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Revista Lusófona de Educação

versão impressa ISSN 1645-7250

Rev. Lusófona de Educação  n.15 Lisboa  2010

 

Editorial

 

António Teodoro e Manuel Tavares

 

1. O Centro de Estudos e Intervenção em Educação e Formação (CeiEF), da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, e o Centro de Estudos Sociais (CES), da Universidade de Coimbra, aprovaram em Maio de 2010, nos respectivos Conselhos Científicos, a criação conjunta de um Observatório de Políticas de Educação, Ciência e Formação (OPE).Trata-se de uma iniciativa cujo alcance e significado importa explicitar.

A criação do Observatório visa reunir recursos e congregar interesses dos investigadores que integram os dois centros de investigação, o CES e o CeiEF, de modo a potenciar a investigação fundamental e aplicada na área das políticas de educação, ciência e formação. Essa é a missão apontada para o Observatório, passível de ser prosseguida através dos seguintes objetivos:

- Realizar investigação fundamental e aplicada na área das políticas de educação, ciência e formação;

- Desenvolver estudos em parceria com instituições públicas, privadas e do terceiro setor;

- Promover e incentivar o desenvolvimento e participação em redes de investigação e de disseminação de resultados no domínio das políticas de educação, ciência e formação;

- Incentivar o desenvolvimento de sinergias entre os centros de investigação participantes, com vista à formação pós-graduada, e o desenvolvimento de dissertações de mestrado e doutoramento associados aos temas do Observatório;

- Promover a organização de eventos científicos: congressos, palestras, seminários, workshops e outros eventos da mesma natureza;

- Promover e divulgar a publicação de textos científicos e técnicos.

- Reforçar e promover as relações com centros de investigação nacionais e estrangeiros com atribuições no âmbito da actividade do OPE.

Temos vindo a defender a importância do estabelecimento de redes que permitam saltos qualitativos na investigação que se faz na área das ciências e políticas de educação. Isso faz-se no interior da própria área, de que a criação do Conselho de Centros de Investigação em Ciências e Políticas de Educação é um feliz exemplo, mas pode fazer-se também com a abertura a outras áreas científicas.

O Centro de Estudos Sociais (CES), um dos dois únicos laboratórios associados existentes em Portugal no campo das ciências sociais, e um centro de excelência mundial, permite seguramente uma abertura e uma aprendizagem que, no âmbito do CeiEF, pode significar um salto qualitativo na sua atividade e produção científicas, tendo sempre em consideração que se trata de um centro de docentesinvestigadores com recursos limitados e que tem na formação pós-graduada (mestrados, doutoramentos e pós-doutoramentos) o seu principal recurso.

 

2. Cumprindo a sua periodicidade semestral desde a sua primeira edição, em 2003, a Revista Lusófona de Educação atinge o sétimo ano de existência, afirmando-se como uma revista de referência no mundo lusófono, na área da educação.

O In Memoriam é uma homenagem profundamente sentida ao Professor Rogério Fernandes. Intelectual brilhante, cidadão exemplarmente crítico e exigente e amigo de todos os que com ele tiveram o privilégio de trabalhar. Foi com enorme consternação que tomámos conhecimento da sua morte. Convivíamos e trabalhávamos, quase diariamente, num projeto financiado pela FCT, sobre os percursos do associativismo e sindicalismo docentes, de 1890 a 1990, que ele abraçou com enorme entusiasmo como Investigador Responsável. Publicamos nesta edição, um texto original que, pouco tempo antes do seu desaparecimento, tinha preparado para publicação, no âmbito do projeto que liderava.

O primeiro artigo, de Licínio Lima, A Educação faz tudo? Crítica ao pedagogismo na “sociedade da aprendizagem”, aborda a adaptação funcional dos aprendentes individuais à empregabilidade, flexibilidade e competitividade económica, no quadro da ‘sociedade da aprendizagem’ e da ‘economia do conhecimento’. Partindo de uma diversidade de referências teóricas das diversas áreas do conhecimento, o autor considera existir uma desarticulação entre educação e democracia em função da subordinação da educação à dimensão económica, justificada, aliás, a partir de um novo tipo de pedagogismo, de extracção económica e gerencial. Neste sentido, o conceito de educação vai sendo substituído, progressivamente, pelo conceito de aprendizagem ao longo da vida e pelos seus derivados – qualificações, competências, habilidades -, definidas estrategicamente em termos funcionais e adaptativos. A expressão aprender a ser, ideal defendido pela UNESCO, vai sendo substituída pela de aprender a ter, o que significa que a aprendizagem ao longo da vida está centrada em estratégias para a competitividade económica. O autor defende que se torna necessário fazer uma crítica à pedagogização quase totalitária da esfera individual e colectiva, suportada no lema “competir para progredir” e assente na crença de que os nossos maiores problemas se devem à crise da educação e da escola e de que só pela via de um novo paradigma de aprendizagem que responsabilize o indivíduo e o atomize se pode responder aos desafios da globalização e da sociedade da informação e do conhecimento.

Alejandra Montané & Aida Sánchez de Serdio procuram, no segundo artigo, Os professores do ensino superior: entre a performatividade da lei e as narrativas autobiográficas, compreender as implicações da reestruturação económica, social, cultural, tecnológica e laboral da Universidade espanhola na vida e na identidade profissional dos decentes e investigadores. Através de uma metodologia qualitativa de análise da legislação e dos discursos de professoras e professores e do respectivo cruzamento, as autoras analisam os efeitos performativos da lei na configuração da actividade docente.A interacção entre a análise performativa da legislação universitária e os relatos autobiográficos da experiência vivida permite aferir as adaptações e resistências, encontros e desencontros entre o sujeito normativo e o sujeito biográfico. Os discursos autobiográficos revelam uma oposição e resistência interna à regulamentação académica, à performatividade da lei, sentimentos que se tornariam inacessíveis sem uma hermenêutica dos discursos.

O terceiro artigo, de Rosilda Arruda Ferreira & Robinson Moreira Tenório, incide sobre A construção de indicadores de qualidade no campo da avaliação educacional: um enfoque epistemológico. O objetivo do estudo em causa é, por um lado, a promoção da discussão sobre os aspectos epistemológicos e teórico-metodológicos que estão envolvidos no processo de construção de indicadores nas ciências sociais e, por outro, a reflexão sobre os limites e possibilidades da construção de indicadores de qualidade no campo da avaliação educacional. A construção de modelos de avaliação educacional, concluem os autores, supõe a discussão das vinculações existentes entre a ciência e a política e os projetos sociais em confronto. Só deste modo é possível construir novos indicadores de avaliação educacional, sem esquecer os diversos modelos existentes.

Marina Lencastre, que, habitualmente, nos brinda com artigos na área da educação e ética ambientais, reflecte, no quarto artigo, sobre Bondade, Altruísmo e Cooperação. Considerações evolutivas para a Educação e a Ética ambiental. No contexto da biologia evolutiva são discutidas a origem biológica da bondade humana e a sua relação com o altruísmo social e a cooperação. Tendo em consideração a multiplicidade de problemas ecológicos que afetam o nosso mundo, a autora defende a tese de que a bondade, altruísmo e cooperação enquanto sentimentos e emoções são disposições naturais para a emergência da ética humana. Num mundo globalizado, discutem-se as condições etológicas e psicológicas para a experiência da bondade em contextos expandidos. O comportamento pró-social dos primatas, defende a autora, é acompanhado de experiências emocionais genuínas que são precursoras da experiência emocional da bondade e da compaixão, nos humanos. A compreensão das condições etológicas e psicológicas da cooperação e do altruísmo poderão ajudar a criar as condições para que a motivação pró-social se mantenha nas comunidades expandidas.

O quinto artigo, de Ana Raquel Simões & Lúcia Pombo apresenta as Linhas orientadoras para a avaliação de encontros científicos. O exemplo de um exercício avaliativo. A partir de um evento científico sobre a interacção entre investigação e práticas, realizado na Universidade de Aveiro, as autoras concluem que a avaliação dos encontros científicos contribui para a melhoria científica e organizativa de futuros eventos e constitui um factor de motivação, promovendo a reflexão e o debate sobre o processo de avaliação. De acordo com o estudo realizado, salientam-se as duas fases de avaliação que permitiram a validação dos dados através do processo de triangulação e a possibilidade de apresentação, no próprio evento, ainda que de um modo impressionista, dos resultados obtidos.

Ruth Pavan aborda as questões do Currículo e multiculturalismo: reflexões para a formação de educadores, no sexto artigo. O objectivo é compreender a reflexão dos professores e professoras da educação básica sobre o currículo escolar e, a partir dos resultados, fazer algumas ponderações sobre a necessidade da formação multicultural. O currículo tem um carácter plural, polissémico e, por isso, as questões ligadas ao currículo constituem uma “arena de significados”, afirma a autora. A partir de entrevistas realizadas a professores e professoras a autora conclui que os docentes, na sua maioria, refletem numa perspetiva tecnocrática, legitimando um lugar de executores de tarefas, bem como a execução de um currículo monocultural. Neste sentido, impõe-se, não a culpabilização dos professores pela sua reflexão tecnocrática/tradicional, mas a insistência numa formação multicultural que contribua para o desenvolvimento de reflexões multiculturais.

A presença de sujeitos culturais negros no contexto do ensino superior e a afirmação de suas identidades, de José Licínio Backes, constitui o sétimo artigo. O objetivo é a problematização da produção de identidades culturais negras por meio do currículo que circula no Ensino Superior. Compreender o currículo a partir das teorias pós-críticas, leva à compreensão de que aquele é um campo de luta e contestação, campo que produz identidades e diferenças no território da cultura.Afinal, campo de disputa onde algumas identidades são legitimadas e outras morrem simbolicamente, vítimas de discriminação e racismo. O autor conclui que o currículo, apesar de continuar centrado na visão hegemónica, está sendo ressignificado pela presença de sujeitos diferentes que, ao ocuparem politicamente estes tempos/espaços, vão forjando outras identidades.

O oitavo artigo, Eu gosto de ser professor e gosto de crianças – a escolha profissional dos homens pela docência na escola primária, de Armanda Rabelo, desmistifica a ideia de que a docência no primeiro ciclo do ensino básico é vocacionalmente feminina. É um estudo comparativo centrado na figura do professor do sexo masculino que trabalha no ensino público primário do Rio de Janeiro e Aveiro. A autora pretende averiguar os motivos da escolha profissional destes professores que enveredam por uma profissão habitualmente associada às mulheres.A presença de professores do sexo masculino na docência do primeiro ciclo é uma forma de inserir as questões de género na educação, mostrando que existem outras vozes que ecoam nas escolas, isto é, indivíduos que, independentemente do seu sexo, são capazes de exercer com afeto a sua profissão.Afinal, conclui a autora, os homens também gostam de crianças e escolhem a profissão docente por gosto e por paixão.

O último artigo, de Adriana Pastorello, analisa O impacto do Português brasileiro veiculado na internet para a educação básica portuguesa. O artigo analisa uma situação de aula, numa classe do 4º ano de escolaridade, numa escola portuguesa, em que a professora apresenta aos alunos um texto informativo sobre o corpo humano, gerado por um internauta brasileiro e encontrado na Wikipédia. A diferença ortográfica do português usado no Brasil e em Portugal é substancialmente rica para gerar discussões metodológicas do ensino da língua. Todavia, apesar do acordo ortográfico, as diferenças culturais e estruturais que a linguagem apresenta permanecerão em questão.

Na Secção Recensão, apresentam-se uma recensão crítica e uma temática. José Brás e Maria Neves Gonçalves, no âmbito das comemorações do centenário da República, revisitam uma figura da República, Sebastião de Magalhães Lima, publicista, jornalista, político e Maçon através da obra de Maria Rita Lino Garnel, A República de Sebastião de Magalhães Lima, obra que é o resultado de uma dissertação de mestrado orientada por Fernando Catroga.

A recensão temática, de Ana Bela Pereira, Manuais escolares: estatuto e funções, incide sobre três obras: Conceber e avaliar manuais escolares, de F. Gérard & X. Roegiers (1998), Manuais escolares. Contributos para uma análise, de J. C. Morgado (2004) e Como analisar manuais escolares, de M. Cabral (2005). Um dos contributos viáveis para dar resposta à realidade multicultural existente nas escolas poderá ser encontrado no recurso a materiais didácticos que contemplem a heterogeneidade e respeitem as diversidades culturais no contexto da sala de aula, fazendo uso de um discurso híbrido que a todos considere. O manual escolar deverá assumir o papel de precursor de uma disseminação cultural que a todos contemple e não a de transmissor de um currículo monocultural com vista à homogeneização do universo educativo.

Na Secção Sítios Digitais, Vasco Graça apresenta-nos alguns percursos pela World Wide Web no âmbito de revistas científicas ligadas ao marxismo e à teoria crítica.

Na Secção Notícias, dá-se conta de parte da actividade científica e sua divulgação levadas a cabo pelo CeiEF.

Publicam-se, como habitualmente, alguns dos resumos e abstracts de dissertações de mestrado defendidas na Universidade Lusófona, na área da Educação.

Finalmente, apresentam-se os abstracts dos artigos publicados nesta edição.

 

Lisboa, Maio de 2010