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Motricidade

versão impressa ISSN 1646-107X

Motri. vol.13 no.spe Ribeira de Pena abr. 2017

http://dx.doi.org/10.6063/motricidade.12893 

ARTIGO ORIGINAL

 

Avaliação da fluência, espaço, peso e tempo no andar do professor em aulas de Educação Física

 

Analysis of fluency, space, weight and time in the walking of the Physical Education teacher during classes

 

Sandra Barbosa da Costa1; Pierre Normando Gomes-da-Silva1; Danielle Menezes de Oliveira Gonçalves2,*

1 Departamento de Educação Física, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Brasil
2 Prefeitura Municipal de João Pessoa.

 

 


RESUMO

Este estudo analisou a intencionalidade pedagógica expressa no andar do professor nas aulas de educação física escolar. A coleta realizou-se durante sete meses de observação direta de professores com diferentes tempos de atuação profissional (até 5 anos, mais de 10 anos e mais de 20 anos), diferentes gêneros, em seis escolas públicas e em diferentes situações de aula. Numa pesquisa descritiva, de natureza qualitativa, utilizou-se da Análise Laban de Movimento (LMA) para descrever o andar dos professores em suas qualidades expressivas, constituídas pela combinação dos quatro fatores (fluxo, espaço, peso e tempo), bem como a Pedagogia da Corporeidade para analisar a situação de movimentação educativa criada. Na identificação das três situações do andar na aula (conduzir, organizar, disciplinar), observou-se que apenas no andar enérgico para disciplinar a turma induziu maior variabilidade de combinações de fatores. O grupo dos professores mais veteranos evidenciou a incorporação do saber de experiência numa intencionalidade pedagógica integrativa.

Palavras-chave: corporeidade, educação física, ensino.


ABSTRACT

This study analyzed the pedagogical intentionality expressed in the teacher’s walk in physical education classes. The data collection was carried out during seven months of direct observation of teachers with different past teaching experience (5 years, more than 10 years and more than 20 years), different genders, different schools and different class situations. In a descriptive and qualitative research, the Laban Movement Analysis was used to describe the walk of teachers in its expressive qualities, comprising the combination of four factors (fluency, space, weight and time) as well as the Pedagogy of Corporeality to analyze the creation of educational movement. During the identification of the three conditions during class (conducting, organizing and enforcing), it was observed that only in the vigorous way of walking to enforce the students, a greater variability in the combination of factors was present. The older group of teachers demonstrated the incorporation of knowledge experience in an integrative pedagogical intentionality.

Keywords: corporeality, physical education, teaching, Laban Movement Analysis, walking


 

 

INTRODUÇÃO

Ontologicamente, o andar é o gesto mais humano, na nossa espécie. Desde os tempos mais remotos, as posturas básicas do ser humano como deitar, sentar, ficar em pé e correr permanecem iguais. Mas, o caminhar mudou radicalmente, não só andamos menos que nossos ancestrais, mas quase eliminamos a necessidade de caminhar. Hoje, ficamos mais sentados do que de pé (Hillman, 1983). A linguagem da cultura suprime, antes de mais nada, as pernas, seja na fotografia ou no cinema, como denuncia o semiólogo Barthes (2009).

Mauss (2003) foi um dos primeiros a vislumbrar o andar em sua complexidade cultural a exemplo da maneira de andar da mulher “maori” da Nova Zelândia, que adotava um balanceio articulado dos quadris para ele desgracioso, mas que é extremamente admirado pelos membros desta sociedade. As mães adestram suas filhas no “oniori”, e este modo de andar era uma maneira adquirida. Assim, este antropólogo enfatiza que há uma educação do andar, pois para além do funcional, o andar de cada grupo expressa a maneira prestigiada da sua cultura.

Por isso, o ato de andar não pode ser compreendido apenas como um movimento cíclico que consiste nas fases biomecânicas de apoio e de balanço (Hamill & Knutzen, 2008), ele é complexo porque está constituído de elementos histórico-sociais, afetivos e educativos, que necessitam ser investigados no contexto da realidade escolar.

Portanto, compreende-se que o andar possui qualidades expressivas que podem ser desveladas no movimento com um vasto conteúdo emocional, como por exemplo, a disciplina e altivez do andar soldadesco (Gomes-da-Silva, 2011). O movimento do andar pode denotar leveza, agressividade, bem como fadiga física que também é expressa pela linguagem do andar cansado dos indivíduos.

Um grande número de estudos referentes aos padrões da marcha são medidos em laboratórios por meio de eletromiografia (Spirduso, 2005), análise cinemática, plataforma de força (Hamill & Knutzen, 2008; Magee, 2005) e pêndulo invertido (Winter, 1995). Entretanto, estes estudos não auxiliam na análise da intencionalidade pedagógica do andar do professor de Educação Física em situação docente. Dentro desta perspectiva de análises das situações de movimento na educação física como ambientes educativos, zonas de aprendizagens, temos investigado pela teoria da Pedagogia da Corporeidade, o comportamento comunicativo do professor dado nos espaços pedagógicos (Antério & Gomes-da-Silva, 2013; Costa, Gomes-da-Silva, & Schulze, 2012; Gomes-da-Silva, 2011, 2012; Oliveira & Gomes-da-Silva, 2013).

Uma das metodologias que tem nos auxiliado nas pesquisas das situações de movimento é o Método de Análise do Movimento de Laban (LMA) ou Labanálise. Pois segundo Laban (1978), o observador de uma pessoa em movimento fica imediatamente consciente, não apenas dos percursos e ritmos de movimento, mas também das atitudes que os percursos carregam em si. Nesse sentido, estudo de Costa(2010) buscou compreender no contexto de atuação profissional, três situações docentes que foram desveladas nas interações do contexto escolar, por meio da observação do andar em sala de aula:

1.          Modo de andar para conduzir: se inicia com os primeiros passos do professor em direção aos alunos, a fim de conduzi-los até a quadra para iniciar a aula de Educação Física.

2.         Modo de andar para organizar: caracteriza-se pela distribuição dos materiais didáticos no espaço da aula, seguido da explicação e acompanhamento das atividades a serem desenvolvidas pelos alunos durante a aula.

3.         Modo de andar para disciplinar: ocorre sempre que há conduta indisciplinar por parte dos alunos, seguida de uma reação do professor para retomar o bom funcionamento da aula.

A análise do andar na aula de educação física

Considerando que as situações de ensino-aprendizagem em sala de aula não são unilaterais, mas contextuais, envolvendo zonas de corporeidade (Gomes-da-Silva, 2012), como analisar a intencionalidade pedagógica de andar numa realidade dinâmica e complexa como a sala de aula? Nos questionamos se, ao longo da trajetória profissional, o modo de andar do professor em sala de aula sofre alterações. Raramente o conhecimento pode ser obtido por pesquisas estritamente quantitativas, pois certos controles não podem ser aplicados a seres humanos vivos em situações sociais, tais como os processos educacionais (Souza-Júnior, Melo, & Santiago, 2010). Avaliações de parâmetros espaço-temporais e de força do andar comumentemente são resultados de estudos quantitativos (ex. uso de sensores de movimento e outros equipamentos similares), mas estes métodos não são usados quando a postura é estudada em condições reais do quotidiano.(Zijlstra & Hof, 2003).

Assim, é essencial estabelecer uma relação entre o nível metodológico da análise do movimento do andar no campo das comunicações – não verbais – (Mesquita, 1997)e o da análise da intencionalidade pedagógica do professor de Educação Física. Nesse sentido, A Labanálise (Laban, 1978) oferece-nos procedimentos que capturam a linguagem expressiva do movimento do ser humano e permitem uma análise qualitativa da intencionalidade pedagógica do andar do professor de Educação Física.

Para a Labanálise, tanto as posturas como os gestos, se originam de impulsos internos(Laban, 1978). Estes, por sua vez, possuem qualidades reconhecíveis, sendo constituídos por quatro fatores: fluência, espaço, peso e tempo. O fator fluência refere-se à tensão muscular usada para deixar fluir o movimento, fluência livre, ou para restringi-lo, fluência controlada. O fator espaço refere-se à atenção do indivíduo com seu ambiente ao mover-se. Ele pode ter sua atenção concentrada em um único ponto, foco direto, ou ter sua atenção expandida em vários pontos, foco indireto ou multifocado. O fator peso refere-se a mudanças na força para empurrar, marchar ou tocar em outro corpo, podendo ser forte ou leve. Por fim, o fator tempo indica uma variação na velocidade do movimento, que se torna gradualmente mais rápido ou mais lento. por três grupos de profissionais,

O estudo de Mesquita (1997) sobre os conceitos teóricos da Labanálise e suas aplicações em sua pesquisa sobre a percepção e a análise da psicodinâmica do movimento do andar indicou que profissionais da área de educação física, psicologia e medicina mesmo sendo iniciantes na aplicação da labanálise, e sem treinamento na observação e análise do movimento, obtiveram resultados que demonstraram coerência e concordâncias entre as suas percepções e a de especialistas no assunto.

Nesse sentido, o presente estudo propõe analisar a intencionalidade pedagógica do professor de educação física por meio das qualidades expressivas do andar. As pesquisas sobre a linguagem do andar no campo da Educação Física ainda são escassas. Desse modo, é pertinente o estudo sobre as qualidades expressivas do andar do professor. Partirmos do pressuposto de que o andar é um movimento dotado de expressividade, e, no caso da prática docente em Educação Física, é signo da intencionalidade pedagógica do professor. A realização de uma investigação dessa natureza se torna relevante por abordar competências comportamentais em zonas de aprendizagens que se revelam na trajetória profissional do professor de Educação Física. Justifica-se, ainda, no sentido de apresentar indícios sobre linguagens corporais docentes que afetam o interesse científico em torno do contexto escolar.

 

MÉTODO

Este estudo caracterizou-se como descritivo com abordagem qualitativa.

Participantes

A partir dos critérios de gênero, tempo de atuação e polo de escolas, os sujeitos selecionados foram seis professores da educação física escolar, de gêneros distintos (três homens e três mulheres) e de diferentes escolas. Para nomear os grupos distinguindo-os por tempo de atuação profissional, resolvemos designá-lo com os nomes dos ossos dos pés. O primeiro grupo foi formado por dois professores que estavam iniciando a trajetória profissional e atuando há, no máximo, cinco anos, aqui denominados de Navicular (grupo dos iniciantes); o segundo grupo, formado por dois professores que estavam atuando há mais de dez anos, denominados de Tálus (grupo dos intermediários); o terceiro grupo, formado por dois professores que estavam atuando há mais de vinte anos, denominados de Calcâneo (grupo dos veteranos).Na pesquisa qualitativa, não há preocupação com a generalização dos resultados para além dos sujeitos investigados. Não é, portanto, uma pesquisa amostral. O estudo atendeu aos aspetos éticos da pesquisa científica tanto na assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, quanto à aprovação pelo comitê de ética do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba / Brasil, sob o número 0037.

Procedimentos

Foram observadas sete aulas de cada professor, totalizando quarenta e duas observações em seis escolas de Ensino Fundamental de polos diferentes da rede pública de ensino da cidade de João Pessoa, Paraíba / Brasil, num período de sete meses. Foi criado um protocolo observacional (Tabela 1), por Costa et al.(2010) com a finalidade de registro das qualidades e fatores do andar de cada professor. Para interpretá-lo, utilizamos a LMA (Laban, 1978) a fim de interpretar as diferentes atitudes que porventura surgissem durante as observações.

 

 

Observamos o andar na atuação do professor, especificamente seus passos e passadas durante a condução da aula. Para interpretá-lo, utilizamos a Labanálise (Laban, 1978) e a teoria da Pedagogia da Corporeidade a fim de descrever as dinâmicas desse movimento com ênfase em como cada um desses modos de andar foi expresso em três situações docentes.

 

RESULTADOS

Os dados do estudo foram organizados nos grupos: Navicular, Tálus e Calcâneo. Estruturamos a Labanálise do Andar a partir de três situações do trabalho docente, identificadas durante o período de observação das aulas conforme Costa(2010)e Costa et al. (2012):

O perfil dos sujeitos e a ênfase percebida nas qualidades e fatores do andar foram organizados nas Tabelas 2, 3, 4 e 5.

A idade dos professores variava entre 21 e 54 anos. O tempo em que cada professor andou em sala de aula (Tabela 2) sofreu influência do tempo total destinado às aulas de educação física nas escolas públicas e conforme as atividades desenvolvidas por cada professor.

Das escolas em que atuaram os sujeitos pesquisados, nenhuma possuía quadra de esporte coberta. De modo geral, os espaços utilizados eram amplos, porém não apresentavam condições adequadas à prática docente da Educação Física Escolar. Desse modo, a constatação da precariedade dos espaços para as aulas de educação física, neste estudo, corrobora com os estudos de Freire (1996). Ao considerar que o professor tem o dever de realizar sua tarefa docente, porém, para isso, precisa de condições favoráveis para que a aula aconteça num território pedagógico. Às vezes, as condições são de tal maneira adversas, que nem professor nem alunos têm condições de mover-se. Estudos de Daolio (2007) demostraram tais condições precárias, a exemplo de cinco professores de educação física que dividiam uma quadra para aulas simultâneas.

A dinâmica dos fatores e das qualidades do andar de cada professor nas três situações docentes, são apresentadas na Tabela 3.

Esta Tabela 3 expõe a combinação dos fatores e suas qualidades na marcha dos professores. Na situação docente de condução da turma, o andar do professor evidenciou passadas de fluência livre, de espaço direto e de peso ativo leve para os três grupos. Ou seja, as passadas na maioria das vezes foram ritmadas, em linha reta e sem empreender muita força. No entanto, no fator tempo houve diferenças no modo de andar entre os professores. A qualidade lenta nas passadas referente a esse fator só não foi expressa em Calcâneo masculino. Este realizou a condução da turma andando rapidamente. Para a condução da turma, Tálus feminino, alternou seus passos entre lentos e rápidos.

Na situação docente para organizar a aula, dos quatro fatores evidenciou-se as qualidades de fluência, livre e controlada, e de peso leve para os três grupos. Entretanto, houve diferenças entre os grupos nos fatores de espaço e tempo. Quanto às qualidades do fator espaço, estas foram expressas através do andar dos professores de modo direto, focada em direção ao aluno. Mas também multifocado, passadas dirigidas a várias partes da sala. A exceção ficou o grupo Navicular masculino que apresentou apenas a qualidade multifocada. E, no fator tempo a qualidade mais enfatizada nas passadas dos professores foi a rápida, sendo lenta apenas nos professores Calcâneo feminino e no Tálus masculino.

A situação docente para disciplinar a turma compreendeu a situação mais instigante, porque foi nesta que se apresentou maior variabilidade de combinações de fatores. Talvez porque para disciplinar seja exigido um andar dotado de uma energia mais notável, mais enfático. Conforme Laban [(1978) p. 120] “o elemento ´firme´ do esforço consiste de uma resistência forte ao peso e de uma sensação de movimento, pesada, ou sensação de peso”. De modo que, nessa situação pedagógica, a fluência foi controlada, com passadas pausadas nos professores: Tálus feminino, Calcâneo feminino, Navicular masculino e Calcâneo masculino. Porém, com qualidade livre e controlada, apenas em dois professores: Navicular feminino e Tálus masculino.

Os dados do fator espaço evidenciaram as qualidades direta e multifocada durante o andar dos professores: Tálus (feminino e masculino) e Calcâneo masculino. No fator peso, todos os três professores do gênero masculino e apenas o Calcâneo feminino ao disciplinar seus alunos realizaram passadas leves. O fator tempo foi de passos rápidos, acelerados e firmes, para os grupos Navicular e Talus e se apresentou com passos lentos no grupo Calcâneo. O repertório individual do andar para cada professor pode ser melhor visualizado nas Tabelas 4 e 5.

Nas três situações docentes, percebeu-se que as qualidades constitutivas dos fatores não se apresentaram uniformes durante o andar (Tabela 4). O grupo Navicular evidenciou apenas uma qualidade: livre (Navicular feminino) ou leve (Navicular masculino). O grupo Calcâneo feminino e masculino evidenciou duas qualidades: direta e leve. Já o grupo Tálus variou entre duas (Tálus feminino) e três (Tálus masculino) qualidades expressivas. Quanto aos fatores principais para os diferentes grupos estes podem ser observado na Tabela 5.

Em síntese, o grupo Navicular evidenciou apenas um fator, o grupo Tálus dois e três fatores e o grupo Calcâneo dois fatores. No entanto, em todos eles, os principais fatores expressos no andar foram: espaço e peso.

 

DISCUSSÃO

O presente estudo analisou a intencionalidade pedagógica expressa no andar do professor nas aulas de educação física escolar. Assim, nossos resultados desvelaram quanto o modo de andar em aulas de educação física vai sendo alterado com o passar dos anos de docência, devido à experiência pessoal, profissional e pedagógica na condução educativa dos alunos.

Para interpretarmos pela labanálise (Fernandes, 2006; Laban, 1978) e pela Pedagogia da Corporeidade(Gomes-da-Silva, 2011, 2012) estas situações de movimento antes descritas, é preciso destacarmos inicialmente duas questões. Primeiro, a identificação das nuances nas qualidades permite determinar, além do repertório individual do movimento, as possíveis combinações de fatores, que espelham as atitudes internas do indivíduo. Segundo, cada indivíduo possui um modo de andar que não exige empenho especial para ser realizado, porque constitui patrimônio pessoal inato, combinado com os fatores do movimento aprendidos culturalmente. No entanto, não são todos os fatores do movimento que são sempre significativos, mas sim o modo de se combinarem, produzindo gradações particulares de ação (Thibaud, Bonnet, Leroux, & Thomas, 2008).

Intenção pedagógica do andar do professor de Educação Física Escolar

Percebeu-se grande variabilidade nas qualidades do andar, entre os grupos e também entre os gêneros, especialmente na situação de disciplinar a turma (Tabela 3). No que diz respeito ao fator peso este evidenciou qualidade forte nas passadas do grupo feminino Navicular e Talus e passos leves nos três grupos masculinos. Ao andar, as mulheres realizaram os passos com peso forte na direção dos alunos para corrigi-los, enquanto os homens pisaram com leveza, usaram pouca força. Porém, destaca-se a professora Calcâneo, que apresentou passos leves ao disciplinar a turma. De acordo com Rangel (2006), cada ação realiza-se de acordo com um esforço desencadeado por uma intencionalidade, sendo assim, percebemos o quanto a ação de disciplinar exige mais esforço, requer mais firmeza, mais desprendimento de energia. Evidencia-se que essa ação disciplinar foi mais facilitada para os professores do que para as professoras, com exceção, daquela com mais tempo de atuação, portanto com um saber de experiência mais consolidado.

Todo o grupo Calcâneo, portanto os professores veteranos, não demonstraram alterações quanto à velocidade da marcha, ou seja, o fator tempo ficou latente. Suspeitamos que a relação professor-aluno nessa etapa da carreira profissional vivencia um estágio diferente dos demais grupos. A experiência destes professores com mais de 20 anos de cultura escolar, conhecimento da educação física e trato pedagógico com os alunos, aparece também em seu modo de andar menos ansioso para disciplinar a turma.  

A qualidade direta no fator espaço e a leve no fator peso foram evidenciadas no andar do grupo Calcâneo, tanto no feminino como no masculino, e também em Tálusmasculino (Tabela 4). Esse andar cortando o espaço, empreendendo menos força e dirigindo-se a um determinado ponto, corrobora com a pesquisa de Thibaudet al.(2008), ao referir-se a experiência de melhor aproveitamento do tempo e espaço. Pela combinação destes fatores labanianos e pela Pedagogia da Corporeidade (Gomes-da-Silva, 2011, 2012), compreende-se essa atitude do andar como evidência da melhor interação-implicação-integração no espaço-tempo pedagógico. Experiência como mediação entre o conhecimento acumulado e a existência cotidiana, entre as intenções pedagógicas e a dinâmica cotidiana da sala de aula.

De modo que quem se relaciona melhor com o entorno pedagógico é aquele que experiencia a si mesmo. Sabem o melhor modo de disciplinar, não entrando na ansiedade do conflito, mantendo a calma, e faz isso andando, sem perder a firmeza das passadas diretas. Estes professores, em sua experiência docente, começam a se conhecerem, e por isso, não se veem obstaculizar pela circunstância, mas tornam-se sujeitos que alcançam o que se propõem, ou seja, levam adiante sua intencionalidade pedagógica. 

Esse andar com passadas livres, ritmadas, em linha reta em direção aos alunos, mas de peso leve, revelam um modo de interagir num ambiente pedagógico conflituoso. Essa ênfase nas qualidades do espaço e peso, não foi encontrada no grupo Navicular (Tabela 5). Ou seja, os professores iniciantes mantiveram um andar multifocado, indireto e pesado, confirmando assim as observações das dificuldades de controle da turma.

Houve concordância dos fatores espaço e peso nos profissionais com atuação há mais de vinte anos, ou seja, o indivíduo que aprendeu a relacionar-se com o espaço conforme Laban(1978) tem atenção aquele que tem o domínio de sua relação com o fator peso, tem intenção confirmada. O modo de andar dos professores, na combinação dos fatores espaço e tempo, evidenciou sua atenção docente e sua intencionalidade pedagógica. Este achado de pesquisa revela a importância do saber de experiência para o trabalho docente. Tardif(2002) defendem o saber de experiência como um conjunto de saberes resultantes do trabalho cotidiano, que surgem e são validados pela própria experiência. Evidenciamos nesta pesquisa que para além das competências docentes, esse saber da prática e sobre a prática foi encarnado, faz parte da própria corporeidade dos professores, independente do gênero. Saber conduzir-se na aula, com olhar focado, passos ritmados e leves, constitui-se de um saber integrar-se ao tempo-espaço pedagógico de tal modo que este seja assimilado pelo próprio corpo. Dizer da corporeidade desta intensão pedagógica significa dizer do modo de habitar a situação de movimentação, criada nas muitas circunstâncias de aula (conduzir, organizar, disciplinar).

 

CONCLUSÕES

Analisamos qualitativamente a marcha dos diferentes professores, com tempos de profissão distintos, em escolas diversas e em situações docentes variadas para concluir o quanto todas as ações do professor em sala de aula, como por exemplo o andar, se constituem em atos educativos. O modo de andar do professor na aula, seja o apressado do grupo Navicular ou tranquilo do grupo Calcâneo, anuncia o saber de experiência na intenção pedagógica.

Também o estudo tornou notório o quanto o modo de andar vai sendo alterado com o passar dos anos de docência, devido à experiência pessoal, profissional e pedagógica na condução educativa dos alunos. Esse reconhecimento da corporeidade na ação educativa apresenta a originalidade dessa pesquisa, deixando antever que para além das técnicas de ensino ou competências pedagógicas a própria movimentação do professor já direciona a educação. Que as próprias passadas são pedagógicas, porque são intencionadas para educar. Ou seja, a intencionalidade das passadas é constituída de sucessivas decisões, permeadas por interações e conflitos mil, em meio a imprevisibilidade das situações, principalmente as de conflito. E mais, o andar do professor para conduzir, organizar e disciplinar realiza-se a partir dos ajustes dos esquemas de ação (conduta motora) disponíveis, que lança mão para melhor interagir com o grupo, ver-se implicado com os alunos e integrado à situação. 

Por fim, apontamos que para além das limitações do estudo (tamanho do grupo, determinada classe social), este desvela um horizonte de pesquisas sobre a movimentação educativa do professor, que está apenas descortinando. Esta pesquisa, ao delimitar que a movimentação dos professores, analisada pela combinação dos fatores de movimento do andar e pela pedagogia da corporeidade, inaugura uma categoria do saber de experiência, intenção pedagógica do andar, a ser conscientizada pelo professor. Este é o principal desdobramento da pesquisa, o diagnóstico do quanto a intencionalidade pedagógica evidencia-se na corporeidade do professor, é apenas o primeiro passo. É necessário transformar esse saber corporal da experiência, que ainda é um conjunto de saberes tácitos e pouco articulados, para transformar-se no “conhecimento prático”, no dizer de Pérez-Goméz (1995). É necessário que essa experiência motora de ensinar, até então escondida, não só venha a tornar-se conhecida, como também entre num processo reflexivo, num nível de elaboração e articulação, que entendemos ser necessário para uma intencionalidade pedagógica integrativa.

 

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Agradecimentos:
Nada a declarar
Conflito de Interesses:
Nada a declarar.
Financiamento:
Nada a declarar

 

 

* Autor correspondente: Escola Municipal Prof. Dumerval Trigueiro Mendes, João Pessoa, Brasil Email: dmo.danimenezes@gmail.com

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