SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 número64Ideologia e pragmatismo na política externa de Jair BolsonaroCaminhos para uma democracia parlamentar europeia índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Compartilhar


Relações Internacionais (R:I)

versão impressa ISSN 1645-9199

Relações Internacionais  no.64 Lisboa dez. 2019

http://dx.doi.org/10.23906/ri2019.64r01 

RECENSÃO

 

Extrema-direita em Portugal: Uma história contemporânea

 

Raquel da Silva

Universidade de Birmingham e CEI-IUL | Birmingham B15 2TT, Reino Unido, e Av. das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa | r.b.p.dasilva@bham.ac.uk

 

RICCARDO MARCHI

The Portuguese Far Right: Between Late Authoritarianism and Democracy (1945-2015) Londres, Routledge, 2019, 208 páginas, ISBN 9781138218987

 

A extrema-direita tem capturado, nos últimos anos, vários esforços de investigação científica devido à ocorrência global de casos de violência emblemáticos relacionados com esta família política. Nestes incluem-se o assassinato da deputada britânica Jo Cox, em 2016, o ataque em Finsbury Park em 2017, também no Reino Unido (do qual resultou um morto), o tiroteio em Munique em 2017 (do qual resultaram nove mortos), os ataques a refugiados na Itália em fevereiro de 2018, e, mais recentemente, o ataque na cidade neozelandesa de Christchurch em março de 2019 (do qual resultaram 51 mortos). Neste contexto, a investigação científica em relação à extrema-direita, violenta e não violenta, tem ocorrido de forma mais sistemática, procurando, por exemplo, entender o que impulsiona o ativismo antiminoritário1, o que caracteriza os antecedentes e comportamentos pré-ataque de terroristas de extrema-direita2, e quais são as tipologias de terrorismo e violência de extrema-direita na Europa Ocidental3.

A monografia em análise contribui para esse esforço, reconstruindo, pela primeira vez, a história dos setenta anos da extrema-direita portuguesa, desde o final da Segunda Guerra Mundial até aos dias de hoje. Ao longo destas décadas, a extrema-direita portuguesa sofreu profundas alterações, acompanhando as mudanças nos contextos políticos nacionais e internacionais. Nesse sentido, Marchi não examina apenas esta família política no contexto português, mas também no contexto de outros países ocidentais que compartilharam histórias semelhantes (por exemplo, Espanha e Grécia, que igualmente mantiveram regimes autoritários de direita após a Segunda Guerra Mundial) ou que influenciaram a extrema-direita portuguesa ao longo dos anos (por exemplo, França, Inglaterra e Alemanha, que forneceram discursos racistas e de anti-imigração nos anos 1980). Assim, para reconstruir esta dinâmica histórica, a pesquisa apresentada nesta monografia baseia-se numa metodologia qualitativa que incluiu entrevistas com três gerações de ativistas de extrema-direita e a análise de uma vasta gama de documentação arquivada.

 

ESTRUTURA E CONTEÚDO

A monografia apresenta-se dividida em três partes que representam três períodos-chave da história contemporânea da extrema-direita portuguesa – autoritarismo, transição para a democracia e democracia estabelecida. Cada parte é composta por três capítulos. A primeira parte abrange o período de 1945-1974. Nesta, o primeiro capítulo trata o período imediato do Pós-Guerra, de 1945 até o início dos anos 1960, apresentando uma geração de jovens intelectuais sob a orientação de Alfredo Pimenta, um monarquista de extrema-direita e figura importante da fação pró-Eixo no regime português durante a guerra. Marchi debruça-se sobre as publicações e debates da altura, num clima político em que, em 1945, o fascismo é derrotado ao nível global, mas é preservado ao nível local. O segundo capítulo abrange o período desde o início da Guerra Colonial portuguesa, em 1961, até à morte política de Salazar, em 1968. Aqui encontramos a segunda geração de ativistas nacionalistas, influenciada pelas ideias da geração anterior e radicalizada pela Guerra Colonial. É dada atenção à mobilização destes jovens através de organizações estudantis e de ligações a forças de extrema-direita europeias, que também se opunham à descolonização dos países africanos. O terceiro capítulo demonstra as barreiras erguidas e desafios colocados pela extrema-direita à substituição de Salazar por Marcelo Caetano entre setembro de 1968 e abril de 1974, devido a discordâncias com as políticas de liberalização do último. Este capítulo concentra-se, então, numa terceira geração de ativistas de extrema-direita que defendiam o império pluricontinental, que intencionavam travar a radicalização dos movimentos de esquerda, e que se vinculavam ideológica e organizacionalmente a movimentos neofascistas europeus que emergiram no final das décadas de 1960 e 1970.

A segunda parte da monografia concentra-se no período de transição democrática portuguesa entre 1974 a 1982. O primeiro capítulo examina o período entre 25 de abril de 1974 e 25 de novembro de 1975, que assistiu, por um lado, à rápida organização da direita portuguesa em partidos políticos e, por outro, à resistência armada de extrema-direita a esse período revolucionário liderado pela fação radical do Movimento das Forças Armadas (MFA). O segundo capítulo explora o período entre 1976 e 1982, focando-se em como a extrema-direita se tentou tornar parte do processo de institucionalização democrática. Este período começa com a contrarrevolução de 25 de novembro de 1975, da qual as forças de esquerda que lideravam o processo revolucionário saem derrotadas pela fação moderada do MFA. Nesta altura, a extrema-direita interrompe a sua atividade violenta clandestina e junta-se também ao processo legal de institucionalização, retornando às atividades de propaganda, criação de partidos políticos, grupos de reflexão e grupos de jovens. O terceiro capítulo analisa as tentativas de modernização feitas pela extrema-direita no final da transição democrática, cujo pináculo se dá em meados da década de 1980, liderado pelos intelectuais do antigo regime influenciados pela nova direita europeia e norte-americana.

A terceira e última parte desta monografia trata as três décadas de democracia consolidada entre 1982 e 2015. O primeiro capítulo analisa as subculturas de extrema-direita que começaram a surgir em Portugal no final da década de 1980. Estes grupos eram compostos por indivíduos que não haviam experimentado nem o regime autoritário nem o mito do império pluricontinental e multirracial, e que iniciaram a sua militância política uma década após o final do processo de descolonização, e num sistema democrático amplamente consolidado. As suas influências foram essencialmente europeias, que ajudaram a introduzir em Portugal o discurso de anti-imigração e racista já em voga na França, na Inglaterra e na Alemanha. Este tipo de discurso ganha força em Portugal, neste período, devido às mudanças sociodemográficas que ocorrem no país, incluindo a alteração da estrutura étnica dos subúrbios das duas principais áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, causada pela onda de imigração das ex-colónias africanas. Estes imigrantes juntaram-se a um tecido social já ocupado pelos retornados, ou seja, os ex-colonos brancos que se sentiram forçados a abandonar as colónias portuguesas em África após a sua independência. Este grupo de pessoas não foi exatamente acolhedor e, em vários casos, mantinha fortes sentimentos de vingança em relação aos negros e mestiços africanos. É deste tecido social que surge a nova geração de ativistas de extrema-direita, que eram, em muitos casos, filhos de pais retornados e/ou proletários que se estabeleceram na periferia das grandes cidades, cada vez mais ocupadas por imigrantes, bem como filhos da classe média que se viam cercados por favelas também habitadas por imigrantes. Assim, este período é caracterizado por uma nova extrema-direita, que exibe uma identidade e um discurso político etnonacionalistas e que funde o ultranacionalismo da velha extrema-direita e o racismo neonazi da subcultura skinhead. O segundo capítulo concentra-se na extrema-direita do início do século XXI (1999 a 2015) e, em particular, na evolução do Partido Nacional Renovador (PNR) e nos seus vínculos com a onda de direita na Europa do início deste século. Marchi descreve tensões palpáveis entre os velhos salazaristas e os jovens skinheads em termos de cultura política, identidade e estratégias. O terceiro capítulo examina o movimento identitário português, que se desenvolveu paralelamente ao PNR, na última década. Este movimento mostra as crescentes tendências etnonacionalistas e identitárias dos ativistas mais jovens de extrema-direita em Portugal, que foram, por um lado, ostracizados pelas gerações mais antigas de nacionalistas radicais, que não se alinham com os pontos de vista racialistas, e, por outro lado, fortemente conectados a redes internacionais.

Esta monografia é de grande importância para os interessados na história contemporânea da extrema-direita portuguesa, mas também europeia, fornecendo um estudo de caso muito detalhado, bem como indicadores significativos para perspetivas comparativas. Nela, os leitores encontrarão a exploração das dinâmicas das fações pró-fascistas, tanto dentro de um contexto autoritário quanto na transição para a democracia, a análise das transformações sofridas pelas sucessivas gerações da extrema-direita portuguesa ao longo das décadas e as influências nelas impressas. São também examinados os motivos subjacentes à incapacidade de a extrema-direita influenciar o discurso e a agenda política da direita portuguesa.

 

BIBLIOGRAFIA

BOUHANA, Noémie; CORNER, Emily; GILBERT, Paul; SCHUURMAN, Bart – «Background and preparatory behaviours of right-wing extremist lone actors: a comparative study». In Perspectives on Terrorism. Vol. 12, N.º 16, 2018, pp. 150-163.

BUSHER, Joel; HARRIS, Gareth; MACKLIN, Graham – «Chicken suits and other aspects of situated credibility contests: explaining local trajectories of anti-minority activism». In Social Movement Studies. Vol. 18, N.º 2, 2019, pp. 193-214.

RAVNDAL, Jacob Aasland – «Thugs or terrorists? a typology of right-wing terrorism and violence in Western Europe». In Journal for Deradicalization. Vol. 3, 2015, pp. 1-38.

 

NOTAS

1 BUSHER, Joel; HARRIS, Gareth; MACKLIN, Graham – «Chicken suits and other aspects of situated credibility contests: explaining local trajectories of anti-minority activism». In Social Movement Studies. Vol. 18, N.º 2, 2019, pp. 193-214.

2 BOUHANA, Noémie; CORNER, Emily; GILBERT, Paul; SCHUURMAN, Bart – «Background and preparatory behaviours of right-wing extremist lone actors: a comparative study». In Perspectives on Terrorism. Vol. 12, N.º 16, 2018, pp. 150-163.

3 RAVNDAL, Jacob Aasland – «Thugs or terrorists? a typology of right-wing terrorism and violence in Western Europe». In Journal for Deradicalization. Vol. 3, 2015, pp. 1-38.

Creative Commons License Todo o conteúdo deste periódico, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons