SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.9 número2Desenvolvimento motor de crianças entre 0 e 18 meses de idade: Diferenças entre os sexos índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Compartilhar


Motricidade

versão impressa ISSN 1646-107X

Motri. vol.9 no.2 Vila Real abr. 2013

http://dx.doi.org/10.6063/motricidade.9(2).2664 

Fazer ciência para quê … e para quem?

Do science for what and … for whom?

 

José Vasconcelos-Raposo

 

 

Num período como o que atualmente vivemos, parece mais fácil responder a esta perqunta que tende a persistir ao longo dos tempos. Um número muito elevado de países, espalhados por todo o globo, vive tempos de degradação acentuada da qualidade de vida dos seus cidadãos. As sociedades, independentemente da ideologia que dizem defender, estão sugeitas de uma maneira mais ou menos acentuada aos princípios democráticos alicerçados na economia de mercado.

O sucesso deste modelo é inquestionável para os que são detentores de capital, porque estão mais ricos. A economia de mercado, que sempre foi defendida como o pilar para uma verdadeira democracia, encontra nos dias de hoje as condições ideais para a sua avaliação. A dinâmica inerente à movimentação de capital conseguiu que uma percentagem muito pequena da população global seja dona da vasta maioria do dinheiro disponível. Mas mais, a sua ética protestante, centrada no direito individual, em detrimento das necessidades das maiorias, traduziu-se numa prática cumulativa de tal forma cega que levou à falta de capital por parte dessa maioria para fazer funcionar a economia. Sem dinheiro não há compras, sem comprar as unidades fabris não conseguem escoar os seus produtos, perde-se produção e por falta de escoamento dos bens produzidos o que fica é excesso de mão de obra. Para os detentores do capital é tudo uma questão contabilística: se estou a produzir em excesso tenho de reduzir, fazem-se parar as “partes” responsáveis por esse gasto desnecessário: neste caso, o salário dos trabalhadores.

Por que não há capital para adquirir bens e quem tem esse capital é em número reduzido e na maioria dos casos até tem como complemento salarial o direito à aquisição de alguns desses bens o que acontece é que diminui a circulação de capital e, naturalmente, deixa de ser necessário imprimir ritmos de busca pela inovação. Para quê criar e lançar no mercado novos produtos se não há o volme necessário de consumidores que possam viabilizar o retorno, que se quer que seja sempre rápido, para o investimento que foi feito. Consequentemente, o investimento na criação de novos produtos tende a ser descontinuado. A descontinuação, em termos claros e simples (sem ser simplista), consiste na quebra de verbas para a investigação técnico-científica. E é nesta parte do circuito produtivo, tal como concebido pela economia de mercado, que aqueles de nós que se dedicam à ciência entram para o “circo” da atual economia de mercado.

Mais do que nunca, talvez apenas por sermos mais a viver da ciência, parece ser relevante assumir a necessidade de refletir sobre o que efetivamente fazemos enquanto docentes e investigadores. Reconhecemos a existênicia de um número de indivíduos que sendo intelectualmente fracos, e aparentemente despidos de valores humanitários, chegam a cargos de poder. Mas quem os formou? Quem lhes ensinou as técnicas necessárias para serem eficazes a vender meias ou até mesmo falsas verdades?

Nos tempos que correm tudo indica que a ciência foi instrumentalizada. A capacidade crítica relativamente aos fenómenos sociopoliticos parece ter sido apoderada por aqueles que se dedicam às ciências políticas ou até a algumas áreas científicas de entre as quais tendem a emergir os membos da classe política. Os agentes dos restantes domínios científicos, nomeadamente aqueles que tendem a estar mais representados nas publicações na Motricidade parece confinar-se a algumas regras que, de forma muito subtil, lhes vão sendo impostas. Por exemplo, aqueles de nós que se dedicam ao estudo da atividade física e saúde, nos trabalhos que publicamos, muito raramente integramos na discussão dos dados uma reflexão sobre a falta de políticas consistentes para uma intervenção adequada na prevenção de doenças.

A investigação científica demonstra, de forma clara, que a adesão à prática de exercício físico se faz sentir em ganhos de saúde inquestionáveis. A pergunta que se coloca é: onde estão os investimentos na promoção do exercício físico enquanto parte intgrante da “Medicina dos Estilos de Vida”. Fazemos ciência para quê? Para nos asseguramos que progredimos na carreira docente. Fazemos ciência para quem? Em alguns domínios para o sistema produtivo industrial, mas a maioria de nós faz ciência para ninguém.

Parece-nos urgente que enquanto intelectuais e treinados para pensar tenhamos a coragem de parar e procurar refletir coletivamente sobre o que fazemos e que funções deverão ter no desenvolvimento e consolidação da condição humana. Não podemos ficar indideferentes ao sistemático empobrecimento das sociedades e ao regresso da exploração gananciosa do trabalho de outros seres humanos.

Enquanto HOMENS de ciência, devemos trabalhar em prol do bem-estar da Humanidade. É, sem dúvida, uma ideia romântica, mas como outros já o disseram: É o sonho que comanda a vida.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons