SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.15 número4Vida saudável e bem-estar: contributos para a Saúde Coletiva no Séc. XXIHábitos de saúde dos turistas que frequentam os cruzeiros no rio Douro índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

Servicios Personalizados

Revista

Articulo

Indicadores

Links relacionados

  • No hay articulos similaresSimilares en SciELO

Compartir


Motricidade

versión impresa ISSN 1646-107X

Motri. vol.15 no.4 Ribeira de Pena dic. 2019

http://dx.doi.org/10.6063/motricidade.19867 

ARTIGO ORIGINAL

Sexualidade e Saúde: estudo de comportamentos sexuais e de vigilância da saúde em jovens adultos

Sexuality and Health: a study of sexual behaviors and health surveillance in young adults

Maria José Santos1[*], Carlos Almeida1, Anabela Figueiredo1, João Castro1, Fátima Cardoso1, Filomena Raimundo1, Maria do Carmo Sousa1

1 Escola Superior de Saúde, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal

Endereço para correspondência | Dirección para correspondencia | Correspondence


 

RESUMO

Foi realizado um estudo transversal, descritivo-correlacional, com os objetivos de caracterizar comportamentos sexuais e de vigilância da saúde de jovens adultos e conhecer os fatores a eles associados. A amostra ficou constituída por 171 jovens adultos (19,9% rapazes e 81,1% raparigas), com uma média de idade de 21 anos, e a frequentar uma instituição de ensino superior do norte de Portugal. A informação sobre características sociodemográficas, comportamentos sexuais e de vigilância da saúde foi obtida através de um questionário. No tratamento dos dados foi utilizada a estatística descritiva e inferencial (qui-quadrado). Da análise de resultados observou-se que nos últimos 12 meses 93,0% dos participantes tiveram relações sexuais e 77,0% utilizaram contraceção, sendo o método mais usado o preservativo (35,7%), embora em 38,6% dos jovens o seu uso tenha sido inconsistente. Os comportamentos de risco sexual foram mais frequentes nos rapazes, e consistiram em ter parceiros ocasionais (p<0,001) e no uso de álcool (p<0,001) associado às relações sexuais. É importante continuar a investir na educação sexual dos jovens adultos, para que estes possam fazer escolhas mais informadas e melhorem a adesão à vigilância de saúde sexual e reprodutiva.

Palavras-chave: comportamentos sexuais, jovens adultos, vigilância de saúde.


 

ABSTRACT

A descriptive-correlational and cross-sectional study was carried out to characterize the sexual behaviors and health surveillance of young adults and to determine the factors associated with them. The sample consisted of 171 young adults (19.9% male; 81.1% female), with a mean age of 21 years attending a high education institution in the north of Portugal. Information on sociodemographic characteristics, sexual behaviors, and health surveillance were obtained through a questionnaire. Data analysis was based on descriptive and inferential statistics (chi-square). It was observed that in the last 12 months, 93.0% of the participants had sexual intercourse, of which 77.0% always used a contraceptive method, and the condom was the most used (35.7%); nonetheless, 38.6% of young people showed an inconsistent use. Sexual risk behaviors are more frequent in male students and consist of having casual partners (p<0.001) and alcohol (p<0.001) associated with sex. It is essential to continue investing in young adult sexuality education, allowing them to make more informed choices and to improve the adherence to sexual and reproductive health surveillance.

Keywords: Sexual behavior; young adults; health surveillance


 

Introdução

A saúde sexual amplamente entendida como parte essencial da vida dos indivíduos, pode influenciar consideravelmente o seu bem-estar físico, emocional, mental e social e ter reflexos na qualidade de vida. A capacidade para os indivíduos alcançarem um bom nível de saúde sexual depende do acesso à informação e aos cuidados de saúde sexual e reprodutiva (SSR), do conhecimento dos riscos e consequências associadas à atividade sexual, e de um contexto promotor da saúde sexual (World Health Organization [WHO], 2015).

O início da vida adulta é uma fase particularmente vulnerável, não só pelas tarefas desenvolvimentais como pelos novos contextos de socialização, laborais e académicos, potenciadores de alguns fatores de risco. Os comportamentos sexuais de risco estão frequentemente associados ao uso inconsistente do preservativo, à multiplicidade de parceiros sexuais, à curta duração das relações amorosas (Blayney, Lewis, Kaysen, & Read, 2018) e ao consumo de substâncias psicoativas e álcool (Logan, Koo, Kilmer, Blayney, & Lewis, 2015). Estes comportamentos justificam em parte a manutenção das elevadas taxas de infeções de transmissão sexual (IST), gravidez indesejada e interrupção voluntária da gravidez nas faixas etárias mais jovens (Kann et al., 2016; WHO, 2015). O acesso universal a cuidados de saúde e métodos contracetivos constitui uma forma privilegiada de diminuir a gravidez indesejada e as IST. Contudo, continuam a existir barreias e assimetrias no acesso aos serviços de SSR por parte dos jovens (Sociedade Portuguesa de Ginecologia [SPG] & Sociedade Portuguesa de Contraceção [SPC], 2015). Assim, tendo em conta que o conhecimento detalhado e sistemático dos comportamentos sexuais é um dos aspetos fundamentais para a criação de programas de promoção da saúde sexual, pareceu-nos pertinente estabelecer como objetivos: caracterizar comportamentos sexuais e de vigilância da saúde dos jovens adultos e identificar fatores relacionados com estes comportamentos.

Método

Realizámos um estudo transversal e descritivo-correlacional.

Amostra

Da amostra orientada por um princípio não probabilístico, fizeram parte 171 estudantes que já tinham tido relações sexuais, sendo 80,1% do sexo feminino e 19,9% do masculino, com uma média de idades de 21 anos (M=21,26±3,72). Frequentavam uma instituição de ensino superior da região norte de Portugal. Eram originários do meio urbano 42,1%, 41,5% do meio rural e 16,4% do urbano-rural. A maioria vivia num núcleo familiar (46,2% com o pai/mãe).

Instrumentos

Foi usado um questionário de autopreenchimento, construído para o estudo, com questões sobre características sociodemográficas e comportamentos sexuais bem como de vigilância da saúde reprodutiva e informação sobre sexualidade e saúde sexual.

Procedimentos

O projeto foi submetido à apreciação de uma comissão de ética (Doc. 31/CE/2014, parecer nº 0/2015), que certificou a sua conformidade com o previsto na Declaração de Helsínquia. Autorizada a realização do estudo foi solicitada a participação aos estudantes, sendo informados das finalidades e objetivos do mesmo, e da garantia da participação voluntária, do anonimato e da confidencialidade dos dados individuais. A recolha de dados decorreu em contexto de sala de aula, sendo asseguradas as mesmas condições de participação a todos os sujeitos.

Análise estatística

Para o processamento de dados, foi utilizado o programa Statistic Package for the Social Sciences (SPSS) na versão 25.0. No tratamento de dados utilizámos a estatística descritiva (frequências, medidas de tendência central e de dispersão) e inferencial (Qui-quadrado), de acordo com o tipo de variáveis em estudo. No estudo da relação entre as variáveis, definimos como nível de significância o valor de p<0,05.

Resultados

Nos comportamentos sexuais, observou-se que no grupo, a 1ª relação sexual aconteceu entre os 11 e os 23 anos (M= 17,09 ± 1,77). Mais de dois terços dos jovens (77,2%), referiu mútuo consentimento para a relação. Para 5,8% a primeira relação sexual ocorreu por acaso e 3,0% referiram ter sido por pressão ou persuasão do parceiro. A maioria utilizou contraceção (95,9%), sendo o método mais usado o preservativo (73,3%). Nos últimos 12 meses 93,0% dos participantes tiveram relações sexuais, sendo que, 77,0%, utilizaram sempre contraceção e apenas 2,9% referiu não o fazer. A escolha do método contracetivo na maioria dos casos (66,7%) foi conjunta, e os métodos de eleição foram o preservativo (35,7%), a pílula (34,5%) ou a combinação dos dois (33,3%). A dupla contraceção, considerada como o método contracetivo mais adequado a esta faixa etária, foi mais utilizada pelas raparigas (36,5%) que pelos rapazes (20,6%). A maioria dos jovens (92,4%), referiu ter tido informação sobre sexualidade na escola. As principais fontes de informação foram os professores (73,7%) e a internet (44,4%). Relativamente à vigilância de saúde sexual verificou-se que 44,4% dos jovens nunca utilizou os serviços de SSR, e dos restantes foram as raparigas que mais os utilizaram (raparigas=63,0% vs rapazes=23,5%; p<0,001). No que respeita à adoção de comportamentos sexuais de risco, nos últimos seis meses, 38.6% dos jovens referiram não ter usado preservativo de forma consistente nas relações sexuais com penetração. Os rapazes reportaram uma utilização mais consistente do preservativo (rapazes=72,6% vs raparigas=54,0%; p=0,039). A prática de sexo com parceiros ocasionais foi referida por 25,0% dos jovens, 19,9 % disseram só ter ocorrido uma vez e 4,1% ter acontecido várias. O consumo de álcool e de drogas associado às relações sexuais foi indicado por 44,4% e 7,4% dos participantes, respetivamente.

Os resultados referentes às variáveis estudadas são apresentados na Tabela 1, onde é possível constatar que a variável sexo determina diferenças significativas nos comportamentos sexuais de risco (p<0,001), com os rapazes a apresentarem mais parceiros ocasionais e o uso de álcool associado às relações sexuais. Na variável proveniência também estão presentes diferenças estatisticamente significativas (p<0,026), sendo no grupo dos jovens provenientes do meio urbano-rural, que há maior proporção de casos de sexo com associação de drogas. Uma constatação interessante e pouco esperada é o facto de a proporção de jovens que utilizou o preservativo de forma consistente ser maior no grupo que refere nunca ter utilizado os serviços de SSR (p<0,026).

 


(clique para ampliar ! click to enlarge)

 

Discussão

Dos resultados é possível afirmar que a maioria dos jovens era sexualmente ativa, utilizava como método contracetivo preferencial, o preservativo e/ou a pílula. Estes resultados confirmam a tendência de vários estudos nacionais sobre o tema (Pimentel, Preto, Alves & Monteiro, 2016; Santos, Ferreira & Ferreira, 2017). Verifica-se também que os jovens continuam a fazer uma utilização inconsistente do preservativo. Alguns dos estudos mencionam que este comportamento de não adesão pode estar relacionado sobretudo com a alegada redução no prazer, a tendência para procura de sensações sexuais mais marcada nos jovens (Voisin, King, Schneider, Diclemente, & Tan, 2012) e a perceção de invulnerabilidade face ao risco sexual (Blayney et al., 2018). Os estudantes, sobretudo os rapazes, utilizam pouco os serviços de SSR. Estes dados podem traduzir dificuldades no acesso dos jovens aos serviços de SSR, conforme resultados do último estudo nacional sobre práticas contracetivas em que 50% das jovens, dos 20 aos 29 anos, sexualmente ativas e a usar contraceção, não os utilizaram (SPG & SPC, 2015).

Dos comportamentos de risco observou-se que as relações sexuais associadas ao consumo de álcool e os parceiros ocasionais foram os mais frequentes, sobretudo nos rapazes. Estes resultados são semelhantes aos de outros estudos realizados com jovens do ensino superior e pensa-se que o contexto académico potencia o consumo excessivo de álcool e o envolvimento em práticas de sexo ocasional (Logan et al., 2015). Contrariamente ao expectável observa-se que é no grupo de jovens que faz vigilância para a saúde sexual e reprodutiva que se encontra a menor proporção de jovens que usa o preservativo de forma consistente. Associando esta constatação ao facto de neste grupo existir uma menor proporção de jovens com parceiros ocasionais, poderão explicar-se os resultados, uma vez que os jovens tendencialmente utilizam mais o preservativo quando desconhecem o passado sexual do seu parceiro (Maia, 2010).

Conclusões

Os comportamentos de risco, nomeadamente as relações sexuais desprotegidas ou sobre o efeito de álcool e drogas, são uma realidade ainda muito presente nos jovens. Acresce o facto de existir uma subutilização dos serviços de SSR disponíveis. Embora este estudo, pela técnica de amostragem utilizada e pelo reduzido tamanho amostral não nos permita tirar conclusões generalizáveis, dos resultados percebe-se a necessidade de um esforço comum, jovens, famílias, comunidades escolares e serviços de saúde, para a conceção de estratégias que minimizem o risco na vivência da sexualidade e potencializem a saúde e bem-estar. Seria desejável o recurso a um estudo longitudinal com uma amostra randomizada para estudar a evolução dos comportamentos sexuais ao longo do tempo após uma intervenção sistemática na área da SSR. Isto porque, as questões relacionadas com os comportamentos de risco sexual e falta de vigilância de SSR em jovens adultos são particularmente preocupantes, pelos efeitos a curto e longo prazo na saúde reprodutiva e porque é nesta etapa de desenvolvimento que o jovem vai consolidar muitos dos comportamentos de saúde que vai ter ao longo da sua vida.

 

REFERÊNCIAS

Kann, L., McManus, T., Harris, W., Shanklin, S. L., Flint, K., Hawkins, J., … Zaza, S. (2016). Youth Risk Behavior Surveillance - United States, 2015. Centers for Disease Control and Prevention, 65(6), 1-171. DOI: 10.15585/mmwr.ss6506a1.         [ Links ]

Blayney, J. A., Lewis, M. A., Kaysen, D., & Read, J. P. (2018). Examining the influence of gender and sexual motivation in college hookups. Journal of American College Health, 15, 1-9. DOI: 10.1080/07448481.2018.1440571.         [ Links ]

Logan, D. E., Koo, K. H., Kilmer, J. R., Blayney, J. A., & Lewis, M. A. (2015). Use of drinking protective behavioral strategies and sexual perceptions and behaviors in U.S. college students. Journal of Sexual Research, 52 (5), 558-569. DOI: 10.1080/00224499.2014.964167.         [ Links ]

Maia, M. (2010). Práticas de risco no contexto das relações homossexuais. In P. M. Ferreira & M. V. Cabral, Sexualidades em Portugal: Comportamentos de risco (pp. 324-387). Lisboa: Editorial Bizâncio,         [ Links ]

Pimentel, M. H., Preto, L., Alves, M. J., & Monteiro, M. J. (2016). Comportamento Sexual e Estudantes do Ensino Superior. Psicologia, Saúde & Doenças, 17(3), 352-367. DOI: 10.15309/16psd170304.         [ Links ]

Santos, M. J. O, Ferreira, E. M. S., & Ferreira, M. M. (2017). Comportamentos contracetivos de estudantes portugueses do ensino superior. Revista Brasileira de Enfermagem, 71(suppl 4), 1706-1713. DOI: 10.1590/0034-7167-2017-0623.         [ Links ]

Sociedade Portuguesa de Ginecologia & Sociedade Portuguesa da Contraceção (2015). Estudo das práticas contracetivas das mulheres portuguesas. Lisboa: Autor.         [ Links ]

Tyler, C. P., Whiteman, M. K, Kraft, J., Zapata, L., Hillis, S., Curtis, K., … Marchbanks, P.A. (2014). Dual use of condoms with other contraceptive methods among adolescents and young women in the United States. Journal of Adolescent Health, 54(2), 169-175. DOI: 10.1016/j.jadohealth.2013.07.042.         [ Links ]

Uecker, J. E. (2015). Social context and sexual intercourse among first-year students at selective colleges and universities in the United States. Social Science Research, 52, 59-71. DOI: 10.1016/j.ssresearch.2015.01.005.         [ Links ]

World Health Organization (2018). Sexual health, human rights and the law. Geneva: WHO Press,         [ Links ] World Health Organization.

 

Endereço para correspondência | Dirección para correspondencia | Correspondence

[*] Autor correspondente: Departamento de Enfermagem ESS-UTAD, Quinta de Prados, 5000-801, Vila Real, Portugal. E-mail: mjsantos@utad.pt

 

Artigo recebido a 20.10.2018; Aceite a 18.08.2019.

Creative Commons License Todo el contenido de esta revista, excepto dónde está identificado, está bajo una Licencia Creative Commons