SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 número26Focus group: Considerações teóricas e metodológicasJusta Freire o la pasión de educar: Biografía de una maestra atrapada en la historia de España (18961965) índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Compartilhar


Revista Lusófona de Educação

versão impressa ISSN 1645-7250

Rev. Lusófona de Educação  no.26 Lisboa mar. 2014

 

RECENSÃO

Anabela Mimoso (2014). Rebelo de Bettencourt: Raízes de Basalto. Ponta Delgada: Editora Seixo Publihers, 77 páginas.

 

Maria Neves Gonçalves & José Viegas Brás

Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologias -CeiED maria.neves.g@gmail.com; zevibras@gmail.com

 

A Editora Seixo Publishers acaba de dar à estampa o livro Rebelo de Bettencourt: Raízes de Basalto, de Anabela Mimoso.

A autora convida-nos a uma reflexão sobre a vida e a obra de Rebelo Bettencourt. Trata-se de uma narrativa que, no fundo, é uma história de vida. Que vida é esta que Anabela MImoso nos dá conhecer? É de alguém que nos surpreende desde logo por ter escrito um texto crítico sobre Fernando Pessoa, datado de 1930, publicado na revista Pessoa Plural da Brown Universit, numa altura em que Fernando Pessoa era ainda um escritor ignorado por parte do público ou depreciado por outra parte.

A autora revela o rigor e a precisão que se exige a uma narrativa de natureza científica. Esta é uma marca significativa deste livro. Resulta de um trabalho meticuloso, quer pela recolha, quer pela selecção, quer pelo tratamento das fontes. Para penetrar na personalidade deste micaelense, Anabela Mimoso recorreu a fontes orais (memórias da família da mulher, mas também das da filha e dos netos), a documentos pessoais (como o passe do autocarro, o cartão de estudante do conservatório, cartão de visitas,…), à correspondência de Rebelo de Bettencourt com Antero de Figueiredo e sobretudo ao legado bibliográfico do autor. A sua obra é vasta: cinco livros de poesia, seis livros de ensaios e crónicas, várias traduções e revisões de traduções, um livro de contos e muitos artigos, crónicas e ensaios dispersos por diversos jornais e revistas.

Na sua explanação, a autora vai-nos apresentando o biografado que é um intelectual progressista conectado com as ideias que circulavam então pela Europa. Mas reserva ao leitor a implicação intrínseca com o texto, pois este tem que ir, ao longo do enunciado narrativo, configurando os recortes temporais e espaciais em que Rebelo Bettencourt se vai movendo e situando. Rebelo Bettencourt é um homem culto, cosmopolita e viajado para quem “Um navio representa (…) o mistério e o deslumbramento de outras terras distantes e desconhecidas, de outras ilhas, de outros povos. O mar! A volúpia das viagens! “ (p. 8). E um autor multifacetado. Foi crítico, ensaísta, jornalista e poeta. Contemporâneo e amigo de Fernando Pessoa, Almada Negreiros e outros vultos da intelligentsia do seu tempo, foi um seguidor e admirador do seu conterrâneo, Teófilo Braga, que ele conheceu na Universidade de Lisboa. Alguns anos mais tarde, haveria de dedicar à sua cidade natal o livro Teófilo Braga, mestre nacionalista.

O livro, que agora se apresenta, está escrito numa linguagem clara, límpida, onde, discursivamente, afloram, de quando em vez, algumas expressões imagéticas e metafóricas que dão cor local à narrativa e lhe incutem laivos de literariedade, não fosse a autora também uma notável escritora de ficções literárias1. O livro, além da Introdução e da Conclusão, estrutura-se em três partes, cada uma delas focando-se numa das facetas deste escritor ecléctico e cosmopolita. Assim, o leitor mergulha em três níveis de leitura, a saber: A vida - com alguns pormenores curiosos (pp.6-11); A obra - categorizada em poesia, contos, traduções, ensaios, crónicas em jornais e revistas (pp.11-51. E o Pensamento de Rebelo Bettencourt (pp.51-69).

Uma das partes, que ocupa um significativo espaço na economia narrativa deste livro, é a poesia. Mesmo tendo escrito os seus poemas respeitando sempre a métrica tradicional, dentro de um nacionalismo muito influenciado por António Sardinha – “o continuador de Garrett e o mentor da nova geração” (p.27) - que ele venerava, não deixou de celebrar o modernismo dos “rapazes do Martinho e da geração de Orfeu” (p.47)” , como ele chamava a Almada Negreiros, a Santa Rita Pintor, a Fernando Pessoa e a Carlos Porfírio. Data de 1917 a sua colaboração no Portugal Futurista. Aí publicou além de um elogioso artigo sobre Santa Rita, outro sobre o Futurismo. Mais tarde haveria de os incluir no seu melhor livro de ensaios/crónicas O Mundo das Imagens. Ferreira de Castro escreveria que encontrara neste livro “páginas cheias de beleza, páginas de um brilhantíssimo recorte literário” (Gaceta Literaria, Madrid, 1935, p.71).

Se a vida de Rebelo Bettencourt merece à autora um olhar aprofundado, o mesmo se verifica na preocupação em fornecer ao leitor dados contextuais históricos, culturais, artísticos, teatrais sobre a época em que ele viveu.

E assim, aos poucos, a autora foi configurando o autor a corpo inteiro. Um autor para quem a ilha foi demasiado pequena, apesar de “nunca ter abandonou as suas raízes de basalto e apesar das longas ausências” e da “maioria da sua vida [ter sido] feita fora longe da ilha natal e do seio da família. Regressaria ao lar para morrer” (p.11). Um autor que sustentou a importância da educação para o ressurgimento e europeização do nosso país: “ O problema da instrução em Portugal tem de ser estudado e resolvido. Sem a resolução desse problema o nosso ressurgimento não será possível. E todos nós que amamos e sofremos por saber amar a nossa terra, desejamos que Portugal se europeize de novo e que de novo ele venha a ser o vasto império” (p.43).

Ao finalizamos esta recensão, socorremo-nos das próprias palavras do autor escritas no Verão de 1948: “Quem, habitualmente, lê os meus artigos, sabe tão bem como eu que, quando escrevo para a imprensa da minha ilha, é sempre ao assunto açoriano que dou a minha preferência. Trinta anos de Lisboa não me despaísaram, se me permitem a expressão. Continuo a ser o mesmo micaelense de sempre, a tal ponto que, nos meus melhores versos, naqueles em que mais se adivinha a paisagem natal, eu não deixo de fazer transparecer a minha qualidade de ilhéu. Muitas vezes tenho dito e escrito que quando se nasce açoriano é para sempre» (Gazeta dos Caminhos de Ferro, nº 1454, de 16 de junho de 1948).

 

Referências Bibliográficas

Antologia de Poesia Açoriana. Do século XVIII a 1975. (1977). Silveiro, P. Selecção, Prefácio e Notas. Lisboa: Livrara Sá da Costa.

Mimoso, A. (2007). A vida pela metade. Vila Nova de Gaia: Gailivro.         [ Links ]

Mimoso, A. (2006). Dona bruxa gorducha. Vila Nova de Gaia: Gailivro.         [ Links ]

Mimoso, A. (2007). Traz os olhos cheios de palavras. Porto: Ambar.         [ Links ]

Ramos, R. (2008). A nação intelectual. In Mattoso, J. História de Portugal. (vol. XI). Lisboa: Círculo de Leitores.         [ Links ]

 

Notas

1 Entre outras, consulte-se, Mimoso, A. (2006). Dona bruxa gorducha. Vila Nova de Gaia: Gailivro. Mimoso, A. (2007). A vida pela metade. Vila Nova de Gaia: Gailivro. Mimoso, A. (2007). Traz os olhos cheios de palavras. Porto : Ambar.