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Relações Internacionais (R:I)

versão impressa ISSN 1645-9199

Relações Internacionais  n.26 Lisboa jun. 2010

 

A trajectória de um movimento islamita na Somália (2006-2010)1

 

Alexandra Magnólia Dias

Investigadora auxiliar no Centro de Estudos Africanos do Instituto Universitário de Lisboa, onde é investigadora responsável pelo projecto «Monitorização de Conflitos no Corno de África», financiado pela FCT. Doutorada em Relações Internacionais pela London School of Economics and Political Science com uma tese sobre Uma Guerra Inter-Estatal no Pós-Guerra Fria: Eritreia-Etiópia 1998-2000 que recebeu uma menção honrosa pelo júri da 2.ª edição do Prémio da Associação Portuguesa de Ciência Política.

 

RESUMO

O artigo analisa, à luz da teoria dos movimentos sociais, a trajectória do movimento islamita na Somália e a insurreição protagonizada por organizações militantes islamitas de inspiração diversa. Neste contexto, assume particular destaque a transformação da organização militante islamita extremista Al-Shabaab e a sua inclusão pelos Estados Unidos na lista de organizações terroristas desde 2008. O argumento central sublinha a importância de evitar tais classificações. De acordo com Gunning, a classificação de uma organização com as características da Al-Shabaab enquanto organização militante islamita (extremista), em oposição a uma classificação enquanto organização terrorista, permite introduzir uma maior fluidez heurística e permite considerar, dentro da própria organização, os elementos mais inclusivistas e mais permeáveis a uma estratégia de acomodação e de des-radicalização.

Palavras-chave: Islão político, movimentos militantes islamitas, jihad de inspiração salafita, mujahidin.

 

The trajectory of an Islamist movement in Somalia (2006-2010)

ABSTRACT

This article offers an analysis of the trajectory of an Islamist movement in Somalia and of the insurrection. The article focuses on the various Islamist militant organisations which comprise the insurrection. The article aims to testing the applicability of social movement theory to understanding Islamist militant organisations in Somalia. In this context, the transformation of the Islamist militant organisation Al-Shabaab and its inclusion in the US list of terrorist organisations, since 2008, will be of particular importance. The central argument highlights the importance of avoiding this type of classification. According to Gunning, the classification of an organisation with the characteristics of Al-Shabaab as an extremist Islamist militant organisation rather than its classification as a terrorist organisation fosters analytical fluidity because it enables to consider those inclusivist elements within the organisation and those more permeable to a strategy of accommodation and de-radicalization.

Keywords: Political Islam, Islamist militant movement, salafi inspired jihad, mujaheedin.

 

In memoriam Prof. Fred Halliday (22 de Fevereiro de 1946-26 de Abril de 2010)

«A tentativa de traçar a ascensão e a queda dos movimentos islamitas remete essencialmente para as sociedades específicas onde estes emergem».2

 

A Somália, após praticamente uma década de menor visibilidade desde a retirada em 1995 da Operação de Apoio à Paz das Nações Unidas, voltou a ocupar protagonismo na agenda internacional pelas ramificações regionais e globais do total colapso e desintegração do Estado desde 1991. Os factores que colocaram a Somália nos radares dos estados regionais e extra-regionais foram a ascensão do Conselho de Tribunais Islâmicos (CTI), de Junho a Dezembro de 2006, pelas alegadas conexões de elementos do mesmo ao movimento militante transnacional salafita (Al-Qaida) e a maior incidência de ataques de pirataria na bacia da Somália e no golfo de Adem, desde 2007 até à data de publicação do presente artigo.

Este artigo tem por objectivo analisar a trajectória do movimento islamita na Somália desde a sua ascensão até à queda, pela intervenção concertada das Forças Nacionais de Defesa da Etiópia (FNDE) em apoio ao Governo Federal de Transição (GFT). Numa segunda parte, observa a sua posterior fragmentação, numa pluralidade de facções insurreccionais, e radicalização mediante apelos e mobilização de apoio de mujahidin em oposição à presença de forças de ocupação ditas estrangeiras (primeiramente as FNDE até Janeiro-Fevereiro de 2009, e, desde Março de 2007 até ao presente, a Missão da União Africana para a Somália/Muasom). Finalmente, analisa-se a subsequente inclusão de elementos moderados num novo GFT através de um processo político impulsionado pelas Nações Unidas: o processo político de Jibuti e a transformação da insurreição.

O período de análise restringe-se a 2006-2010, ainda que se proceda ao devido enquadramento histórico do papel do islão na sociedade somali, de modo a traçar a trajectória do movimento islamita e a analisar a pluralidade de organizações militantes islamitas que emergiram após a queda do CTI. O fenómeno da pirataria não será objecto de análise neste contexto uma vez que, até ao presente, não foi possível estabelecer qualquer conexão entre a pluralidade de facções na insurreição (e sua intensidade) e a pirataria3.

 

PARA UMA COMPREENSÃO DAS ORGANIZAÇÕES MILITANTES ISLAMITAS À LUZ DA TEORIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

Na sequência do 11 de Setembro de 2001 assistiu-se a uma proliferação de estudos sobre terrorismo4. Uma das problemáticas que maior enfoque recebeu foi precisamente o terrorismo suicida perpetrado por indivíduos doutrinados por organizações militantes islamitas extremistas5. A avalancha em termos de produção científica, nesta subárea dos estudos de segurança, tendeu no entanto a concentrar-se num leque reduzido de temáticas, nomeadamente na Al-Qaida ou em tópicos relacionados com o 11 de Setembro (bombistas suicidas, mártires e extremismo islâmico). O resulto foi diverso, verificando-se um crescimento de estudos com abordagens, de qualidade também diversa, e frequentemente carecendo de enquadramento histórico, teórico e conceptual e da obtenção e produção de dados empíricos primários6. Uma das abordagens que se revela particularmente útil para a compreensão de sociedades muçulmanas, para o papel do islão político e para a emergência de organizações militantes islamitas é a sua análise a partir de uma perspectiva ancorada na teoria dos movimentos sociais7. Esta perspectiva tem sido gradualmente aplicada na análise de organizações não inclusivas e violentas que recorrem a ataques terroristas para fazerem vingar os seus objectivos de alteração do status quo nas sociedades onde emergem8.

Uma abordagem das organizações militantes islamitas a partir da perspectiva dos movimentos sociais reporta-se a uma vasta produção científica anterior ao 11 de Setembro. Neste contexto, revelam-se particularmente válidos os avanços obtidos através do casamento de perspectivas teóricas e conceitos da área de estudos do Médio Oriente e de relações internacionais, sendo de assinalar em particular o vasto corpo teórico e a pluralidade de estudos de caso edificados por um professor de referência para várias gerações de estudantes e estudiosos de Relações Internacionais: Fred Halliday9. Este artigo encontra-se estruturado a partir de dois pressupostos teóricos centrais dentro desta perspectiva de análise.

Em primeiro lugar, parte-se do pressuposto teórico de que a ascensão de movimentos islamitas e as formas particulares que assumem se encontram subordinadas a tendências nacionais10. Em segundo lugar, o enfoque na trajectória de um movimento islamita numa dada sociedade assenta no pressuposto teórico de que cada movimento islamita reflecte o país (sociedade) onde emerge enquanto força política11.

Através da análise dos contornos da emergência, da ascensão e da queda de um movimento islamita numa sociedade muçulmana na África Oriental, mais precisamente na região do denominado Corno de África, pretende-se contribuir para a reflexão acerca da trajectória e das formas nacionais dos movimentos islamitas e dos mecanismos conducentes à radicalização de segmentos da sociedade tendo em vista estimular o debate relativamente aos modos e estratégias adoptados por uma miríade de actores nacionais, regionais e extra-regionais face a organizações militantes islamitas extremistas, com ligações à Al-Qaida, à luz da organização com estas características na Somália: a Al-Shabaad e, desde 2009, formalmente denominada Harakat Al-Shabaad al-Mujahidin12.

O Conselho de Tribunais Islâmicos na sua fase de ascensão, que será o enfoque da primeira parte deste artigo, revelou-se mais do que islâmico – islamita – no sentido definido por Fred Halliday: «como parte de um movimento que procurou resolver questões políticas e sociais por referência ao Islão»13. No entanto, este movimento islamita revelou-se igualmente militante pelo recurso à força para implementar os seus propósitos. Neste contexto, o recurso à violência é entendido como um processo dinâmico. A classificação deste tipo de movimento enquanto «organização terrorista», parafraseando Gunning, torna-se uma anomalia. De acordo com este autor,

«esta terminologia torna as tácticas terroristas excepcionais mediante a ocultação da importância do restante reportório de acção de uma organização, as suas interacções com o movimento social mais amplo, e a natureza temporal do recurso a tácticas terroristas»14.

Com efeito, tal como sublinha o autor, a dicotomia entre organizações militantes e não militantes islamitas não é concebida de forma tão rígida como a dicotomia entre organizações terroristas e não terroristas15.

Este debate será introduzido na parte final do presente artigo aquando da análise da transformação da organização militante islamita extremista Al-Shabaad e da sua inclusão, em 2008, pelos Estados Unidos, na lista de organizações terroristas. O argumento central deste artigo sublinha a importância de evitar tais classificações. De acordo com Gunning, a classificação de uma organização com as características da Al-Shabaad enquanto organização militante islamita (extremista), em oposição a uma classificação enquanto organização terrorista, permite introduzir uma maior fluidez heurística que, por consequência, contribui para uma análise da violência

«não apenas como uma simples escolha ideológica ou táctica mas como o produto de intensos debates dentro do próprio movimento e de lutas pelo poder entre facções, lutas essas alimentadas pelo acesso diferenciado a recursos e pelas interpretações rivais dos interesses e identidades dos seus membros»16 .

Com efeito, a análise da pluralidade de organizações militantes islamitas na Somália (que emergiram na sequência da queda do CTI) por referência à trajectória do movimento islamita nacional (Somália) e transnacional (Al-Qaida) revela-se profícua para analisar a violência enquanto parte das dinâmicas dos movimentos sociais17.

 

A DIVERSIDADE DAS FORMAS DE APROPRIAÇÃO DO ISLÃO NA SOMÁLIA E A ASCENSÃO DO MOVIMENTO ISLAMITA

A queda do regime de Siyad Barre, em 1991, foi seguida por uma escalada de violência entre diversas facções rivais que culminou na desintegração e colapso do Estado. Tanto o sistema legal de justiça como as forças de segurança se desintegraram.

Neste contexto de vácuo de autoridade assistiu-se a uma reemergência do direito costumeiro (heer) e do direito islâmico (shari’a). Nas regiões predominantemente nómadas, os tribunais da shari’a encontravam-se subordinados às deliberações do direito costumeiro. Nestas zonas, a aplicação da shari’a estava restringida aos assuntos intraclã e relacionados com disputas de estatuto pessoal. Mesmo relativamente ao clã a shari’a encontrava-se limitada pela força do costume local e, por sua vez, os líderes religiosos encontravam-se subordinados aos líderes dos clãs18 . Nas regiões do Sul da Somália, onde as ocupações agropastoris tendem a predominar, e nas zonas costeiras, a shari’a tinha uma jurisdição mais ampla. Tal deve-se à menor saliência do princípio de linhagem e à menor autonomia dos cultivadores e dos empreendedores urbanos face aos líderes dos clãs19 . Com efeito, a sociedade na Somália tem-se caracterizado pela distinção clara entre os papéis seculares e os religiosos, os waranleh (guerreiros) e os wadaad (líderes religiosos) ocuparam locais distintos, encontrando-se os últimos subordinados aos primeiros e a actuação dos wadaad limitava-se à mediação20. No entanto, com a desintegração do Estado, os tribunais da shari’a inspirados no modelo da Arábia Saudita e apoiados por comerciantes somalis adquiriram maior notoriedade. Mas para os líderes dos clãs, os líderes dos novos tribunais da shari’a eram pejorativamente apelidados de «jovens xeques ocidentalizados»21

Tal como sublinha Lewis, a ressurgência de organizações islamitas na sequência da desintegração do Estado deve ser entendida como uma estratégia, por parte de líderes locais, de aproveitamento da facilidade de apoio externo por parte de estados árabes, em termos financeiros e de armas22 .O maior protagonismo da Al Itihad Al Islamaya (AIAI) neste período inseriu-se nessa tendência. No entanto, a AIAI também se viu envolvida na luta pelo controlo de recursos críticos locais com outros senhores da guerra e com milícias dos clãs, nomeadamente em lutas pelo controlo das cidades portuárias de Mogadíscio, Merca, Kismayo e Bossaso. Esta estratégia revelou-se fatal e a AIAI sofreu uma derrota no Norte face à Frente de Salvação Democrática Somali predominantemente identificada com o clã Darod/Majeerteen23. A AIAI anunciou renunciar à força e centrou a sua acção no trabalho social ao nível local para garantir o apoio dos clãs para a sua agenda islâmica24.

No entanto, uma parte da AIAI, liderada por Hassan Dahir Aweys, expandiu as suas operações militares para a Etiópia, tornando os confrontos com as FNDE inevitáveis, o que, em última instância, levou ao desmantelamento da aiai e à destruição da sua base em Luuq (região de Gedo) pelas FNDE.

Os tribunais islâmicos resultaram de diversas tentativas de implantação na capital, com o apoio de poderosos senhores da guerra e de comerciantes, para garantir alguma ordem e contrariar a atmosfera de ausência de lei e de impunidade. Durante a vigência do Governo Nacional de Transição (2000-2004), os tribunais diminuíram em visibilidade e importância. Em 2003, Sheikh Sharif Ahmed liderou uma nova tentativa de restabelecimento dos tribunais no norte da capital e, um ano mais tarde, foi eleito secretário-geral dos tribunais na capital.

Em 2005, assistiu-se a uma vaga de desaparecimentos e assassínios misteriosos em Mogadíscio. Os alvos foram somalis cujas credenciais como islamitas radicais os tornavam suspeitos. Posteriormente, em Fevereiro de 2006, com o alegado apoio da CIA, foi criada a Aliança para a Restauração da Paz e Contra-o-Terrorismo (ARPCT) liderada por senhores da guerra25. O confronto entre elementos da ARPCT e a Al-Shabaab (a facção militar dos tribunais islâmicos, liderada por Aden Hashi Ayro) pelo controlo do porto de El Mana, na capital, resultou na derrota da ARPCT e marcou o início da ascensão do Conselho de Tribunais Islâmicos. Durante a ascensão do CTI, os cidadãos da capital acolheram com entusiasmo um conjunto de medidas que melhorou significativamente as condições de vida em Mogadíscio: o desmantelamento dos controlos de milícias no interior da capital, a recolha de lixo e a atmosfera de maior ordem e segurança26. Os islamitas moderados associados a Sheikh Sharif encontravam-se no Comité Executivo e os islamitas tidos por extremistas e liderados por Hassan Dahir Aweys encontravam-se na Shura (o Conselho Consultivo). De Junho a Dezembro de 2006 as ofensivas lideradas pelo CTI contra o Governo Federal de Transição liderado, na época, pelo senhor da guerra nortenho do clã Darod/Majerteen, Abdilahi Yussuf, ameaçavam o GTF. Neste contexto, mediante solicitação do GTF, em Dezembro de 2006, as FNDE intervieram na Somália conduzindo à derrota do CTI e precipitando o seu desmantelamento com os dois principais líderes em retirada no exílio. Nesta altura, o conflito entre o CTI e o GFT era representado em termos demasiado simplistas como um conflito entre um dos clãs do Norte –Darod e o clã predominante na capital Hawiye. Apesar de o elemento clânico não ser de descurar, outros factores contribuíram para a queda do CTI. A retórica de ressurgimento da ideia expansionista e nacionalista da Grande Somália (que visava a incorporação dos territórios de estados vizinhos, da Etiópia e do Quénia, onde há uma maioria de cidadãos de etnia somali), a presença de elementos na liderança do CTI na lista de terroristas dos Estados Unidos e com alegadas ligações à Al-Qaida, a retórica de implantação da shari’a e a estratégia exclusivista e de confronto face ao GFT contribuíram para a capacidade de forjar alianças do GFT com os estados vizinhos que viam no cti uma ameaça para a sua segurança interna.

Esta trajectória do movimento islamita na Somália sugere a importância de ter em conta dois aspectos identificados por Robinson na análise de outras sociedades muçulmanas em África: i) a diversidade da cultura religiosa islâmica; e ii) a variedade e originalidade da prática islâmica em sociedades africanas27. Estes factores são determinantes para a compreensão da transformação do movimento e da proliferação de organizações militantes islamitas, cuja análise constituirá o objecto da parte final do presente artigo.

 

A TRANSFORMAÇÃO DO MOVIMENTO MILITANTE ISLAMITA: A INSURREIÇÃO E O PROCESSO DE PAZ DE JIBUTI

As transformações do movimento social foram acompanhadas por uma escalada de hostilidades e por lutas pelo poder intramovimento e entre os diversos actores e, em certa medida, exacerbadas pelas alianças e rivalidades entre os actores na Somália e outros actores internacionais (estatais/não estatais, nacionais/transnacionais, regionais/extra-regionais). Verificou-se uma alteração em termos dos protagonistas. Esta parte do artigo irá caracterizar os protagonistas do lado do GTI, ou a aliança entre secularistas e islamitas moderados e da insurreição, a saber, as seguintes organizações militantes islamitas: os militantes islamistas extremistas da Al-Shabaab, os militantes islamitas nacionalistas da Hizb Islam e os militantes islamitas tradicionalistas da Ahlu Sunna Wal Jamaa.

Com efeito, a queda do CTI conduziu ao desmembramento e fragmentação do movimento. Inicialmente, de Janeiro de 2007 a Janeiro de 2009, os membros das organizações militantes islamitas que permaneceram na Somália encontraram duas justificações ideológicas capazes de mobilizar vastos segmentos da sociedade: o objectivo de estabelecimento do direito islâmico (sharia) como a lei de um futuro Estado da Somália e a expulsão das forças estrangeiras da Somália em particular da Etiópia.

Em Janeiro de 2009, estas duas justificações foram obliteradas pelo processo de paz de Jibuti. Este processo, sob chancela das Nações Unidas, resultou na eleição de um islamita moderado (o antigo presidente do Comité Executivo do CTI) o President Sharif Ahmed, que prontamente tomou a iniciativa de fazer aprovar pelo Parlamento Federal de Transição o reconhecimento do direito islâmico como a base de governação e com jurisdição em toda a Somália.

Simultaneamente, assistiu-se a uma retirada das FNDE da Somália. Permaneceram apenas os contingentes afectos à Muasom contando actualmente com uma força circunscrita a alguns quarteirões de Mogadíscio, de 6300 peacekeepers oriundos do Uganda, Burundi e Jibuti28.

Estes dois desenvolvimentos não alteraram significativamente a insurreição, no entanto, acresceram à já debilitada capacidade da Al-Shabaab encontrar justificações ideológicas com poder de mobilização, quer dentro do movimento, quer junto a vastos segmentos da sociedade.

Dentro da panóplia de medidas impopulares levadas a cabo pela Al-Shabaad e, nalguns casos, também pela Hizb Islam, há que destacar os inúmeros ataques bombistas suicidas29 , em particular o de Dezembro de 2009 durante a Cerimónia de Graduação na Universidade de Mogadíscio, combinados com a destruição dos túmulos considerados sagrados pelos seguidores de santos sufis desde 200830; as punições severas impostas nas áreas administradas pela Al-Shabaab face ao incumprimento dos preceitos e práticas do islão de inspiração wahabita na sua versão salafita tal como preconizado pela Al-Shabaab (incluindo amputações, apedrejamento, prática de punição com açoite público) e, finalmente, a intensificação da insurreição, desde a ofensiva de Maio de 2009, acompanhada por um aumento de fatalidades (de não combatentes) e provocando uma nova vaga de deslocados31 em busca de protecção face à intensidade das hostilidades entre beligerantes na capital.

Estes factores permitem compreender o decréscimo de popularidade geral da organização militante islamita extremista. Para além destes factores, há que mencionar dois adicionais que comprometeram a legitimidade da autoridade da Al-Shabaab, tanto no plano externo como no plano interno. As duas linhas de clivagem no interior da própria organização emergem em torno, por um lado, da oposição entre aqueles que apoiam uma jihad de cunho nacional e entre aqueles que apoiam uma jihad de cunho interna-cional/global e, por outro lado, entre aqueles que subordinam a crença e as práticas da interpretação salafita do islão à identificação clânica (e/ou subclânica); respeitando a solidariedade clânica em detrimento da rivalidade entre as diversas interpretações e práticas do islão dos diversos protagonistas do conflito.

A presença de mujahidin e de líderes não somalis enquanto assessores dos líderes da organização militante islamita extremista, Al-Shabaab, são outros factores que a médio-longo prazo tendem a conduzir à erosão interna da capacidade de mobilização de apoio por parte desta organização. O controlo de território por parte da Al-Shabaad, a intensificação da insurreição e a sua capacidade de mobilização de apoio quer de mujahidinde origem somali, quer de elementos de outras nacionalidades com ligações à Al-Qaida, tem conduzido a um aumento de visibilidade e protagonismo da Al-Shabaab na insurreição em proporção inversa à sua legitimidade face a segmentos da sociedade somali e das formações da diáspora somali. Este protagonismo, apesar de não constituir uma surpresa, menorizou a visibilidade e permite aferir do decréscimo do capital simbólico e de mobilização de apoio que o antigo presidente da Shura (Conselho Consultivo do CTI), Sheikh Hassan Dahir Aweys, beneficiou internamente durante a fase de ascensão do CTI e durante uma parte do período de exílio em Asmara (Eritreia). O protagonismo de Aweys no CTI contribuiu para o exacerbar de receios nos países vizinhos (em particular na Etiópia) e, por parte dos Estados Unidos, da preponderância de elementos militantes islamitas extremistas, e com ligações à Al-Qaida, no CTI. Tal ficou a dever-se às anteriores acções sob liderança de Aweys na AIAI, nomeadamente os ataques terroristas em Dire Dawa e Adis Abeba (Etiópia) nos anos 1990, e o apoio logístico providenciado pela AIAI para os ataques bombistas perpetrados por membros da célula da Al-Qaida na África Oriental contra interesses americanos nesta região32.

Hassan Dahir Aweys permaneceu em Asmara desde a queda do CTI até meados de Abril de 2009. Em Setembro de 2007, foi um dos líderes fundadores da Aliança para a Relibertação da Somália (ARS). Esta aliança foi objecto de uma cisão, tendo gerado duas facções, a de Aweys, que se opôs ao processo de paz de Jibuti, e a de Sharif, que adoptou uma estratégia de aproximação e de negociação face ao antigo GFT, denominadas ARS-Asmara e ARS-Jibuti, respectivamente.

Na sequência da eleição de Sharif, em 2009, o regresso de Aweys à Somália ocorreu em fase coincidente à reunião do novo GFT com os doadores em Bruxelas (23 de Abril de 2009) para obtenção de fundos para apoiar a edificação do novo GFT resultante da aliança entre moderados islamitas e antigos membros do GFT. O regresso de Aweys à Somália foi antecedido pela criação da Hizb Islam em Fevereiro de 2009. A Hizb Islam foi o resultado da aliança entre: i) o ARS-Asmara de Aweys; ii) o Ras Kamboni liderado pelo antigo companheiro de armas de Aweys dos tempos da AIAI Hassan Turki; Ras Kamboni, até esta data, era uma facção da Al-Shabaab; iii) outra facção da Al-Shabaab, Anole, também se integrou na Hizb Islam; e iv) Jabhatul Islam (o acrónimo em somali é Jabiso).

As implicações da escalada de violência para os não combatentes, tanto pelas ofensivas da Al-Shabaab como pelas ofensivas em aliança com Hizb Islam, permitem compreender a mudança no alinhamento de anciões do clã Hawiye e a capacidade de mobilização de apoio junto dos vários subclãs dos Hawiye33 por parte da Ahlu Sunna Wal Jama (ASWJ) que significa «Seguidores da Via Profética e do Consenso».

Apesar da tendência apolítica das ordens sufistas, a sua decisão de recorrer à força foi desencadeada para travar os avanços da Al-Shabaab no Vale de Jubba e para impedir a destruição de lugares sagrados associados ao culto de santos sufistas. As ordens sufistas na Somália, tal como em outras sociedades africanas, associam a profissão de fé no islão a um conjunto de espíritos, santos e sacrifícios, práticas estas condenadas e classificadas como idólatras por outros muçulmanos34. Apesar de a ASWJ não reunir uma força para além dos dois mil efectivos tem conseguido travar os avanços da Al-Shabaab (e do Hizb Islam) de forma mais consistente e eficiente do que o GFT. O GFT conta aproximadamente com uma força de três mil elementos, ainda que a força total planeada para as Forças Somalis de Segurança Nacional seja de oito mil35.

O acordo celebrado a 15 de Março de 2010, entre a ASWJ e o GFT, garantindo cinco posições ministeriais, para além de postos diplomáticos e lugares seniores dentro da polícia e dos serviços de intelligence para membros da ASWJ gerou descontentamento dentro da organização e suscitou críticas por parte de alguns dos líderes36. Esta divisão de posições face à integração do GFT confirma a tendência de líderes sufistas em outras sociedades africanas relativamente ao poder político. Os líderes sufistas, Amadu Bamba do Senegal e Sheikh Muhamad Shafi da Etiópia, assentavam a sua conduta no princípio de que o poder corrompe e não serve necessariamente os propósitos de aumento do número de praticantes, nem a qualidade da prática da fé islâmica37. Inicialmente, esta aliança de sufistas tradicionais na Somália foi interpretada como uma tentativa para um dos subclã Hawiye (Habr Gidir) encontrar uma forma alternativa de defender os seus interesses e de atenuar a sua representação como anti-GFT38 . A dissensão provocada pelo acordo com o GFT parece sugerir que os fins iniciais da ASWJ, e de uma parte dos membros que se identificam com a organização, não contemplavam a tomada de poder.

A sua entrada no conflito ficou a dever-se essencialmente à tentativa da Al-Shabaab de controlar a cultura religiosa somali, nomeadamente a forma de apropriação do islão pelas ordens sufistas e a sua veneração de santos.

A insurreição continua e a fragmentação dentro do movimento islamita e dentro das diversas organizações que o compõem não permite identificar uma tendência de predomínio por parte dos protagonistas da insurreição. Por seu turno, o GFT continua fortemente dependente da Muasom e do apoio internacional para a sua permanência no poder.

 

CONCLUSÃO

Neste sentido, a análise do estudo de caso revela a importância de ter em conta a tensão entre a diversidade e tolerância nos modos de apropriação do islão na Somália e as tendências homogeneizantes do modo de apropriação do islão imposto através do recurso à força pelo movimento militante islamita salafita, vulgo, Al-Shabaab39. Com efeito, a intensificação da insurreição e a emergência de novas organizações militantes islamitas sublinha, por um lado, a complexidade da identidade islâmica na Somália e a sua resistência a simplificações e controlo e, por outro, sugere que a tentativa por parte do novo GTF (resultante da aliança entre islamitas moderados e secularistas) de criar um Estado islâmico acresce em dificuldades face à quinzena de tentativas falhadas de reconstruir o Estado na Somália nas últimas duas décadas, desde a queda de Siyad Barre e o colapso do Estado.

A análise do estudo de caso é particularmente enriquecedora para compreender a trajectória do movimento islamita e as formas particulares de apropriação do islão, nas suas versões militantes e não militantes, pela sociedade somali. Esta análise permite, igualmente, confirmar a asserção de Gunning relativamente a outras organizações militantes islamitas, a saber, a radicalização de elementos de organizações militantes islamitas na Somália deve ser entendida como resultado das dinâmicas dentro do próprio movimento e do contexto externo40, nomeadamente as arenas políticas regional e global.

Finalmente, o estudo de caso oferece algumas pistas de reflexão para compreender o período de gestação de criação de um Estado islâmico numa sociedade em que o Estado se desintegrou por completo.

 

NOTAS

1 Este artigo é o resultado do trabalho de campo realizado no âmbito do projecto de investigação, em curso, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, intitulado «Monitorização de Conflitos no Corno de África».

2 HALLIDAY, Fred - The Middle East in International Relations: Power, Politics and Ideology. Cambridge: Cambridge University Press, 2005, p. 236.

3 HANSEN, Stig Jarle – Piracy in the greater Gulf of Aden. NIBR Report, 2009.

4 SILKE, Andrew, (ed.) - Research on Terrorism: Trends, Achievements and Failures. Londres, Portland. RANSTORP, Magnus - "Mapping terrorism studies after 9/11: An academic field of old problems and new prospects", In JACKSON, R., SMYTH, Marie Breen e GUNNING, Jeroen (eds.) – Critical Terrorism Studies: A new research agenda. Londres: Routledge, 2009, pp. 13-33. SILKE, Andrew - "Contemporary terrorism studies: issues in research, In JACKSON, R., SMYTH, Marie Breen e GUNNING, Jeroen (eds.) – Critical Terrorism Studies: A new research agenda, Londres: Routledge, 2009, pp. 34-48 (p.45).

5 RANSTORP, Magnus – «Mapping terrorism studies after 9/11: an academic field of old problems and new prospects», pp. 18 e 23; SILKE, Andrew, (ed.) – Research on terrorism: trends, achievements and Failures.

6 As dificuldades de obtenção de dados primários para o presente artigo foram colmatadas mediante realização de trabalho de campo em Hargeisa (Somalilândia/Somália em Dezembro de 2007) em Addis Abeba e Nairobi (Outubro-Dezembro de 2008) e mediante realização de entrevistas com estudiosos da Somália (membros de formações da diáspora somali e cidadãos de outras nacionalidades) que efectuaram trabalho de campo no período sob análise (2006-2010) na Somália. A análise da trajectória dos movimentos militantes islamistas foi complementada com dados secundários obtidos através dos relatórios do International Crisis Group, a saber: International Crisis Group – "Somalia’s Divided  Islamists ". Africa Briefing N°74, 18 de Maio de 2010, pp.1-19. International Crisis Group - "Somalia’s Islamists ". Africa Report N°100, 12 de Dezembro de 2005, pp. 1-34; vários números de Africa Confidential e mediante participação em Conferências onde foi possível validar algumas das considerações preliminares face a audiências e participantes de origens profissionais diversas com o denominador comum do enfoque na Somália e/ou em movimentos militantes (e não-militantes) islamistas, nomeadamente em Leiden, Lisboa e Barcelona (2009); Sevilha, St. Andrews, Aveiro, Coimbra e Lisboa (2010).

7 DALACOURA, Katerina - "Islamist Movements as Non- state Actors and their Relevance to International Relations." In JOSSELIN, Daphne´ e WALLACE, William (eds. – Non-state actors in world politics. Basingstoke: Palgrave, 2001, pp. 235-248.

8 GUNNING, Jeroen - "Social movement theory and the study of terrorism". JACKSON, R., SMYTH, Marie Breen e GUNNING, Jeroen (eds.) – Critical Terrorism Studies: A new research agenda. Londres: Routledge, 2009, pp. 156-177.

9 HALLIDAY, Fred – op. Cit., 2005, entre inúmeras obras, sempre na charneira dos grandes desafios teóricos que perpassaram a disciplina, como por exemplo a sua obra HALLIDAY, Fred - Rethinking international relations. Londres: Macmillan Press, 1994. Na senda de Halliday, Katerina Dalacoura tem contribuído para o cruzamento frutífero entre a área de estudos do Médio Oriente e Relações Internacionais, sendo de destacar a recente tentativa de aplicabilidade da abordagem multidisciplinar da área de estudos à sub-área dos estudos de terrorismo: DALACOURA, Katerina - "Middle East area studies and terrorism studies: establishing links via a critical approach." In JACKSON, R., SMYTH, Marie Breen e GUNNING, Jeroen (eds.) – Critical Terrorism Studies: A new research agenda. Londres: Routledge, 2009, pp. 124-137

10 HALLIDAY, Fred - Islam & the Myth of Confrontation: Religion and Politics in the Middle East London. Nova York: I. B. Tauris, 1996 (edição revista 2003), p. 119.

11 DALACOURA, Katerina – «Islamist movements as non-state actors and their relevance to international relations», p. 246.

12 INTERNATIONAL CRISIS GROUP – «Somalia’s divided islamists». In Africa briefing. N.° 74, 18 de Maio de 2010, pp. 1-19 (p. 7).         [ Links ]

13 HALLIDAY, Fred – Islam & the Myth of Confrontation: Religion and Politics in the Middle east. london, p. X.

14 GUNNING, Jeroen (eds.) – Critical terrorism studies: a new Research agenda, p. 162.

15 ibidem.

16 ibidem.

17 ibidem, pp. 162-163.

18 HELANDER, Bernhard – «Somalia». In WESTERLUND, David, e SVANBERG, Ingvar (eds.) – Islam Outside the Arab World. Curzon. Nova York: St. Martin’s Press, 1999, pp. 37-55.

19 LEWIS, I. M. – Saints and Somalis: Popular Islam in a Clan-based society. Londres: Haan Associates, 1998, p. 25.

20 ibidem, p. 14.

21 Ocidentalizado neste contexto deve ser entendido como sinónimo de estrangeirado. MARCHAL, Roland – «Islamic political dynamics in the Somali civil war. Before and after 9/11». In WAAL, Alex de (ed.) – Islamism and its enemies in the Horn of Africa. Londres: Hurst & company, 2004, p. 124.

22 LEWIS, I. M. – Saints and Somalis: Popular Islam in a Clan-based society, p. 44.

23 ibidem, p. 44.

24 HELANDER, Bernhard – «Somalia», p. 47; MARCHAL, Roland – «Islamic political dynamics in the Somali civil war. Before and after 9/11», p. 139.

25 PRUNIER, Gerard – «A world of conflict since 9/11: CIA coup in Somalia». In Monde diplomatique, setembro de 2006.

26 BARNES, Cedric, e HASSAN, Harun – «The rise and fall of Mogadishu’s islamic courts». Londres: Chatham House, Abril de 2007; SAMATAR, Abdi ismail – «Briefings: the miracle of Mogadishu». in Review of African Political economy. N.º 109, 2006, pp. 581-587.

27 ROBINSON, David – Muslim societies in African History. Nova York: Cambridge University press, 2004, p. 197.

28 INTERNATIONALCRISIS GROUP – «Somalia’s divided islamists», p. 16.

29 Os ataques suicidas bombistas de Outubro de 2008 levados a cabo simultaneamente em Hargeisa (Somalilândia) e em Bossaso (Puntlândia) chamaram a atenção para a capacidade da Al-shabaab de mobilização e de recrutamento de mujahidin estrangeiros para a Somália pela descoberta, entre os autores dos atentados, de cidadãos americanos de origem somali dando confirmação à inserção da jihad somali na jihad global com ligações à Al-qaida.

30 A campanha teve início no vale de Jubba nos finais de 2008 e em Março de 2010. Uma campanha renovada de destruição dos túmulos e lugares de culto dos santos sufistas a norte de Mogadíscio causou indignação e protestos por parte de vários segmentos da sociedade somali, levando à aparição do termo pejorativo de «escavadores de sepulturas» para designar al-shabaab. em adição, a criação de um departamento anti-idolatria por Al-shabaab revela que esta estratégia permanece central para a organização e se insere na tendência mais ampla salafita (com ancoragem inicial no movimento wahabita que se caracteriza por exortar os seus seguidores a rejeitar a veneração excessiva dos túmulos de santos) (in ROBINSON, David – Muslim societies in African History, p. 102).

31 Entre Maio e Outubro de 2009, estima--se que as hostilidades tenham provocado 150 mortos e 57 mil deslocados. O número total de deslocados na Somália perfaz 1,5 milhões.

32 Estamos a referir-nos aos ataques em Agosto de 1998 contra as embaixadas dos estados Unidos em Nairobi (Quénia) e Dar es Salam (Tanzânia) que resultaram no caso de Nairobi em 213 mortos (entre os quais 14 cidadãos americanos) e 4500 feridos e no caso de Dar es Aalam balanço da explosão foi de 11 mortos e 85 feridos. Na segunda ocorrência, em Outubro de 2000, uma lancha armadilhada explodiu contra o destroyer USS Cole, da marinha dos Estados Unidos, ao largo do Iémen, originando 17 mortos e 39 feridos. dois elementos da AIAI e que, posteriormente, assumiram protagonismo no CTI e no Hizb islam Hassan Dahir Aweys e «Hassan turki» (o líder da facção Ras Kamboni) foram designados terroristas pelos estados Unidos, ordem 13224, e pela resolução do conselho de segurança das Nações Unidas 1267 pelas suas ligações à Alqaida.

33 Inclusive junto do subclã Habr Gidir/Ayr anteriormente associado aos islamistas extremistas da shura no CTI.

34 ROBINSON, David – Muslim societies in african History, p. 101.

35 INTERNATIONAL CRISIS GROUP – «Somalia’s divided islamists», p. 14.

36 Tanto o encarregado pelas relações externas da AsWJ, sheikh bashir Adbi Olad, como «Abu Zakariya» consideraram o acordo como uma traição e alertaram que tal acordo conduzirá à desintegração da ASWJ; INTERNATIONAL CRISIS GROUP – «Somalia’s divided islamists», p. 14.

37 ROBINSON, David – Muslim societies in african History, p. 207.

38 INTERNATIONAL CRISIS GROUP – «Somalia’s divided islamists», p. 11.

39 ibidem.

40 GUNNING, Jeroen (eds.) – Critical terrorism studies: a new Research agenda, p. 160.