4.6

(I) Apoio Segurança Social após AT

Seg. social +

2.9

Total das contribuições

27.2

51.0

Tabela 3: 25 modalidades significativas representadas na Figura 2e respetivas contribuições para o eixo 1.

 

 

 

A Tabela 4 e a Figura 3 representam os resultados do segundo eixo “específico”, que tem uma taxa modificada de 28,35%, com as suas 24 categorias mais significativas. As modalidades aqui em questão contribuem com 85,2% da variância do eixo. No lado superior do eixo, para além da presença de sentimentos de medo, de vergonha e de dor, que se acompanharam de um seguimento psicológico, podemos identificar a associação entre estas leituras e o reconhecimento da importância do apoio institucional obtido no Sindicato ou na Segurança Social, assim como o significado da ausência de práticas de sociabilidade e de atividades culturais (em conjunto, estas modalidades contribuem com 59,5% da variância do eixo “específico”). Em oposição, no lado inferior do eixo, podemos encontrar experiências definidas por contribuições significativas de diferentes práticas de sociabilidade e de atividades culturais que são desenvolvidas de modo intenso ou moderado (25,7% de contribuição para a variância do eixo).

 

 

Contribuições

Variáveis e modalidades

Eixo 2

(R) Dores insuportáveis por causa do acidente de trabalho (AT)

Cima

Baixo

“Tenho dores insuportáveis” +

2.9

(R) Tenho medo por causa AT

“Tenho medo”

4.6

(R) Tenho vergonha por causa AT

“Sinto vergonha”

7.6

(R) Futuro mau por causa da causa AT

“Acho que o futuro vai ser mau”

6.6

(R) Não me sinto bem corpo por causa AT

“Não me sinto bem com o meu corpo”

7.6

(I) Acompanhamento psicológico após AT

Sim

4.3

(P) Praticar desporto após AT

Desporto -

2.2

Desporto +

5.5

(P) Jardinagem após AT

Jardinagem +

2.3

(P) Arranjos domésticos após AT

Arranjos domésticos -

3.3

Arranjos domésticos +

1.8

Arranjos domésticos ++

1.8

(P) Leitura após AT

Leitura -

1.8

(P) Ir ao café após AT

Café -

2.9

Café +

1.8

(P) Amigos após AT

Amigos -

1.8

Amigos ++

3.4

(P) Cinema após AT

Cinema -

2.9

Cinema +

4.3

(P) Andar a pé após AT

Andar a pé -

5.3

Andar a pé +

2.9

Andar a pé ++

1.9

(I) Apoio ACT após AT

ACT +

2.3

(I) Apoio Segurança Social após AT

Seg. Social +

3.4

Total das contribuições

59.5

25.7

Tabela 4: 24 modalidades significativas representadas na Figura 3 e respetivas contribuições para o eixo 2.

 

 

 

Em síntese, entre os trabalhadores industriais inquiridos podemos, assim, identificar modalidades alternativas de experiência do pós-sinistro. Um primeiro eixo estrutura estas experiências de acordo com a importância de uma articulação entre o desenvolvimento de uma sociabilidade moderada, um enquadramento institucional significativo e sentimentos de dor. Tais modalidades de experiência do pós-sinistro contrastam com as que se definem por um cenário alternativo marcado pela ausência de sociabilidade e de enquadramento institucional. Um segundo eixo configura as experiências do pós-sinistro em torno de um quadro relacional onde se aliam sentimentos de medo, vergonha e dor, acompanhados por seguimento psicológico, por apoios institucionais específicos e pela ausência de atividade sociabilitária. Estas modalidades distinguem-se das experiências marcadas pelo envolvimento moderado ou intenso em matéria de sociabilidade e de atividades culturais.

A informação sobre variáveis suplementares é apresentada nas Tabelas 2 a 4 e nas Figuras 4 a 6. Como se verifica nestas, as experiências do pós-acidente de trabalho dos trabalhadores industriais em estudo podem também ser descritas com a ajuda de informação suplementar.

A Tabela 5 e a Figura 4 apresentam informação sobre os grupos etários destes trabalhadores industriais. As experiências do pós-acidente de trabalho identificadas no eixo 1 são caraterizadas por diferenças etárias “notáveis”: adultos-jovens (35-44 anos), no lado direito do eixo, opõem-se aos trabalhadores industriais mais velhos (>65) e aos adultos-envelhecidos (55-64), no lado esquerdo. O segundo eixo específico também é marcado por desvios etários “notáveis”: neste caso, os adultos (45-54 anos) e adultos-jovens (35-44) diferenciam-se dos mais novos (25-34) dos trabalhadores industriais que se posicionam na parte inferior da figura.

 

 

Coordenadas

Grupos etários: modalidades

Frequências absolutas

Eixo 1

Eixo 2

25-34

9

0,27

-0,60

35-44

42

0,40

0,10

45-54

58

0,04

0,08

55-64

63

-0,26

-0,02

>= 65

9

-0,47

-0,07

Sem informação

3

Não representada

Não representada

Tabela 5: Frequências absolutas e coordenadas nos eixos 1 e 2 da informação sobre a idade dos respondentes.

 

 

 

A Tabela 6 e a Figura 5 apresentam informação sobre a relação entre os resultados das variáveis ativas da ACM “específica” e o capital cultural institucionalizado dos inquiridos, aqui medido em títulos escolares e em anos de educação formal (Bourdieu, 1979a: 21-28; 1979b: 5-6). As experiências dos trabalhadores industriais documentadas no primeiro eixo são marcadas por desvios “notáveis” de capital cultural, opondo os trabalhadores com 12 anos de escolaridade aos que têm quatro anos ou menos. As diferenças de capital cultural no segundo eixo não são significativas.

 

 

Coordenadas

Capital cultural: modalidades

Frequências absolutas

Eixo 1

Eixo 2

4 anos ou menos

6 anos

9 anos

12 anos

Sem informação

58

-0,32

0,14

48

-0,07

0,07

43

0,18

-0,11

33

0,36

-0,28

2

Não representada

Não representada

Tabela 6: Frequências absolutas e coordenadas nos eixos 1 e 2 da informação sobre o capital cultural dos trabalhadores industriais inquiridos.

 

 

 

A Tabela 7 e a Figura 6 apresentam informação sobre os grupos de atividade económica dos trabalhadores industriais inquiridos. Neste caso, e uma vez que os trabalhadores partilhavam a mesma classe social, uma análise que consagrasse uma divisão interna da mesma dotada de maior detalhe apresentou-se como analiticamente pertinente, o que impede a presunção de uma homogeneidade estrita desta classe e, pelo contrário, salienta clivagens internas dotadas de significado sociológico. Assim, os grupos de atividade económica dos trabalhadores industriais foram usados para caraterizar as experiências em estudo. No eixo 1 não foi possível identificar diferenças significativas entre os grupos de atividade económica dos trabalhadores. Contudo, o eixo 2 envolve um desvio “notável” entre trabalhadores com profissões no comércio e reparações, no setor dos transportes e da construção e aqueles que, na região inferior da figura, possuem profissões no setor da eletricidade e do gás.

 

 

Coordenadas

Grupos de atividade económica: modalidades

Frequências absolutas

Eixo 1

Eixo 2

Indústria transformadora

Indústria do gás e da eletricidade

Indústria da construção

Comércio e reparações

Indústria dos transportes e armazenamento

Outras situações

44

0,07

0,02

20

0,08

-0,50

46

-0,20

0,01

12

-0,21

0,33

47

0,18

0,14

15

Não representada

Não representada

Tabela 7: Frequências absolutas e coordenadas nos eixos 1 e 2 da informação sobre os grupos de actividade económica dos trabalhadores industriais inquiridos.

 

 

 

5. Notas finais

Os resultados de uma leitura relacional da informação aqui reunida merecem uma atenção sociológica. A incidência de acidentes de trabalho define-se por uma configuração plural de propriedades e práticas de natureza social. Tal como pudemos demonstrar com a ajuda de uma análise de correspondências múltiplas «específica», as consequências pós-sinistro implicam, para os trabalhadores aqui inquiridos, experiências que têm características fenomenológicas e institucionais distintas, bem como relevantes inscrições sociais. Neste estudo, mostrámos como, num primeiro momento, o contraste entre sociabilidade moderada e cobertura institucional ativa e, por outro lado, desvinculação institucional e interacional configura a experiência vivida após-acidente dos trabalhadores industriais inquiridos. Num segundo momento, mostrámos que a prevalência de sofrimento vivido, de um lado, e a adesão a atividades culturais e de sociabilidade, de outro, caracteriza outro vetor destas experiências.

Além de patentearem diferenças de idade com características específicas, as experiências dos trabalhadores aqui em questão parecem ser informadas por propriedades sociais com significado. Documentadas a respeito do primeiro eixo, as divisões que levam a proteção institucional e sociabilidade de média intensidade, por um lado, e a desvinculações, por outro, são compreensíveis a partir das diferenças em termos de diferenças culturais: a modalidade de capital cultural dominante entre os trabalhadores industriais («12 anos») constitui uma propriedade daqueles que têm proteção institucional e sociabilidade moderada, enquanto a desvinculação é característica daqueles que possuem as formas mais frágeis de capital cultural («Quatro anos ou menos»). Em particular, esta modalidade da experiência pós-sinistro – constituída por desvinculação sociabilitária e ausência de cobertura institucional significativa – tem, portanto, uma relação com a escassez de informação e competências culturais (títulos e qualificações, por exemplos). Dada a importância que tem a informação, o acesso a ela e a sua utilização expedita, na superação das contrariedades que se sucedem aos acidentes de trabalho, esta relação entre escassez de cobertura institucional e frágil capital cultural atesta um impasse. Estas constatações merecem uma atenção da parte das políticas públicas comprometidas em solucionar tais desafios sociais e individuais.

Fomos ainda capazes de mostrar que as divisões que exprimem sofrimento físico e social e, por contraste, as que definem uma sociabilidade ativa e diversificada, estão associadas a distintos grupos de atividade económica: trabalhadores do comércio, dos transportes e da construção tendem a estar mais expostos ao sofrimento aqui representado; práticas de sociabilidade mais expressivas e abrangentes são mais típicas de trabalhadores do gás e eletricidade. Para além da natureza do acidente e do impacto socialmente construído que tem sobre a vida destes trabalhadores sinistrados, a configuração deste segundo eixo específico lembra-nos da importância que têm as inscrições económicas destes trabalhadores (dimensão da empresa e a sua relação com as qualificações da mão-de-obra, por exemplo) e as regulações económica e política dos seus setores de atividade (presença do Estado, tradições sindicais, etc.). A composição económica e sócio-política que parece sustentar este segundo eixo específico, tal como os questionamentos adicionais sobre as implicações deste exercício para o estudo das classes laboriosas e as suas relações com as instituições, parecem justificar que se continue o estudo relacional aqui apresentado de maneira preliminar.

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Manuscrito recibido en:janeiro/2018

Aceptado tras peritaje: junho/2018

 

COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO?

Monteiro, B. & Borges Pereira, V. (2018). O espaço experiencial da dor: sofrimento, corpo e inscrição social depois do acidente de trabalho entre trabalhadores industriais portugueses. Laboreal,14(1), 37-48. http://dx.doi.org/10.15667/laborealxiv0118bm

 

[i] Uma primeira versão deste texto foi apresentada oralmente na sessão de trabalho Rising Inequalities, realizado na Universidade de Aalborg (campus de Copenhaga), a 14 e 15 de setembro de 2017, organizado com o apoio do NOS-HS - The joint committee for Nordic research councils within the humanities and social sciences . Os autores gostariam de agradecer a Vegard Jarness (Universidade de Bergen) pelos comentários que realizou nessa altura sobre a apresentação. Os resultados aqui apresentados foram desenvolvidos a partir da pesquisa realizada no âmbito do supramencionado projeto «Regresso ao trabalho após acidente: superar obstáculos», promovido pela Associação Nacional de Deficientes Sinistrados no Trabalho, com o apoio do Instituto Nacional de Reabilitação. Para a consolidação do argumento e da abordagem deste artigo foram cruciais os debates desenvolvidos pelo projeto de investigação “Novos terrenos para a construção: mudanças no campo português da construção e seus impactos nas condições de trabalho no século XXI” (PTDC/IVC-SOC/5578/2014-016621), que é financiado por Fundos FEDER através do Programa Operacional Competitividade e Internacionalização - COMPETE 2020 e por Fundos Nacionais através da FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Os autores gostariam de agradecer ainda aos dois revisores anónimos que comentaram a versão inicialmente submetida para publicação.

[ii] Em síntese, o Nottingham Health Profile (NHP) mede o impacto das condições de saúde e de doença nas rotinas da vida quotidiana (entre outras, hábitos de prática ou de sono, emoções e dor, mobilidade física), cobrindo analiticamente a intensidade das distorções trazidas para os domínios do trabalho e do emprego, do trabalho de casa e da dinâmica familiar, ou das interações sociais e do lazer. Ainda que seja habitualmente aplicado para explorar os impactos da doença, o NHP também permite uma aproximação às expressões “subjetivas” e aos sintomas de acontecimentos traumáticos e às consequências pós-ferimento, tais como derrames vasculares (Teasdale e Engberg, 2010) ou traumas múltiplos (Dimopoulou et al, 2004). A versão portuguesa utilizada foi a adaptada por investigadores da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Centro de estudos e Investigação em Saúde, sob responsabilidade de Pedro Lopes Ferreira, editada em 1997.

[iii] A Análise de Correspondências Múltiplas é um método estatístico especialmente vocacionado para fazer “emergir padrões dos dados”, de acordo com as formulações de um dos seus principais criadores, J.-P. Benzécri (1969). O procedimento toma por referência uma matriz que relaciona um número potencialmente alargado de “Questões” com variáveis categoriais, apresentadas em coluna, e de “Indivíduos”, que escolheram apenas uma modalidade por questão, apresentados em linha. O método procura uma redução de informação a partir da definição de um espaço ótimo de menor dimensionalidade. Com recurso à elaboração de uma tabela disjuntiva, o método permite a definição de uma nuvem de indivíduos e de uma nuvem de categorias com a mesma dimensionalidade e variância (Le Roux e Rouanet, 2010: 5-10).

[iv] A ACM “específica” desenvolve-se com recurso aos mesmos procedimentos de uma ACM básica, mas envolve a restrição da análise a categorias de referência de uma ou mais variáveis, sendo outras transformadas em modalidades passivas, que não entram, por isso, nos procedimentos de cálculo (Le Roux e Rouanet, 2010: 62-64).

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