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Psicologia, Saúde & Doenças

versão impressa ISSN 1645-0086

Psic., Saúde & Doenças vol.19 no.1 Lisboa abr. 2018

http://dx.doi.org/10.15309/18psd190120 

Relação entre estilos educativos parentais, confiança interpessoal e vinculação na adolescência

Relationship between parental educational styles, interpersonal confidence and bondage in adolescence

Leandra Silva Mendes1, & Maria da Luz Vale Dias 2

 

1Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal; leandra_mendes94@hotmail.com

2Instituto de Psicologia Cognitiva, Desenvolvimento Humano e Social; Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal valedias@fpce.uc.pt

 

Endereço para Correspondência

 

RESUMO

O estudo teve como objetivo principal estudar a relação entre os Estilos Educativos Parentais, a Confiança Interpessoal e a Vinculação aos Pais, Pares e Par Amoroso. Analisou-se também o efeito preditor daqueles estilos na Vinculação aos Pares e ao Par Amoroso e na Confiança Interpessoal. A amostra foi constituída por 170 adolescentes, com idades entre os 12 e os 17 anos. Na recolha de dados foram utilizados: um questionário sociobiográfico; a escala de Crenças Generalizadas de Confiança – Adolescência; a Escala de Estilos Educativos Parentais; o Inventário de Vinculação na Adolescência; e o Questionário de Vinculação Amorosa. Relativamente aos resultados, constatou-se a existência de associações positivas significativas entre os Estilos Parentais e a Vinculação aos Pais, Pares, Par Amoroso e Confiança Interpessoal, o que vai ao encontro da literatura. São de destacar as correlações fortes encontradas entre os fatores da educação parental, Autonomia e Amor, e a Vinculação total materna e paterna, assim como com a Confiança e Comunicação relativas ao pai e à mãe. O Amor e Autonomia apresentam ainda uma associação positiva, moderada e significativa com o fator Confiança da Vinculação aos Pares e ao Par Amoroso. Finalmente, o efeito preditor dos Estilos Parentais nas variáveis em análise, ainda que alguns dos valores sejam modestos, corrobora a influência da educação parental em diversas relações que os adolescentes estabelecem.

Palavras-chave: estilos educativos parentais, vinculação aos pais e aos pares, vinculação ao par amoroso, confiança interpessoal, adolescência

 

ABSTRACT

This investigation seeks to study the relationship between Parental Educational Styles, Interpersonal Trust, and the Attachment to Parents, Peers and to the Loving Couple in the period of Adolescence. It was also analysed the predictive effect of these styles on Attachment to Peers and to the Loving Couple and on Interpersonal Trust. The sample consists of 170 adolescents, aged between 12 and 17 years. Data collection was made using the following instruments: Sociobiographic Questionnaire; The Parental Educational Styles Scale; the Generalized Trust Beliefs scale-Late Adolescents; the Inventory of Parent and Peer Attachment; and the Romantic Attachment Questionnaire. The results show significant positive associations between Parental Styles and Attachment to Parents and Peers, Romantic Attachment, and Interpersonal Trust, which is in agreement with the literature. The strong correlations found between the factors of parental education, Autonomy and Love, and the total maternal and paternal Attachment, as well as with the Trust and Communication concerning the father and the mother, should be mentioned. Love and Autonomy also present a positive, moderate and significant association with the factor Trust of the Attachment to Peers and Loving Couple. Finally, the predictive effect of the Parental Styles in the variables under analysis, although some of the values are modest, corroborates the influence of parental education in several relationships that adolescents establish.

Keywords: parental educational styles, attachment to parents and peers, attachment to romantic couple, interpersonal trust, adolescence

 

O conhecimento do desenvolvimento humano não se cinge somente ao estudo das características intrapessoais dos indivíduos (Soares & Almeida, 2011). Existe, também, uma pluralidade de contextos sociais nos quais os indivíduos interagem que se apresenta fulcral para o seu desenvolvimento (Soares & Almeida, 2011). Tome-se como exemplo o caso da família: uma vez que é o primeiro contexto social em que os indivíduos se inserem, bem como aquele no qual permanecem mais tempo, possui uma grande importância no desenvolvimento do indivíduo (Barros de Oliveira, 1994), incluindo o seu funcionamento social. Com efeito, merece destaque “o contributo das primeiras relações humanas, particularmente no seio da família, para um funcionamento social ajustado ao longo do desenvolvimento dos indivíduos” (Morgado, Vale Dias, & Paixão, 2013, p. 131), sendo que essas primeiras relações humanas “contribuem para a elaboração dos seus primeiros esquemas socioafetivos dos quais resultam os protótipos das relações sociais” (Haro, 2000, p. 23, cit. por Morgado, Vale Dias, & Paixão, 2013, p. 131). Na família, criam-se laços afetivos reconhecidos como essenciais para o desenvolvimento humano e construção das suas bases de confiança. Neste contexto, várias investigações têm destacado a importância da educação parental e o seu impacto no desenvolvimento das crianças (Mondin, 2008). Existem, ainda, outras variáveis que se têm revelado interessantes em termos do seu impacto desenvolvimental, quer pessoal quer social, entre as quais merecem importante referência a vinculação (Ainsworth & Bowlby, 1991) e a confiança interpessoal (Rotenberg, 2010), que se estendem para além do contexto familiar e a diversos alvos.

No âmbito da educação parental, a abordagem mais comum passa pela análise dos Estilos Educativos Parentais, os quais podem ser definidos por um “padrão de comportamento dos pais, expresso num clima emocional criado pelo conjunto das suas atitudes, como as práticas disciplinares e outros aspetos da sua interação com os filhos” (Darling & Steinberg, 1993). Os modelos de Schaefer (1959, 1961, cit. por Barros de Oliveira, 1994) e de Baumrind (1971, cit. por Barros de Oliveira, 1994) são aqueles que orientam a maioria das investigações neste campo. O modelo de Schaefer propõe dois binómios: Amor vs. Hostilidade e Autonomia vs. Controlo. O fator Amor, contrário à Hostilidade, está relacionado com a perceção que os filhos têm das figuras parentais enquanto figuras afetuosas e calorosas, isto é, interessadas pelo bem-estar dos filhos e pelas suas necessidades (Vale Dias, Martinho, Franco-Borges, & Vaz-Rebelo, 2012). O fator Autonomia, oposto ao Controlo, relaciona-se com o predomínio do diálogo, compreensão, liberdade, sinceridade, tolerância e alegria (idem). Segundo Baumrind (2005), através da combinação daqueles dois binómios, é possível descrever a tipologia dos estilos educativos parentais: Permissivo, Autoritário, Autoritativo e Negligente. É consensual que o estilo autoritativo é aquele que mais se associa ao sentido de responsabilidade social, cooperação e amizade (Conboy, 2008), assim como a níveis mais elevados de confiança, autoestima, competência social, autocontrolo (Hidalgo & Palacios, 2004), responsabilidade, autoconfiança, adaptação, criatividade, curiosidade, sucesso escolar e aptidões sociais (Steinberg & Silk, 2002).

A palavra Vinculação tem origem no termo latino vinculum, que, numa das suas aceções, se traduz num laço, numa ligação ou relação com o outro (Bayle, 2008). A Teoria da Vinculação (Ainsworth & Bowlby, 1991) permite conceptualizar a propensão dos seres humanos para estabelecer laços afetivos com outros particulares ou figuras de referência (Bowlby, 1969, 1973). Dado que o ser humano necessita de estabelecer relações estáveis e significativas ao longo da vida para atingir um desenvolvimento harmonioso, a vinculação assume especial relevância, implicando qualquer comportamento que possibilite ao indivíduo ficar próximo das figuras pelas quais demonstra preferência (Ainsworth & Bowlby, 1991). A relação de vinculação constrói-se progressivamente e, ao contrário das outras relações sociais, implica uma procura de proximidade, uma noção de base de segurança, de comportamento de refúgio e reações perante a separação. Evoluindo durante a infância, é sobretudo a partir da fase da adolescência que o sistema de vinculação está sujeito a variações mais notórias, em virtude das alterações que ocorrem na relação dos jovens com os pais e com os seus pares (Atger, 2004). A propósito desta fase, Bowlby (1969, 1973) defendeu que a qualidade das relações que os adolescentes estabelecem com os pares e par amoroso está dependente da qualidade das primeiras relações com figuras de vinculação, mais precisamente os pais. Por seu lado, a confiança é crucial para o funcionamento psicossocial do indivíduo, contribuindo para o desenvolvimento e manutenção de relações felizes (Simpson, 2007). De acordo com a Teoria Psicossocial de Erikson (1963), o período inicial, da confiança básica vs. desconfiança, cujo desenvolvimento depende da prestação de cuidados que o indivíduo recebe, é o estádio com maior impacto no desenvolvimento das crianças, uma vez que vai afetar a longo prazo o seu comportamento social (Rotenberg, 2010). Também Bowlby (1979) salienta a importância da confiança entre a criança e o cuidador como uma base na criação do vínculo. A Confiança Interpessoal trata-se de um conceito complexo que desperta cada vez mais a atenção dos investigadores, uma vez que é fundamental para o desenvolvimento de uma personalidade saudável, para o estabelecimento de relações familiares equilibradas ou, ainda, para o desenvolvimento sócio emocional e interpessoal (Rotenberg, 2010).

Tendo como referência os principais desenvolvimentos nestas áreas de investigação, a presente pesquisa pretendeu estudar a relação entre os constructos salientados, na adolescência, através das seguintes hipóteses: (1) Existe uma relação de associação entre os Estilos Educativos Parentais, a Vinculação aos Pais, Pares, Par Amoroso e a Confiança Interpessoal; (2) Os Estilos Educativos Parentais permitem predizer a Vinculação aos Pares; (3) Os Estilos Educativos Parentais permitem predizer a Vinculação ao Par Amoroso e (4) a Confiança Interpessoal.

 

MÉTODO

Participantes

O presente estudo transversal e correlacional pretendeu obter dados junto de adolescentes da população geral, de ambos os sexos, entre os 12 e 18 anos de idade. A amostra, ocasional e não representativa, era constituída inicialmente por 181 sujeitos, dos quais foram excluídos 11 por não terem preenchido 10% ou mais de algum dos instrumentos da investigação. Como tal, a amostra total final é constituída por 170 inquiridos, com idades entre os 12 e os 17 anos, sendo a média de idades 14,14 anos (DP = 1,71). Em relação ao género dos sujeitos participantes na investigação, 106 são do género feminino (62,4%) e 64 do género masculino (37,6%). Dos adolescentes inquiridos, 17 (10%) frequentavam o 6º ano, 36 (21,2%) o 7ºano, 35 (20,6%) o 8º ano, 31 (18,2%) o 9º ano, 29 (17,1%) o 10º ano, 16 (9,4%) o 11ºano e 6 (3,5 %) frequentavam o 12º ano. Os questionários foram disponibilizados em suporte papel e preenchidos pessoalmente pelos adolescentes, de forma anónima, em casa (n = 112) ou em contexto de sala de aula (n = 58), após o consentimento informado dos pais/encarregados de educação e concordância de colaboração pelos adolescentes. A recolha de dados decorreu entre abril e julho de 2017.

Material

Atendendo aos objetivos da investigação, foi aplicado aos adolescentes um questionário sociodemográfico, juntamente com os instrumentos de avaliação a seguir descritos.

A escala de Crenças Generalizadas de Confiança-Adolescência (CGC-A, adaptação portuguesa de Vale-Dias e Franco-Borges, 2014) está disponível nas versões masculina e feminina, originalmente desenvolvidas por Randall, Rotenberg, Totenhagen, Rock, e Harmon (2010). Cada versão é constituída por 30 itens que avaliam as crenças generalizadas de confiança relativas a cinco alvos (mãe, pai, professores, pares e par amoroso), em relação a três bases da confiança: Fidelidade, Confiança Emocional e Honestidade. Nos itens é pedido aos adolescentes que imaginem se os comportamentos e expetativas envolvidos em cada uma das situações apresentadas são ou não prováveis. A escala de resposta é tipo Likert com cinco alternativas, de “Nada provável” a “Muito provável”. No presente estudo, os coeficientes do alfa de Cronbach para as dimensões variam entre 0,56 para a base Fidelidade, valor considerado inaceitável, 0,62 para a Confiança Emocional, e 0,69 para a Honestidade. Contudo, o total da CGC-A apresenta um resultado bom (α = 0,81), pelo que as análises se centrarão no total de confiança. A Escala de Estilos Educativos Parentais – Versão para Filhos (EEEP, Barros de Oliveira, 1994) tem como objetivo avaliar um conjunto de comportamentos e atitudes, cognitivos ou afetivos, percecionados pelos filhos, na prática parental. A escala é composta por 22 itens e é possível responder com 5 possibilidades de resposta, desde “totalmente em desacordo” até “totalmente de acordo”. A EEEP está dividida em dois fatores segundo o modelo de Schaefer: a Autonomia (α = 0,91) e o Amor (α = 0,89). O Inventário de Vinculação na Adolescência-IPPA (Armsden & Greenberg, 1987; versão portuguesa de Neves, Soares, e Silva, 1999), originalmente designado Inventory of Parent and Peer Attachment, pretende avaliar a qualidade da vinculação dos adolescentes à mãe, pai e pares, nomeadamente as dimensões comportamentais, cognitivas e afetivas. É constituído por 75 itens, distribuídos de forma equitativa pela figura materna, paterna e pelos amigos. Cada escala é composta por 3 fatores: Confiança; Comunicação; e Alienação. A escala de resposta tem 5 opções, desde “Nunca ou quase nunca” a “Sempre ou quase sempre”. Neste estudo, os coeficientes do alpha de Cronbach foram elevados – 0,91; 0,94 e 0,91, respetivamente, para as escalas Mãe, Pai e Amigos. O Questionário de Vinculação Amorosa para Adolescentes, versão reduzida (QVA-versão reduzida, Matos, Cabral, & Costa, 2008), tem como objetivo avaliar a relação amorosa do adolescente numa perspetiva de vinculação. Apresenta 25 itens divididos por quatro dimensões: Confiança (6 itens), Dependência (6 itens), Evitamento (6 itens) e Ambivalência (7 itens). As respostas, numa escala tipo Likert de 6 pontos, vão desde “Discordo Totalmente” a “Concordo totalmente”. Os coeficientes do alpha de Cronbach neste estudo foram 0,80; 0,78; 0,73 e 0,77, respetivamente, para as dimensões Confiança, Dependência, Evitamento e Ambivalência, sendo o primeiro um bom valor e os restantes razoáveis.

 

RESULTADOS

Na apresentação de resultados, seguiremos a análise relativa a cada uma das hipóteses. A normalidade de cada escala foi testada com o Teste de Kolmogorov-Smirnov, concluindo-se que as variáveis não seguem uma distribuição normal (p < 0,05), exceto o fator Comunicação na escala de vinculação à mãe (p = 0,06). Assim, optou-se pelos testes não paramétricos. Para averiguar a existência de relações entre as variáveis utilizou-se o Coeficiente de Correlação de Spearman. Foram também utilizadas análises de regressão para estudar o valor preditivo dos dois fatores dos Estilos Educativos Parentais na Vinculação aos Pais, Pares, Par Amoroso e na Confiança Interpessoal.

Hipótese 1

Os Estilos Educativos Parentais (fatores Autonomia e Amor da EEEP) apresentam uma associação significativa positiva elevada com a Vinculação Total à Mãe-IPPA [fator Amor (rs=0,62, p=0,003), fator Autonomia (rs=0,66, p=0,002)] e uma associação também significativa, positiva e elevada com a Vinculação Total ao Pai-IPPA [fator Amor (rs=0,58, p=0,004), fator Autonomia (rs =0,59, p=0,003)]. São ainda de registar interessantes correlações significativas (com rsa oscilar entre 0,56 e 0,69, p<0,001) entre os fatores da EEEP e os fatores do IPPA Confiança e Comunicação, das subescalas materna e paterna. Em relação aos Pares, os Estilos Educativos Parentais, considerando os seus dois fatores, apresentam uma relação significativa positiva moderada com a Vinculação Total aos pares-IPPA [fator Amor (rs =0,32, p=0,008); fator Autonomia (rs =0,41, p=0,006)]. Os fatores Amor e Autonomia (EEEP) apresentam ainda uma associação positiva, moderada e significativa com a Confiança nos pares-IPPA [fator Amor (rs =0,36, p=0,005); fator Autonomia (=0,43, p =0,004)]. Relativamente à Comunicação com os pares-IPPA, o fator Amor apresenta uma correlação fraca, mas significativa (rs=0,29, p=0,009), enquanto se verifica uma associação média significativa com a Autonomia (rs =0,36, p=0,004). No que concerne à Vinculação ao Par Amoroso (QVA), os Estilos Educativos Parentais apresentam uma associação significativa moderada com a Confiança nesse par [fator Amor (rs =0,35, p=0,003), fator Autonomia (rs =0,38, p=0,007)]. O fator Autonomia apresenta uma correlação significativa positiva fraca com a Dependência (rs =0,20, p=0,006) e o fator Amor uma associação significativa negativa fraca com a Ambivalência em relação ao Par Amoroso (rs =-0,17, p= 0,02). Quanto à associação entre os Estilos Parentais e a Confiança Interpessoal (CGC-A), apenas o fator Autonomia apresenta uma relação significativa, positiva e fraca, com a Confiança Interpessoal Total (rs =0,16, p=0,03).

Hipótese 2

Como é possível verificar no Quadro 1, com exceção do modelo Alienação, todos revelam um nível de significância p˂0,01, concluindo-se que, tal como para a Comunicação e Confiança, os Estilos Educativos Parentais predizem a Vinculação Total aos pares (R2=0,14; p<0,004).

 

 

Os coeficientes de regressão obtidos para cada uma das variáveis dependentes mostram que é possível confirmar que os Estilos Educativos exercem poder preditivo na Comunicação ( =20,48; p=0,005), no entanto, por si só, apenas a Autonomia prediz a Comunicação Pares ( =0,40; p<0,001). Também se verifica que a Autonomia tem um efeito preditor na Confiança Pares ( =0,37; p=0,004) e que o Amor e a Autonomia juntos conseguem predizer a Alienação Pares ( = -21,16; p=0,002), mas, por si só, nenhum tem efeito preditor (Amor: p=0,12; Autonomia: p=0,69). Conclui-se, ainda, que o Amor e Autonomia exercem poder preditivo na Vinculação Total Pares ( =63,57; p=0,002), no entanto, por si só, apenas a Autonomia tem efeito preditor ( =0,19; p=0,008).

Hipótese 3

Tendo em conta o Quadro 2, é possível examinar que todos os modelos revelam um nível de significância p˂0,01, concluindo-se que os Estilos Educativos predizem a Vinculação ao Par Amoroso (QVA). Numa análise mais pormenorizada, predizem 13,5 % da Confiança no Par Amoroso (R2 =0,13; p=0,009); 6,9% da Dependência (R2=0,06; p=0,005) e 3.8% do Evitamento (R2=0,03; p=0,002) e 3,5% da Ambivalência (R2=0,03; p=0,007).

 

 

A partir dos coeficientes de regressão, obtidos para cada uma das variáveis dependentes, é possível averiguar que o Amor e a Autonomia juntos exercem poder preditivo na Confiança Par Amoroso (=18,981; p=0,003). Os fatores Amor e Autonomia, tanto juntos (=18,905; p=0,009) como cada um por si (Amor:=-0,35; p=0,02; Autonomia:=0.19; p=0,01), predizem o Evitamento no Par Amoroso. O Amor e a Autonomia predizem a Dependência (=15,097; p=0,003), no entanto, apenas a Autonomia por si só tem efeito preditor na Dependência ( =0,36; p=0,01). Conclui-se, ainda, que o Amor e a Autonomia juntos exercem poder preditivo na Ambivalência (=26,548; p=0,01), no entanto, apenas o Amor consegue por si só predizer a Ambivalência (=-0,33; p=0,02).

Hipótese 4

Mediante a análise do Quadro 3 é possível apurar que os fatores Amor e Autonomia predizem a Confiança Interpessoal em 4,5% da totalidade da CGC-A (R2 =0,045; p=0,007). Na análise dos coeficientes de regressão, é possível constatar que o Amor e a Autonomia juntos predizem a Confiança Interpessoal total (=87,077; p=0,003), sendo que, por si só, nem o Amor (p=0,62) nem a Autonomia (p=0,05) a conseguem

 

 

DISCUSSÃO

Bowlby (1973) afirmou nos seus estudos que os Estilos Educativos se relacionavam com a Vinculação aos Pais, sendo, portanto, esperado que, nos adolescentes inquiridos, os fatores Amor e Autonomia da Escala de Estilos Educativos Parentais se associassem positivamente a essa variável. As correlações fortes encontradas entre os fatores da educação parental, Autonomia e Amor, e a Vinculação total materna e paterna, assim como com a Confiança e Comunicação relativas ao pai e à mãe, acentuam a importância de optar pelos estilos educativos mais positivos ao longo do processo de construção progressiva da relação de vinculação, isto é, no estabelecimento de laços gratificantes e significativos, na procura de proximidade e segurança essenciais ao desenvolvimento harmonioso. Dado que nesta primeira análise apenas se descreve a associação entre variáveis (Hipótese 1), sem conclusões relativamente à direccionalidade das relações, também é possível pensar que quanto melhor for a vinculação entre pais e filhos, confiante e comunicativa, mais se tornará possível empreender uma educação positiva, baseada no Amor e Autonomia. Assumindo a ideia de que as relações precoces estabelecidas dentro do contexto familiar, influenciadas pelas opções em termos de estilos parentais, têm um grande impacto na construção de expectativas perante os outros, ajudando a orientar crenças, sentimentos e comportamentos no futuro e em relações fora do contexto familiar (Morgado, Vale Dias, & Paixão, 2013), analisou-se também a relação entre os Estilos Educativos Parentais e a Vinculação aos Pares e Par Amoroso, sendo que os resultados comprovam a existência de associações esperadas, na sua maioria, com uma magnitude moderada. Assim, os resultados corroboram estudos anteriores que referem o estilo autoritativo como mais associado a níveis mais elevados de confiança (Hidalgo, & Palacios, 2004), cooperação e amizade (Conboy, 2008) e aptidões sociais (Steinberg, & Silk, 2002). Relativamente à Vinculação ao Par Amoroso, verificou-se que o Amor e a Autonomia percecionados pelos adolescentes possuem uma associação significativa positiva moderada com a dimensão Confiança no Par Amoroso, indo este resultado no sentido sugerido pela literatura, pois a estilos parentais percecionados com valores mais altos naqueles fatores corresponde o estilo autoritativo, o mais favorável para o desenvolvimento do sujeito (Barros de Oliveira, 1994), incluindo a segurança e, assim, a confiança nas relações. Por outro lado, o Amor apresenta uma associação significativa negativa fraca com a dimensão Ambivalência, isto é, quando um aumenta a outra baixa e vice-versa. Este resultado encontra-se de acordo com o que seria de esperar, pois estilos parentais que se caracterizem pelo afeto positivo estarão relacionados com maior segurança, melhor resiliência (Vale Dias, & Maia, 2017) e trajetórias mais equilibradas, o que poderá traduzir-se em menor ambivalência nas relações.

Relativamente ao efeito preditor dos Estilos Educativos Parentais nas variáveis mencionadas (Hipóteses 2, 3 e 4), os resultados, esclarecendo as correlações obtidas na Hipótese 1, encontram-se em conformidade com a literatura revista. Permitem afirmar uma direção e, mesmo que alguns valores sejam modestos, sugerem a influência dos estilos parentais nas variáveis estudadas, isto é, na Vinculação aos pares e par amoroso e na Confiança Interpessoal. Em suma, os resultados evidenciam a importância da família e das suas práticas educativas nas relações que os adolescentes estabelecem quer com os pais, quer com os outros significativos que os rodeiam, entre eles os pares e o par amoroso (Bowlby, 1979). Neste sentido, realçam a importância da formação parental, a qual pode ocorrer em diversos contextos, nomeadamente, escolar ou comunitário. A intervenção junto dos pais poderá prevenir diversos problemas experienciados pelos filhos, nomeadamente problemas emocionais ou comportamentos desviantes, decorrentes de processos menos positivos de educação parental e, consequentemente, de relações de vinculação menos ajustadas.

 

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Endereço para Correspondência

Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra; Rua do Colégio Novo, 3000-115 Coimbra. e-mail: valedias@fpce.uc.pt

 

Recebido em 06 de Outubro de 2017/ Aceite em 31 de Dezembro de 2017

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