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Revista Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia

versão impressa ISSN 1646-2122

Rev. Port. Ortop. Traum. vol.21 no.1 Lisboa mar. 2013

 

CASO CLÍNICO

 

Cirurgia de salvamento de membro no tratamento de sarcomas ósseos em idade pediátrica. Será uma alternativa segura e eficaz à amputação?

 

Sara LimaI; João CorreiaI; Rui RibeiroI; Nuno AlegreteI; Jorge CoutinhoI; Gilberto CostaI

I. Serviço de Ortopedia. Centro Hospitalar São João. Porto. Portugal.

 

Endereço para correspondência

 

RESUMO

Nos últimos 30 anos tem-se assistido a uma melhoria na taxa de sobrevida e de salvamento dos membros dos doentes com sarcomas das extremidades e, hoje em dia, a cirurgia de salvamento de membro constitui uma opção válida na grande maioria destes doentes. Existem numerosas opções para a reconstrução esquelética após a resseção de tumores ósseos, nomeadamente o transporte ósseo com osteogénese em distração.
Os autores descrevem dois casos de sarcomas ósseos em idade pediátrica, nos quais o controle local da doença foi obtido pela sua resseção alargada seguida de reconstrução do defeito por transporte ósseo usando um fixador externo monoplanar. A ocorrência de complicações teve um papel determinante na evolução pós-operatória, no entanto, o resultado final aos 6 anos é bastante satisfatório, com mobilidades completas dos membros afetados e retorno às atividades normais em ambos os casos.
Atualmente, a cirurgia de salvamento de membro está indicada sempre que exista possibilidade de obter margens de resseção alargadas e sem comprometer a funcionalidade do membro. Estudos comparando a amputação com a resseção alargada do tumor têm obtido resultados sobreponíveis na sobrevida a longo prazo. A osteogénese em distração pode regenerar eficazmente o osso para a reconstrução de defeitos extensos após a excisão de sarcomas em crianças, sem afetar a sobrevida a longo prazo e a qualidade de vida. O ponto crítico é a duração do tratamento e todos os esforços devem ser feitos no sentido de encurtá-la para que este tipo de tratamento se torne mais atraente.

Palavras chave: Cirurgia de salvamento de membros, transporte ósseo, osteogénese em distração, sarcomas ósseos, idade pediátrica.

 

ABSTRACT

In the last 30 years, there has been an improvement in the survival rate of patients with sarcomas and in the salvage of limbs, and today most patients are offered limb-salvage surgery. There are a number of options for skeletal reconstruction after bone tumor resection, such as bone transport with distraction osteogenesis.

The authors describe two cases in which there was local control of the disease by extensive resection of tumors after a satisfactory response to neoadjuvant chemotherapy, and reconstruction of the defect by bone transport using a monolateral external fixator. The occurrence of complications compromised the evolution. However, the result after 6 years is very encouraging, with complete range of movement of the affected limbs and return to normal activities being achieved in both cases.

Currently limb sparing surgery is indicated in cases where it is possible to have extended resection margins without compromising the functionality of the limb. Studies comparing amputation with wide resection of the tumor have obtained similar results concerning the long-term survival. Distraction osteogenesis can successfully regenerate bone for reconstruction of extensive defects after the excision of sarcomas in children, without affecting long-time survival and quality-of-life. The critical point is the duration of treatment and all efforts should be done to shorten it so that the treatment becomes more appealing.

Key words: Limb-salvage procedures, bone transport, distraction osteogenesis, bone sarcomas, pediatric.

 

INTRODUÇÃO

Até há poucas décadas, o tratamento cirúrgico dos sarcomas passava quase exclusivamente pela amputação do membro afectado. A partir dos anos 70-80, os avanços na quimioterapia, avaliação radiológica, técnica cirúrgica e na tecnologia de materiais e implantes conduziram a uma melhoria dramática na taxa de sobrevida de doentes com sarcomas, modificando a estratégia cirúrgica no sentido do salvamento do membro[1, 2]. Atualmente, 80 a 85% dos doentes com tumores ósseos malignos primários dos membros (ex: osteossarcoma, sarcoma de Ewing, e condrossarcoma) são tratados eficazmente com ressecção alargada e preservação do membro afetado.
Quando a excisão cirúrgica dos tumores é exequível, a abordagem do defeito ósseo resultante é difícil. Muitos métodos estão descritos na literatura, nomeadamente, enxertos ósseos vascularizados e não-vascularizados, próteses adaptadas, aloenxertos intercalares e, mais recentemente, osteogénese em distração[3-6]. As vantagens da osteogénese em distração incluem a formação de osso com as mesmas propriedades biomecânicas do osso preexistente e a possibilidade de encurtar o tempo de consolidação, exceto se a consolidação entre o osso novo e o osso adjacente não ocorrer.
Os autores apresentam dois casos de sarcomas ósseos em idade pediátrica, submetidos resseção alargada e reconstrução do defeito através de transporte ósseo com osteogénese em distração.

 

CASOS CLÍNICOS

Dois doentes do sexo masculino, de 6 e 12 anos, procuraram observação médica por dor e massa palpável na face anterior da porção proximal da perna. Após estudo imagiológico e histológico, foi feito o diagnóstico de Sarcoma de Ewing (caso 1 – Figura 1A) e osteossarcoma (caso 2 – Figura 2A) da tíbia proximal.

 

Figura 1

 

Figura 2

 

Os doentes foram, desde inicio, orientados e acompanhados por uma equipe multidisciplinar de Oncologia, Ortopedia Infantil e Medicina Física e de Reabilitação. A presença de doença metastática foi excluída.
Em ambos os casos procedeu-se ao controlo local da doença por resseção alargada dos tumores após resposta satisfatória à quimioterapia neoadjuvante, seguido de reconstrução do defeito pela técnica do transporte ósseo (Figura 1B e 2B). Foi realizada uma osteotomia monofocal para permitir o transporte de um segmento ósseo usando um fixador externo monoplanar. O transporte ósseo teve inicio aos 8 dias de pós-operatório e o índice de consolidação óssea médio foi de 18,5 dias/cm (Figura 1C e 2C). A avaliação da peça operatória revelou um tumor com margens livres amplas e 100% de quimionecrose. Nenhum dos doentes foi submetido a quimioterapia adjuvante.

 

Na fase final do transporte ósseo, houve a necessidade de colocação de enxerto corticoesponjoso autólogo da crista ilíaca de forma a completar o defeito ósseo na sua porção mais proximal (Figura 1D).

 

Diversas complicações foram identificadas durante este processo, tais como a não-consolidação do enxerto de ilíaco com o segmento de transporte ósseo em ambos os casos, com necessidade de recorrer a enxerto de perónio vascularizado (caso 1 – Figura 1E) ou enxerto intertibioperoneal (caso 2 – Figura 2D); pseudartrose no local de osteotomia (caso 2 – Figura 2E) que motivou nova osteotaxia da tíbia com sistema híbrido com anel semi-circular metafisário proximal combinado com a colocação de enxerto intertibioperoneal autólogo e de Bone Morphogenetic Protein-2. No caso 1 (Figura 1), a ocorrência de uma queda motivou uma fractura do terço médio da tíbia, que evoluiu para pseudartrose, com necessidade de osteossíntese com placa e parafusos (Figura 1F). Salienta-se ainda o diagnóstico acidental de doença de Perthes na anca contralateral no caso 1, sem que o doente tenha apresentado qualquer sintomatologia e cuja evolução radiográfica foi favorável.

 

Ao fim de 6 anos após a cirurgia, os dois casos apresentam consolidação clínica e imagiológica com mobilidades completas do joelho e tornozelo (Figuras 1G e 2F). Em nenhum dos casos se verificou recidiva local do tumor ou metastização. O caso 1, com 12 anos, foi submetido a epifisiodese do membro contralateral por dismetria de 10 cm que, em apenas dois meses, já permitiu uma correcção de 2 cm. Regressou às actividades normais, embora com limitações, maioritariamente devido ao receio do doente. No caso 2 (Figura 2), conseguiu-se uma compensação total de uma dismetria de 5 cm com o uso de palmilha. De momento com 18 anos, o doente apresenta uma recuperação funcional completa e retomou as atividades normais praticamente sem limitações. Neste caso, a aplicação do Musculoskeletal Tumor Society Rating System2 para avaliação clinica da extremidade afetada, revelou uma capacidade funcional normal de 93%, comparada com 60% no caso 1.

 

 

DISCUSSÃO

Atualmente, a maioria dos doentes com tumores malignos das extremidades podem ser tratados com cirurgia de salvamento do membro.
Estudos comparando a amputação com procedimentos de salvamento de membro têm chegado a resultados sobreponíveis na sobrevida a longo-prazo[7-10], desde que o tumor primário possa ser completamente removido, após resposta satisfatória à quimioterapia pré-operatória para diminuir o risco recidiva local. Não parece haver diferenças significativas nos outcomes de qualidade de vida entre os procedimentos de salvamento de membro e a amputação[10, 11]; no entanto, alguns estudos encontraram melhor outcome funcional nos doentes submetidos ao primeiro tratamento [7, 10, 13]. Antes de considerar um procedimento de salvamento, a doença precisa de ser corretamente estadiada e o doente avaliado numa abordagem multidisciplinar, em centros com experiência no tratamento dos sarcomas. Assim sendo, atualmente, a cirurgia de salvamento de membro está indicada em doentes com bom prognóstico a longo-prazo e em que seja possível ter margens de resseção alargadas sem comprometer a funcionalidade do membro. A reconstrução final deve funcionar tão bem ou melhor que uma prótese adaptada após amputação.
Os defeitos ósseos criados pelos procedimentos de salvamento de membro podem ser reconstruídos por diversos métodos, mas a incidência de complicações como fractura, atraso de consolidação ou pseudartrose, deformidade e infecção, são elevadas[3-6] e requerem uma reabilitação exaustiva.
Nos casos apresentados, a ocorrência de complicações teve um papel determinante no prolongamento do tratamento e no atraso da recuperação. Em ambos os casos, a proximidade do tumor à fise proximal da tíbia motivou uma extensão muito proximal da resseção, impedindo assim o preenchimento completo do defeito ósseo pelo transporte ósseo. O enxerto de osso ilíaco, usado para completar este defeito residual proximal, não consolidou com o segmento de transporte ósseo, o que motivou a realização de enxerto de perónio vascularizado e intertibioperonial, no caso 1 e 2, respetivamente. No entanto, apesar do tempo e recursos dispendidos no tratamento destas complicações, todas elas foram tratadas com sucesso e o resultado aos 6 anos é bastante animador.
O osso regenerado por osteogénese em distracção, nomeadamente pela técnica de transporte ósseo, tem condições para fornecer resistência biomecânica, estabilidade e durabilidade. A reconstrução por este método resulta num membro estável, evitando as complicações associadas com a substituição protésica ou a utilização de aloenxerto, além de fornecer inserção para ligamentos, tendões e músculos, o que conduz a uma performance funcional aceitável na maioria dos casos[14, 15].
O transporte ósseo é um método seguro e eficaz na correcção de defeitos ósseos após resseção alargada de sarcomas em crianças, possibilitando a preservação do membro envolvido, sem prejudicar o risco de recorrência, a sobrevida a longo prazo e a qualidade de vida. No entanto, a taxa de complicações deste método não é desprezível, pelo que os pais devem ser alertados ab initio da morosidade e complicações associadas a este tipo de procedimento.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Conflito de interesse:

Nada a declarar.

 

Endereço para correspondência

Sara Lima
Rua das Magnólias, 59
4825 102 Santo Tirso
Portugal
saralimaraujo@gmail.com

 

Data de Submissão: 2012-08-02

Data de Revisão: 2012-12-30

Data de Aceitação: 2012-01-21

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