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Revista Lusófona de Educação

versão impressa ISSN 1645-7250

Rev. Lusófona de Educação  no.26 Lisboa mar. 2014

 

ARTIGO

Nota Introdutória

 

Maria Constança Vasconcelos, José Duarte & Sara Bahia

 

“Consideramos que las expectativas de futuro de la Educación Artística nos permiten ser optimistas dada su imprescindible función social, función que se fundamenta en palabras clave como ‘democracia’, ‘sociedad plural’, ‘tolerancia’, ‘educación para la paz’, ‘ocio’, ‘calidad de vida’ y ‘cultura estética’ entre otras”. Juanola y Calbó (2005, p. 99).

A reflexão sobre o ensino das Artes Visuais (fundamentos pedagógico-didáticos, currículos, estratégias e práticas pedagógicas) revela-se imprescindível face às mudanças e incertezas que em termos sociais, culturais e económicos caraterizam as sociedades contemporâneas. Essa reflexão, promovida através da investigação e de abordagens críticas que se possam partilhar, é um instrumento fundamental para a vitalidade da área no âmbito das Ciências Sociais, no sentido de corresponder aos desafios que surgem, à escala global na formação de cidadãos. As novas exigências na formação de professores em Artes Visuais, um pouco por todo o mundo e recentemente em Portugal, abriram um debate alargado na área e contribuíram para o avanço da investigação e para a produção científica num campo relativamente marginal do sistema educativo português. Assim, este Dossier temático da Revista Lusófona de Educação visa contribuir para a discussão e disseminação de novos conhecimentos e experiências, na tentativa de participar de uma comunidade ativa de reflexão, de crítica e inovação.

Reconhece-se o papel estruturante das artes na formação de crianças, jovens e adultos, pelo desenvolvimento que promove de aspectos cognitivos, sociais, emotivos e criativos. Por outro lado, a visualidade crescente do mundo atual, enfatiza a necessidade da educação em artes, literacia e cultura visual. A imaginação, criatividade e inovação, são reconcetualizadas nas sociedades atuais, como competências imprescindíveis, incorporando estruturas e estratégias de pensamento que lidam com a ambiguidade, pensamento crítico, resolução criativa de problemas, flexibilidade, aceitação da diferença, que caracterizam a complexidade do pensamento e do trabalho em artes. A preservação de valores culturais a diferentes escalas, no contexto da globalização, exige o desenvolvimento duma consciência crítica que as artes promovem.

No entanto e de um modo paradoxal, as políticas educativas transpostas nos currículos em muitos sistemas educativos atuais tendem a enfatizar a eficiência do ensino, a racionalidade técnica e a normalização, que através do desenvolvimento de competências de curto prazo, permitem a obtenção de bons resultados em testes e exames. Esta postura que descura valores, atitudes e competências de nível superior, reflete-se com grande peso na desconsideração da importância das artes nos contextos e práticas educativas. Longe de corresponder ao real valor da educação artística e suas implicações na formação integral do indivíduo, caminha também ao arrepio do interesse e afirmação no campo social e económico que as artes, na sua ligação primordial à cultura, têm vindo a despertar no mundo contemporâneo. Está igualmente em contracorrente com as prioridades definidas pela UNESCO (2006) de “mobilizar o poder da cultura”.

Por outro lado, o ensino em educação artística permanece, em larga medida, arredado dos grandes debates da sociedade atual, puramente formalista em muitos casos, divergente dos novos percursos da arte contemporânea, afastado das potencialidades das novas tecnologias e desfasado dos interesses dos alunos e dos reais problemas da comunidade, factos que contribuem para algum incómodo e desmotivação na área.

O ensino das artes não pode estar imune às mudanças da sociedade do conhecimento e arredado do que se passa no mundo atual e particularmente no mundo das artes. Se é imperioso que os alunos conheçam a linguagem do seu tempo, a arte contemporânea com o seu alargamento de campo, hibridização de meios, entrecruzamento disciplinar, preocupações sociais com ênfase nas temáticas face aos conteúdos, fornece excelentes oportunidades de conhecimento, ligadas à vida real e experiências do mundo dos alunos, com enorme potencial para contribuir para a promoção duma cultura, agente de mudanças construtivas.

Perfilhando o otimismo que se apresenta na citação que abre esta nota introdutória, sentimos que só através da reflexão e debate crítico, troca de experiências e disseminação dos resultados da pesquisa, a educação artística avança, pois cada vez menos as sociedades atuais se compadecem com prescrições ou receitas definitivas para o seu ensino.

A organização deste Dossier – Perspetivas e desafios no ensino das Artes Visuais - decorre da variedade temática dos artigos apresentados, que por sua vez indicia a complexidade e vitalidade do tema com as suas inúmeras ramificações. Uma primeira parte compila artigos que conformam estruturas teóricas e reflexões temáticas relevantes no ensino das artes. A 2ª parte é dedicada a projetos de base empírica, internacionais e nacionais, no âmbito da investigação emergente.

O artigo que abre este Dossier tem o sugestivo título de Para além do Crepúsculo das Artes Visuais na escola. A autora, Teresa Torres De Eça, fornece-nos pistas para justificar, questionar e reposicionar a educação artística no currículo escolar e para a reposicionar na contemporaneidade. Argumenta-se que as rotinas e práticas no quotidiano das escolas abdicam muitas vezes do desenvolvimento de capacidades para a compreensão cultural ou de experiências de aprendizagem baseadas numa ação moral ou de compromisso social. Propõe-se o repensar a educação artística e particularmente as artes visuais de forma a promover a educação para a paz, educação para a sustentabilidade, para a tolerância e para o respeito pelo outro. Em linha com diretivas internacionais da UNESCO para a educação artística, esta visão do ensino das artes também como construção ética, cívica e como prática comprometida cultural, social e políticamente, através da integração de temas sociais candentes, é crucial na formação de cidadãos responsáveis e ativos contrutores dum futuro melhor.

Enrique Gervilla Castillo, no artigo seguinte, intitulado Desafíos da la belleza corporal. Valoración y crítica educativa, justifica o valor da estética corporal, mas também da sua rejeição, quando anula valores essenciais à construção humana. Parte da análise do conceito de beleza física, na sua pluralidade semântica, que é valiosa, mas que, quando sobrevalorizada (sempre que a estética se sobrepõe à ética) pode levar à desumanização e perda de outros valores. Fala-nos de como lidamos com a cultura do corpo supervalorizado no séc. XXI (pois o corpo é sujeito e objeto da cultura), em que a beleza exterior se sobrepõe à interior (o modo de ser antes do ser) e se estende a todos os setores da sociedade. No contexto educativo formal, a importância do tema é tanto mais relevante, quanto se confronta com as poderosas visões da estética corporal desumanizada e estereotipada veiculada em espaços educativos informais dos media dominantes. Conclui o autor que é através duma estratégia reflexiva de diálogo e de pensamento crítico, que se pode ajudar a formar o valor estético do corpo, de acordo com a integridade da pessoa.

A segunda parte, dedicada a projetos de investigação, inicia-se com o artigo de Fernando Hernandez e Carmela Bertoni, Creative Connections: Construir un proyecto internacional de educación artística desde la investigación-acció participativa, dando conta de um amplo e inovador projeto europeu envolvendo 6 países, em que participam jovens de 12 escolas primárias e 12 secundárias e que tem a duração de três anos. Neste projeto, as artes visuais consubstanciam-se como mediador priveligiado na compreensão crítica da realidade, ligada à promoção da cidadania europeia. Através do diálogo com obras de artistas contemporâneos europeus que exploram questões sociais, como direitos humanos, diversidade cultural e justiça social, propõe-se que os jovens desenvolvam, num clima de liberdade, diálogo e reflexão, projetos artísticos sobre esses temas. O artigo clarifica os aspetos concetuais fulcrais na base do projeto: a questão de dar voz, como uma forma democrática de pensar e aprender; a pesquisa-ação colaborativa, como um processo participativo, democrático, vinculando ação e reflexão, teoria e prática com o empenho dos participantes na resolução de problemas concretos; o sentido da educação artística como espaço de relações e ressonâncias e a formação dos educadores.

Pretende-se divulgar processos e resultados obtidos neste projeto, para alimentar comunidades que nas suas práticas artísticas, debatem, exploram e questionam problemáticas relacionadas com a cidadania europeia.

Pequenas narrativas de educação artística: O uso da ilustração e de “brinquedos de autor” na comunicação de conhecimentos e afectos entre crianças e idosos numa pequena comunidade rural, é o artigo de Leonardo Charréu e Daniela Bacalhau, que se constitui como um interessante relato duma investigação-acção e estudo de caso, no âmbito dum mestrado em educação artística. O ensino artístico é aqui materializado em ligação à comunidade, através de ligações intrageracionais e da preservação do património duma pequena aldeia portuguesa. Nas palavras dos autores é “uma experiência centrada nos sujeitos que aprendem”, que facilita a participação em contextos de aprendizagem pela inclusão de tradições e histórias de vida. Quando os processos educativos interagem estreitamente com a comunidade, a arte torna-se um meio de preservação da cultura e identidade locais, contribuindo para a coesão social e promoção da diversidade cultural tão necessária no questionamento dos efeitos perversos da globalização.

O artigo de Ricardo Reis, Um olhar sobre o papel das tecnologias da visão na construção de noções e práticas de literacia visual entre os jovens, resulta duma investigação em curso, cujo objetivo primordial é fornecer um contributo para a compreensão do conceito de literacia visual e o papel que a escola tem no seu desenvolvimento e valorização social. Neste projeto foi pedida a participação de jovens e professores no sentido de tornar visíveis os discursos e práticas relacionados com a literacia visual. Com base no trabalho empírico desenvolvido e na interpretação teórica das evidências encontradas, o autor refere que os jovens evidenciam alguma facilidade em integrar processos de análise, interpretação e apropriação de produtos visuais, mas revelam dificuldades em processos de avaliação e criação dos mesmos, bem como dificuldades na capacidade de relacionar diferentes saberes. Os resultados são apresentados como preliminares permitindo, na visão do autor, alargar o debate e possibilitar a discussão sobre metodologias, análise e interpretação das evidências recolhidas.

Artes visuais e transdisciplinaridade é o último artigo do dossier. Da auto-ria de Conceição Ramos, relata práticas pedagógicas continuadas, fundamentadas em metodologias de projeto e implementadas na realidade da escola. Em alternativa ao modelo de compartimentação curricular vigente na maioria das escolas portuguesas, considerado desajustado das competências e conhecimentos necessários à sobrevivência e êxito nas sociedades contemporâneas, reflete-se sobre três projetos transdisciplinares levados à prática com modelos de investigação participativa. Apresentam-se, em conclusão, as vantagens das abordagens transdisciplinares que a autora relata como: a exploração de pedagogias diferenciadas, próximas de cada indivíduo, contribuindo para aprendizagens de maior qualidade; a perceção desenvolvida pelos alunos da utilidade dos conteúdos ministrados, manifestada no maior interesse e motivação; o reforço da autoexigência e espírito de cooperação; o papel do professor como gestor de conhecimentos e, o ganho em atualização para a escola.

 

Referências Bibliográficas

Juanola R. & Calbó M. (2005). Hacia modelos globales de educación artística. In Marin R. V. (ed.) Investigatión en Educación Artística (pp.99-124). Sevilha: Universidad de Granada y Universidad de Sevilla.         [ Links ]

UNESCO (2006). Road Map for Arts Education. The World Conference on Arts Education: Building Creative Capacities for the 21st Century, Lisbon, 6-9 March 2006 (Disponível em http://www.unesco.org/new/fileadmin/MULTIMEDIA/HQ/CLT/CLT/pdf/Arts_Edu_RoadMap_en.pdf).         [ Links ]

 

Nota: Durante a edição final deste Dossier da Revista Lusófona de Educação dedicada ao Ensino das Artes, tivemos conhecimento da morte do Professor Elliot Eisner. Não podemos deixar de manifestar o nosso pesar, e também um enorme reconhecimento pela sua obra seminal e inspiradora para todos os que se preocupam com esta temática.