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Tékhne - Revista de Estudos Politécnicos

versão impressa ISSN 1645-9911

Tékhne  n.14 Barcelos dez. 2010

 

O turismo de observação de aves: um estudo de caso do município de Ubatuba/SP-Brasil

 

Reinaldo Dias1; Victor Figueira2

Universidade Presbiteriana Mackenzie e Instituto Politécnico de Beja

reinaldias@hotmail.com; victorfigueira@ipbeja.pt

 

Resumo

Neste início de século tem-se evidenciado o papel dos recursos endógenos na promoção do desenvolvimento local, com especial destaque para a biodiversidade vinculada ao turismo e constituindo-se assim, uma actividade económica dinâmica e com grande potencial em termos de sustentabilidade. Este trabalho pretende dar ênfase a um produto específico do ecoturismo - observação de aves (birdwatching) - enquanto um segmento alternativo no contexto do desenvolvimento económico e social de localidades com biodiversidade faunística endémica. Pretende-se abordar o fenómeno das espécies bandeira, como agregadoras de valor económico-ambiental quando utilizadas como símbolos e propaganda. O método adoptado é o de estudo de caso, no município de Ubatuba/SP-Brasil, utilizando como fonte de dados documentos institucionais, artigos impressos, informação on-line e entrevistas. O resultado esperado é identificar o nicho do birdwatching como alternativo à alta sazonalidade do turismo de sol e praia.

Palavras-chave: biodiversidade, observação de aves, desenvolvimento local, recursos endógenos, sustentabilidade.

Keywords: biodiversity, birdwatching, local development, local resources, sustainability.

 

Introdução

O turismo de natureza ou em áreas naturais cresceu de tal forma que as actividades disponibilizadas aos turistas estão cada vez mais diversificadas. Tanto que actualmente o turista não se contenta apenas com uma caminhadas ou percurso pedestre no meio natural. As caminhadas em meio natural ganharam um novo sentido e novas interpretações, e para que isso ocorra é preciso que informações mais detalhadas sejam passadas a estes visitantes de áreas naturais ávidos por conhecimento.

A observação de aves, ou birdwatching é uma actividade turística que segue a vertente contemplativa do ecoturismo. O birdwatching é uma actividade de lazer baseada na observação das aves no seu meio natural. Além da observação simples, com recurso a binóculos e telescópios de campo, tem outras variantes como a fotografia, a pintura e a ilustração da natureza.

O mercado primário do ecoturismo caracteriza-se por indivíduos oriundos, em particular, dos países considerados como maiores produtores de turismo (USA, Canadá, Austrália, Alemanha, Reino Unido), conscientes da necessidade de preservar os escassos recursos ambientais existentes e que procuram, enquanto destino para as suas viagens, locais onde a intervenção humana seja reduzida no sentido de aproveitar a beleza paisagística natural. No que se refere à questão da liberdade e do entendimento que se faz relativamente aos impactes individuais sobre o meio natural e social e às possíveis consequências negativas, cumulativas desses impactes, interessa não somente aos ecoturistas como aos gestores dessas áreas no sentido de definir praticas de visitação para as mesmas. Dessa forma, o ecoturista pode apreciar uma área natural em bom estado de conservação e os gestores preservar e conservar a sua área de visitação.

De acordo com dados da Ecotourism Society (TIES), em 1998 existiam 30 milhões de ecoturistas, correspondendo a cerca de 5% das chegadas de turistas internacionais. Em 1998, 20 milhões de americanos ecoturistas viajavam dentro do seu país. Veja-se desta forma a sua importância em termos económicos, alargando-se às diferentes regiões. Em alguns países, nomeadamente naqueles em via de desenvolvimento, as receitas provenientes do ecoturismo poderão ir até aos 20% (CTP, 2005).

Também Hawkins (1994) refere que dados relativos a operadores turísticos nos E.U.A. indicam que, por ano, 4 a 6 milhões de Americanos viajam para o exterior, procurando locais onde estejam em contacto directo com a Natureza. No âmbito destes indivíduos identifica dois segmentos distintos de acordo com o foco de interesse verificado em que um deles é precisamente os Observadores de Pássaros: 80 milhões de Americanos interessam-se por esta prática e gastam cerca de 40 biliões de dólares em equipamento de viagem e despesas relacionadas.

Em Portugal  existe um grande potencial nesta área. De acordo com especialistas nessa área, grande parte das aves selvagens que existem em Portugal têm uma distribuição muito restrita na Europa e no Mundo, pelo que se tornam atractivas sobretudo para os visitantes estrangeiros. Em todos os períodos do ano é possível realizar passeios de observação de aves, o que comprova que esta actividade não está sujeita ao efeito da sazonalidade. Enquanto habitats principais destacam-se a zonas húmidas, as planícies cerealíferas, os montados, os vales fluviais e as montanhas.

Além disso, o turismo ornitológico pode ser promovido conjuntamente com os outros recursos existentes em cada uma das regiões como sejam a boa gastronomia, os vinhos e todo o rico património natural, edificado, histórico e monumental existente nas várias regiões de Portugal.

A grande variedade de habitats naturais, concentrada neste pequeno território, permite que numa curta viagem de automóvel se passe da montanha às escarpas junto ao mar, ou dos estuários aos montados de sobro.

Existem em Portugal várias entidades que trabalham no sentido de fazer prevalecer esta actividade associando-a ao turismo e à preservação dos habitats e da conservação da natureza. Destaco aqui em particular o trabalho desenvolvido pela Sociedade Portuguesa de Estudos das Aves (SPEA) que em parceria com várias entidades (Confederação Agricultores de Portugal, Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade, Instituto de Turismo de Portugal, BirdLife International, entre outras) tem desenvolvido vários projectos de conservação e identificação de aves, contribuindo decisivamente para o estudo e implementação desta actividade em Portugal.

O Brasil é o campeão mundial de megabiodiversidade, seguido por Indonésia, Colômbia, Austrália e México e o segundo país do mundo com maior diversidade de aves, cerca de 1825 espécies, onde a Colômbia ocupa o primeiro lugar (CBRO, 2009); no entanto a prática de observação de aves não se popularizou e, mesmo a visitação internacional de observadores de aves ainda é muito pequena quando comparada com outros países.

O país recebe cerca de 5.000 observadores de aves por ano, o que pode ser considerado muito pouco para o potencial da biodiversidade brasileira. O terceiro país em diversidade de aves, o Peru, recebe em média 18.000 pessoas por ano (Balazina, 2009).

As regiões que têm atraído os praticantes do turismo ornitológico são os grandes biomas da Amazónia e do Pantanal e o Parque Nacional de Foz de Iguaçu. Outras regiões estão a procurar formas organizacionais no sentido se serem, também elas, capazes de receber esse tipo de turista, como sejam o Parque Nacional de Itatiaia no Rio de Janeiro, o Parque Intervales e município de Ubatuba, ambos em São Paulo. Ubatuba, revela uma das experiências de maior sucesso pois foi desenvolvida uma modalidade de turismo, a partir da iniciativa do poder público, com uma política voltada para atrair um público de alto poder económico e de grande consciência ecológica/ambiental.

Por se localizar num dos biomas mais importantes do planeta – a Mata Atlântica – e apresentar uma grande parte do seu território preservado, Ubatuba tem conseguido promover o município como destino ideal para a prática do birdwatching, conseguindo o apoio de toda a comunidade e integrando diversos grupos sociais, como populações tradicionais, alunos de escolas públicas, empresários e cientistas num movimento de protecção e identificação da avifauna local. Os frutos obtidos até o momento são inúmeros, entre os quais podem ser citados a difusão da educação ambiental nas escolas, utilizando como instrumento a observação de aves e a importante redescoberta de aves que se consideravam, até ao momento, desaparecidas.

 

1. A Prática da Observação de Aves

A prática da observação da fauna é considerada a actividade mais sustentável entre todas as que são identificadas com o ecoturismo e, destas, a observação de aves (birdwatching) constitui a mais difundida e a mais amplamente praticada em todo o mundo, principalmente, nos países desenvolvidos. Nos Estados Unidos, em 2001, aproximadamente 46 milhões de todos os observadores de fauna (69%) eram observadores de aves (USA, 2002). Há um crescimento contínuo do número de observadores de aves nos Estados Unidos que pode ser constatado pelo crescimento de vendas dos guias de identificação de aves, no número de festivais realizados em todo território norte-americano (mais de 200), além dos dados numéricos fornecidos periodicamente pelo Serviço de Pesca e Vida Selvagem. Segundo Cordell e Herbert (2002) as comunidades estão adoptando vários caminhos para atrair os observadores de aves para as suas cidades, pois reconhecem que estes visitantes gastam dinheiro em transportes, hotéis, restaurantes, guias locais, e souvenires; o que significa que enquanto os observadores de aves levam lembranças para os seus locais de origem, eles deixam para a localidade um conjunto de mais valias financeiras para os negócios locais.

As localidades que possuem no seu território áreas propícias para observação de aves, tanto pelas suas características de biodiversidade ou pelo alto grau de endemismo, deveriam procurar transformar essa riqueza natural em recurso económico através do ecoturismo de observação, no sentido de melhorar a qualidade e o nível de vida dos seus habitantes. A população ao compreender a importância da proteção dessas áreas, evitará a sua depredação através das inúmeras ameaças (queima, caça, turismo predatório etc.).

Os observadores de pássaros, através da sua prática, têm a oportunidade de converter lugares desinteressantes, mal utilizados ou sem interesse económico em destinos com relevância para o desenvolvimento da região. Haverá uma valorização de áreas, com um aproveitamento racional de recursos naturais de modo sustentável.

Há inúmeras vantagens em se incentivar a observação de aves, entre as mais importantes encontra-se o facto de se tratar de uma actividade de baixo impacto ambiental, pois de um modo geral, “quem observa aves se desloca nos ambientes naturais em pequenos grupos, caminhando de forma discreta e silenciosa, anotando as espécies vistas, gerando o menor impacto possível no local”(Farias, 2007:474).

O território brasileiro pela abundância de biomas, que propiciam a existência de inúmeros ecossistemas, é bastante rico em aves, e provavelmente possui ainda um número significativo não descrito pela ciência tornando-se, portanto, um local bastante propício para receber um grande contingente de birders internacionais, e fomentar o desenvolvimento do hobby entre os brasileiros. Há uma importante ferramenta para a prática do birdwatching no Brasil, que é o site wiki-aves (http://www.wikiaves.com.br), reúne a maior comunidade on-line de observadores de aves do Brasil, que na forma de colaborações constroem um banco de dados, permanentemente atualizado, com fotos, sons e informações sobre as espécies de aves brasileiras.

A observação de aves, em particular, apresenta inúmeros impactos positivos:

- Atrai incentivos financeiros para a conservação da vida selvagem;

- Gera menos impacto e maior renda do que o turismo tradicional;

- Aumenta o controle local, quando da ocorrência de espécies únicas de aves;

- Ocorre a visitação de áreas fora dos itinerários turísticos tradicionais;

- Melhora a protecção de áreas não protegidas institucionalmente que contenham espécies desejadas;

- Promove a valorização do conhecimento local de história natural;

- Fomenta a educação e emprego de guias locais;

- Propicia a formação de fundos para a conservação de aves (Sekercioglu, 2002:284).

Entre os aspectos negativos, está o facto dos observadores de aves poderem modificar o habitat ou provocar o abandono de ninhos durante o período reprodutivo de algumas espécies. A utilização do play back pode provocar um stress nas aves durante o período de reprodução além de expor os ninhos a predadores. Observa-se também um efeito negativo ao executar gravações com vozes de aves predadoras (Farias, 2007; Pivatto e Sabino, 2005).

Partindo-se do princípio de que as aves e o seu habitat constituem o recurso básico para o desenvolvimento do turismo ornitológico, é fundamental a preocupação com esse recurso, pois se a actividade não é praticada de forma organizada e responsável, pode ocorrer uma degradação do meio ambiente e o seu consequente desaparecimento. E, neste sentido, as aves são excelentes indicadores da “saúde” ambiental do ecossistema.

Uma das medidas mais necessárias para a conservação tanto das aves como do seu habitat, é obter o apoio da população local, o que se obtém em primeiro lugar, levando-os a compreender o valor do recurso, com o qual convivem diariamente. A educação e consciencialização da comunidade local deve iniciar-se com as crianças que desde cedo devem aprender a interpretar a realidade ambiental que os rodeia, com a introdução de conhecimentos mínimos de identificação da fauna e da flora.  A criação de guias locais de identificação das aves é outra medida que não só contribui para a consciencialização local, como propicia o monitoramento das espécies que frequentam a localidade, possibilitando que os residentes e turistas se tornem auxiliares preciosos do trabalho científico de preservação realizado pelos especialistas.

Segundo relato de pesquisadores norte-americanos um dos problemas que limitam o crescimento da observação de aves na Amazónia é a ausência de guias qualificados. A experiência e o conhecimento limitado dos guias tem afectado o desenvolvimento do ecoturismo na Amazónia, dado que cerca de 70% dos turistas que para lá se dirigem preferem ver vida selvagem, mas devido à densidade da Mata Amazónica não podem ter acesso visual às aves raras, sendo que viajaram milhares de quilómetros e gastaram milhares de dólares para vê-las. Os guias que em geral conhecem menos do que os observadores amadores de aves estrangeiros contribuem para este tipo de problema (Schemo, 1999; Che, 2004).

A identificação do destino com uma espécie bandeira, quer esta seja uma ave, um mamífero, réptil ou anfíbio é importante pela associação imediata do turista com a vida selvagem o que implica uma identificação com o mundo natural e qualidade de vida que permite inclusivé a existência de espécies silvestres convivendo de algum modo com a presença humana. Um exemplo desse tipo é a adopção pelo distrito turístico de São Francisco  Xavier, em  São  José  dos Campos/SP do muriqui (Brachyteles arachnoides) também chamado mono-carvoeiro, como animal símbolo da cidade(SFX, s/d).

Com o objectivo de se estabelecer uma identidade nacional e internacional, um projecto de atracção de observadores de aves, deve identificar espécies emblemáticas para torná-las símbolos na apresentação da actividade.  A utilização de uma ave como símbolo ajudará a diferenciar e posicionar o município. Podem ser escolhidas espécies raras ou ameaçadas, a mais comum na localidade, uma espécie carismática que se destaca pela beleza de suas penas, do seu canto ou outra característica acentuada.

Uma das características mais importantes da observação de aves é a possibilidade de desenvolvimento de uma “ciência cidadã”, na qual milhares de observadores organizam dados para um ramo da ciência. De acordo com Howard Youth (2001), há programas bastante antigos de ciência cidadã como o Christmas Bird Count (Contagem de aves no Natal), que é patrocinado pela Audubon Society e que ocorre há 100 anos, sendo que em Dezembro de 1999 e Janeiro de 2000 participaram mais de 50.000 observadores de aves. Há outros projectos semelhantes nos Estados Unidos, Canadá, Espanha, Reino Unido e Austrália.

 

2. O Município de Ubatuba

2.1. A importância da Mata Atlântica em Ubatuba

O município de Ubatuba com população estimada em 81.096 habitantes (IBGE, 2009) está situado a 230 km da cidade de São Paulo, é um dos mais tradicionais destinos balneários do Estado, recebendo milhares de turistas durante a estação alta. Apresenta praias limpas localizadas na borda da Mata Atlântica, remanescente florestal que é considerado um dos mais importantes biomas do mundo pela sua alta biodiversidade.

A Mata Atlântica, que ocupa 85% da área do município de Ubatuba, é considerada também como um dos biomas mais ameaçados do mundo devido às constantes agressões nos seus variados habitats. Distribuída ao longo da costa atlântica do Brasil, envolvendo partes do Paraguai e Argentina, correspondia originalmente a 15% do território brasileiro. Nessa extensa área vive a maior parte da população do país, 112 milhões de habitantes, que perfazem 61% da população (Fundação SOS Mata Atlântica/INPE, 2009).

Desde o início da colonização europeia com a exploração dos seus recursos naturais, seguida da posterior industrialização, a qual correspondeu uma intensa ocupação urbana, a Mata Atlântica teve a sua vegetação original drasticamente reduzida. O processo acentuou-se nas últimas décadas. O resultado é que hoje esse remanescente florestal está entre os biomas mais ameaçados de extinção. Segundo dados da Fundação SOS Mata Atlântica (s/d), o bioma foi reduzido a 7% de sua cobertura original, e abriga hoje 383 dos 633 animais ameaçados de extinção no Brasil.

A sua riqueza faunística é enorme; de acordo com o estudo do Ministério do Meio Ambiente (MMA/SBF, 2002) entre os vertebrados existem 250 espécies de mamíferos (dos quais 55 endémicas), 340 de anfíbios (90 endémicas), 1023 aves (188 endémicas), 350 peixes (133 endémicas) e 197 répteis (60 endémicos). Esses números são modificados constantemente pela descoberta e redescoberta de espécies, tais como o veado bororó (Mazama bororo) identificado em 1996, o macaco prego galego (Cebus Flavius) redescoberto após permanecer 300 anos desaparecido e as aves tapaculo-ferreirinho (Scytalopus pachecoi) e o bicudinho do brejo (Stymphalornis acutirostris).

A importância do bioma é reconhecida tanto nacional como internacionalmente, com zonas significativas sendo reconhecidas como Património Mundial pela ONU e indicados como Sítios Naturais do Património Mundial e Reserva da Biosfera da Mata Atlântica pela UNESCO, além disso, foi considerada como Património Nacional pela Constituição Federal de 1988 (Fundação SOS Mata Atlântica/INPE, 2009).

Na área de Ubatuba são encontradas 514 aves diferentes, apenas no Bairro Folha Seca, convivem 21 espécies de beija-flor (Balazina, 2009). Uma ave rara, o tiê-coroa (Calyptura cristata) foi encontrada no local e foi avistada apenas duas vezes em cerca de 200 anos. Era considerada extinta, mas foi vista pelo alemão Martin Schaeffer, no início de 2008 e confirmada por outro pesquisador (Zanelli, 2009). O número de aves de Ubatuba representa cerca de 10% das espécies encontradas na América Latina.

2.2. O turismo de observação de aves em Ubatuba

A Prefeitura Municipal de Ubatuba (PMU) a partir de 2004 desenvolveu um projecto sobre observação de aves cujo objectivo é incentivar a população local a preservar a biodiversidade e atrair mais turistas. Para isso, são efectuadas palestras junto a comunidades tradicionais visando o entendimento de que a observação de aves pode ser um importante atractivo turístico e fonte de geração de emprego e renda. As pessoas aprendem a receber os observadores de aves e têm a opção de se tornarem guias, ou explorarem a actividade artesanal relacionada com o tema e abrir novos caminhos para observação (PMU, 2007a).

Em 2004 foi aprovada uma lei que instituíu como símbolo do município o pássaro Tangará-dançador (Chiroxiphia Caudata) encontrada principalmente no Bairro Taquaral da localidade. A cidade foi incluída no Dia Mundial de Observação e contagem de Pássaros, comemorado dia 4 de Outubro, e que é promovido pela Birdlife International, organização mundial de observadores, com sede em Londres (Burhan, 2005).

Em 2006 teve início o Festival de Observação de Aves, com periodicidade anual, promovido pela Prefeitura onde são feitas palestras, cursos, atribuição de vários prémios e visitas programadas a locais de interesse ornitológico. Entre as principais actividades realizadas está um concurso de fotografia, intitulado “Aves de Ubatuba” e que está dividido em três categorias. A primeira denominada “Registo” visa registar espécies de difícil observação, e as imagens obtidas devem possibilitar a identificação da espécie. A segunda tem o nome de “Pousada” e premeia as fotos que mostram aves em descanso no ninho, em galhos ou alimentadores. E, finalmente, a categoria ”Em Vôo”, em que a ave deve ser fotografada sem manter qualquer contacto com o solo (PMU, 2006a).

Durante o Festival de 2006 foi realizado o lançamento de um livro de observação de aves dirigida ás crianças e iniciantes acima de 10 anos, visando despertar o interesse da observação, tanto nos alunos como nos professores. O livro foi desenvolvido numa parceria da prefeitura com o Conpet/Petrobras, que é um programa nacional de racionalização do uso de derivados do petróleo e do gás natural. Além dessa publicação, com uma tiragem de 10 mil exemplares, foi impresso também um "checklist", uma lista com os nomes de todas as aves avistáveis em Ubatuba, com tiragem de mil exemplares também patrocinado por empresas locais (PMU, 2006b).

Em Ubatuba desde 2008 ocorre a prática da ciência cidadã, pois foi incluída no programa “Censo Neotropical de Aves Aquáticas - CNAA” que ocorre desde 1990 simultaneamente na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela envolvendo mais de 750 voluntários que realizam contagens no Verão e no Inverno de cada ano (PMU, 2008a).

Os alunos das escolas municipais envolvem-se com a actividade através do projeto “Abrindo janelas para o mundo” que visa sensibilizar os estudantes na preservação do meio ambiente valorizando as aves locais. O projecto auxilia os professores oferecendo ferramentas para a ampliação dos seus trabalhos, como o livro de observação de observação de aves para as crianças (PMU, 2009). Os alunos recebem aulas teóricas, sobre como utilizar os binóculos e como reconhecer os pássaros pelas cores e sons.

São ministradas palestras nas comunidades tradicionais que vivem em locais com potencial para se tornarem rotas de observação.

Há um envolvimento do empresariado de Ubatuba na actividade de observação de aves, que é vista como uma alternativa para atracção de turistas à cidade durante o ano todo. O presidente da Associação Comercial e Industrial de Ubatuba (ACIU), Ahmad Khalil Barakat, considera que é preciso “investir em mais esse nicho para atrair turistas na temporada baixa. A observação de aves certamente tem potencial para atrair um turismo de qualidade durante todo o ano” (PMU, 2007b).

Como um exemplo do envolvimento dos empresários, os proprietários do Eco Resort Itamambuca, localizado na Praia de Itamambuca tiveram a ideia de registar o número de aves na sua envolvente, incluindo o rio e a praia. Foram três anos de levantamento, em que foram identificadas 184 aves. Em todo o hotel, existem fotos das aves encontradas na região. Foram instalados comedouros em diversos pontos estratégicos, o que facilitou a aproximação e a procriação das aves no local. No hotel há um barco eléctrico, especialmente adaptado para não produzir ruído ou poluição, que serve para subir o rio com os clientes interessados, facilitando a realização de estudos ambientais associados com as aves (PMU, 2008b).

Durante a realização do Avistar Brasil, maior evento de observação de aves do Brasil, o stand de Ubatuba contou com a participação de vinte empresas entre hotéis, pousadas e restaurantes, da Associação Comercial, do Sindicato dos Hotéis e da Associação dos Restaurantes (PMU, 2007b).

Um facto importante, demonstrando a necessidade de coordenação do poder público relaciona-se com a produção artesanal local. No início do projecto percebeu-se que os turistas estrangeiros não adquiriam o artesanato local que representava as aves, porque não apresentavam fidelidade com o pássaro original. Foram feitas palestras com os artesãos e artistas artesanais locais para que quando incluíssem o tema “aves de Ubatuba” o fizessem levando em consideração essa necessidade. Hoje, a Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba realiza esse trabalho de consciencialização, ministrado por uma bióloga, estabelecendo até a morfologia das espécies retratadas (Rizzo, 2006).

 

Conclusões

Pode-se referir que o segmento de mercado que envolve o birdwatching é enorme.

A crescente procura do turismo ligado à natureza permitiu desenvolver um conjunto de actividades e produtos turísticos diversificados. Por outro lado, a crescente procura na diversificação de actividades ligadas ao meio ambiente e espaços naturais permitiu que se fosse renovando essa oferta e consequentemente a criação do birdwatching enquanto uma actividade promissora.

De um modo geral pode-se afirmar que em todas as zonas do mundo existem algumas potencialidades neste tipo de actividade porém, os países que mais poderão beneficiar com o birdwatching serão sempre aqueles que se situam em zonas previligeadas onde a diversidade biológica é maior e onde o Brasil tem necessariamente, pela sua dimensão, localização e riqueza natural, um lugar de destaque.

Ubatuba procura realçar esta sua riqueza tentando envolver a população local, as empresas e os jovens na demonstração de que os seus recursos são mais valiosos quando se conhecem, se estudam e se observam do que quando se ignoram ou se destroem. Para isso foi decisivo todos os projectos desenvolvidos desde 2004, envolvendo as crianças, os autóctones, a realização de eventos, as parcerias realizadas com os operadores e agentes turísticos e, sobretudo, a vontade política e visão que a  Prefeitura Municipal de Ubatuba soube, oportunamente, identificar e aproveitar com sucesso.

O turismo de observação de aves revelou-se como uma excelente actividade complementar ao turismo de sol e praia, podendo ser praticado ao longo de todo ano. A experiência demonstrou que se bem planeada a actividade turística ligada à observação de aves pode contar com o apoio de toda a comunidade, incluindo as empresas turísticas que ao compreenderem o significado e a importância do birdwatching adaptam as suas instalações e contribuem de forma concreta para a conservação ambiental.

Só desta forma planeada e concertada esta actividade turística poderá ter sucesso dadas as várias particularidades destas áreas ricas, mas sensíveis, cuja conservação requer cuidados especiais e particulares, tanto a nível ambiental, social e cultural.

 

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1 Graduação em Sociologia Política pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Mestre em Ciência Política e Doutor em  Ciências Sociais pela mesma Universidade (UNICAMP). Professor do Mestrado em Turismo e Meio Ambiente do Centro Universitário UNA/MG e do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie/SP (UPM). Endereço: Rua das Camélias, 81. CEP: 13087-488 – Campinas – SP (Brasil).  Telefone: (19) 3296-1324.

2 Professor no Instituto Politécnico de Beja (IPBeja) na área do Turismo, Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. É Doutorado em Turismo pela Universidade de Évora e actualmente encontra-se ligado a vários projectos de índole social, cultural e outros relacionados com a sustentabilidade social das comunidades rurais, a viabilidade do turismo em áreas protegidas bem como do Observatório do Turismo do Alentejo. Endereço: IPB-ESA / Rua Pedro Soares – Campus / 7800-295 Beja (Portugal). Telefone (+351) 284314300.

 

(recebido em 10 de Julho de 2010; aceite em 09 de Agosto de 2010)