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Relações Internacionais (R:I)

versão impressa ISSN 1645-9199

Relações Internacionais  no.35 Lisboa set. 2012

 

«Com luvas de veludo»1A estratégia cultural alemã em Portugal (1933-1945)2

«With velvet gloves». The German cultural strategy in Portugal (1933-1945)

 

Cláudia Ninhos

Investigadora do ihc – unl e doutoranda em História Contemporânea na fcsh – unl.

 

RESUMO

O objectivo deste texto é analisar as relações culturais luso-alemãs entre 1933 e 1945. Partindo do pressuposto que a promoção da ciência e da cultura «alemãs» foi essencial para alcançar uma hegemonia política e ideológica no estrangeiro, centraremos a análise nas principais iniciativas organizadas pelas instituições nazis em Portugal, com destaque para o relacionamento destas com a Junta de Educação Nacional/Instituto de Alta Cultura. Procuraremos, por fim, compreender se esta estratégia contribuiu para o surgimento de uma rede intelectual e científica entre Portugal e a Alemanha.

Palavras-chave: Relações luso-alemãs, relações culturais, intercâmbio académico, Acordo Cultural

 

ABSTRACT

This text will focus on the German-Portuguese cultural relations between 1933 and 1945. The promotion of the German culture and science was crucial to achieve a political and ideological hegemony abroad. We will analyse the most important activities organized by the German institutions in Portugal and the relationship between the National Educations Board/Institute for High Culture. Finally we will try to understand if this strategy promoted the construction of an intellectual and scientific network between Portugal and Germany.

Keywords: German-Portuguese relations, Cultural relations, Academic exchange and Cultural Agreement

 

Apesar de Portugal não ter participado militarmentena II Guerra Mundial, o conflito teve profundas repercussões no País, que se tornou um elemento importante, alvo dos interesses económicos e políticos dos beligerantes, mas também um centro de actividade da propaganda e da espionagem e local de passagem de centenas de refugiados, incluindo famílias reais. Nos finais da década de 1980 e em meados da década de 1990, coincidindo, grosso modo, com os cinquenta anos decorridos após o início e final da guerra, surgiram vários trabalhos académicos sobre estas temáticas. A historiografia debruçava-se, então, sobre a evolução da neutralidade portuguesa, sobre o impacto da guerra na economia nacional, sobre a propaganda dos beligerantes ou sobre a actuação de alguns diplomatas nacionais.

Alguns dados, contudo, pareciam axiomáticos: o peso permanente e incontestável da aliança inglesa e o distanciamento em relação à Alemanha. O historiador Cristian Leitz, tendo como base estes trabalhos, designou mesmo Portugal como «o aliado neutro»3. Um relacionamento mais intenso com a Alemanha era visto como estando circunscrito a determinados sectores do regime, limitando-se, grosso modo, às organizações mais fascizadas.

Alguns trabalhos vieram, no entanto, colocar em causa algumas destas assunções. O primeiro a fazê-lo foi António Louçã4que, numa rigorosa investigação encetada no âmbito do mestrado, estudou a colaboração de Portugal com a economia de guerra alemã entre 1940 e 1944, demonstrando que as relações entre os dois países foram mais intensas do que alguma vez se imaginara (os seus trabalhos posteriores vieram corroborar, uma vez mais, esta proximidade5). Este relacionamento económico, já não em relação ao ouro, como Louçã estudara, mas em relação ao volfrâmio, haveria de ser aprofundado por João Paulo Avelãs Nunes6. Alguns artigos de Luís Reis Torgal7trouxeram à luz alguns aspectos importantes sobre as relações culturais entre os dois países, enquanto Mário Matos8, na sua tese de mestrado e em artigos ulteriores, analisou a imagem que os turistas alemães, que visitaram Portugal nos navios da Kraft durch Freude (KdF), tinham do País e o impacto destas visitas na opinião pública do regime português, procurando compreender se estas mesmas viagens contribuíram para uma aproximação entre os dois países. Mesmo entre os germanistas, este foi também um estudo inovador que o autor explica pelo alargamento do âmbito dos estudos culturais, possibilitado pelo cultural turn, uma viragem que, curiosamente, pouco ou nada se repercutiu na historiografia portuguesa que se ocupa da história das relações internacionais.

Mais recentemente, Manuel Loff9procurou trazer uma nova visão ao panorama da investigação sobre o Estado Novo. Através de uma análise comparativa do salazarismo e do franquismo, enquadrando-os na dinâmica e na Weltanschauung fascista europeia, questionou as tradicionalmente inquestionadas e inquestionáveis ideias em torno da neutralidade e das posições maioritariamente pró-britânicas de Portugal durante a II Guerra Mundial.

Esta breve resenha sobre as relações luso-alemãs ficaria, no entanto, incompleta sem a referência aos trabalhos de Ansgar Schäffer10e Irene Pimentel11sobre os refugiados judeus em Portugal, de José Pedro Castanheira12 sobre o bolseiro José Ayres de Azevedo e ao livro Zonas de Contacto13, organizado por dois germanistas, mas que reúne também contributos de vários historiadores.

 

A POLÍTICA CULTURAL ALEMÃ NO ESTRANGEIRO

Feito este brevíssimo balanço da produção académica relativa às relações luso-alemãs, sobre as quais este artigo procurará reflectir, refira-se que o seu propósito se insere numa investigação mais alargada. Este texto procurará, assim, compreender as relações luso-alemãs no domínio cultural e científico, tendo em conta que a ciência e a cultura foram os principais instrumentos utilizados pelo regime nazi para fazer penetrar a sua influência em Portugal, numa estratégia que teve como principal alvo a elite política e cultural portuguesa14. Graças a esta forte aposta na cultura, cremos que, pela primeira vez, a cultura alemã entrou em Portugal de forma directa, sem a intermediação francesa ou inglesa. Ou seja, até então a Alemanha, é certo, dispunha já de um estatuto elevado entre os intelectuais e cientistas portugueses. No entanto, os ecos daquilo que se passava no espaço de língua alemã chegavam através de traduções inglesas e francesas. Com o regime nacional-socialista houve uma clara aposta na tradução de livros e textos para outras línguas, para difundir a produção científica e cultural no estrangeiro, de forma a recuperar, como veremos, o estatuto que estava a perder. É que a cultura vai também assumir, no III Reich, um papel central no discurso e na prática política dos seus dirigentes. Quando Hitler, discursando em Nuremberga em 1937, se referiu à política cultural do Reich, afirmou que o seu país não deveria ser «um estado sem cultura» e que o rearmamento nacional apenas era moralmente justificado se «os escudos e espadas» tivessem «uma missão cultural», referindo-se à Alemanha como «barreira e guardiã da alta cultura»15. De facto, ao arvorar-se portadora da alta cultura, a Alemanha procurou espraiar a sua influência no estrangeiro, dando continuidade a uma política já encetada durante a República de Weimar e servindo-se de instituições criadas antes de 1933. Para compreender esta estratégia vale a pena recorrer ao conceito de Kulturpropaganda, que o romanista Wilhelm Giese, em 1940, definiu da seguinte forma: «Por propaganda cultural compreendemos a promoção de um Estado no Estrangeiro através do reconhecimento e imitação das criações nacionais.»16

Encontramos neste pequeno excerto dois objectivos fundamentais que subjazem à actividade cultural alemã no estrangeiro: a busca de reconhecimento e a afirmação como paradigma a ser seguido por outras nações. Na realidade, ao promover a difusão da sua cultura no estrangeiro, a Alemanha aspirava ao reconhecimento da sua superioridade e à compreensão e difusão das suas ideias. Alguns dirigentes nazis não aceitavam, contudo, que a política cultural alemã no estrangeiro fosse vista como mera propaganda. Twardowski, chefe do departamento cultural do Ministério dos Negócios Estrangeiros, discursando num encontro de conselheiros culturais, afirmava:

«por “propaganda” entendo o esforço de influenciar a opinião pública de um país em relação a uma questão política, económica ou militar […] Também existe, claro, a propaganda cultural – Kulturpropaganda –, mas esta é para as grandes nações culturais apenas a repercussão de uma propaganda hostil que nega as nossas realizações culturais […] exercer uma política cultural significa apresentar e estabelecer uma ambição de liderança cultural; significa organizar uma cooperação intelectual entre as nações; além disso, significa estabelecer uma influência intelectual efectiva sobre uma elite intelectual seleccionada de outras nações e torná-las, na medida do possível, dependentes da Alemanha […] Nenhuma pressão política ou económica [deve ser aplicada] para o bem do trabalho cultural de todo o tipo. Igualdade e reciprocidade, não a violência, mas o diálogo, intercâmbio cultural no seu sentido mais amplo […] Em suma, devemos exercer a nossa política cultural, com luvas de veludo.»17

O dirigente alemão rejeitava o conceito de propaganda cultural, sobrepondo-lhe o de política cultural. Essa política, que a Alemanha desenvolvera, tinha por objectivo alcançar a liderança, a nível cultural, devendo promover a cooperação intelectual com as elites de outros países. O próprio Führer tinha noção que «a propaganda destinada ao estrangeiro não deve ser baseada, de forma alguma, na propaganda utilizada para consumo interno»18, devendo antes ser dirigida às elites e, como teorizou em Mein Kampf, «para os intelectuais […] não se deve tratar de propaganda e sim de instrução científica»19.

Apolítica cultural alemã no estrangeiro, cuja principal rival era a França (rival que, no fundo, serviu de modelo para a estratégia da Alemanha), assentou na actividade de várias instituições (algumas herdadas da República de Weimar, às quais se juntaram outras que foram sendo criadas) e nos diplomatas que enviava para o estrangeiro. A estratégia passou pelo desenvolvimento de um turismo cultural, pela assinatura de acordos culturais, pelo envio de cientistas e académicos, pela promoção da língua alemã e dos estudos germanísticos ou pela organização de exposições. Outro dos instrumentos deste «imperialismo cultural» foi a concessão de bolsas, até porque Hitler considerava ser «uma boa política» que os estudantes estrangeiros obtivessem diplomas nas universidades alemãs, pois seria uma forma de tornar estes indivíduos, «que passaram parte da sua juventude» na Alemanha, «amigos para a vida»20.

 

AS RELAÇÕES CULTURAIS E CIENTÍFICAS LUSO-ALEMÃS

Com o intuito de oficializar muitas das iniciativas de aproximação cultural levadas a cabo, a Alemanha assinou acordos culturais com diversos países. Na Europa, os alemães pretendiam impor uma «Nova Ordem», assegurando, para si, o lugar cimeiro. Assim, como forma de estreitar o relacionamento cultural, de garantir alianças com países que, ideologicamente, estavam próximos21, e de preparar a instauração dessa Nova Ordem, a Alemanha nacional-socialista assinou, em 1936, um acordo bilateral com a Hungria, seguindo-se, em 1938, a Grécia, a Itália e o Japão, em 1939 a Espanha franquista, em 1940 a Bulgária e em 1941 a Roménia.

Quanto a Portugal, a propaganda alemã serviu-se, intensamente, desta estratégia para promover uma aproximação à elite nacional. Durante a II Guerra Mundial verificou-se mesmo uma «colaboração neutral» entre os dois países, definição utilizada por Walter Lipgens22, quando se refere aos grupos que, nos países neutros, colaboraram com os nazis, por «lealdade política» e, acrescentamos nós, ideológica, cultural e científica. Também em Portugal se verificou uma colaboração com a Alemanha nacional-socialista, tanto oficial (veja-se, por exemplo, o intercâmbio estabelecido entre organizações portuguesas e alemãs), como individual, motivada por lealdade ideológica, mas também pelos interesses económicos e estratégicos que estavam envolvidos.

Economicamente a dependência externa do País era esmagadora e colocava-o, historicamente, na órbita da Inglaterra23. Por outro lado, os ingleses exerceram uma forte pressão política, durante a guerra, por intermédio da sua Embaixada em Lisboa, recorrendo também a um bloqueio económico e a ameaças constantes. Contudo, isto não impediu a Alemanha de procurar estreitar o relacionamento económico entre os dois países, conseguindo mesmo, durante o conflito, afirmar-se como um dos principais parceiros comerciais de Portugal. Esta tendência veio na sequência de um estreitar de relações entre os dois países a nível militar. A Alemanha demonstrou, ainda na década de 1930, um grande interesse pelo programa de rearmamento português e aproveitou o terreno deixado livre pela Inglaterra, muito reticente em fornecer o exército nacional face ao comportamento do regime na Guerra Civil de Espanha. Os alemães facilitaram o financiamento do exército, receberam missões portuguesas para avaliarem o material e deram formação técnica. Para países periféricos como Portugal ou a Espanha, a Alemanha surgia, aos olhos dos seus intelectuais e cientistas, na vanguarda da cultura e da tecnologia. Vendia armamento, recebia missões militares, enviava formadores, recebia estudantes nas suas universidades, onde os formava e moldava. Tratava-se, sem dúvida, de um relacionamento que procurava ser global, abarcar todas as áreas, da militar à artística, passando pela científica e pela