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Relações Internacionais (R:I)

versão impressa ISSN 1645-9199

Relações Internacionais  n.27 Lisboa set. 2010

 

O novo populismo conservador do movimento Tea Party e as intercalares americanas

 

Teresa Botelho

Professora auxiliar da FCSH–UNL, onde lecciona Estudos Americanos. Doutorou-se na Universidade de Cambridge (Grã-Bretanha), e fez cursos de especialização sobre política externa americana, na Universidade de Harvard.

 

RESUMO

O cenário político das próximas eleições norte-americanas está marcado por um novo imponderável, relacionado com a influência de um novo actor no panorama político americano, a coligação de opiniões e organizações locais que se autodenomina movimento Tea Party. Desde a sua erupção na cena política nacional em Fevereiro de 2009 que comentadores e analistas políticos têm oferecido interpretações contraditórias sobre o significado e influência do novo movimento populista de pendor conservador. Este artigo analisa a génese do movimento, a sua estratégia política e a sua relação com os demais actores.

Palavras-chave: Estados Unidos, eleições intercalares, movimento Tea Party, Ron Paul

 

ABSTRACT

The new conservator populism of Tea Party and the American mid-term elections

The political scene of the coming American elections is marked by an unexpected, related with the influence of a new actor – the coalition of opinions and organizations self-denominated Tea Party Movement. Since its emergence in February 2009 that political analysts are making contradictory evaluations about movement’s meaning and influence. This article tries to explore the movement’s genesis, its political strategy and relation with other political actors.

Keywords: United States, Mid-term elections, Tea Party movement, Ron Paul

 

Sobressaltos de Novembro

Nas próximas eleições intercalares de Novembro, em que o eleitorado americano é chamado a eleger uma nova Câmara de Representantes, um terço do Senado (36) e governadores em 38 dos 50 estados, estão em causa, como em todos os sufrágios intercalares anteriores, não só a popularidade das medidas legislativas e do estilo de liderança da presente administração como a capacidade evidenciada pelos dois grandes partidos de gerirem tanto a vitória como a derrota eleitoral de há dois anos. O acelerado ritmo do ciclo eleitoral americano que impõe a todas as administrações e congressos um novo teste de popularidade a meio de cada mandato presidencial, tende a favorecer o partido na oposição, que pode capitalizar os descontentamentos acumulados durante os primeiros dois anos de qualquer presidência. O capital de boa vontade que geralmente rodeia uma administração recém-eleita tende a ser investido na passagem de legislação mais controversa ou impopular nestes primeiros anos já que, depois das intercalares, a capacidade de actuação tanto do Presidente como do Congresso é normalmente fragilizada pela nova correlação de forças entre os ramos legislativo e executivo, uma situação agravada pela perspectiva de novo sufrágio presidencial no horizonte. De acordo com os princípios básicos do guião tradicional da política americana, as intercalares são, assim, um teste à capacidade de retenção da popularidade do Presidente e do partido que detém a maioria no Congresso e à aptidão de recuperação de iniciativa política da oposição.

Não parece estar em dúvida que os democratas vão perder peso no ramo legislativo, nas eleições de Dezembro, e que o Presidente Obama vai ter de governar com um Congresso menos favorável do que o que enfrentou na primeira fase do seu mandato. A incógnita centra-se na amplitude das perdas sofridas. Desde 1970 que a média de lugares perdidos pelo partido maioritário na Câmara de Representantes nas intercalares ronda os vinte e três, com duas notáveis excepções – os resultados de 2002 que deram mais oito representantes aos republicanos, o que é explicado pela reacção ao 11 de Setembro que, como qualquer acto de agressão externa sempre faz, consolidou o apoio ao Governo; e as eleições de 1994, em que a Administração Clinton sofreu uma pesada derrota, com uma perda de 54 lugares para o Partido Republicano e a consequente mudança do controlo das duas câmaras do Congresso dos democratas para os republicanos.

Dada a aritmética actual da relação de forças no Congresso, uma repetição do descalabro de 1994 não parece fácil, já que graças às perdas significativas dos republicanos em 2008, a reconquista do Congresso implicaria um ganho de 41 lugares na Câmara de Representantes e um volte-face no Senado em que mais lugares detidos por republicanos do que por democratas são sujeitos a eleição e em que os primeiros teriam não só de reter todos os seus senadores como conquistar nove mandatos aos democratas. Para um tal resultado, os democratas teriam de somar erros sistemáticos até Novembro e os republicanos teriam de travar uma campanha sem percalços nem embaraços, o que parece politicamente improvável.

No entanto, todos os cálculos políticos das próximas eleições estão marcados por um novo imponderável, relacionado com a verdadeira influência de um novo actor no de opiniões e organizações locais que se autodenomina Movimento Tea Party, numa clara alusão ao protesto anti-inglês de 1773 que expressou o seu ultraje contra a tentativa inglesa de estabelecer um monopólio à Companhia das Índias Orientais no fornecimento de chá para as colónias americanas, despejando um carregamento das folhas ofensivas nas águas do porto de Boston.

Desde a sua erupção na cena política nacional em Fevereiro de 2009, em que grupos dispersos organizaram um protesto simultâneo em 40 cidades contra o Pacote de Estímulo Financeiro da Administração Obama, que comentadores e analistas políticos têm oferecido interpretações contraditórias sobre o significado e influência do novo movimento populista de pendor conservador; enquanto alguns o lêem como um fenómeno efémero deliberadamente fomentado pelos media conservadores, nomeadamente a Fox News, outros explicam-no como uma genuína revolta basista que reflecte um profundo mal-estar antipolítico do eleitorado, ou mesmo como a herança (se bem que politicamente conservadora) do espírito libertário de autonomia pessoal anti-establishment dos anos 1960.

Sendo que provavelmente nenhuma destas leituras é completamente errada, nenhuma parece ser completamente suficiente para explicar que cerca de um terço do eleitorado americano tenha declarado, no final de Março passado, simpatia pelo Tea Party e que metade dos republicanos se identifique com o movimento; a falta de especificidade da sua agenda (para além da exigência de «menos governo»), e o carácter heterogéneo e frequentemente contraditório dos interesses dos grupos e opiniões que o guarda-chuva semântico alberga, que à partida poderiam prejudicar a sua ambição política, parecem, por outro lado, facilitar a sua função de reflector de uma panóplia de descontentamentos de sectores diversificados do eleitorado conservador e libertário.

Alguma da retórica política mais exótica e extrema de membros do movimento parece estar a dar algum conforto aos democratas, especialmente quando assistem à derrota, nas primárias republicanas, de políticos veteranos e convencionais sumariamente substituídos por outsiders apoiados pelo Tea Party, alimentando a esperança de que, sob este impulso anti-establisment, os republicanos possam estar a cometer um suicídio político, propondo candidatos que podem entusiasmar os vectores do seu eleitorado mais radical, mas que serão dificilmente eleitos pela grande maioria centrista e independente que tende a ser mais moderada. Por outro lado, a vaga de descontentamento anti-Washington também não poupou o eleitorado democrata que fez igualmente algumas escolhas inesperadas nas primárias, castigando políticos veteranos e optando por outsiders. Há já muito tempo (pelo menos desde o caso Watergate) que afirmar-se contra o aparelho político federal parece ser uma condição sine qua non para se ser eleito e fazer parte desse mesmo aparelho, como a retórica da campanha de 2008 de Obama confirmou. O que as eleições de Novembro podem esclarecer é o grau e a direcção dessa rebelião contra Washington e tudo o que o governo federal representa.

Os apoiantes populistas do Tea Party consideram-se representantes desse descontentamento, mas a falta de coerência interna e as divisões do movimento que abrange desde libertários tradicionais como Ron Paul a evangélicos piedosos e patriotas intervencionistas musculados, podem diminuir a sua capacidade de apresentar um discurso coerente em que se revejam todos os sectores conservadores do Partido Republicano e do eleitorado, como se viu também durante as primárias, em que figuras queridas do Tea Party como Sarah Palin, apoiaram tanto candidatos propostos pelo movimento, como políticos mais tradicionais. Para compreender se o Tea Party pode ser a salvação populista do Partido Republicano ou se, por outro lado, pode acelerar a sua radicalização afastando-o do eleitorado independente que decide o resultado das eleições nos Estados Unidos é necessário compreender primeiro a sua genealogia e pedigree político.

 

O efeito Ron Paul

A historiografia do Tea Party atribui a paternidade ideológica do movimento ao Dr. Ron Paul, representante republicano de um distrito eleitoral do Texas e candidato à presidência pelo Partido Libertário em 1988, e à nomeação republicana das primárias presidenciais de 2008. A relação entre a longa carreira do membro do Congresso e o movimento é, no entanto problemática, na medida em que, se há aspectos em que as suas posições convergem, nomeadamente no que diz respeito à limitação do papel e responsabilidades do governo federal, a postura de Paul em áreas de política externa e política de segurança afastam-se, substancialmente, de correntes de opinião influentes do movimento.

O «Dr. Não», como é popularmente conhecido em virtude do seu historial de votos negativos contra iniciativas legislativas propostas por qualquer dos dois partidos que considere não serem expressamente autorizadas pela Constituição, e considerado o mais conservador de todos os 3320 membros do Congresso eleitos entre 1937 e 20021, compartilha parcialmente com os tea partiers uma visão sobre a política fiscal (defende a abolição do imposto sobre os rendimentos e o desaparecimento da Reserva Federal), sobre o papel regulamentador do Estado em áreas da vida social (opõe-se a programas federais na área da educação e segurança social e rejeita os programas de combate às drogas, cuja legalidade entende ser da esfera dos estados individuais) e a política de saúde (favorece o desaparecimento de programas federais como o MEDICARE, que garante os cuidados de saúde gratuitos à população mais idosa, a mesma que constitui parte do eleitorado que o Partido Republicano tradicionalmente representa), bem como sobre os programas federais de protecção do ambiente (incluindo os Clean Air Act e Clean Water Act que datam do início dos anos 1960). Mas noutros aspectos da sua visão política, a coerência interna do pensamento de Paul afasta-o da postura de largos sectores do Tea Party. O seu não intervencionismo isolacionista traduz-se na defesa da retirada dos Estados Unidos não só da ONU como também da NATO. O seu liberalismo económico leva-o a advogar a saída dos Estados Unidos não só da Organização Mundial do Comércio como, paradoxalmente, da nafta. Na área da política de segurança, votou contra o «Patriot Act» proposto pelo seu próprio partido. Em suma, o que faz de Ron Paul uma figura única de estimável consistência, não susceptível ao oportunismo eleitoral que caracteriza a política real, é, simultaneamente, o seu grande handicap.

A admiração que muitos tea partiers têm pelo Grande Libertário não significa nem uma ligação orgânica nem uma adopção entusiástica de todos os aspectos da sua filosofia. De facto, nas primárias para seleccionar o candidato do seu distrito eleitoral do Texas às eleições de Novembro, Ron Paul foi desafiado por mais três candidatos, todos associados ao movimento. Nalguns casos, a percepção do excepcionalismo de algumas das posições de Paul, nomeadamente o seu não apoio às guerras do Iraque e do Afeganistão, parece afastar conservadores republicanos que nelas se revêem. Por outro lado, o próprio congressista, que sempre aliou a sua coerência na defesa de princípios conservadores ao decoro e elegância de trato, sentiu a necessidade de se desassociar de aspectos mais histriónicos da retórica de alguns tea partiers, nomeadamente no que diz respeito à forma antagónica e agressiva como se referem ao Presidente e a outros opositores domésticos. Comentando a explosão dos movimentos anti-impostos e anti-Washington que ele próprio, indirectamente, encorajou, Paul admitia, durante as primárias desta Primavera, alguma cautela quanto às consequências desta vaga de contestação contra os actores políticos tradicionais ao afirmar que «apesar de considerar que estes desenvolvimentos são positivos, tenho de me esforçar para não ser apanhado na mesma onda e ser afastado do meu cargo antes de termos terminado a nossa tarefa»2.

 

O Tea Party como novo actor político

O perfil dos activistas e apoiantes do Tea Party tem sido objecto de estudos e sondagens que procuram fixar o seu espectro demográfico. De acordo com uma sondagem CNN//New York Times de Abril passado, os tea partiers são maioritariamente brancos (89 por cento), do sexo masculino, casados e têm mais de 45 anos3. No que diz respeito ao seu estatuto económico e educativo, uma sondagem Gallup/New York Times de Março deste ano indica que não se distinguem particularmente do resto da população adulta americana – a maioria está empregada (49 por cento) ou reformada (24 por cento), nunca frequentou a universidade (34 por cento), ou, fê-lo esporadicamente (34 por cento). Já quanto a questões sociais e políticas, as suas opiniões são substancialmente mais conservadoras do que as do resto dos americanos: 65 por cento declara-se pró-vida, em comparação com 46 por cento dos americanos; no que diz respeito à reforma do sistema de saúde de Obama, as diferenças são ainda mais significativas, só 12 por cento a consideram positiva, enquanto 47 por cento dos restantes americanos a aprovam4.

No entanto, o aspecto relevante é a relativa inexperiência dos activistas – quatro em cada cinco declaram-se politicamente noviços, nunca tendo participado em campanhas políticas anterior5 . Este facto (que, não pode ser objectivamente verificado), alimenta a narrativa oficial do Tea Party que o caracteriza como um movimento espontâneo, basista, uma soma de vontades individuais sem líderes ou aparelho centralizado, e sem ambições políticas convencionais, procurando associá-lo directamente a duas grandes tradições políticas cívicas e políticas, endemicamente americanas – a contestação à autoridade do governo federal e o activismo de base de cariz local.

O seu uso da simbologia independentista, a começar pelo nome, não é acidental; a acção directa do Tea Party de Boston, defendida embora por mestres de propaganda política como Sam Adams, não foi apoiada por outros patriotas mais cautelosos quanto a métodos de luta política que afectassem o direito de propriedade e envolvessem bandos de populares desgovernados e adquire agora um significado específico, reforçado pelo folclore retórico e estético do movimento – a nação está em perigo, o perigo vem do Governo, e a resposta só pode ser dada pela acção individual directa dos patriotas americanos, convocados por um novo espírito revolucionário.

Também não é irrelevante que o movimento tenha adoptado uma reformulação do símbolo gráfico mais famoso da luta independentista – o cartoon da cascavel retalhada, em que cada parte representava uma colónia, acompanhado do apelo «Unite or Die»; em vez desse símbolo de um desígnio colectivo, os tea partiers exibem a bandeira que representou o desafio da incipiente Marinha americana contra a poderosa Marinha inglesa. Nesta bandeira6, uma cascavel ergue a cabeça ameaçadoramente, acompanhada pelo slogan «Don’t thread on me» (não me pisem).

Esta mensagem, que não é agora dirigida contra inimigos externos, mas contra o que os cidadãos que nessa se revêem acreditam ser o excessivo peso do Estado na vida americana e mais especificamente o programa «socialista» da Administração Obama7, gera, consequentemente uma inerente ambiguidade. Quando usada contra perigos que ameaçam a nação, o Eu convocado é claramente a América, mas quando usado contra o Governo parece dar voz ao ressentimento pessoal – não me obriguem a fazer o que não quero fazer (como pagar impostos para sustentar programas federais) em nome do bem-estar nacional.

As primárias republicanas do estado do Missouri, no início de Agosto, ilustram o ambíguo cruzamento da mitologia na nação em perigo com o ressentimento individual, quando as bases do partido escolheram um «verdadeiro conservador» contra dois senadores estaduais mais experientes (o tipo de políticos tradicionais a quem os tea partiers gostam de chamar RINOS – Republicans Only in Name). O slogan que granjeou as simpatias das bases é de uma simplicidade reveladora – «Estão fartos?». Os cartazes e discursos do candidato Billy Long asseguravam que ele estava, pessoalmente, farto, as bases republicanas reconheceram que também o estavam, e assim, arrebatadas pelo desígnio de «enviar um cidadão a Washington»8, colocaram na corrida à Câmara de Representantes um candidato que dificilmente conquistará os votos independentes necessários à sua vitória.

Estar farto do Congresso, do Presidente, do IRS, dos políticos que não são cidadãos, dos economistas, dos peritos e dos intelectuais (na famosa frase de Sarah Palin à Convenção de Fevereiro da Tea Party Nation9, «precisamos de um comandante-em-chefe e não de um professor de Direito») não tem a mesma ressonância optimista da vaga populista conservadora que levou Ronald Reagan ao poder. O seu cariz é mais negativo, centrado na acumulação de queixas e na defesa de interesses individuais limitados e frequentemente contraditórios (como o desejo de cortar impostos federais e a defesa simultânea de programas como o MEDICARE sustentado por esses mesmos impostos). Não há evidentemente nada de ilegítimo na defesa de interesses egoístas na acção política, mas parece mais difícil construir um momento reaganiano inspirado em programas que não se baseiem em visões positivas de bem-estar nacional.

Por outro lado, o activismo de base e a gestão descentralizada do movimento tornam-no próximo dos hábitos cívicos americanos – reuniões em bibliotecas e edifícios públicos, preparação de publicidade, organização de stands em espaços públicos ou preparação de carros alegóricos para desfiles, bem como o uso de blogues e redes sociais fazem parte do quotidiano de milhões de cidadãos bem mais habituados a resolver os problemas comunitários localmente, de forma autónoma do que os cidadãos europeus. Até que ponto a narrativa ingénua da génese e desenvolvimento do movimento é compatível com os factos, depende da perspectiva. Trava-se uma luta semântica entre os seus apoiantes e adversários desde que o economista Paul Krugman desmontou, no New York Times, a teoria da geração espontânea do movimento. Em vez de grassroots(o termo usado para designar um movimento genuinamente basista), o Tea Party foi acusado de ser um fenómeno de astroturf10 (ou seja, de ser manufacturado de cima para baixo, por grupos de pressão que lhe são anteriores e que, cuidadosamente, manipularam a sua aparente origem comunitária). Desde então, organizações conservadoras como o FreedomWorks, o grupo de acção dirigido por Dick Armey, um dos arquitectos da vitória republicana de 1994 e o Americans for Prosperity11, um grupo de pressão associado à actividade petrolífera, entre outros, admitiram ter apoiado organizativa e materialmente o movimento, com cujos objectivos se identificam. Não parece analiticamente muito produtivo investigar o passado do movimento e o seu financiamento inicial, já que as duas coisas são, hoje, evidentes e consensuais – o apoio de largos sectores da opinião pública mais conservadora americana ao movimento e a sua capacidade de mobilização de vários descontentamentos a nível local, regional e nacional.

A composição difusa do movimento, que assumiu a estrutura de uma federação de 83 organizações (e indivíduos) em Abril passado pode ser, por outro lado, a fonte da sua implosão. O caso da expulsão da Federação no passado mês de Julho, de uma das suas mais numerosas constituintes, ilustra as contradições inerentes à sua fórmula. O Tea Party Express que afirma contar com 400 membros, tem sido responsável por algum do comportamento mais escandalosamente ofensivo, racista e homofóbico dirigido contra membros do Congresso e contra sectores da sociedade americana; o seu líder, Mark Williams, que se referiu publicamente a Barak Obama como um «muçulmano indonésio transformado num rufião pró-Estado social», e tem liderado a campanha para declarar a ilegalidade da sua presidência, alegando que o Presidente nunca provou ter nascido em território americano, redigiu e tornou pública uma carta satírica dirigida a Lincoln, pretensamente «assinada» por escravos, onde estes lamentam o fim da escravatura, e se queixam de que deixarão de ter uma vida de privilégio, subsidiada pelo trabalho de brancos, se houver cortes de impostos12. O tom da carta, inusitado pela virulência do seu racismo, levou a Federação, empenhada em apresentar uma face responsável no período pré-eleitoral, a expulsar o grupo, funcionando como se fosse uma organização política tradicional com poder de decidir quem lhe pode pertencer13.

Aqui reside o âmago do dilema do Partido Republicano – como fazer uso de um movimento que lhe pode ser eleitoralmente favorável sem se deixar contaminar por um discurso politicamente embaraçoso e impossível de controlar.

 

O que fazer com o Tea Party?

A estratégia eleitoral dos dois partidos para as eleições de Novembro parece, a dois meses de distância, relativamente clara. Aos democratas interessa associar o Partido Republicano ao Tea Party, sabendo que a expulsão do mais visivelmente radical dos seus constituintes extremistas não só não diminuiu a sua influência – o grupo continua a apoiar alguns dos candidatos republicanos menos mainstream como Sharon Angle, candidata pelo estado do Nevada ao lugar de Harry Reid, o dirigente dos democratas no Senado – como não garante a respeitabilidade política futura do discurso político dos tea partiers.

Ao Partido Republicano interessa gerir esta ligação de forma a potencializar o entusiasmo pelos seus candidatos mais conservadores, neutralizando ao mesmo tempo o embaraço potencialmente causado pela retórica não só de apoiantes mas de candidatos impostos pelos tea partiers contra o establishment do partido. O caso mais mediático (mas de forma alguma o único) é o de Rand Paul, o filho de Ron Paul, seleccionado como candidato republicano pelo Kentucky, com o apoio entusiástico do Tea Party, e contra os esforços da elite do partido que apoiava outro candidato, tentando evitar dar um trunfo significativo aos democratas. Pouco tempo depois da sua selecção, o candidato condenava publicamente as críticas do Presidente Obama à BP na sequência do derrame de petróleo no Golfo do México dizendo-as «não americanas», e expressava dúvidas constitucionais sobre o «Civil Rights Act» de 1964 que ilegalizou a segregação racial nos estados do Sul, colocando-se assim claramente fora do mainstream do eleitorado americano.

As dificuldades dos republicanos em gerir o Tea Party resultam da necessidade de equilibrar dois impulsos potencialmente contraditórios, relacionados com o maior bloco do eleitorado americano, os independentes (cerca de 30 por cento) – canalizar o seu descontentamento sem o assustar com um discurso político claramente excessivo e radical. Sondagens indicam que muitos eleitores independentes cujos votos foram fundamentais para a vitória de Obama têm manifestado desapontamento com a Administração nomeadamente no que diz respeito às suas prioridades (saúde aparentemente privilegiada em relação a empregos), ao aparente insucesso na gestão da crise económica, e ao agravamento do défice. Quando apenas 30 por cento dos eleitores se dizem convencidos de que o país vai na direcção certa e apenas 46 por cento aprovam a política da presente administração, o partido da oposição parece ter uma oportunidade significativa, complicada, no entanto, pelo facto de ser igualmente atingido pela extrema impopularidade do Congresso, cuja actuação é aprovada por apenas 19 por cento dos eleitores14. De acordo com dados da Gallup, uma comparação de todas as eleições intercalares desde 1964, sempre que a taxa de aprovação de um Presidente se situou abaixo dos 50 por cento, no fim do segundo ano do seu mandato, o seu partido perdeu em média 36 lugares na Câmara de Representantes, comparado com uma perda de 14 por cento quando a taxa de aprovação era superior a 50 por cento. Se nada mudar até Novembro na percepção do público, um tal resultado, embora muito embaraçoso para os democratas, não constituiria uma derrota devastadora, já que manteriam, se bem que com uma margem reduzidíssima, o controlo da Câmara. Por outro lado, a popularidade de um Presidente é uma dimensão extremamente volátil e plástica; dos três presidentes que apresentavam no seu segundo ano de mandato taxas de aprovação significativamente abaixo dos 50 por cento – Carter, Reagan e Clinton – os dois últimos recuperaram suficientemente o seu crédito político e venceram um segundo mandato, enquanto George H. Bush, que 75 por cento dos americanos consideravam um bom Presidente antes das intercalares de 1991 veria o eleitorado negar--lhe um segundo mandato.

Os democratas – que vão certamente ser abalados pelos inquéritos da Comissão de Ética a dois veteranos da Câmara, Charles Rangel, de Nova Iorque, e Maxine Waters, de Los Angeles, agendados para antes de Novembro – parecem ter decidido que o seu melhor trunfo estratégico é a associação dos republicanos ao Tea Party. Os dirigentes do movimento, por outro lado, não parecem inclinados a facilitar as escolhas da liderança republicana, forçando uma escolha que esta certamente desejaria não ter de enfrentar publicamente. No início de Agosto, emitiram um programa em 10 pontos a que chamaram «Contract from America», pedindo a todos os candidatos republicanos que o assinassem ou repudiassem. Esse minimanifesto inclui pontos queridos ao movimento – rejeição do programa de troca de emissões, reforma do sistema fiscal, restauração do «governo limitado», rejeição do plano de reforma da saúde aprovado este ano, fim dos «gastos excessivos» do Governo. Pressionados pelos apoiantes do movimento, 50 representantes republicanos assinaram o compromisso, apesar de dirigentes destacados da Câmara, como John Boehner e Eric Cantor terem anunciado que não fazem intenção de o assinar. O Partido Democrata não perdeu naturalmente esta oportunidade de acentuar as «ligações perigosas» dos republicanos, a sua ideia chave para a campanha, emitindo uma tradução dos 10 pontos do Tea Party onde as consequências dos compromissos do «Contract from America» são desmontadas.

Mark Lilla, numa análise recente do ethos jacobino do Tea Party, descreve-os como «um grupo de americanos furiosos que quer ser ainda mais livre – livre das agências governamentais que protegem a sua saúde, riqueza e bem-estar; livre de problemas e políticas demasiado complexas para eles as perceberem; livres de peritos que acham que sabem mais do que eles; livres de políticos que não falam como eles»15. Esses americanos já deram ao país Sarah Palin e Joe, o Canalizador. Depois das eleições de Novembro saberemos se estes cidadãos, que estão fartos e não reconhecem as contradições das suas próprias ambições, são capazes de influenciar, significativamente, a forma como a política é feita no seu país, ou se serão contidos pela experiência colectiva dos políticos moderados do seu partido e pela sensatez do eleitorado.

 

NOTAS

1 Esta colocação resulta do estudo de votos individuais de membros do senado e do Congresso nesse período, usando um sistema computacional descrito em POOLE, Keith – «Estimating a basic space from a set of issue scales». in American Journal of Political Science. vol. 42, n.º 3, 1998, pp. 954-993. Para a lista completa de senadores e membros da Câmara e as suas posições relativas, cf.: POOLE, Keith – «Is john Kerry a liberal?». in Voteview.com, 13 de Outubro de 2004. [Consultado em: 8 de Agosto de 2010]. Disponível em: http://voteview.com/is_john_Kerry_a_liberal.htm        [ Links ]

2 «Even GOP conservative Ron Paul draws tea party opposition». in Dallas Morning News, 7 de Fevereiro de 2010.

3 «Cbs/NYTimes Poll: national survey of tea party supporters». in New York Times, 12 de Abril de 2010. [Consultado em: 6 de Agosto de 2010]. Disponível em: http://documents.nytimes.com/new-york-timescbs-news-poll-national-survey-of-tea-party-supporters?ref=politics

4 «Tea partiers are fairly mainstream in their demographics». in Gallup.com, 5 de Abril de 2010. [Consultado em: 6 de Agosto de 2010]. Disponível em: http://www.gallup.com/poll/127181/tea-partiers-fairly-mainstream-demographics.aspx

5 RABAN, Jonathan – «At the tea party». in The New York Review of Books. vol. LVII, n.º 3, 24 de março-7 de Abril de 2010, pp. 4-9.

6 A bandeira, geralmente denominada como a bandeira Gadsden, foi concebida em 1775 pelo general Christopher Gadsden.

7 Noventa e dois por cento dos inquiridos na sondagem Cbs/New York Times caracterizam desta forma o programa da administração Obama.

8 COLLINS, Gail – «Show me your insiders». In New York Times/ International Herald Tribune, 5 de Agosto de 2010, p. 7. Mais informações sobre a campanha de Billy Long em http://billylongforcongress.com

9 A Tea Party Nation é uma das três maiores organizações que integram o movimento. As outras duas são o Tea Party Express e os Tea Party Patriots.

10 O jogo semântico depende da oposição entre grassroots (que denota relva natural) e astroturf (relva artificial).

11 Fundado pelo presidente da Koch industries, uma das mais importantes refinadoras dos Estados Unidos.

12 «Tea Party Express leader Mark Williams kicked out over “Colored People” Letter». In New York Daily News, 18 de Julho de 2010. [Consultado em: 27 de Julho de 2010]. Disponível em: http://www.nydailynews.com/news/politics/2010/07/18/2010-07-18_tea_party_express_leader_mark_williams_expelled_over_colored_people_letter.html

13 O grupo afirma que não reconhece à federação o direito de o expulsar. Mark Williams afastou-se entretanto do grupo, para se dedicar a outra causa, a oposição à construção de um centro cultural islâmico perto do Ground Zero, um projecto defendido por Michael Bloomberg, o mayor de nova York.

14 Dados da Gallup (actualizados em 12 de Agosto). [Consultado em: 12 de Agosto 2010]. Disponível em: http://www.gallup.com/poll/politics.aspx

15 LILLA, Mark – «The Tea Party Jacobins». In The New York Review of Books. Vol. LVII, N.º 9, 27 de Junho de 2010, pp. 53-56.