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Psicologia, Saúde & Doenças

versão impressa ISSN 1645-0086

Psic., Saúde & Doenças vol.17 no.2 Lisboa set. 2016

http://dx.doi.org/10.15309/16psd170206 

Repetição da “gravidez na adolescência” e o planejamento familiar

The repetition of “teenage pregnancy” and the family planning

 

Ana Luiza Rodrigues Inácio1 & Emerson Fernando Rasera2

1Universidade Federal de Uberlândia. Instituto de Psicologia. Programa de Pós-graduação em Psicologia.;

2Universidade Federal de Uberlândia. Instituto de Psicologia. Programa de Pós-graduação em Psicologia. Uberlândia– MG, Brasil

 

Endereço para Correspondência

 

RESUMO

Este estudo teve como objetivo compreender os sentidos produzidos nas relações familiares frente à repetição da “gravidez na adolescência” e o planejamento familiar.

A análise baseou-se numa perspectiva qualitativa, de cunho construcionista social, realizada a partir de seis entrevistas individuais, semi-estruturadas, referentes a três núcleos familiares de jovens de camadas populares que vivenciaram a repetição da “gravidez na adolescência”.

A experiência da repetição da “gravidez na adolescência” pode ser significada como oportunidade de conquista de papéis sociais e a construção de um projeto de vida. O planejamento familiar envolveu tanto a decisão pela gravidez, como o uso de métodos contraceptivos, ou a presença de dificuldade para o seu uso e/ou acesso.

Os resultados reafirmam a necessidade de reflexão crítica acerca da repetição da “gravidez na adolescência” e do planejamento familiar. Defende-se a importância de contextualizar a gravidez entre os jovens, para que eles não sejam culpabilizados individualmente como irresponsáveis e inconsequentes, mas que se questione porque outros projetos de vida não são tornados possíveis para essa população.

Palavras-chave: Gravidez na Adolescência; Planejamento Familiar; Família.

 

ABSTRACT

This study aimed to understand the meanings produced in family relationships against the repetition of "teenage pregnancy" and family planning.

The analysis was based on a qualitative perspective, social constructionist, with conducting six individual interviews, semi -structured, referring to three households from lower classes young people who have experienced a repeat of "teenage pregnancy".

The experience of repetition of "teen pregnancy" may be meant as winning opportunity of social roles and the construction of a life project. Family planning involved both the decision by pregnancy, such as the use of contraceptives, or the presence of difficulty for their use and / or access.

The results reaffirm the need for critical reflection on the repetition of "teenage pregnancy" and family planning. It is argued the importance of contextualizing pregnancy among young people, so that they are not individually blamed as irresponsible and reckless, but that question because other life plans are not made possible for this population.

Key words: Pregnancy in Adolescence; Family Planning (Public Health); Family

 

Trazemos à luz para discussão no presente artigo a temática da sexualidade juvenil, ainda muito vista socialmente como assunto polêmico, ora limitando a prática de determinados atos, ora evitando-se falar sobre os mesmos. Dada a importância e complexidade do tema, é necessário investigá-lo de forma crítica, tendo a “gravidez na adolescência” e sua repetição como dentre as experiências juvenis, a que mais tem sido marcada por uma desqualificação.

A significação da gravidez está fortemente vinculada a fatores sócio-culturais, que determinarão diretamente a maneira como a jovem vivenciará a maternidade (Barreto, Gomes, Oliveira, Marques & Peres, 2011), porém alguns levantamentos epidemiológicos, bem como certa análise das repercussões de uma “gravidez na adolescência” e sua repetição contribuem para a sua construção como um “problema social” (Brandão & Heilborn, 2006).

A repetição da gravidez durante a juventude tornou-se um novo campo de investigação. Rosa, Reis, Tanaka (2007) em um estudo de revisão bibliográfica de publicações no período de 1980 a 2005, destacaram a localização de uma pequena produção científica acerca do assunto. Consta-se ainda, que há poucos trabalhos que exploram o tema de maneira específica e consistente, sendo que quando presente se encontra de forma dispersa e citada superficialmente em estudos sobre “gravidez na adolescência” (Rosa, 2007).

Em relação aos dados demográficos sobre a repetição da “gravidez na adolescência”, Bruno, Feitosa, Silveira, Morais, Bezerra (2009) analisando a incidência de uma nova gestação após cinco anos do primeiro parto com jovens grávidas atendidas em uma maternidade-escola de Fortaleza, constataram que 61% das entrevistadas engravidaram novamente nesse período. Destas, 40% tiveram mais de uma gravidez no período de estudo.

Quanto à descrição do perfil dessas jovens, pode-se afirmar a existência multifatorial de causas do evento, dentre esses fatores relacionados à iniciação sexual, renda familiar, escolaridade e outros (Persona, Shimo & Tarallo, 2004). Nesses casos, aponta-se o surgimento de possíveis problemas (pequeno intervalo entre os partos, baixo peso do recém-nascido) (Godinho, Schelp, Parada & Bertoncello, 2000), bem como a idéia de que quanto mais jovem a menina vivenciar a primeira gravidez, maior a possibilidade de multigestações ainda durante a juventude (Sabroza, Leal, Gama & Costa, 2004).

Indo por outro caminho, entende-se que a “gravidez na adolescência” e sua repetição muitas vezes fazem parte do projeto de vida das jovens, principalmente nas classes trabalhadoras, onde as oportunidades de qualificação profissional e consequente ascensão podem apresentar-se de formas mais remotas e a maternidade ainda é muito valorizada (Magalhães, 2007). Neste contexto, destaca-se o fato do quanto tomar a idade da mãe como fator isolado para análise de indicadores de saúde pode implicar em uma visão reducionista do fenômeno, que desconsidera as diversidades sociais e as múltiplas implicações que o evento causa sobre as trajetórias das jovens e suas redes familiares (Pantoja, 2003).

Políticas intersetoriais e integradas especialmente para jovens mães e pais e para aqueles em situação de vulnerabilidade social poderiam ser utilizados como instrumentos de suma importância para habilitar essas pessoas ao exercício dos direitos reprodutivos (Silva, Rozenberg, Bonan, Chuva, Costa & Gomes, 2011). Somos convidados a observar por outros aspectos tal fenômeno, que consigam ultrapassar a inflexibilidade de estereótipos como “indesejada”, “precoce” e “não-planejada”, e que dará vozes aos atores sociais, permitindo o reconhecimento da heterogeneidade do evento (Matta, 2008).

Assim, o presente estudo teve como objetivo compreender os sentidos produzidos nas relações familiares frente à repetição da “gravidez na adolescência” e o planejamento familiar.

 

MÉTODO

Participantes

Fizeram parte do estudo três núcleos familiares, sendo realizadas seis entrevistas. Todas as famílias eram cadastradas e recebiam atendimento em uma Unidade de Atenção Primária à Saúde da Família (UAPSF) de uma cidade de médio porte de Minas Gerais (MG). A partir de uma pesquisa prévia acerca dos possíveis participantes com ajuda da Equipe de Saúde da unidade, chegou-se aos nomes dos mesmos. A primeira família é representada por Paulina e Daniel, pais de Carlos e Lizete, e Piedade, mãe de Paulina. A segunda família consiste em Helena e Renê, pais de Cirilo, Maria Joaquina e Laura. E por fim, temos Maria, mãe de Fernando e Tita, e Alice, mãe de Maria. Desta forma foram entrevistados: Paulina, Daniel, Piedade (família 1), Helena (família 2) e Maria e Alice. Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos indivíduos (família 3).

Procedimento

 Após o convite e o consentimento dos sujeitos em fazerem parte do estudo, promoveu-se o agendamento de datas e horários para a realização das entrevistas. As entrevistas foram realizadas na residência dos participantes de acordo com a disponibilidade de cada um, registradas em áudio e posteriormente transcritas na íntegra. As entrevistas possuíam um caráter semi-estruturado, baseada em questões que objetivavam uma melhor compreensão do processo de produção de sentidos dentro do contexto familiar acerca da experiência de duas ou mais gestações durante a juventude. Após a transcrição integral das entrevistas, realizou-se leitura exaustiva do material visando identificar os sentidos produzidos e a reflexão-crítica acerca desses com base na literatura da área.

O estudo obedeceu às normas regulamentadoras da Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, com o devido preenchimento e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE pelos participantes, caso concordassem conceder a entrevista. O projeto de pesquisa foi submetido a uma avaliação pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da universidade onde se realizou a pesquisa, obtendo o parecer positivo.

A análise do corpus baseou-se numa perspectiva qualitativa de cunho construcionista social (Gergen, 1985; Minayo & Sanches, 1993; Spink, 2010) Desta forma, os passos da análise consistiram de: (a) transcrição das entrevistas realizadas; (b) leitura curiosa e reflexiva; (c) construção de categorias a partir das interpretações produzidas; (d) análise interpretativa buscando compreender os posicionamentos assumidos e a produção de sentidos.

O exercício de análise e interpretação das entrevistas transcritas possibilitou a construção de categorias temáticas, sendo que dentre tais destacamos, neste momento, o tema Repetição da gravidez e planejamento familiar, com o objetivo de estimular uma reflexão sobre os contextos de determinados exercícios no campo da sexualidade.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A temática da Repetição da gravidez e planejamento familiar traz como destaque reflexões sobre as divergentes significações acerca de gestações seguintes entre jovens, inclusive sua naturalização, bem como a questão do “planejamento familiar”, pensando-se o uso de métodos contraceptivos ou mesmo a possibilidade de aborto.

Quanto às significações produzidas pelas jovens e seus familiares relativas à maternidade/paternidade quando essa se repete temos um cenário representado através de uma perspectiva do inesperado, do “não-programado”, ou como dizem os familiares de Paulina:

(...) ela veio sem nós querermos. (Daniel)

 (...)que o Carlos foi programado, já a Lizete não, a Lizete veio de enxerida. (Piedade)

Entretanto, apesar de num primeiro momento significarem as gestações seguintes a partir de uma perspectiva do imprevisto, o que se evidencia nas falas dos participantes é a naturalização da chegada da segunda criança, ilustrada pela expressão social “quem cria um, cria dois” e pela idealização de um casal de filhos:

Aí ela já achou bom que foi já um casalzinho sabe, agora ficou um homenzinho e uma mulher. (Alicia)

(...) que já queria um casal. (Piedade)

O fato da experiência da maternidade por jovens compreender-se como algo naturalizado ou mesmo desejado associa-se a valores e projetos de vida que são diferenciados em estratos socioculturais distintos (Patias, Gabriel, Weber & Dias, 2011). Discutimos, então, a naturalização da forma como as maternidades foram se sucedendo nas vidas das jovens mães, sendo que a criação de um ou mais filhos não parece romper ordem alguma, pelo contrário, surge como um grupo familiar típico pai-mãe-filhos (Rosa, 2007).

Ao mesmo tempo, apesar da gravidez muitas vezes ser defendida como oportunidade de amadurecimento e da conquista de novos papéis em comunidade, devemos questionar por que outros contextos não são apontados também como condições para essas conquistas. Seria, então, a maternidade/paternidade uma das poucas oportunidades, se não a única, diante de determinada condição social, destacando a necessidade de políticas públicas que auxiliassem para que outros contextos começassem a ser vislumbrados e possíveis de se conquistar? Entendendo-se essa significação múltipla que a experiência da gravidez quando jovem pode ganhar de acordo com aspectos culturais e sociais, amplia-se a compreensão do que seria o “planejamento familiar”, e de como esse poderia estar presente na realidade dos jovens entrevistados.

A respeito do uso de métodos contraceptivos antes da primeira gravidez, temos três cenários distintos: o uso e sua interrupção visando à maternidade (Paulina); o não uso justificado pela dificuldade de acesso; e o não uso justificado pelo entendimento de que haveria algum problema físico que impossibilitava a ocorrência da gestação.

Ainda é bastante corrente o conceito de que a experiência de uma gravidez quando jovem é resultante da falta de informação sobre métodos contraceptivos, tanto na literatura quanto no senso comum (Cabral, 2003). Contudo, estudos que buscavam identificar perfis de jovens que vivenciaram a repetição da gravidez produziram diferentes levantamentos referentes à anticoncepção, principalmente no período entre a última e penúltima gestação. Santos, Silva, Petenão, Soster, Berard & Silva (2009) apontaram que todas as entrevistadas em seu estudo relataram ter conhecimento sobre anticoncepcional oral e preservativo masculino, bem como Brandão & Heilborn (2006) que afirmam que os jovens investigados atestaram sem exceção o conhecimento acerca dos métodos contraceptivos.

Bajos, Ferrand & Hassoun (2002, citados por Brandão & Heilborn, 2006) afirmam que a adesão abrange uma diversidade de aspectos, desde questões de gênero, a significação social da sexualidade, a relevância do método a partir do contexto da vida afetivo sexual feminino, o “desejo de ter filhos”, que consequentemente, produzem tanto a adesão ao uso, como o uso inadequado. Reconhecemos o acesso ao contraceptivo como parte importante pensando-se o planejamento familiar, porém não é a única a se considerar (Rosa, 2007).

Já no período entre a primeira e a segunda gestação, e entre essa e a terceira, as três jovens participantes declararam fazer uso de algum tipo de contraceptivo:

(...) eu tomava remédio, os primeiros quatro meses eu tava tomando micronor, aí depois eu passei pro microvlar, mas aí não adiantou muito não ((risos)). (Paulina)

(...) eu usei, até porque cada um é três anos de diferença né. (Helena)

(...) agora da Tita eu engravidei numa troca de injeção. (Maria)

Rosa (2007) objetivando a caracterização e análise dos contextos reprodutivos, individuais e socioeconômicos de jovens que vivenciaram a repetição da gravidez, mostrou que mais de 80% dessas declararam fazer uso de algum método contraceptivo entre as gestações, igualmente encontrado por Persona, Shimo & Tarallo (2004), onde apenas 11,11% das jovens disseram não utilizar nenhum tipo de contraceptivo nessas etapas.

A presença desses métodos contraceptivos indica não somente que as jovens possuíam o conhecimento acerca desses, mas também a conscientização e decisão pelo seu uso. Ou seja, quando a gravidez se repete, essa ocorre em um contexto de planejamento, com a presença de atitudes que visavam à anticoncepção, daí a surpresa por algo que se evitava, mas que mesmo assim aconteceu. Nessas circunstâncias, vislumbra-se, a partir do ponto de vista dos jovens, um outro olhar para a questão do planejamento das gravidezes, sendo que não se pode afirmar, portanto, que não há planejamento, uma vez que, o discurso da não adesão ao mesmo e aos contraceptivos é exterior às jovens (Rosa, 2007).

Além da discussão sobre o uso de métodos contraceptivos, outro assunto que pareceu relevante é a possibilidade de aborto. Duas jovens participantes afirmaram ter refletido acerca da questão, porém em momentos distintos, em relação a primeira e a segunda gestação, respectivamente:

(...) porque eh, o primeiro é sempre o impacto né (...) eu falei assim não quero filho não muito nova, teve uma rejeição muito grande sabe contra o primeiro filho (...). Tomei sim, mas não deu sabe, não abortei.(Helena)

Ai da Tita foi ai meu Deus eu não queria não, não queria mesmo, só que aí como que é depois que você..., como que você fala não, como que eu tiro essa criança né, então minha coragem não dava pra essa, falei agora quem cuida de um tem que cuidar de dois. (Maria)

A possibilidade de provocar um aborto mostrou-se como uma opção diante da notícia da gravidez. Tal como o uso de métodos contraceptivos aparece como forma de planejamento familiar, o aborto traduz uma reflexão acerca da constituição dos papéis de mãe e pai permeada por valores socioculturais que tornariam tal prática aspecto digno de se considerar. E por último, quanto à esterilização cirúrgica, reconhecemos mais uma vez a presença do planejamento familiar ao se tratar do campo da decisão por não ter mais filhos e a realização do procedimento. A maternidade deixa de ser uma consequência “natural” da vida heterossexual ativa para ser uma escolha da mulher ou do casal (Moreira & Nardi, 2009).

Bajos, Ferrand & Hassoun (2002, citados por Brandão & Heilborn, 2006) discutem os aspectos que arquitetam a chamada “norma contraceptiva” vigente nas sociedades ocidentais modernas. O surgimento da contracepção médica (pílula, DIU), a possibilidade de aborto, a medicalização da sexualidade e da reprodução propagaram um conjunto de prescrições às mulheres que sugerem determinado comportamento reprodutivo. Todavia, o cumprimento dessas normas pelas mulheres enfrenta também os constrangimentos provenientes da permanência da hierarquia de gênero. Desta forma, se o exercício da sexualidade e a decisão reprodutiva podem ser compartilhados por homens e mulheres, o controle da contracepção continua a ser incumbência feminina ainda bastante submetida às negociações com o parceiro. Uma gravidez não prevista revela as dificuldades que as mulheres enfrentam para acatar totalmente os constrangimentos impostos pela norma contraceptiva.

Neste caso, ao aprofundarmos nas negociações referentes à sexualidade, percebemos, então, que a questão da responsabilidade ou controle quanto aos métodos contraceptivos ainda é algo da mulher, sem a colaboração do parceiro ou participação mútua do casal como podemos perceber pela fala de Helena:

(...)usar remédio, medicamento, isso pra mim foi uma dificuldade, então lembrar no momento era tanta correria (...) foi falta minha também de prestar atenção mais né.

Daniel, por sua vez, afirma acreditar que Paulina fazia o uso correto da medicação, porém, ao ser questionado do por que dela ter engravidado, esse responde:

Não, eu acho que tomava porque eu não tava aqui.

Ainda que não contemos com as entrevistas do companheiro de Helena e do ex de Maria, nota-se que os mesmos não são mencionados quando questionadas sobre contracepção, colaborando com a noção de individualidade e responsabilização da mulher frente a determinados aspectos de sua sexualidade.

Quando abrangemos a discussão para outros familiares, constatamos que as avós asseguram que sempre conversaram com seus filhos sobre o assunto:

(...) falava que, as coisas, explicava tudo e mostrava o mundo ta aí né. (Piedade)

Contudo, as falas das jovens evidenciam a inexistência do reconhecimento de diálogos sobre sexualidade:

Conversava com ninguém não, sabe (+) assim eu sabia né que tinha que prevenir e isso e aquilo. (Paulina)

(...) nunca tive ninguém pra me aconselhar né, só o meu pensamento mesmo que eu pensava em poder prevenir. (Helena)

Não, nunca fui de conversar com ninguém, com a minha mãe, nunca fui de ter assim diálogo, essas coisas. (Maria)

Desta forma, nota-se que há uma grande distância entre o que a família entende como processo de negociação e diálogo referente à temática e como os jovens contam essa relação. A significação da família no contexto da sexualidade juvenil mantem-se muito associada a de fonte de apoio, estando sua participação nas negociações e decisões em um plano secundário, reflexos de uma cultura na qual a discussão sobre sexualidade ainda representa um tabu, principalmente entre pais e filhos.

Quanto à esterilização cirúrgica, Paulina e Daniel expressam a existência de uma negociação para a realização do procedimento, no caso, a cirurgia de vasectomia:

Por causa dos meninos, por ser mais rápido e eu poder mudar a rotina que nós tínhamos ou ela fazer e ficar quarenta dias lá sem poder fazer nada. (Daniel)

Já Helena foi quem realizou a cirurgia de laqueadura:

(...) a “Nome da enfermeira” me ajudou muito sabe, nossa foi muito bom, corri atrás sozinha que o marido não ajudava correr atrás de papel. (Helena)

E assim, nos deparamos com diversas situações que nos contam como as negociações no âmbito da sexualidade se dão, ora de forma atreladas às normas de gênero vigente, ora numa tentativa de redesenhar essas realidades, com as negociações ocorrendo de forma mais dinâmica e democrática, principalmente para o casal. Porém, questões quanto ao controle sobre a contracepção parecem permanecer ainda no âmbito do feminino, como se fossem responsabilidades somente da mulher, ou, quando há uma participação do companheiro e familiares, essa ainda não ocorre de maneira plena. Assim, o planejamento da gravidez apresenta-se como conceito complexo que considera não apenas fatores pertinentes ao desejo e à intenção, mas também contextos e circunstâncias, além do comportamento contraceptivo em si (Borges, Cavalhieri, Hoga, Fujimori & Barbosa, 2011).

 

CONCLUSÃO

A análise e reflexão das significações que jovens e familiares de camadas populares produzem acerca de suas realidades frente às gestações vividas, fazem surgir a seguinte questão: a “gravidez na adolescência” e sua repetição podem ser apontadas como um problema a priori? Para o atual estudo, acredita-se que não. Não se deve compreender a repetição da gravidez quando jovem como problema a priori por reconhecer a possibilidade de significação do evento oposta a essa ideia de infortúnio, ou seja, como oportunidade de mudança, como projeto, dentre vários outros. Não se nega as dificuldades ou transformações pela chegada de uma criança, mas os motivos que levaram a esse evento e como se vivencia tal momento vão além de condições limitantes, biológicas ou psicológicas, o que significa, então, identificar as condições sócio-históricas que levaram a “gravidez na adolescência” a ser reconhecida como um problema e sua significação na atualidade. E, assim, não podemos esquecer de nos questionar quem ganha e quem perde ao afirmarmos a “gravidez na adolescência” e sua repetição como problema. Apesar de não haver uma significação única, acredita-se que o jovem é quem mais perde quando o desqualificamos, quando o consideramos um problema, sem ponderar sobre quais as condições de vida que o levam a ter a gravidez como principal projeto.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 14 de Outubro de 2015/ Aceite em 09 de Junho de 2016

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