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Cadernos de Estudos Africanos

versão impressa ISSN 1645-3794

Cadernos de Estudos Africanos  no.26 Lisboa jul./dez. 2013

 

Etnia e raça no desporto beirense da época colonial. O caso dos “sino-moçambicanos” [1]

Ethnicity and race in colonial-era Beira sport. The case of “Sino-Mozambican”

 

Eduardo Medeiros

ecmedeiros41@gmail.com

 

RESUMO

No início da segunda metade do século XX o desporto passou a ter uma dimensão considerável em Moçambique. A influência dos territórios vizinhos sob domínio britânico, os contactos internacionais que tanto a Beira como Lourenço Marques desfrutavam, e a maior facilidade com que se passou a acompanhar o desporto na metrópole colonial promoveram consideravelmente a prática desportiva entre os jovens da população dita civilizada, na qual se integravam os chineses. Desenvolveu-se deste modo um verdadeiro movimento associativo da cultura desportiva. Começarei por mostrar neste artigo a história da prática desportiva e a evolução das instituições do desporto na sociedade colonial da cidade da foz do rio Pungué, mostrando em seguida o envolvimento da comunidade chinesa no desporto federado e amador.

Palavras-chave: Moçambique, história colonial, desporto, clubes, associações

 

ABSTRACT

From the beginning of the second half of the Twentieth century, sport started to develop as a significant form of recreation in Mozambique. The influence of neighbouring territories under British rule, the international contacts that residents of Beira and Lourenço Marques enjoyed, and the great facility with which sports were followed in the colonial capital led to a considerable rise in the practice of sports by the younger members of the so-called ”civilized population”, which included the Chinese. Thus, a veritable movement for the promotion of a sports culture developed, evidenced by the formation of clubs and associations. This paper begins by describing the history of the practice of sports and the evolution of sports institutions in the colonial society of Beira City, and goes on to describe the involvement of the Chinese community in federated and amateur sport.

Keywords: Mozambique, colonial history, sport, clubs, associations

 

À memória de Chin Hung Chong (Chonguito)

O texto deste artigo é essencialmente uma narrativa sobre a participação desportiva de pouco mais de uma centena de rapazes e de raparigas “sino-moçambicanos”[2] dos anos 50 em diante. É a versão simplificada do capítulo relativo ao desporto num livro a publicar sobre este sector da população colonial[3].

Embora algumas modalidades desportivas, sobretudo o ténis de mesa e o futebol, fossem praticadas no seio da comunidade desde anos mais recuados[4], a documentação e os testemunhos orais recolhidos revelam o entusiástico envolvimento desses jovens no desporto federado beirense desde o final dos anos 40.

De facto, foi depois da II Guerra Mundial que “sino-asiáticos” e “afro-chineses” começaram a participar nas actividades desportivas federadas[5] da população “civilizada”[6] da Beira. Com pouquíssimas excepções, os “indígenas” continuaram afastados do convívio do desporto dos colonos até aos anos 70.

Dos 2 098 “amarelos” recenseados em Moçambique em 1960, 1 136 eram homens e 962 mulheres. Do total na colónia, 1 027 indivíduos (548 H) habitavam no distrito de Manica e Sofala, dos quais 968 no concelho da Beira.

A tardia entrada de jovens “sino-asiáticos”[7] na roda das competições federadas deveu-se aos seguintes factores: a sua população juvenil só à época passou a ser numericamente significativa; as sociabilidades e os espaços urbanos dilataram-se; o apartheid étnico a nível desportivo no seio da “população colona”, sobretudo com a saída dos britânicos, começou a atenuar-se por causa do crescimento populacional da urbe e das mudanças políticas a partir de 1951[8]. Mas também das próprias modificações nas condições de vida dos membros da comunidade “sino-moçambicana”[9], e de um novo associativismo entre eles[10]. Não obstante, um ou outro “sino-moçambicano”, em particular “afro-chinês”, praticou e competiu antes de 1945 em clubes fundados por colonos portugueses, mistos ou indo-portugueses.

A influência dos territórios vizinhos sob domínio britânico e da comunidade anglo-saxónica radicada na Beira e em Lourenço Marques promoveu consideravelmente a prática desportiva entre os jovens da população “civilizada” e dos próprios “indígenas”. Desenvolveu-se, deste modo, na colónia um verdadeiro movimento associativo de cultura desportiva. Esse movimento, de várias modalidades desportivas, teve uma dimensão e impacto consideráveis, muito maiores do que noutras colónias portuguesas.

Para além das artes (qualquer que fosse o seu domínio: literatura, jornalismo, teatro ou cinema), relevantes para a pequena população letrada[11] de colonos e de alguns assimilados[12], a actividade desportiva foi uma ampla escola de socialização e de cidadania, e a fundação de clubes étnicos, alguns dos quais sem qualquer ligação aos clubes portugueses, foi o processo da produção e reprodução das suas identidades culturais, e da representação social local, embrionária de “fervores” pela terra.

Para situar correctamente este envolvimento, anotemos o surgimento de clubes moçambicanos na capital e na cidade da foz do rio Pungué.

Para Lourenço Marques, citemos o Desportivo Lourenço Marques[13], fundado com dedinhos maçónicos, e de quem José Craveirinha foi um fervoroso associado e dirigente; o Clube Ferroviário, dos trabalhadores dos portos e dos caminhos-de-ferro de Moçambique[14]; o Atlético Clube de Lourenço Marques[15], assim descrito por Honwana:

oposto à Associação Africana havia o Atlético, clube de mulatos, mas dos chamados mulatos de primeira; constituído pelas poucas famílias de mulatos com aspirações a aristocracia e nobreza, os mulatos da Polana, os mulatos doutores e directores, na generalidade, pessoas que não se identificavam com os outros mulatos. No Atlético havia casos de mulatos que desprezavam a mãe negra, que nos chamavam abertamente “pretos”, e que, tal como o colono, diziam que as nossas línguas africanas eram línguas de cão. Eles constituíam também baluartes da discriminação racial, ver um preto num baile do Atlético era impensável (Honwana, 1989, pp. 118-119).

Também em Lourenço Marques, o Clube do Alto Maé; do Munhanense “Azar”; o Mahafil Isslamo (ou Mahafil Issilamo); o Clube Vasco da Gama[16]; o Clube de Futebol João Albasini[17]; o Atlético Maometano, de mestiços muçulmanos; o Beira-Mar, no Chamanculo; o Clube Desportivo Indo-Português, na Malhangalene; o Operários Goeses, no Bairro da Central e o Nova Aliança, entre outros.

Para a Beira, historiemos um pouco mais o surgimento de clubes e das modalidades desportivas: em 1893, o número de ingleses na cidade perfazia 60 pessoas, número relativamente elevado para a época se compararmos com a restante população “civilizada”. A grande maioria dos britânicos era composta por homens, por isso, muito naturalmente, começaram a jogar cricket[18] e outros desportos do seu gosto, chegando a competir entre si (colonial born versus home born) e com compatriotas da Rodésia e da África do Sul. Segundo John Bale, “a Inglaterra foi o local que deu o desporto ao mundo” (Bale, 1989, p. 50, apud Nolasco, 2004, p. 31), ou seja, por pressão do processo de industrialização e sob a lógica do capitalismo, dos polimorfos jogos populares emergiu o desporto moderno, altamente sistematizado e burocratizado (ibid., p. 31), que se expandiu pelas suas diásporas.

Em consequência, por volta de 1896 os britânicos fundaram o primeiro clube de que há memória na cidade, o Beira Sports Club, para a prática do cricket, do ténis, do pugilismo e do football association, com campos de jogos no local onde, no final da época colonial, seria construído o prédio Vasco da Gama, no bairro do Maquinino. Anos mais tarde, o Beira Sports Club passou a chamar-se Beira Amateur Sports Club, que tinha como sede um belo edifício junto desses campos.

Numa data posterior à criação do Beira Sports Club, os súbditos de sua majestade britânica fundaram o Beira Yatch Club, que introduziu o desporto náutico, enquanto a criação do Beira Racing Club trouxe o hipismo. O golf só apareceu mais tarde, com o Beira Golf Club. Estas modalidades eram praticadas pelos ingleses. A iniciativa da construção do campo de golfe foi de um grande entusiasta deste jogo, o coronel Alfred James Arnold, inspector da Companhia de Moçambique. Aliás, o campo foi construído a expensas suas, mas grandemente apoiado pela companhia. Para além de ter sido uma excelente obra de saneamento, o campo deu à cidade bom-nome do ponto de vista turístico, pois passou a ser considerado um dos melhores na África meridional. Dispunha apenas de 9 buracos. Nos anos 50, o campo passará a ter 18. A inauguração oficial foi feita pelo príncipe D. Luiz Filipe, de Portugal, em 1907, embora já nele se jogasse havia algum tempo.

Pouco sabemos do envolvimento da restante população “civilizada” nas práticas e competições desportivas até ao final da Primeira Guerra. Podemos imaginar que a elite colonial portuguesa fora admitida nos clubes britânicos, praticando com estes o hipismo, a vela, o golfe e o ténis. Não o cricket, demasiado british, pelo que só os hindustanos – indo-portugueses e hindus – terão constituído equipa para confrontos entre si, com “compatriotas” das colónias vizinhas e, raríssimas vezes, com os anglo-saxões, à maneira da Índia, de acordo com o que Arjun Appadurai chamou indianização desta modalidade. Appadurai analisou o papel do cricket para o nacionalismo indiano, e, sobretudo, para as identidades comunitárias das populações da Índia. O antropólogo afirmou que o cricket se desenvolveu como instrumento oficioso da política cultural do poder colonial inglês. Segundo ele, o cricket comunicou à população indiana valores de elite britânica vitoriana, a saber, desportivismo, sentido de jogo justo e controlo pleno da expressão de sentimentos. Este desporto entrou num processo de indigenização e contribuiu para o processo de descolonização (Appadurai, 2005). Mutatis mutandis, outras modalidades teriam os mesmos efeitos no tardo colonialismo em Moçambique.

Foi por volta de 1912 que se ensaiaram as primeiras jogadas de futebol na Beira, sendo utilizados pelos entusiastas os terrenos na margem direita do estuário do Chiveve, onde surgiu mais tarde a Praça Henriques Nogueira.

O football association começou a ser praticado na África meridional britânica na segunda metade do século XIX por britânicos e por boers. Como na Inglaterra, onde o futebol era prática desportiva das classes trabalhadoras e o rugby das elites, também aqui o futebol se tornou rapidamente o desporto dos negros e o rugby das elites brancas. Foram os missionários protestantes que introduziram esta modalidade desportiva entre os kholwas (negros cristãos) na região de Durban e entre os mineiros do Rand. Em 1899, uma equipa de negros viajou para o Reino Unido para disputar uma série de partidas. “Foram tratados como atracção circense e humilhados em campo”[19]. Durante décadas, na África do Sul existiram federações desportivas separadas para brancos, negros e mestiços. Em 1892, foi fundada a primeira federação sul-africana de futebol dos brancos. Anos mais tarde, foi criada uma federação de futebol das equipas dos negros.

 

 

Foi em torno do futebol que nasceu na Beira a ideia da fundação de uma agremiação desportiva puramente portuguesa. Surgiu deste modo, em 1916, o primeiro clube de futebol de colonos lusos que, naturalmente, teve grande apoio de outros residentes; tratava-se do Sport Lisboa e Beira, que se filiou no Sport Lisboa e Benfica. O Esselbê, como passou a ser designada a agremiação na Beira, construiu um pavilhão de cimento, todo envidraçado, na fronteira do bairro do Maquino com o bairro do Esturro, com campos de jogos anexos, paredes-meias com o futuro aeródromo Pais Ramos.

Entretanto, foram surgindo novas modalidades como o atletismo e o hóquei-em-campo. Disputavam-se campeonatos, torneios, competições com equipas vindas de fora, não só de futebol, mas também de cricket[20], e um campeonato rodesiano de golfe teve lugar no campo do Beira Golf Club, pois era considerado em toda a região um dos melhores na época. O ténis era uma modalidade desportiva muito popular entre os colonos. A natação continuou a ser praticada a título de diversão. O hóquei-em-campo surgiu na Beira por volta de 1932 e o automobilismo apareceu com as suas gincanas antes da II Guerra, mas desenvolveu-se particularmente nos anos 60 com a delegação local do Automóvel Clube de Moçambique.

Como resultado de um desentendimento entre sócios do Sport Lisboa e Beira, criou-se um novo clube, o Atlético da Beira. Deste clube pouco se sabe. Segundo Al Pereira[21], a cisão no SLB deveu-se ao facto de alguns não concordarem que o clube se chamasse Sport Lisboa e Beira em vez de Sport Beira e Benfica e que o emblema não tivesse a roda da bicicleta, também símbolo do clube encarnado lisboeta. Terão sido alguns destes dissidentes que fundaram mais tarde o Sporting local. Um destes fundadores foi Joaquim Picardo, chefe de estação dos caminhos-de-ferro.

Pouco tempo antes, formara-se o Beira Railway Athletic Club, que seria mais tarde chamado Clube Ferro-Viário e depois Clube Ferroviário da Beira. Outras agremiações desportivas foram sendo criadas, como o Centro Recreativo Indo-Português, dos letrados funcionários públicos, empregados por conta própria, de profissões liberais, todos das castas hindus mais elevadas, em particular da xátria (kwshatria, mais propriamente). O Sporting da Beira em 1929. Neste mesmo ano foi fundado o Clube Desportivo dos Operários Goanos[22], das castas menos elevadas dos sudras, que se extinguiu pouco depois, reaparecendo volvidos alguns anos, estando em actividade em 1957.

Esta euforia do desporto beirense prolongou-se por mais de uma dezena de anos. Outros clubes foram surgindo a partir desta época, considerada de franca recuperação do desporto local. Foram eles o Clube Helénico da Beira, o Clube Desportivo da Beira[23], o Tung Hua Athletic[24] Club (vulgarmente conhecido por Atlético Chinês nos anos 50), o Centro Africano de Manica e Sofala, dos mestiços, o Clube Náutico da Beira, o Clube Desportivo da Lusalite, o Clube Recreativo do Búzi, o Centro Hípico da Beira, o Clube Oriental, o Clube Ferroviário da Manga (depois de 1963) e o Clube Nova Maceira[25].

 

 

Antes dos anos 50, também os “indígenas” começaram a fundar os seus clubes de futebol. Clube Desportivo Rebenta Fogo, Clube Nova Aliança, Clube Alto Búzi, Clube Luso Africano, Clube Boavista, Clube 1º de Maio, Clube Unidos, Clube Trovoada, Clube Sá da Bandeira, Clube Belenenses, Clube Sporting da Zambézia, Clube Inhambanense e Futebol Clube estavam todos em actividade em 1959. A seguir desapareceram alguns e surgiram outros, como o Clube Desportivo de Matacuane.

Assinale-se a marca regional e étnica de todas as colectividades desportivas beirenses. Desde logo, os clubes britânicos, depois os vários clubes dos outros colonos “brancos”[26]. Saliente-se, ainda, o clube desportivo dos “sino-asiáticos” de 1947 (formado por jovens nascidos em Moçambique na sua grande maioria), o Oriental dos “sino-asiáticos” e “afro-asiáticos”, dos anos 60, o Centro Recreativo Indo-Português, o Goanos, de raízes indianas e, por fim, o Helénico, dos gregos.

A partir dos anos 50, os clubes dos colonos começaram a integrar jogadores indianos, chineses e mestiços de cruzamentos biológicos diversos.

Desde essa altura, surgiram os clubes “indígenas” no bairro suburbano da Chipangara, e, depois, na Missão de São Benedito na Manga[27]. Aqui, organizaram-se competições no âmbito de uma associação própria, a Associação Africana.

No espaço suburbano de matope[28] seco, na Chipangara, jogava-se aos sábados à tarde e aos domingos com bolas fabricadas pelos jogadores.

Era aquele futebol descalço e cada clube tinha o seu campo. Toda a área estava dividida em campos de futebol. Por cada jogo, a equipa dona do campo recebia 150 escudos. A polícia aparecia também porque havia muitos confrontos. Quando uma equipa começava a perder, começava a barafunda. Mais tarde, nos anos 60, os jogos começaram a realizar-se nos campos da cidade. Cada espectador pagava 2$50 para o aluguer do campo e financiar o clube. E também para convidar equipas forasteiras, incluindo da Rodésia[29].

O Diário de Moçambique chamou a este futebol africano, a 2ª divisão do futebol beirense[30]. A designação era louvável. Mas para que houvesse uma 2ª divisão subentendia-se uma 1ª e a passagem de uma à outra, por descida dos últimos da 1ª e subida dos primeiros da 2ª. Ora isso não sucedia. A Associação de Futebol da Beira, dos “civilizados”, e a Associação Africana, dos “indígenas”, eram realidades distintas. O campo de futebol da Missão de S. Benedito tinha uma capacidade para 7 000 pessoas sentadas e serviu durante vários anos a Associação Desportiva de S. Benedito, composta de 29 clubes (Sousa, 1991, p. 161), alguns deles nascidos nos campos da Chipangara.

Como a população “civilizada” era pouco numerosa para tanto desporto, era frequente ver o mesmo atleta praticar mais que uma modalidade no mesmo clube ou em clubes distintos, o que embaraçava as respectivas associações criadas entretanto para a organização das competições.

A saída da maioria dos residentes britânicos da Beira nos anos 50, devido à nacionalização do porto (1948) e do caminho-de-ferro (1949), marcou o fim da rivalidade desportiva que existia entre a comunidade inglesa e outras comunidades de “civilizados”. Consequentemente, o nível competitivo baixou nos primeiros tempos, tendo algumas modalidades desaparecido como práticas desportivas regulares, casos do atletismo e do ciclismo. Em 1957, só o Centro Recreativo Indo-Português continuou a praticar o hóquei-em-campo e o cricket.

Assim, o desporto beirense foi vivendo momentos altos e baixos nesses anos pós-II Guerra. Foi graças à boa vontade de alguns entusiastas que certas modalidades e clubes se mantiveram. Alguns reestruturaram-se e fundiram-se (como se referiu para o aparecimento do Clube Desportivo). Entre modalidades introduzidas ou que se desenvolveram, são de destacar o basquetebol, o tiro, os desportos náuticos, o hóquei patins, o hipismo, o pugilismo e a luta-livre, as duas últimas graças ao italiano Marino Beneditto, ao grego Campanis e, mais tarde, ao português Al Pereira. Os desportos motorizados só se desenvolveram a partir de meados de 50 com a criação da delegação local do Automóvel Clube de Moçambique (ATCM) (Couto, 1971, p. 25).

A partir dos anos 50 a população “civilizada” cresceu substancialmente. O número de jovens das diferentes origens que compunha esta categoria colonial (brancos, asiáticos, negros assimilados e mestiços de cruzamentos diversos) já era importante e povoava os estabelecimentos de ensino médio: liceu Pêro de Anaia, escola técnica Freire de Andrade, colégios e internatos particulares, incluindo a escola chinesa. Para 1950, é indicado para Manica e Sofala um total de 760 “amarelos”, dos quais 479 do sexo masculino. O número de “afro-chineses” de primeira e segunda gerações não foi contabilizado, estes integravam a categoria dos mestiços[31]. A população da Beira, incluindo a área suburbana, era de 42 539 indivíduos. Neste ano, os “sino-asiáticos” de nacionalidade portuguesa começaram a superar os “sino-asiáticos” estrangeiros[32]. Em todo o caso, o número de “sino-moçambicanos” que, nos anos 50 e 60, praticava desporto não ultrapassava os cem. Eram jovens que tinham passado ou ainda frequentavam as escolas portuguesas, sendo alguns deles católicos. Em número significativo, trabalhavam em empresas não portuguesas, na função pública, em ateliers de engenheiros e arquitectos portugueses, dando apoio nos estabelecimentos e negócios familiares[33].

Para ilustrar o que ficou dito sobre a representação étnica e racial no desporto na Beira, vejamos no quadro seguinte os valores demográficos da sua composição para os anos 1940-1960.

 

 

Muitos dos jovens estudantes dedicavam-se às práticas desportivas nos clubes de preferência ou de vizinhança, ou nos estabelecimentos de ensino, praticando aqui modalidades que os clubes não fomentavam, como a ginástica, a esgrima e o andebol. Alguns dedicavam-se a vários desportos em simultâneo, na escola e no clube.

Foi neste contexto que, desde o início dos anos 50, com algumas excepções anteriores, rapazes e raparigas “sino-asiáticos” e, sobretudo, os “afro-chineses” passaram a participar com grande entusiasmo na actividade desportiva local, quer nas escolas, quer no desporto federado.

No caso dos “sino-asiáticos”, à semelhança dos gregos e dos indo-portugueses, para que um maior número de jovens pudesse participar nas competições oficiais foi criada uma equipa desportiva em 1947 e outra no início dos anos 60. Ambas foram da iniciativa de jovens amantes do desporto, embora dignitários das irmandades estivessem presentes no projecto da criação dos dois clubes.

Vejamos a formação dos dois clubes, criados, sobretudo, para a prática do basquetebol, e acrescentemos a participação de jovens “sino-moçambicanos” noutras colectividades beirenses para a prática do basquetebol e de outras modalidades.

O Atlético Chinês e o Clube Oriental

A 12 de Julho de 1947 foi pedida à administração colonial na Beira por um pequeno grupo de amigos a autorização para fundar um clube desportivo, sendo dados a conhecer os estatutos, a sede social e o “campo de treinos”. O artigo 1º referia que Tunghua Athletic Clube[34] (aliás, Tung Hua Athletic Club) seria a denominação da agremiação que teria como objectivos o desenvolvimento intelectual e a prática de todos os desportos atléticos. Os estatutos acrescentavam, num parágrafo único, que, para o desenvolvimento intelectual, o clube criaria uma biblioteca e procederia à representação de peças teatrais. No art.º 3º estipulava-se que as cores representativas do clube nos diversos ramos do desporto teriam por base o branco, o azul e o vermelho (as cores do Kwomintang, nota minha)[35]. Segundo o art.º 40º, os proponentes fundadores já eram nascidos na Beira de pais da primeira geração de imigrantes.

O pedido foi indeferido com a seguinte argumentação:

São já muitos (sete)[36] os clubes de desportos existentes nesta cidade, pelo que deverá ser difícil garantir uma vida desafogada a outros que se formem. Mas há outra razão: a colónia chinesa já possui há muitos anos um “clube” denominado Chee Kung Tong Club (Clube Chinês)[37] que tem como sócios a quase totalidade da população chinesa da Beira e em condições de poder tê-lo. Dos seus estatutos consta que os mesmos se podem dedicar à prática de jogos desportivos promovendo também o desenvolvimento intelectual dos sócios e mantendo escolas e bibliotecas. A meu ver, não deve conceder-se a autorização solicitada tanto mais que já há anos se criou na Beira outra agremiação que se denominou Chon Sun Tong[38] a que foi retirado o alvará há cerca de sete anos, certamente por não satisfazer aos fins a que se destinou[39].

 

 

Apesar da proibição administrativa, criaram o clube. A irmandade Chee Kung Tong era tudo menos uma agremiação desportiva, como referi, e as novas gerações já não se identificavam com ela. À semelhança de outros clubes desportivos étnicos, queriam ter o seu espaço para actuarem a nível federado. Mas a esse desejo dos jovens associou-se a também o interesse político de delegados locais do Kwomintang de Chiang-Kai-shek[41], que passaram a actuar através da Associação de Beneficência, criada em 1946 (por conseguinte, distinta do Clube Chinês, Chee Kung Tong, de 1922, e comandada por uma outra tríade secreta).

O clube desportivo foi inscrito nas estruturas associativas do desporto beirense com a designação Tung Hua (ou ) Athletic Club, chegando a jogar com equipamento onde figuravam as iniciais: THAC. Só anos volvidos passou a designar-se Atlético da Beira, designação não aceite pelas federações desportivas porque já existia um clube com este nome. Foi com o nome Atlético nas camisolas (e Atlético Chinês para a população beirense) que competiram nos campeonatos distritais e provinciais e participaram nos torneios da África Austral organizados pela representação diplomática de Taiwan na África do Sul, por ocasião das férias da Páscoa, geralmente através da Overseas Chinese School, também conhecida como Johanesburg Chinese School.

 

 

No início dos anos sessenta foi fundado o Clube Oriental (Clube Nam Wá). Este clube foi criado por alguns dissidentes do Tung Hua Athletic Club. As motivações dos descontentes não tiveram uma causa política, nem a pertença a um local particular de origem na China, embora Tung Wá (“oriente da China”) e Nam Wá (“sul da China”) pudessem querer significar isso. Estiveram presentes questões de ordem pessoal e familiar e, também, o elevado número de atletas inscritos no Atlético sem oportunidade de jogar. A ideia de criar este clube terá começado a germinar num colégio na Rodésia entre estudantes chineses beirenses. Mas os principais promotores do Oriental foram um ex-professor da escola chinesa e alguns destacados comerciantes de apelido Yee. O clube foi oficializado como uma secção do Chee Kung Tong Club e com a mesma sede e estatutos, como o tinha sido o Atlético. Mas, na verdade, era um clube desportivo autónomo do velho “Clube Chinês”. O Oriental tinha um equipamento preto por oposição ao branco e azul do Atlético. O clube participou em torneios e campeonatos da Beira.

O Oriental não tinha um campo de jogos. Por isso começou a treinar num terreno desocupado no bairro do Esturro junto à cantina de um dos Matacopanjas[42], e, depois, no pátio da escola chinesa. A cantina dos irmãos Fung era a sede e a sala de exposição das taças do clube.

 

 

A participação nas várias modalidades desportivas

O basquetebol foi a modalidade desportiva mais em evidência para os colonos de todas as praticadas pelos “sino-moçambicanos”, quer em competições oficiais quer em jogos amistosos. Em todas as categorias: seniores, femininos e juniores. Tanto o Tung Hua Athletic Club (Atlético Chinês) como o Clube Oriental foram essencialmente clubes de basquetebol. Alguns “sino-moçambicanos” também praticavam esta modalidade noutros clubes. Em 1959, na equipa feminina do Sporting da Beira jogavam três “sino-moçambicanas”, as três irmãs de Sui Lan, ex-jogadoras do Atlético[43].

O basquetebol é um desporto de equipas que foi inventado no final do século XIX e se tornou desporto olímpico em 1936. Curiosamente, não era muito praticado nas colónias vizinhas. Mas em Moçambique teve uma expansão enorme desde os anos 40, tornando-se a modalidade mais praticada em todo o espaço português. Terá surgido na colónia como prática de mini-basquete nas escolas (associado à educação física) e nos bairros, onde era compatível para o lazer dos jovens nos pequenos espaços. Ambas as situações foram aproveitadas pelos jovens “sino-moçambicanos”, nas escolas que frequentavam e nos espaços sociais onde viviam.

A primeira equipa de jogadores “sino-moçambicanos” que participou em competições oficiais de basquetebol na Beira no início dos anos 50, jogou em Janeiro de 1951 no Torneio de Abertura de Basquetebol da cidade com o Clube Helénico, Clube Ferroviário, Sport Lisboa e Beira, Desportivo e Sporting[44]. Apresentaram-se com um equipamento onde estavam marcadas em diagonal na camisola branca as iniciais do Tung Hua Athletic Club: THAC. Só mais tarde foi gravada nas camisolas a palavra Atlético, em vez de THAC. O Atlético tinha também uma equipa de reservas, uma equipa de juniores e uma equipa feminina. Os treinos realizavam-se no pátio do Clube Chinês (Chee Kung Tong)[45]. Deste modo, a preparação das três equipas tornava-se muito difícil, sendo sempre dada a preferência ao núcleo central da equipa de seniores, o que, acrescentado ao facto de participarem nos treinos muitos jogadores, veio a causar conflitos que originaram a formação do Clube Oriental.

 

 

Nas épocas de 1951/52, 1952/53 e 1953/54, a primeira geração de basquetebolistas “sino-moçambicanos” federados distinguiu-se, tanto nos masculinos seniores, como nos femininos e nos juniores. O Diário de Moçambique assinalava isso com frequência, enaltecendo os seus principais actores, como John Ping, da equipa principal masculina, e a capitã Sui Lan da equipa feminina.

A segunda geração de basquetebolistas masculinos e femininos data dos anos sessenta. Esta geração já era composta por jovens que tinham feito a escola primária portuguesa e ingressado na escola secundária. Alguns deles tinham-se convertido ao catolicismo.

 

 

 

Tanto a primeira como a segunda geração de jogadores obtiveram importantes êxitos nas várias competições oficiais e amigáveis: torneios de abertura, campeonatos da cidade, torneios de encerramento e torneios comemorativos. Para além disto, jogadores e jogadoras integraram as selecções (ou mistos) da Beira para competir com equipas da capital, assim como com equipas da Rodésia, da África do Sul e da metrópole[46]. Em 1951, pelo menos dois dos jogadores seniores, Fone Guine e Fon Lin, foram inscritos pelo Tung Hua Athletic Club para candidatos a árbitros de basquetebol[47].

 

 

O basquetebol era uma modalidade muito popular na Beira nos anos 50 e 60. Os treinos e os jogos realizavam-se durante a estação quente e húmida, de Novembro a Março, ao passo que o futebol se jogava na estação seca. Por isso, muitos jogadores de basquetebol eram, simultaneamente, jogadores de futebol. Os jogos de basquetebol realizavam-se no campo do Ferroviário (que nos anos 50 ainda era um campo a céu aberto, só na década seguinte passou a existir um pavilhão coberto); no primitivo campo do Sport Lisboa e Beira, com bancadas de madeira, e, depois, no novo campo de cimento, a céu aberto; no campo do Clube da Beira (ex-clube dos funcionários da Companhia de Moçambique), de cimento e coberto, que desde o final dos anos 50 foi o Pavilhão da Mocidade Portuguesa; no campo do Clube Desportivo, a céu aberto e bancadas de cimento e madeira; e no campo do Sporting, nas Palmeiras. O Atlético, o Oriental, e o Helénico não tinham campo de jogos para a prática do basquetebol federado.

Geralmente, realizava-se uma sessão dupla: um jogo de juniores ou de femininos antecedia o jogo dos seniores masculinos. De registar que a assistência era essencialmente composta por colonos brancos, mestiços e indo-portugueses, sendo quase nula a presença de negros. A grande maioria era constituída por funcionários dos caminhos-de-ferro e da administração, empregados comerciais e trabalhadores por conta própria. Curiosamente, muito poucos “sino-asiáticos” assistiam. Raramente estavam presentes mulheres chinesas. Os asiáticos das primitivas gerações de imigrantes, todos vindos da província de Cantão, preferiam jogar o Mah Jong e fumar o cachimbo de ópio[48] no Clube Chinês.

O Diário de Moçambique e o Notícias da Beira davam muito destaque à actividade desportiva beirense. Podia ler-se o seguinte sobre a ausência da equipa feminina do Atlético Chinês no torneio de abertura de Janeiro de 1951:

Quanto às jovens filhas do Celeste Império, a sua ausência desta prova, a verificar-se, impedir-nos-á de apreciarmos uma boa técnica, que sem dúvida são capazes de proporcionar-nos, pois é do domínio comum a propensão natural da sua raça para actividades desta natureza, como tem vindo a verificar-se pelas boas contas que de si tem dado o agrupamento masculino, hoje sem dúvida um dos melhores apetrechados para a disputa das provas. Consta-nos que por este lado não será uma questão de preconceito o que impedirá a apresentação das equipas femininas do Atlético Chinês; a dificuldade aqui é maior, ou por outra, de resolução menos acessível, pois ela se prende com um campo onde os indispensáveis treinos se possam realizar. Aqui deixamos, portanto, o nosso apelo aos restantes clubes para que facilitem, se puderem, a utilização dos seus campos de modo a que o campeonato feminino de basquetebol não fique prejudicado pela ausência de um agrupamento que lhe pode dar um indiscutível brilho[49].

Cerca de três semanas após a publicação desta notícia, lia-se no Diário de Moçambique o seguinte comentário a propósito do jogo entre as equipas femininas do Sport Lisboa e Beira e do Atlético:

Seguido com grande entusiasmo este jogo proporcionou oportunidade de se verificar como o elemento feminino da colónia chinesa se está a interessar pela modalidade. Sendo a segunda vez que joga, o grupo já ontem apresentou elementos perfeitamente equilibrados, combativos e com fácil domínio de bola. O capitão do grupo, Sui Lan, mostra-se jogadora de futuro[50].

Mas a imprensa não só noticiava a actividade desportiva e os factos sociais que a acompanhavam. Em certas ocasiões, empenhava-se em debater assuntos relacionados com essa actividade. Daí, as por vezes acesas discussões entre o jornal Diário de Moçambique, de Dom Sebastião Soares de Resende, bispo da Beira, e o jornal Notícias da Beira, do empresário Victor Gomes[51].

Foi o que sucedeu aquando da visita à Beira da equipa de basquetebol da Académica de Coimbra, a campeã portuguesa na época de 1950/1951. O jogo realizou-se a 29 de Março de 1951. A equipa de Coimbra venceu o Atlético Chinês por 71 a 23, o que espelhava bem o desnível das duas equipas. A propósito, um articulista do Notícias da Beira escreveu:

também não compreendemos porque se defendia tão acerrimamente a equipa do Atlético Chinês por parte de algum público, pois, é certo que a equipa é da Beira, mas não é menos verdade e julgamos o principal motivo, que é uma equipa estrangeira[52].

O Diário de Moçambique respondeu:

é pena [o Notícias da Beira] estar tão mal informado, pois que os componentes da equipa do Atlético Chinês são todos naturais da Beira, com excepção de Wing Fon e, por isso, tão portugueses e beirenses como muitos dos portugueses que defendiam esta equipa ontem no campo do Macúti. O que interessa que esse público estivesse a defender o Atlético Chinês se o estava fazendo correcta e desportivamente? Se defendia o Atlético defendia o mesmo Atlético que nos tem proporcionado jogos emocionantes de Basquetebol com as equipas locais e consequentemente defendia o desporto beirense[53].

Para além da posição da União Nacional no Notícias da Beira e do anti-racismo do Diário de Moçambique, havia já nalguma população branca, mestiça e assimilada com “sentimentos moçambicanos” e “fervores pela terra” manifestados no desporto, de que o movimento nacionalista se iria alimentar e que também Jorge Jardim tentou recuperar no início dos anos 70, pelo que patrocinou a ida da equipa feminina do Atlético ao campeonato português em Angola e envolveu algumas raparigas “sino-moçambicanas” nos seus “concursos de beleza”.

Por volta de 1958 começou a ser exercida sobre as comunidades “sino-asiáticas” da Beira e de Lourenço Marques alguma influência da China Nacionalista por intermédio do consulado-geral da Formosa em Pretória, na África do Sul, e do consulado na Suazilândia. No campo desportivo, foi a partir dessa data que começaram a ser organizados torneios destas comunidades na África Austral (África do Sul, Rodésia e Moçambique). A da Beira participava com uma poderosa equipa de basquetebol e com uma equipa ad hoc de futebol. No primeiro torneio da Páscoa, por ocasião do aniversário do generalíssimo Chiang Kai-shek, o Clube Oriental da Beira participou no evento. Mas no segundo, estiveram as duas equipas beirenses, o Atlético e o Oriental. No terceiro, foram selecções dos dois clubes, uma masculina e outra feminina. Ganharam quase sempre.

 

 

Os dignitários da comunidade procuraram habitualmente um bom entendimento com as autoridades coloniais. Por sua vez, estas, a partir dos anos cinquenta, por causa dos ventos do emergente nacionalismo africano, quiseram alargar a sua base de apoio. Mas também a China Nacionalista pretendia estabelecer a sua influência nas comunidades de além-mar. A Guerra Fria e o anticomunismo do mundo ocidental foi um óptimo terreno para a Formosa. Mas Moçambique era-o menos por causa das relações de Portugal com as “duas” Chinas. Mesmo assim, a partir da África do Sul, os políticos de Taiwan procuravam marcar a sua presença. Só que bastantes “sino-asiáticos” moçambicanos mantinham relações com a China continental através de Macau e de Hong Kong.

Para os jovens jogadores participantes nesses torneios nos territórios vizinhos, o interesse estava no passeio e no convívio. A colagem a uma identidade chinesa nacionalista, procurada pela Formosa através dos seus consulados na África do Sul e Suazilândia, dos filmes de Hong Kong e Taiwan, da influência na Escola Chinesa e da literatura (jornais, revistas e folhetos de Taiwan e Hong Kong), era marginal, interessando sobretudo a alguns dignitários das tríades. Os jovens “sino-moçambicanos” viviam com desprendimento, alguns com curiosidade, o que se passava na China continental. E foi por causa desta curiosidade, longe das querelas entre os pró-Pekin, de Mao, e os pró-Chiang Kai-shek, de Taipé, que se manifestaram ruidosamente numa dessas viagens quando ouviram estupefactos que a China tinha levado a cabo com sucesso o seu primeiro ensaio nuclear. Esta espontaneidade causou perplexidade nos mais velhos e embaraço nos organizadores do torneio. Foi a partir desta manifestação que a PIDE se tornou mais presente entre os “sino-moçambicanos”. Por isso, e pela obrigatoriedade do serviço militar, alguns jovens começaram a emigrar para Nova Iorque, Londres e Hong Kong.

 

 

Como se referiu, jogadores “sino-moçambicanos” passaram a praticar desporto noutros clubes beirenses. Nas estruturas da Associação de Basquetebol da Beira participavam alguns como cronometristas e árbitros. Em 1965, realizou-se na capital de Manica e Sofala o campeonato nacional português de basquetebol feminino. Participaram no evento as equipas do Centro Desportivo Universitário da Universidade do Porto (CDUP), do Lubango e Benfica, de Angola, do Desportivo da Beira e do Atlético Chinês da Beira. Pelo Desportivo e pelo Atlético participaram jogadoras “sino-moçambicanas” como Siu Wah, Sui Mei, Chan, Teresa Kwan, Branca Pack, entre outras.

Ao invés do basquetebol, o voleibol, embora também federado e modalidade considerada bastante completa e atraente, não merecia muita simpatia e entusiasmo do público beirense. Era sobretudo uma modalidade de praia[54], das escolas e dos quintais. Nas competições oficiais, a assistência aos jogos resumia-se aos participantes e a meia dúzia de pessoas[55]. Mesmo assim, em 1952, realizou-se um campeonato da cidade[56], em que participaram as equipas do Atlético Chinês, Centro Africano, Centro Recreativo Indo-Português, Desportivo, Ferroviário, Muçulmanos[57], Sport Lisboa e Beira e Sporting. Como o voleibol se praticava durante a mesma época do ano que o futebol, na estação seca, diferente da do basquetebol, que era jogado durante o defeso do futebol, na estação das chuvas, os clubes que não praticavam o futebol federado, como o Atlético Chinês e os Muçulmanos, apresentavam no voleibol quase os mesmos jogadores do basquetebol. Os outros clubes só inscreviam atletas que, embora pudessem ser basquetebolistas na devida época, não jogassem futebol, para evitar a prática simultânea de voleibol e de futebol pelos mesmos atletas. Poo Quin também foi árbitro desta modalidade[58].

Os campos de jogos para as competições de ginásio, como o basquetebol, voleibol, hóquei patins e ginástica, eram os dos clubes já referidos: Ferroviário, Sport Lisboa e Beira, Sporting, Desportivo e Pavilhão da Mocidade Portuguesa, que tinha sido o clube dos funcionários da Companhia de Moçambique. Os outros clubes tinham apenas precários espaços de treino, usando também para treino os ginásios do liceu ou da escola técnica e o salão da escola chinesa.

O pingue-pongue, nome popular para o ténis de mesa, foi a mais desenvolvida das modalidades desportivas praticadas pelos “sino-moçambicanos” da Beira e de Lourenço Marques. Onde existisse uma mesa, os jovens rapazes usavam-na para jogar (já as raparigas não praticavam este desporto). Jogava-se no liceu, na escola técnica, nas garagens de um ou outro afortunado, nas sedes dos clubes. Organizavam-se campeonatos ad hoc. John Ping, esquerdino, foi campeão da Beira nos anos 50. No Torneio de Aniversário do Sport Lisboa e Beira, o Atlético Chinês venceu 14 partidas e apenas perdeu uma[59].

O badmington era pouco praticado. Mesmo assim, chegaram a organizar-se alguns torneios com a participação de clubes, do liceu e da escola técnica. O Atlético Chinês notabilizou-se com alguma facilidade.

 

 

Como já foi referido, tanto na Beira como em Lourenço Marques não havia entre os “sino-moçambicanos” equipas federadas de futebol que estivessem envolvidas nas competições locais, como, por exemplo, tinham os indo-portugueses do Centro Recreativo Indo-Português ou a equipa de Operários Goanos. Só nos anos sessenta é que a comunidade da Beira participou com uma equipa ad hoc nos jogos de futebol do campeonato corporativo e, também, com uma selecção de futebolistas contra uma congénere laurentina.

 

 

Os “sino-moçambicanos” amantes do futebol jogavam nas equipas dos clubes da cidade como o Centro Recreativo Indo-Português, Ferroviário, Sport Lisboa e Beira, Sporting e Desportivo. Ping Song foi o primeiro jogador “sino-asiático” de futebol na Beira. Jogou pelo Sporting em 1947-1948. Seguiram-se-lhe outros nos vários clubes, principalmente nas equipas de juniores. Raramente houve jogadores “sino-asiáticos” nas equipas de seniores. Só alguns “afro-chineses” se afirmariam na categoria principal, como Shéu, que se tornou famoso no Benfica de Lisboa[60], e os irmãos Manacas, que foram jogadores do Sporting da Beira e de clubes em Portugal.

 

 

 

No tempo da Companhia de Moçambique e do domínio britânico no desporto beirense, o ciclismo parece ter tido alguma actividade regular. Mas depois da II Grande Guerra passou a ser uma actividade ocasional, em datas comemorativas e festivas ou por ocasião da ida à Beira de corredores metropolitanos, caso da visita de Alves Barbosa e seus companheiros. Mesmo assim, havia em 1952 uma Associação de Ciclismo de Manica e Sofala. Em 1956 foi criada uma Comissão Organizadora de Provas de Ciclismo que, em 1957-1958, levou a efeito algumas competições. Mas foi entusiasmo de pouca duração[61].

O pugilismo foi uma modalidade muito apreciada no tempo da Companhia de Moçambique. Segundo Al Pereira, o primeiro combate de boxe realizado na Beira opôs um maquinista do caminho-de-ferro da Rodésia – que mais tarde chegaria a governador nobilitado pela coroa inglesa com o título de Sir Roi Walensky – e um pugilista português, Joaquim Alves[62]. A modalidade reapareceu na Beira nos anos 40 com pugilistas italianos que abandonaram a África do Sul, onde estavam como prisioneiros de guerra. Dentre eles, Marino Beneditto fez alguns combates contra rodesianos no campo de basquetebol do Sporting da Beira, onde Al Pereira também combateu, em 1947 ou 1948. O mesmo sucedeu em Lourenço Marques com o pugilista Ludo Huguetto.

A semente lançada por Beneditto – que nunca abandonou o Sporting – germinou. Neste contexto, um jovem de origem grega chamado Campanis, apesar de nunca ter combatido na cidade, montou um ginásio no Sport Lisboa e Beira para a prática do boxe e da halterofilia. Neste ginásio surgiram bons pugilistas amadores, como Luís Furtado, Miguel Guerra, Wing Wá[63], Bingre, Santana, Freitas, Luís Chin[64], entre outros.

 

 

Wing Wá foi o mais célebre pugilista “sino-moçambicano” da Beira. Da categoria dos meio-pesados, combateu com frequência na cidade e na Rodésia no início dos anos 50. Nesta colónia britânica, quando combatia com um pugilista branco, usava sempre um nome português de ocasião. Wing Wá tinha um poderoso hook esquerdo, a sua arma mais temível. Tinha intuição, era duro e valente, merecendo os elogios da crítica e dos técnicos[65]. Era fogoso e contava com grande popularidade na Beira entre as comunidades “sino-moçambicana” e europeia e entre a população negra, na qual era conhecido por Machado, o “rachador”. Em meados dos anos 50 deixou de combater. A falta de incentivos, de uma alimentação cuidada e deslocações de um lado para outro em trabalho, para subsistir, tornaram-lhe a existência difícil, o que impediu uma carreira desportiva[66].

 

 

O pugilismo e a luta livre passaram a ser organizados na Beira no final dos anos 50 pelo ex-pugilista Al Pereira, entretanto radicado na cidade[67]. Dirigiu o ginásio do Sport Lisboa e Beira onde continuou a escola de Campanis, na qual se inscreveram jovens brancos, negros e mestiços, entre eles Wing Chew. Este Wing Chew era filho de um mestiço pescador e foi um bom pugilista amador, ganhando todos os combates que realizou[68].

Em Lourenço Marques, o mais célebre pugilista de origem “sino-moçambicana” foi Jorge Tafoi, que era um pintor de cartazes de cinema no Scala. Por essa altura, o mais famoso boxeur na capital moçambicana era um judeu chamado Beni Levi, que andava pelo mundo e que se demorou na cidade para trabalhar como capataz na estiva. Ainda podia ser visto a correr na praia da Costa do Sol nos anos 70. Outros boxeurs na capital foram Luís Eugénio, mais conhecido por “Xangai” e Manuel Matos, um “afro-chinês”.

Rivalizando com o basquetebol, o hóquei em patins[69] foi a modalidade que mais amantes do desporto atraía aos campos de jogos da cidade nos anos 50 e 60. O clubismo era nesta modalidade muito exacerbado, desde logo por os clubes disporem de jogadores carismáticos, que se tinham distinguido nas competições internacionais, como Velasco e Candeias, ou por serem clubes de empresas e de localidades que mobilizavam os seus membros e residentes, como o Clube da Lusalite, do Dondo, e o Clube Recreativo do Búzi, dos empregados da Companhia Açucareira e de residentes da localidade do Búzi.

Foi o hóquei patins que, entre 1957 e 1967, mais “bairrismo” provocou em Moçambique face ao mundo lusófono e à cultura anglo-saxónica vizinha, com jogadores de nível internacional como Moreira, Carrelo, Adrião, Velasco, Boucós, Candeias e alguns mais.

Os “sino-moçambicanos” pouco estiveram envolvidos neste desporto, só Poo Men foi jogador de hóquei patins no Sport Lisboa e Beira. Mesmo assim, vibravam por igual com as vitórias moçambicanas no hóquei. A euforia moçambicana foi enorme nesses jogos. Sai do âmbito deste artigo a análise deste fenómeno “nacionalista”.

Como também não será aprofundada a questão dos “sino-moçambicanos” praticarem mais os desportos de ginásio que os outros desportos. Avancemos apenas que isso esteve relacionado, para os “sino-asiáticos”, com os lentos caminhos da integração colonial, através da escolarização em português depois da II Guerra, e com a participação em modalidades onde podiam actuar como grupo, e em actividades e espaços mais resguardados do grande público, do futebol, por exemplo[70].

 

 

Em 1957-1958 surgiu no liceu da Beira um licenciado em Educação Física e Desportos, Loriente Pereira. Até então a actividade desportiva no liceu (como na escola técnica) era leccionada por um militar graduado ou por qualquer desportista disponível[71]. O professor Loriente começou pacientemente a formar uma classe especial de ginástica olímpica, que, passados alguns anos, apresentou ao público beirense numa das datas comemorativas em que as escolas participavam, a saber, 28 de Maio, 10 de Junho, 1 de Dezembro. Na primeira classe, chamada de “estilo sueco” implementado por Loriente – formação em xadrez com exercícios coordenados e em ritmo de sequência com comandos verbais de sons pouco audíveis –, participou Chin Peng Leon. Anos mais tarde, Mah Cock Quib e Ma Gew participaram numa outra.

Uma destas classes de ginástica, com “sino-moçambicanos”, deveria ter participado nos festejos comemorativos dos duzentos anos da cidade de Joanesburgo a convite de um colégio local. Só que em torno desta participação registou-se uma segregação a que foram sujeitos os atletas não-brancos do grupo sem a mais elementar reacção cívica e política por parte das autoridades administrativas e desportivas portuguesas.

A classe partiu da Beira para Lourenço Marques, ficando os atletas instalados no Parque José Cabral (hoje, Parque dos Continuadores). Na noite anterior à partida para Joanesburgo, apareceu no acampamento um grupo de responsáveis escolares de Lourenço Marques acompanhados por elementos da PIDE para comunicar os nomes dos atletas que seguiriam viagem, e com “palavras de orientação política” para os eleitos. Todos os “mistos” e “chineses” ficaram para trás, vítimas do racismo sul-africano e do racismo lusitano. O incidente causou mal-estar entre os ginastas brancos da comitiva, tanto mais que alguns conviviam com as “forças progressistas” da cidade.

Este incidente voltou a lembrar o ocorrido em 1958, e que permaneceu muito vivo em Moçambique: a vitória da selecção inter-racial de futebol do Brasil no campeonato mundial na Suécia. Também o incidente de 1959, quando a equipa brasileira da Portuguesa de Santos fez uma escala na cidade do Cabo, na África do Sul. Como a equipa local era formada exclusivamente por brancos, as autoridades sul-africanas exigiram que a equipa brasileira jogasse apenas com jogadores de pele clara. Porém, os militantes nacionalistas negros actuaram e manifestaram a sua indignação junto da embaixada brasileira. A imposição dos sul-africanos fez que o então presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek de Oliveira, determinasse de imediato o cancelamento do encontro!

O ocorrido teve uma repercussão estrondosa entre a população mestiça e negra de Lourenço Marques e da Beira, com uma discreta repercussão na imprensa moçambicana do sector europeu. Só a revista brasileira O Cruzeiro, lida em Moçambique, fez um enorme eco do acontecimento (como o tinha feito por ocasião da vitória no Mundial). O semanário O Brado Africano aproveitou o incidente para elogiar a coerência dos brasileiros, sem, contudo, fazer qualquer alusão à subserviência das autoridades coloniais em Moçambique. Sempre que uma equipa desportiva moçambicana se deslocava ao país vizinho, os jogadores de cor eram expurgados do conjunto (Polanah, 2001, p. 14). Como foi o caso com a classe especial de ginástica. Isto não era comentado pela imprensa branca. De outra classe especial faziam parte Ling John e outros atletas não-brancos. Esta participou em Madrid nalgumas competições.

O atletismo foi uma modalidade muito praticada pelos anglo-saxões na Beira antes da Segunda Guerra Mundial. Depois da saída dos britânicos só ocasionalmente se realizaram torneios e campeonatos inter-clubes. Ling Pó, representando o Centro Recreativo Indo-Português foi 3º numa eliminatória dos 400 metros, de um torneio organizado pelo Clube Ferroviário em Dezembro de 1952[72].

 

 

A tradição da ginástica e das artes marciais do Oriente teve sempre entusiastas no seio dos “sino-moçambicanos”. Nas décadas de 40 e 50, alguns praticavam variantes de Kun Fu (Chuan de Shaoloin). Nos anos 60, existia um mestre de Tai Chi Chuan [Supremo Punho Final] à frente de uma classe de cerca de quarenta pessoas de todas as idades. Nos últimos anos de 1960, alguns jovens “sino-asiáticos” criaram uma secção local do Kyokushinkai-Kan, uma variante do Karaté, vulgarmente conhecida por Karate-Do. Esta escola de artes marciais surgiu do contacto com uma escola afim existente em Salisbúria, na Rodésia, de onde vinha periodicamente Ian Harris, que tinha a categoria de cinturão negro e de mestre graduado[73].

Nos primeiros tempos de actividade na Beira, o núcleo era apenas composto por “sino-asiáticos” que treinavam semanalmente no salão de festas da escola chinesa. Entre eles, o cantonês era a língua veicular, mas o inglês e os termos japoneses do Kyokushinkai-Kan também estavam presentes. A partir de 1972[74], esta escola de Karate-Do foi aberta a atletas provenientes de outras etnias e fenótipos, principalmente de brancos e mestiços. Não havia negros no Karaté. Estes participavam, sobretudo, nas competições de boxe. A escola chegou a ter mais de 50 atletas inscritos.

 

 

Por essa mesma época existia no Sport Lisboa e Beira uma outra escola de Karaté, cuja variante era o Shotokai. Esta escola era dirigida pelo mestre Romano.

Ficaram famosos os combates de apresentação das duas escolas, a solo ou em confrontos com escolas rodesianas e sul-africanas. Realizavam-se perante imenso público no Clube da Beira (Pavilhão da Mocidade Portuguesa).

A propósito de um torneio internacional de Karate-Do realizado na Rodésia, a equipa beirense, em representação do estilo em Moçambique, excedeu todas as expectativas e embora ficando em último lugar na classificação por equipas, obteve seis medalhas individuais: Eduardo Sujaque Ping (quatro medalhas – dois primeiros lugares e dois segundos), Julieta Lee King[75] (uma medalha relativa a um segundo lugar), e Chin Seu Wing (uma outra, também de segundo classificado)[76].

Coube ao presidente do Centro de “Karate-Do” da Beira, Chin San Tieng, fazer a entrega dos troféus conquistados pelas equipas participantes. O intercâmbio internacional foi particularmente profícuo para os beirenses que deste modo adquiriram mais conhecimento[77].

 

 

Só a partir dos anos 40 é que membros da comunidade “sino-moçambicana” da Beira se dedicaram à caça grossa[78] como actividade desportiva. Caçavam nos tandos do Tica, Pungué, Muda, Vila Machado e nas proximidades da Gorongosa. Por razões de afinidades familiares e de amizade, havia dois grupos principais de caçadores desportivos, o grupo de Chin Jó e o grupo de Wing Fá.

Eram quase os mesmos indivíduos que se dedicavam à pesca desportiva na baía da Beira ou na praia do Sengo. Alguns, a certo momento das suas vidas, passaram a dedicar-se à pesca comercial para o mercado no Inhassoro e Vilanculo, também nas praias do Inhangau e do Régulo Luís na região da Beira. Pescavam, sobretudo, peixe pequeno que, seco, se destinava ao comércio indígena[79].

Comentários finais

Até final dos anos 50, as actividades desportivas na Beira estiveram assinaladas por uma forte carga étnica e racial. Os clubes desportivos que foram nascendo eram étnicos ou fomentaram identidades regionais ou clubistas particulares. Havia desporto dos e para os anglo-saxões, como o cricket (sendo que os indo-portugueses praticavam também esta modalidade) e o golfe, bem como desporto para a elite dos outros brancos, como o hipismo, modalidades náuticas e ténis. O desporto tornava-se, assim, uma construção cultural de um tempo e de uma formação social colonial específica. E essa construção local tornou-se produtora de identidades socioculturais de expressão territorial, que iria marcar toda a história desportiva beirense. Todos os desportos praticados na Beira eram já uma prática globalizada, na medida em que estavam estritamente regidos por regras internacionais e pelas emoções que eles provocavam de modo semelhante ao de qualquer parte do globo.

Os imigrantes “sino-asiáticos” da primeira vaga, “coolies”, artesãos e horticultores viveram à margem dessas práticas. Mas os “sino-asiáticos” e os “afro-chineses” nascidos na colónia, embora não participando num primeiro tempo nas actividades desportivas organizadas pelos brancos, passaram a dedicar-se ao desporto nas escolas e entre grupos de amigos e vizinhos. Estas práticas tiveram uma importante influência nos processos de socialização de rapazes e raparigas, com repercussões na comunidade “sino-moçambicana” que respondeu com uma maior abertura das famílias, na produção de um campo de lazer e na libertação das tensões individuais e de grupo. Contribuiu, por último, para as mudanças dos comportamentos sociais.

Com a criação do Atlético Chinês em 1947 e do Oriental, no começo dos anos 60, e com a progressiva abertura dos clubes dos colonos a mistos e asiáticos, os “sino-moçambicanos” envolveram-se activamente no desporto beirense. As práticas desportivas transformaram-se em momentos de convívio e de inclusão social. O desporto transformou-se num lugar privilegiado de aproximação interétnica, de integração social e de espectáculo de emoções. No caso dos “sino-moçambicanos”, o desporto contribuiu também para a afirmação de uma identidade própria, beirense e moçambicana.

 

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Recebido 15 de novembro de 2012; Aceite para publicação 14 de outubro de 2013

 

NOTAS

[1]  O essencial das pesquisas sobre os “sino-moçambicanos” foi feito no âmbito de um projecto no Núcleo de Estudos Sobre África (NESA), do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades, da Universidade de Évora, CIDEHUS-UÉ, c. 1990-1998.

[2]  Uso a expressão para designar os “sino-asiáticos”, “sino-europeus”, “sino-indianos” e “mestiços” de vários cruzamentos nas gerações seguintes (Medeiros, 2007a).

[3]  Agradeço a Augusto Nascimento o saber e a paciência com que me ajudou na transformação do capítulo para o artigo nesta revista.

[4]  Antes da II Guerra uma equipa de basquetebol representando a Associação Pagode Chinês da capital da colónia participou nalgumas competições.

[5]  As actividades desportivas dos clubes estavam enquadradas em associações da modalidade. Associação de Futebol de Lourenço Marques, Associação de Futebol da Beira, Associação de Basquetebol, Associação de Hóquei, etc. Eram associações dos colonos. Paralelamente, à maneira dos sul-africanos, houve associações de futebol dos “indígenas”.

[6]  Antes de 1930 já havia essa distinção do “nós” e dos “outros”, mas foi o Acto Colonial de 1930 que mais clara e definitivamente, até 1951, registou na lei a clivagem entre “civilizados” e “indígenas”.

[7]  Ressalvo que alguns mestiços com uma qualquer ascendência chinesa já participavam nas competições desportivas.

[8]  Neste ano foi revista a Constituição de 1933 e revogado o Acto Colonial de 1930, e nos anos seguintes foi promulgada uma série de legislação, entre a qual, a que instituiu os Conselhos Provinciais de Educação Física (1957).

[9]  As actividades económicas não eram exactamente as mesmas da geração precedente, que foi a dos “coolies” e dos artesãos (Medeiros, 2006a).

[10] Num outro texto analisarei o nascimento de novas associações depois da II Guerra, de acordo com o que passava na China e no novo contexto colonial.

[11] Segundo o Anuário Estatístico do Ultramar, de 1958, dos 5 739 911 habitantes na colónia, 5 615 053 eram analfabetos, isto é, 97,86%.

[12] Nos termos da portaria provincial n.º 317 de 1917, os africanos para pretenderem ser assimilados tinham que mostrar ter abandonado inteiramente os “usos e costumes, incluindo a poligamia, falar e ler português, ganhar o suficiente para si e para a família”, ou seja, mostrar que viviam segundo padrões portugueses.

[13] Segundo informação que me forneceu José Luís Cabaço em Setembro de 2011, o nome do Desportivo era Desportivo Lourenço Marques e não Desportivo de Lourenço Marques. Paulino dos Santos Gil era maçon e esteve na fundação do clube.

[14]  O Ferroviário da Beira foi sucedâneo do Beira Railway Athletic Club dos ingleses; o Clube Desportivo Ferroviário, de Lourenço Marques, nasceu no dia 13 de Outubro de 1924.

[15]  Antes: Atlético Nacional Clube de Lourenço Marques, com equipamento semelhante ao São Paulo Futebol Clube, do Brasil, e no qual jogaram em 1944 José Craveirinha e Mário Wilson (Craveirinha, 2002, p. 76).

[16]  Fundado por gente oriunda de Quelimane, com campo perto da actual Escola Estrela Vermelha, na Av. Guerra Popular.

[17]  Quase uma secção da Associação Africana, e com sede numa casa situada entre a avenida de Angola e a avenida Irmãos Robby.

[18] Há o aportuguesado “críquete” para a língua portuguesa. Mas como a modalidade permaneceu muito inglesa mantive o vocábulo original.

[19] Lloyd Hill, professor da Universidade de Joanesburgo, apud Fontenelle (2010).

[20] A primeira vez que vi os ingleses da Majestática jogar críquete no Beira Amateur Club fiquei pasmado com aqueles homens vestidos a rigor, um a lançar uma pequena bola e outro a tentar bater nela com uma espécie de prancha de madeira, não regular, para que a dita não batesse nuns pauzinhos espetados na vertical, e outros, à volta, espalhados pelo relvado, a tentar agarrá-la, quando o tal da pá conseguia bater nela! E ficaram nisto toda a tarde de sábado. E eu, criança, especada na bancada de madeira, a tentar perceber alguma coisa daquilo (In Eduardo Medeiros, MZ 1958 - 1964, contextos para memórias de infância e da adolescência. Inédito).

[21] Comunicação pessoal, carta de 11 de Novembro de 2003.

[22] De acordo com o folheto publicado na Beira em 1964 pelo “Souvenir dos Festejos do 35º Aniversário”, o Clube foi fundado em 1929.

[23] O Clube Desportivo da Beira resultou da fusão do Futebol Clube da Manga (filial do Futebol Clube do Porto) e de Os Belenenses da Beira. O grande impulsionador do Desportivo foi o advogado Domingos Allen. O Clube Desportivo caracterizava-se nos anos 60 por ser um clube da terra, com uma inter-racialidade no tocante a atletas e associados.

[24] A influência inglesa até aos anos 50 foi enorme e, por isso, o nome dos clubes aparecia frequentemente com termos ingleses.

[25] Clube criado pelos empregados e funcionários da Fábrica de Cimento da Nova Maceira. A modalidade principal era o hóquei patins (Informação de Manuel A. S. Costa, e-mail de 27 de Junho de 2003).

[26] Uso o termo “branco” para indicar, no sentido biológico, a população colonizadora de pele clara, nascida ou não na colónia e, nalguns casos, os mestiços mais claros. No sentido cultural, “branco” era todo aquele que tinha adoptado o modo de vida europeu.

[27] A propósito destes bairros, é de assinalar que nunca houve uma Chinatown na Beira. Os “sino-moçambicanos” foram sempre ocupando espaços na rota dos compounds dos trabalhadores negros nos bairros urbanos e suburbanos que foram nascendo.

[28] Matope é a designação de barro, lodo ou terra barrenta, muito comum nas margens beirenses do Chiveve, um braço de mar.

[29] Entrevista de Francisco Zonjo a Alexandrino José (José, 1989).

[30] Diário de Moçambique, 1 de Agosto de 1959.

[31] Salvo naqueles raros casos dos rapazes que eram integrados nas respectivas famílias “sino-asiáticas” de origem.

[32] Em 1950, viviam na colónia 1 613 “amarelos”, 997 H e 616 M, sendo 861 nacionais e 752 estrangeiros, achando-se assim distribuídos por distrito: Lourenço Marques, 734 (421 H); Gaza, 37 (33 H); Inhambane, 61 (43 H).

[33] As famílias sino-asiáticas tinham em média muitos filhos, rapazes e raparigas, que, pelas regras da exogamia clânica não encontravam soluções matrimoniais no seio da comunidade local. Também por isso começaram os casamentos inter-étnicos nos anos 50. Por causa do número elevado de filhos, a integração de todos nas cantinas da família era problemática. Ou abriam novos negócios ou integravam-se noutras actividades da economia colonial.

[34] Arquivo Histórico de Moçambique (AHM, Maputo), 1947-50, Cx. 23, Pasta 27, Capilha 5.

[35] Houve a ligação de alguns dignitários locais ao Kwomintang de Chiang Kai-shek e, depois de 1949, ao governo da Formosa através dos seus cônsules na África Austral.

[36] Centro Recreativo Indo-Português, Clube Desportivo da Beira, Clube dos Operários Goanos, Clube Helénico, Clube Ferroviário, Sport Lisboa e Beira e Sporting da Beira.

[37] A administração colonial considerava o Clube Chinês-Chee Kung Tong uma agremiação (também) desportiva, no que estava equivocada. O Chee Kung Tong era uma confraria secreta (com lojas de carácter maçónico pelo menos até 1949), que actuava em todas as comunidades chinesas de além-mar, pretendendo controlá-las através de “Grémios ou Clubes ou Associações locais”. Outras tríades procuraram fazer o mesmo, antes e depois de 1949. Vide Medeiros, 1998a, 1998b, 2007b.

[38] Ainda não encontrei referências escritas a esta associação. Mas pelos testemunhos orais que recolhi, a sua formação teve a ver com posicionamentos políticos dentro da comunidade face à nova situação na China e também sobre o novo rumo das tríades no além-mar chinês. A comunidade dos “sino-asiáticos” não era homogénea do ponto de vista étnico e de classe (muito menos a dos “sino-moçambicanos”). Nem eram todos “bons portugueses”! Mas a grande maioria estava interessada em permanecer em Moçambique como moçambicanos, desde que não fossem os negros a governar.

[39] AHM, 1947-50, Cx. 23, Pasta 27, Capilha 5.

[40] Chin Chong, aliás, Chin Tung Chong – Chonguito, para além de jogador de basquete no Atlético, foi jogador de futebol no Sporting Clube da Beira, 1958-1959, treinador, árbitro, dirigente desportivo. Morreu praticamente esquecido em Massamá, na região de Lisboa, em 2006.

[41] Em 1947, Chiang-Kai-shek tornara-se o senhor absoluto do Kwomintang e apelava aos membros das tríades e aos compatriotas de além-mar para o combate contra os comunistas que estavam prestes a conquistar o poder e a expulsá-lo para Taiwan.

[42] Apodo de uma família “sino-moçambicana” da Beira.

[43] Ver fotografia sem nome dos atletas publicada no Diário de Moçambique de 24 de Setembro de 1959.

[44] Diário de Moçambique, 5 de Janeiro de 1951 e 11 de Janeiro de 1951.

[45] Só em Setembro de 1959 é que o pavimento do campo de treinos passou a ser em cimento (Diário de Moçambique, 24 de Setembro de 1959).

[46] Por exemplo, em Abril de 1951, foram seleccionados do Atlético os jogadores Voi You, Fone Guine e John Ping (Diário de Moçambique, 27 de Abril de 1951).

[47] Diário de Moçambique, 12 de Janeiro de 1951.

[48] O uso do ópio pelos chineses mais idosos no Clube Chinês não deve ser julgado com os critérios hodiernos do uso das drogas (Medeiros, 2006b). Os jovens dessa altura riam-se dessas práticas dos anciãos. Para eles, a droga era o desporto. O uso de drogas, sobretudo da suruma, só se expandiu entre muitos jovens em Moçambique no contexto da guerra de libertação e das revoltas estudantis mundiais no final dos anos 60 e nos anos 70. Já há alguns testemunhos na literatura ficcionada sobre este fenómeno em Moçambique (Vide Gil, 2005).

[49] Diário de Moçambique, 18 de Janeiro de 1951.

[50] Diário de Moçambique, 9 de Fevereiro de 1951.

[51] O Notícias da Beira sucedeu ao The Beira News em 1951. Propriedade de uma SARL chefiada por Victor Gomes, era semanário. Só a 20 de Agosto de 1966, após a criação de uma sociedade anónima apoiada pelo BNU e dirigida de facto pelo Eng.º Jorge Jardim, é que o Notícias da Beira passou a diário, assim se mantendo até 17 de Setembro de 1981.

[52] Notícias da Beira, 30 de Março de 1951.

[53] Diário de Moçambique, 31 de Março de 1951.

[54] No torneio popular de voleibol na praia do Pavilhão Oceânia, participaram as seguintes equipas: Andorinhas, Os Beras, Vagabundos, 4 Aleijados + 1 à Rasca, Anofeles, República do Pachá, 1 Rás e 5 que Parta, Beiramar, Lusalite, D.D.T. (Notícias da Beira, n.º 3851, de 31 de Julho de 1952, e n.º 3882, de 4 de Setembro de 1952).

[55] Notícias da Beira, n.º 3844, de 15 de Julho de 1952.

[56] Notícias da Beira, n.º 3840, de 5 de Julho de 1952.

[57] É a única equipa desportiva conhecida da comunidade muçulmana, na sua maioria paquistanesa.

[58] Notícias da Beira, n.º 3852, de 1 de Agosto de 1952.

[59] Notícias da Beira, n.º 3860, de 26 de Agosto de 1952.

[60] Segundo Al Pereira (26 de Outubro de 2003), a contratação de Shéu pelo Benfica passou-se em 1973 depois de o olheiro do clube lisboeta, o ex-jogador Francisco Calado, ter sido alertado que havia um miúdo com muito interesse na equipa dos juniores do Sport Lisboa e Beira. Mas o Calado ao ver o Shéu pela primeira vez sorriu e disse: “O rapaz precisa é de comer e não de jogar à bola!”, tão franzino que ele era. Porém, ao vê-lo no campo, durante um encontro de juniores, imediatamente se interessou pelo jogador, que seguiu para Lisboa à experiência, onde agradou. O contrato foi de 100 contos e um jogo de futebol a efectuar pelo Benfica na Beira, que nunca se realizou.

[61] Da documentação consultada, apenas registamos a participação de Fone Wah na corrida de bicicletas Beira-Dondo, em Fevereiro de 1951 (Moçambique Ilustrado, Ano II, n.º 17, de 15 de Maio de 1956, p. 23. Diário de Moçambique, 12 de Fevereiro de 1951).

[62] Futuro empresário em Vilanculo e Ilha de Santa Carolina.

[63] De apelido Yee, filho de Yee Ah Su, que foi trabalhador da Sena Sugar, em Marromeu.

[64] Filho de Chin Leong Hó, do Esturro.

[65] Diário de Moçambique de 26 de Abril de 1951.

[66] Comunicação de Al Pereira, 6 de Outubro de 2003, e de Luís Chin, 16 de Novembro de 2003.

[67] Para uma bibliografia desportiva de Al Pereira ver Notícias da Beira, n.º 3894, de 29 de Novembro de 1952.

[68] Comunicação de Al Pereira, 6 de Outubro de 2003.

[69] Sobre esta modalidade em Moçambique na época colonial, consultar na Internet o excelente sitio do ex-jogador e treinador Francisco Velasco, http://www.francisco-velasco.com/

[70] Seria interessante, a este respeito, recolher as “narrativas” do “grande público” respeitante aos jogos do C.R.I.P., e dos Goanos.

[71] De assinalar que, em Lourenço Marques, no Ginásio Clube e na Associação Africana de Moçambique já se praticava a ginástica educativa e olímpica (Moçambique Ilustrado, n.º 24, de 1 de Setembro de 1960).

[72] Notícias da Beira, n.º 3905, de 11 de Dezembro de 1952.

[73] Ian Harris era de origem irlandesa, tendo vivido no Japão muitos anos, onde se tornou cinturão negro e mestre antes de emigrar para a Rodésia.

[74] No ano de 1970 existiam na Beira para cima de duzentos estabelecimentos comerciais de proprietários chineses (Bandeira, 1970, pp. 5 e 21).

[75] Filha única do dono da Foto-Beira. Carta de Eduardo Ping, 7 de Abril de 2003.

[76] Diário de Moçambique, 26 de Novembro de 1974.

[77] Ibid.

[78] Para além da actividade cinegética dita desportiva, uns raros tentaram-se pela caça profissional. Yum Whá, da Casa Ho Ling, em Lourenço Marques, foi um caçador profissional.

[79] Sobre estas e outras actividades económicas ver Medeiros, 2006a.

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